Que chuva é essa? Esqueci esses óculos, ah, minha mãe vai me dar a maior bronca. Sim, ela sempre me dá essa bronca, mesmo com essa minha idade nada infantil. Eu sei, isso é coisa infantil e irresponsável esquecer os óculos para dirigir, ainda mais sendo míope, mas está tudo sob controle, eu juro, juro, mas Deus por favor, me proteja e me faça chegar logo. Podia ao menos ter um posto por aqui, um posto e paro.

Ah, quero chorar, mas se chorar a vista embaça mais. Vista embaçada só gosto quando tomo vinho. Sim, vinho com você, isso sim é uma delícia. Mas vinho e depois dirigir não. Vinho, dirigir sem óculos e com chuva, nunca. Hoje, só a chuva e sem óculos, isso aqui ta perigoso. Meu Deus, não me deixa na mão. Eu sei que você sempre olha com carinho para mim, sei que me da esses sustos, esses “presta atenção”, mas sei que me olha com doçura que cuida bem de mim. É,  sei que somos parceiros, somos amigos.

Desligo a música, não consigo dirigir com música e chuva, ainda mais essa chuva. E você onde está agora? Se eu te contar que to nessa fria, vai brigar comigo, mais bronca não. Não quero bronca, quero outra coisa.

Talvez isso seja a liberdade do caminho? Só eu para pensar nisso agora, me lembrei de uma outra estrada, me lembrei de um outro óculos que tinha, aros pretos e eu com cara de professora, cara de inteligente, servia bem para algumas reuniões que eu queria me esconder atrás daqueles óculos para aquele chato do Luizão não me incomodar com suas cantadas baratas, como era chato aquele cara. Mas onde estará Luizão? Só rindo pra eu pensar nisso, Deus me livre sempre do Luizão, o sem noção, aquele que só olhava para meus peitos em todas as reuniões. Cada vez eu aparecia mais feia e me escondia nessas reuniões, literalmente me enfeiava. Isso não é liberdade do caminho? Graças a Deus ele foi mandado embora e mudou para bem longe, ufa. É Deus, por essas e por outras sei que somos parceiros.

Agora a chuva, chove, chega, chove, chega. Preciso mesmo achar meus óculos e essa meu Deus, fica só entre eu e você.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

 

 

 

 

Choveu um rio neste dia de janeiro
Quando acontece dois mil e dezessete
novo ano se inaugura em páginas incompreensíveis
onde nada se explica nada é suficientemente
convincente

Só a certeza de que este país me assombra
Com suas pessoas assustadoras
Que mentem e mentem sinceramente

Eu prometi amar quem me ama
Viver o que a vida me traz de bom
Se mereci o privilégio de estar aqui
Sabendo o que me agrada e
O que me ilude
Se mereço o privilégio de estar ao lado
De um amigo da juventude

A certeza de que este país me assombra
Com suas pessoas assustadoras
Não me tornará doente

A camisa azul deste dia agora sem chuva
Veste minha alma com uma nuvem veloz
e me faz feliz

Eduardo Lapinha – Belo Urbano, poeta, letrista, Agente Fiscal de Rendas e ex-geologo é um aquariano com ascendente em Peixes que já sonhou muito. Hoje, fala menos, ouve mais e tem na literatura seu paraíso artificial.

Abraço envolve

Amasso bagunça

Abraço é sempre bom

Amasso depende

 

Abraço ganho

Amasso atordoa

Abraço dou

Amasso e passo (a roupa)

 

Abraço meu amor

Amasso com amor

Abraço com braços

Amasso com o corpo todo

 

Abraço é apertado

Amasso é aguardado

Abraço sempre acolhe

Amasso desarruma

 

Abraço conforta

Amasso confunde

Abraço responde

Amasso estremesse

Abraço ou amasso?

 

Abraço e amasso VOCÊ.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos www.3bis.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

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Alberto era um homem alto, magro e beirava os quarenta e tantos anos. Quarenta e tantos porque já havia passado dos quarenta e cinco, como ele mesmo disse numa festa de fim de ano do banco. Era um homem discreto, de poucas palavras e vida social praticamente inexistente. Seu contato com o mundo exterior quase que se resumia ao trajeto que fazia diariamente de casa para o banco e do banco pra casa. Tarefa que ele exercia com a obstinação de um monge e um olhar perdido de felicidade que pairava entre as seis estações que separavam seus dois grandes amores. Marieta, com quem era casado há 25 anos e o banco, com quem era casado há 21 anos. Alberto nunca reclamava de nada, a não ser da dificuldade de achar sapato número 46. Ele era muito alto e tinha um pé enorme. Fato que o incomodava muito e que talvez tenha moldado a sua personalidade discreta, quase invisível. Um homem de quase dois metros de altura e feio assim chama a atenção demais. Nesse caso o melhor a fazer é ficar calado para não aumentar o estardalhaço da minha presença. Foi exatamente isso que ele me respondeu um dia que perguntei a ele porque ele era tão quieto. Mas havia algo mais do que isso. Parecia que ele carregava um peso maior. Tudo bem, o sujeito pode ter vergonha da altura, da feiúra, mas nenhum sorriso é tão triste à toa. E isso eu era testemunha. Nunca vi alegria em seu olhar. Decidi investigar. Coloquei em prática o curso de detetive a distância que havia feito. Primeira lição: siga o investigado com descrição. Foi isso que fiz. Todos os dias, às seis da tarde, ele saía do banco e eu ia atrás. Descia a ladeira Porto Geral e entrava na estação São Bento. Pegava o trem no sentido do Tucuruvi e eu atrás, discretíssimo. Descia na estação Santana e caminhava até a sua casa. Entrava, fechava a porta e a partir daquele momento era uma incógnita. Por vezes eu fiquei até tarde esperando gritos, briga, tiros ou que fosse. E nada. Nada acontecia. Não é possível, eu pensava. Tem alguma coisa errada nisso. Como pode um sujeito que teoricamente tem um bom casamento, um bom emprego, uma vida pacata, ter tanta tristeza estampada no rosto? Não era cabível que fosse só por causa da sua altura e de sua suposta feiúra. Mas eu estava longe de desistir. Cada dia que passava minha curiosidade aumentava mais e mais. Agora já era questão de honra. Iria, custe o que custar, descobrir o que se passava com Alberto. Comecei convidá-lo pra almoçar todos os dias. Quem sabe a intimidade o faria revelar algum segredo. Nada. Absolutamente nada. Ele falava da Marieta, do trabalho e até de futebol, sempre com comedimento. Mas revelações? Nenhuma. Ele era impenetrável. Mas um dia minha busca teve um lampejo de luz no fim do túnel. Num dos nossos almoços, ele estava sentado de costas pra rua. Tudo transcorria normalmente, como todos os dias, até que um sujeito desconhecido passou pela porta do restaurante e ao ver um amigo, entrou e logo disse: Rapaz, quase morri hoje. Um carro quase passou em cima de mim. Se eu tivesse meio metro pro lado, tinha sido atropelado. Naquele instante, querendo romper o silêncio habitual, surgiu a primeira grande pista. O rosto de Alberto ruborizou e seus olhos encheram-se de uma tristeza ímpar. Algo naquelas palavras aparentemente sem importância, pelo menos pra ele, o colocava em contato com alguma coisa amarga. Era como se tivesse trazido à tona alguma lembrança do passado. Tive o ímpeto de perguntar, mas achei melhor me conter. Alberto estava num momento sublime. Sem dizer nenhuma palavra, levantou-se e saiu desnorteado pela Rua Boa Vista de volta ao banco. Daquele momento até o final do expediente, o silêncio de Alberto chegava a arrepiar. A hora não passava. Estava ansioso demais em segui-lo. Seria o grande momento. Me enchi de expectativas e fantasias. As seis em ponto tomei meu rumo atrás dele. O que será que havia naquela frase? O que seria motivo suficiente pra tanta tristeza? Pra detonar o ar sombrio daquela tarde? As palavras seriam a chave pra o que eu tanto procurava? Eu estava zonzo. Quanto mais eu tentava juntar os cacos mínimos, menos fazia sentido aquilo. Eu já não sabia se fazia sentido eu querer achar sentido naquilo tudo. Mas era tarde. Estava envolvido e queria ir até o fim. Fiz o meu trajeto discreto como todos os dias. Quando cheguei a casa dele resolvi ir adiante. Depois que ele entrou, pulei o muro em silêncio. Fui até a janela e sem pestanejar estiquei o pescoço e olhei pro lado de dentro. Mais do que ver, senti. Mais do que sorrir pela descoberta, chorei. Mais do que ficar extasiado, fiquei estarrecido. Pela janela, contemplei um homem de quase dois metros de altura, sentado no degrau da escada, chorando copiosamente e conversando com uma foto em um porta-retrato. As palavras escorriam quentes pelos meus ouvidos. Marieta  – dizia ele -, que vida poderíamos ter tido. Jantares românticos, passeios no fim da tarde no jardim da luz, noites de amor. Cinema, teatro, filhos. Juntos, não fazer nada, sentados no banquinho do quintal a escolher estrelas e dar a cada uma o nome de um sonho. Sonhos não realizados, sonhos vãos, sonhos com cheiro de morte. Naquele dia faríamos um ano de casados. Era um domingo abafado de calor. Saímos de mãos dadas, distraídos pelo amor e pelo picolé, que de tanto calor, derretia e escorria por entre os dedos. Lembro-me como se fosse hoje. Você com um sorriso de menina, lambendo os dedos sem querer desperdiçar nada. Você adorava picolé de chocolate. Eu de abacaxi. Caminhávamos ao local do nosso primeiro beijo. Ao passar ao lado das obras da nova estação do metrô, vi uma árvore. Uma sobrevivente da natureza perdida naquele emaranhado de concreto a se enraizar sob nós. Afastei-me de você por um instante e fui buscar aquela flor perdida num galho mais alto. Quando virei, vi o chão sumir sob seus pés. Um acidente, foi o que disseram. Junto com você, mais três pessoas foram engolidas pela cratera que se abriu. Atônito e agarrado a árvore, vi o mundo desabar sobre a minha cabeça. Chorei, desesperei. Quis morrer. Todos os dias me lamento. Poderia ter ido com você escolher de perto as estrelas. Meio metro. Foi a distância que nos separou. E eu só queria te dar uma flor. Desejo todos os dias te encontrar de novo. Há mais de 20 anos anseio por alguma tragédia. Não tenho coragem de me suicidar. Mas hoje, especialmente hoje, tudo me veio a mente de um jeito arrebatador. Como eu queria ser aquele desconhecido, como eu queria estar a meio metro dele na frente daquele carro. Como eu queria uma vez mais ouvir tua voz. – Por um instante Alberto calou-se. Apenas chorou. E eu com a garganta seca, quase sem respirar, fiquei paralisado. Aquele era o motivo da sua tristeza. Uma tristeza que ele alimentava diariamente durante anos. Para todos do banco, Alberto era muito bem casado. Sim, era muito bem casado com suas lembranças e uma vida inteira de tristeza. Esse era o ponto. Esse era o segredo. De repente Alberto levantou-se, enxugou as lágrimas, colocou o porta retrato em cima do piano e saiu. Mais que depressa o segui. Ele foi até a estação e entrou no trem como se estivesse indo ao banco. Ele passou pela estação São Bento e não desceu. Eu resolvi descer na Sé e ele se foi. Tomei o trem sentido Paraíso. Era quase meia noite. No silêncio do vagão quase vazio em enchia de pensamentos contraditórios. Estava satisfeito com a descoberta, mas tinha um nó na garganta difícil de desatar. Tentei imaginar pra onde teria ido Alberto aquela hora. Não importa. Fosse onde fosse ele tinha suas razões. Tinha o direito de estar só. De ir ao encontro de Marieta se assim o quisesse. Ao chegar em casa, desmaiei de sono e cansaço.

No dia seguinte, Alberto não foi trabalhar.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

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Se tem

Flores

Calor

Frescor

TEM

Amor

Comida

Casa

Se tem

Brincadeira

Beleza

Leveza

TEM

Setembro

Se tem, nós temos.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

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Gosto de doce

brigadeiro,

beijinho,

pudim

e

pessoas

 

Deliciosamente DOCE

DO

CE.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :) .

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concreto   reto    discreto

desperto               esperto

incerto                concreto

discreto              dispenso

repenso    concreto   feto

fita lida corrida concreto

credo       crente      rende

dente   doente    concreto

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assistente               atende

acende   concreto   concre

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

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Capítulo 1 – ROSANA

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Era uma noite fria…
Eu estava completamente só. Pelo vidro embaçado via tudo branquinho. Eu gosto de neve. Os pedacinhos caindo lenta e levemente, forrando o chão, clareando a paisagem. Não cai como lágrima, chuva ou confete colorido. Cai como neve. Silenciosa, branca, branca, branca.

Gostando ou não, está cedo demais para estender esse carpete de luz fria, é estranho ver tanta neve em Nova York no início de novembro. Também não existe nenhuma razão para eu não conseguir dormir, o Furacão Sandy já está bem longe, a temperatura aqui dentro marca perto de 26o Celsius e me sinto cansada, o que na teoria facilitaria o sono.
Reli a imensa lista de presentes de Natal que ainda tenho que comprar, são mais de vinte. Este ano vou ficar aqui e receber minha irmã e meu sobrinho mais velho. O Eduardo é meu grande amor, um menino reservado, diferente, uma fera com programas de computador. No dia de Natal ele vai fazer 18 anos e diz que virá morar comigo. Eu e a Roberta gostamos da ideia, mas vamos esperar para ver como vai ser em relação ao Doutor Klaus, o pai com quem ele mora desde pequeno.
‘Quase quatro e meia da manhã e eu aqui fazendo chazinho’ pensei enquanto me servia de um chá japonês chamado ‘Camellia Sinensis’, presente da Kristin. Nós saímos juntas algumas vezes nos últimos dois ou três meses, mas sabemos que não temos e nem teremos um relacionamento. Ela de fato é uma mulher interessante, eu é que não consigo passar da primeira pele, sou sempre muito superficial. Meu único mérito é reconhecer isso.
Peguei a xícara, o maço de cigarros e escolhi ouvir aleatoriamente o álbum de clássicos para ver se relaxava. A música sorteada não poderia ser mais linda ou triste, era a ‘Suite número 3 de Bach’.
Em uma explosão de TOC, alinhei em fila os meus quatro livros publicados com ensaios fotográficos e arrumei a Yashica FX-3/50mm que foi a primeira máquina da minha vida, eles ficam em cima de um baú de madeira maciça lotado de passado. Também endireitei a moldura vertical pendurada entre as janelas da sala com dez ‘selfies’ mal tiradas. Com as pernas empurrei o
divã de retalhos coloridos para perto de uma das janelas, acendi um cigarro e deitei confortavelmente olhando a neve cair, esperando o sono chegar.

Depois de quase vinte anos em Nova York eu posso me considerar uma pessoa realizada profissionalmente, estudei nos melhores institutos, ganhei dinheiro, fiz alguns trabalhos bárbaros, outros medíocres. Fotografei as modelos mais bem pagas, lindas e chatas do mundo até chegar aqui.
Meu único luxo é o apartamento onde moro no Soho. Amplo, tem o pé direito alto com quatro imensas janelas de vidro que vão do chão ao teto deixando à mostra as escadas de ferro externas. No andar de baixo fica o ‘Estúdio CaVVeg’ que divido com Alejandro Vega, fotógrafo espanhol que faz grande sucesso com ensaios de corpos nus.
Há mais ou menos dez anos ele chegou aos Estados Unidos com um visto de estudante. Bateu na porta do meu antigo estúdio em um dia de muita chuva dizendo que era meu fã.
– Você quer o que?
– Quero fotografar como você.
– Você quer me fotografar?
– Não! Quero aprender! – gritou tremendo de frio, com os olhos cheios de água da chuva e de choro. Tinha vinte aninhos o moleque.
Trazia na bolsa uma fotografia premiada num importantíssimo concurso internacional em Los Angeles no início dos anos 2000, era uma foto em preto e branco parte de um ensaio homoerótico que fiz para uma revista francesa. Um case consagrado em diversos países que ganhou destaque também na imprensa brasileira por meio de uma revista paulista que fez um encarte bárbaro e de certa forma apresentou o meu trabalho ao Brasil.
Naquele dia o Alejandro entrou no ateliê e nunca mais saiu da minha vida. Além de me auxiliar nas fotos, arrumou bicos em uma produtora de vídeos e aos domingos passou a utilizar o estúdio para fazer os seus sonhados ensaios nus.
Eu demorei a me acostumar com aquele entra e sai de gente pelada, mas ele mostrou que estava no caminho certo e o seu trabalho chamou a atenção ganhando prêmios de menor expressão. Fechou bons contratos, passou a andar com as próprias pernas e três anos depois de bater na minha porta não dependia mais de mim. Virou um grande fotógrafo, meu sócio e melhor amigo.
O engraçado neste ‘mundo redondo’ é que fiz pelo Alejandro exatamente o que um dia fizeram por mim, só que eu cruzei o caminho do polêmico Christopher Miller, fotógrafo nova-iorquino, hoje com quase sessenta anos. Na
época ele era um dos grandes nomes em fotografia de moda, amigo de Oliviero Toscani, participava das polêmicas campanhas da Benetton.
Encontrar o Miller foi como achar uma pérola no oceano. Eu o conheci por acaso pouco tempo depois de chegar em Nova York. Pisei no Aeroporto John F. Kennedy puxando duas malas imensas no dia 1o de janeiro. Saí do Brasil em 1993 e cheguei aos Estados Unidos em 1994 para uma nova vida, a outra tinha ‘acabado de acabar’. Naquele primeiro dia do ano eu vi neve pela primeira vez e a Rosana Nazaré Cavalcante deu lugar a Rose Caval.
O Miller foi meu professor de fotografia na Academia e ofereceu a oportunidade da minha vida. Contava pra todo mundo que tinha me contratado como estagiária por um simples e absurdo motivo: eu era morena e brasileira como a Sônia Braga. Dizia que conheceu sua musa anos antes, mas eu nunca soube se isso era verdade ou não.
Vinte e três anos, naturalmente morena com cabelos cacheados e longos, recém-saída do dourado verão baiano para contrastar com as caras brancas e pálidas do inverno nova-iorquino. Foi essa ‘Dona Flor’ que o Miller enxergou em mim, uma imagem bastante distorcida que acabou virando o meu Greencard.
Eu não desperdicei as chances que tive, andei ao lado do Miller e depois segui em frente, exatamente como aconteceu com o Alejandro. Por sorte, os dois se tornaram minha família.

ii. revés

Acordei no divã toda torta, amanhecia, a chuva batia contra as vidraças com força fazendo um barulho que competia com a música alta. Novamente tocava a ‘Suite número 3 de Bach’, não sei se por coincidência ou a música tinha se repetido sem parar. Eu estava suando, o chão molhado e a xícara de chá com a asa quebrada caída perto da janela. Desliguei o som angustiante lembrando apenas de ter deitado no divã sem sono algum. Olhei para a fileira de fotos penduradas entre as janelas e senti a ‘sombra da Isabel passeando pelo meu pelo’. Eu estava completamente arrepiada.
Recolhi os pedaços da xícara quebrada e fui buscar alguma coisa para limpar o chá japonês que escorria pelo chão da minha sala. Quando abaixei senti uma forte tontura, sentei no divã tentando me manter consciente, mas não sei se consegui. Vi cenas desconexas onde a Roberta chorava, depois sorria enquanto o Eduardo, ainda garotinho, brincava abraçando a mãe, passando por
baixo das suas pernas, rindo. Aí de repente não era a Roberta, era eu e as nossas imagens me confundiam.
Apertei o pano molhado contra o rosto sentindo uma náusea incontrolável. Corri para o banheiro já vomitando e sentei dentro da banheira com a água despencando em cima de mim, nem escutei o celular que tocava sem parar na mesinha da sala. Quando finalmente atendi, vi que o Alejandro ligava pela quinta vez seguida.
– Hello moleque… – falei amorosamente misturando idiomas como sempre fazemos.
– Oi Rose, tudo bem? – perguntou sério, em inglês.
– Mais ou menos, devo ter comido alguma porcaria ontem. O que tá me preocupando é você acordado domingo cedinho – tentei rir, mas não consegui.
– Rose, eu estou chegando ai na sua casa. Tenho um assunto pra falar com você.
– Putz Ale, aconteceu alguma coisa? É de trabalho? – perguntei nervosa.
– Eu estou estacionando o carro, beijo – desligou.

Ouvi as batidas na porta enquanto vestia uma calça branca de capoeira muito velha, as listras coloridas nas laterais já bem desbotadas. O Ale estava todo molhado, pálido e não veio sozinho, o Miller entrou atrás dele. Tiraram os casacos sem olhar para mim, os dois de cabeça baixa. ‘Meu Deus, é grave’ pensei e não esperei mais nem um segundo.
– Alejandro o que aconteceu?
– Rose, eu preciso que você fique calma… – respondeu nervoso.
– O que foi Ale? Fala!
– Você vai ter que ser muito forte.
– Pelo amor de Deus Alejandro, o que tá acontecendo? – perguntei com vontade de chorar.
– Senta Rose – o Miller apertou minha mão com força e me larguei no sofá – Aconteceu um acidente lá no Brasil – começou devagar me olhando de frente.
– Meu pai? Isabel, Edu, Beta? – falei de uma única vez, em um ato falho sem tamanho e fechei os olhos para ouvir a resposta.
– Eduardo.
Meu coração parou. Senti como se estivesse caindo nesses elevadores que projetam queda livre nos parques de diversões, só que eu não parava de cair.
– O que aconteceu Alejandro? O que foi? – perguntei sentindo as lágrimas e o meu corpo despencando cada vez mais rápido.
– O Edu foi atropelado ontem no final da tarde, ele estava em uma estrada quando…
– Atropelado? Ele tá machucado? – sacudi o meu amigo pelo colarinho – Me responde Alejandro! Ele se machucou?
– Rose, foi bem grave… Se acalma! – pediu tentando fazer com que eu largasse sua camisa – Ele atravessou a tal estrada correndo, veio um desses carros grandes, um Jeep em velocidade e…
– Um Jeep? – esfreguei o rosto com as duas mãos e abri a boca tentando pegar ar – Ele está vivo, né? Alejandro pelo amor de Deus, diz que meu sobrinho tá vivo! – implorei com a voz anasalada.
– Não Rose, o acidente foi muito grave. O Eduardo morreu.
Foi como se o elevador onde eu me encontrava despencando se espatifasse no chão em mil pedaços. Soltei um grito gutural e me contorci no sofá sentindo uma dor dilacerante. Não sei quanto tempo fiquei ali sendo velada pelo Alejandro e pelo Miller.
– Meu Edu! – falei baixinho e me sentei – E a Beta? Como é que tá a minha irmã?
– Eu não sei muita coisa, quem ligou pra mim foi o Klaus – contou.
– O Klaus, por que logo ele? – levantei e comecei a andar de um lado para o outro – E o meu pai?
– Eu sei que a sua irmã está a caminho da cidade onde aconteceu o acidente, porém não falamos sobre o seu pai Rose, me desculpe.
– Quando foi o acidente? – perguntei soluçando e tentei acender um cigarro, o que era impossível de tanto que eu tremia.
– Ontem no final da tarde por lá, mais ou menos umas nove da noite – o Alejandro pegou o cigarro da minha mão e devolveu aceso.
– E por que demoraram tanto pra me avisar?
– Eles decidiram não te dar a notícia por telefone e eu também demorei pra atender porque estava em um lugar barulhento e não ouvi o celular – confessou culpado não conseguindo mais segurar o choro – Me desculpe Rose, eu sinto tanto.
Abracei o meu amigo consolando e sendo consolada, enquanto o Miller carinhosamente afagava nossas costas sem conseguir dizer uma única palavra.
Quando entramos no JFK meus olhos estavam ardendo, o Alejandro chorava e apertava a minha mão como quem deseja receber uma transfusão de
dor, o Miller continuava em silêncio. Tentei falar com a Roberta umas dez vezes e nada, a minha cabeça não parava de rodar.

Foto Carla Dias Young

Carla Dias Young – Bela Urbana,  tem 46 anos é jornalista, (tenta ser) escritora e trabalha na empresa ‘Young.comunicação Consultoria em Comunicação e Licenciamento Ambiental’. Nasceu em Santos, mora em Campinas, é casada e tem um cachorro e uma gata, todos vira-latas.

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Foi mal. Sim, foi bem mal. Ela não deveria ter dito aquilo, ele acreditou. Liberdade, era isso que eles queriam, mas a liberdade é um conceito e nem sempre com o mesmo entendimento.

Ela chorava no 15 andar, chorava olhando as luzes da cidade, chorava sem parar, era uma dor tão intensa que doía o corpo, doía a barriga. Precisava de vento, o vento gelado da madrugada. Eram duas da madrugada e o sono nem sinal dava.

Ela se misturava com ela. Ela antes e agora agora. Ela adolescente, ela quarenta e tantos anos. Chorava de raiva da menina que foi e chorava de dó dessa menina, da pureza, da alma branca, das dores que viriam depois por ser tão assim. A vontade era de dar um chacoalhão nela de ontem. A vida a fez sobreviver, mas a endureceu por fora. De perto, a doce menina vivia ali, na dura mulher, o que causava sempre um conflito.

Olho não esconde quem se é, mas ela sempre tentou esconder o que incomodava os outros. Sentia culpa por ser bonita, mais que muitas. Nunca gostou de aparecer por isso, mas mesmo assim aparecia. Pela beleza, mas também pela energia. Confundia. Era quieta, era quente, era branca, era vermelho, era preto.

Uma confusão, que despertava paixão, sim muitas. Algumas vividas, outras (a maioria) deixadas de canto com respeito a quem a sentia. Fugia das paixões. Paixão tira o controle e sem controle o medo é maior. Fugia do medo.

Olhava a lua da janela. Não sabia ao certo quem era naquele momento, mas sentia que seu choro era quente e salgado. Gostava do vento forte e gelado que batia no seu rosto, como se fossem tapas na cara, dizendo: ACORDA.

Quem chorava nas alturas era a menina que ela foi que só queria um colinho do pai. Queria que os monstros fossem exterminados do planeta, queria que não houvesse nenhum tipo de fome e que as queimadas fosse só jogos com bolas. Impossível e por saber disso, a mulher, chorava.

Palavras ficam no ar, voam no espaço e nunca mais somem. Era verdade ou mentira? As palavras não vão embora com o vento, ficam em algum lugar ecoando para sempre.

Palavras duras podem ser ditas, mas palavras que digam mentiras não devem jamais serem ditas. Como saber qual é qual?

Seria mais fácil ser abduzida por ETs e nunca mais voltar. Seria mais fácil não ser ela. Seria muito mais fácil ser bege. Seria mais fácil que a liberdade fosse só estar fora das grades de uma prisão.

Sendo prática, a quarentona que era, sabia ser. Respirou fundo, resolver tomar um chá amargo de limão, enxugou as lágrimas e decidiu que amanhã pensaria nisso. Amanhã é outro dia.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

 

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Enfrente

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa 🙂