Muitas guerras começam por erros de comunicação. Fala-se uma coisa, mas o interlocutor entende outra e a guerra começa, mas em muitos casos por não saber o real significado das palavras.

A palavra feminismo causa isso, já senti muita vergonha alheia por várias pessoas aparentemente informadas e com boa cultura se posicionarem falando as maiores besteiras em relação ao significado.

Também já fui aconselhada a não me posicionar como feminista porque isso poderia atrapalhar meus projetos com boicote de clientes e anunciantes. Seria engraçado se fosse uma piada, mas isso é real, é o reflexo da falta de saber o sentido da palavra e por isso de uma mediocridade gigante. Toda vez que acontece isso, eu respiro fundo e explico, a maioria entende, se liberta do preconceito e muitos dizem “sou feminista”.

Então, vou fazer o mesmo aqui e explicar. Deixo claro que sou feminista sim e espero que você leitor(a) também seja, ou pelo menos passe a ser após entender a definição correta caso ainda não saiba. Homens podem ser feministas? Sim, porque ser feminista é algo independente do seu gênero, é uma causa que você abraça.

Feminismo é um movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos  e condições entre mulheres e homens, e luta contra a violência de gênero. Surgiu após a Revolução Francesa  que tinha como lema a “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, se fortaleceu na Inglaterra, durante o século XIX, e depois nos Estados Unidos, no começo do século XX.

Já a definição de machismo no dicionário é: opinião ou atitudes que discriminam ou recusam a ideia de igualdade dos direitos entre homens e mulheres. Característica, comportamento ou particularidade de macho; macheza. Demonstração exagerada de valentia. Excesso de orgulho do masculino; expressão intensa de virilidade; macheza.

A realidade é que uma pessoa machista (uma mulher também pode ser machista), é uma opressora que acredita que a mulher não deve ter os mesmos direitos de um homem ou ainda enxerga a mulher de forma inferior em diversos aspectos, ou seja, é um preconceito. O homem domina e a mulher é dominada.

Existe também o femismo, que poucos conhecem e por isso a confusão com a palavra feminismo. O femismo nada mais é do que o contrário do machismo. O femismo prega a superioridade da mulher sobre os homem. Pessoas femistas tem geralmente atitudes agressivas em relação aos homens, com constantes comentários que os desavorizam ou humilham. É preconceito também.

Bom, meu caro leitor, eu luto contra o machismo no meu dia a dia, não sou femista, sou feminista e acredito no lema da Revolução Francesa, Igualdade, Liberdade e Fraternidade como o único caminho que podemos trilhar para uma verdadeira revolução e evolução em nossas sociedades.

Faz sentido para você? Se sim, me de sua mão e vem comigo nessa jornada.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, fundadora do Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa.

A história da humanidade não é algo único, cada região do planeta tem sua própria, e com isso seus próprios costumes e cultura, e essa diversidade cultural também vem com uma diversidade de o que é correto, bonito e aceitável socialmente. Com a evolução da história humana, vieram as mudanças nesses comportamentos morais de cada sociedade, assim, o que antes poderia ser aceito agora não é mais e vice-versa. A definição do que é belo e agradável aos olhos também mudou ao longo dos séculos, como o padrão de beleza feminina, que já sofreu muitas alterações desde a antiguidade com suas esculturas do corpo robusto com curvas, até a contemporaneidade, em que a magreza tomou conta dos discursos de beleza.

Mas quem define o belo? Pelos milhares de anos da história, o que sempre se manteve constante foi o conceito de apropriação do corpo feminino, de modo que qualquer pessoa se sente no direito de opinar e decidir o que a mulher deve fazer com o próprio corpo. Por isso que as mulheres são as que mais sofrem com o padrão de beleza, sendo mais cobradas de como seu corpo deveria ser para agradar outros ao seu redor. Assim, tem-se mais um exemplo de como a mulher ainda é vista como algo que serve para ser bonito, um objeto para a satisfação dos outros e que deve seguir os padrões impostos pelos homens, que hoje em dia focam em querer mulheres mais submissas, menores, e, como consequência, mais magras.

Esse glamour da magreza governou em revistas, filmes e nos últimos anos nas redes sociais, essas que são acessíveis por praticamente todo o planeta. Com o crescimento dessas mídias, veio o surgimento dos influenciadores, que são pessoas que utilizam de sua fama nas redes como um instrumento de persuasão das milhões de pessoas. Diversos influenciadores utilizam essa influência para alimentar mais os padrões de beleza sociais, muitos fazendo até propagandas diretas de cirurgias plásticas para encontrar o corpo perfeito. Essas ideias infectam a mente de muitas adolescentes e crianças que agora serão obcecadas para serem aceitas nos padrões de corpo, podendo levar à depressão, distúrbios alimentares e até suicídio.

Mesmo com a concepção de um corpo feminino perfeito hoje em dia sendo algo extremamente absurdo e inalcançável, a procura de se encaixar socialmente é mais forte e o desespero acaba por tomar a mente de quem não consegue esse feito. Nessa angústia, as cirurgias plásticas radicais e a depressão entre jovens estão cada vez mais fortes. As mulheres ainda têm um longo caminho para viver em uma sociedade livre de preconceito, mas precisa-se de uma união de todas e todos para continuar essa transformação.

Karen Rosas – Bela Urbana, garota estudante do ensino médio, 15 anos, simpática e curiosa, que adora uma boa discussão, expressar suas ideias e se envolver com o mundo e sua sociedade. Ama uma boa competição e jogar videogame, mas além de tudo cuidar de quem ama.

A importância da sexualidade e do erotismo na civilização humana tem registros milenares. A sala secreta com os achados de Pompéia no museu arqueológico de Nápoles guarda obras eróticas da época de Cristo que a igreja do século XVIII tentou esconder. Mas essas obras em nada se assemelham aos conteúdos pornográficos contemporâneos.

A milionária indústria pornográfica contemporânea é centrada e feita para os homens.

É absolutamente válido quando o casal, consensualmente deseja fazer um sexo pornográfico. Existem momentos para tudo. Mas há que se dizer que a mulher também quer gozar olhando nos olhos. A mulher gosta de aconchego, de carinho e de suavidade.

Será que os homens já se viram engasgados com um pênis, tossindo, lacrimejando e quase vomitando? Será que se sentiriam excitados com essa cena?

A idade média em que o jovem começa a ter contato com a pornografia na internet é de 11 anos (Dr. Gail Dines, “How Porn has hijacked our sexuality”. Boston. Beacon Press, 2010). É quando a idéia da submissão do feminino começa a ser implantada e quando o futuro machista começa a ser criado.

E esse prejuízo é vasto. Criam-se mulheres oprimidas e homens apavorados com a possibilidade de brochar. Mulheres lutando para achar seu lugar na sociedade e homens frustrados por nunca encontrar a mulher ideal, aquela que se subjuga e realiza todos os seus desejos, como as encantadoras e exuberantes mulheres dos filmes pornográficos. Tão felizes em ser subjugadas, violentadas e humilhadas.

Quem ganha com isso?

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Uma vez eu li sobre atrizes pornô que relataram uma série de cenas lamentáveis que passavam por de trás das câmeras nos filmes que atuavam. Não estou falando de clichê Emanuelle, estou falando desses filmes que você vê até o que não precisa. A indústria pornô tem crescido em  disparada pós pandemia. As pessoas buscam os sites de forma ativa e por isso eles têm crescido de forma gritante ao ponto de mudarem a forma de um ser humano se relacionar com o outro.

Ao longo de anos a busca por mulheres submissas é algo que predomina nas plataformas. A galera da ala masculina se interessa muito em saber o quanto você mulher aguenta para satisfazer ele, macho. Não é a toa que a maioria dos jovens transam e se decepcionam pois acham que vão encontrar a Mia Khalifa e se deparam com a Sandy. (brincadeiras à parte), atrizes como essa que citei no começo, são só algumas que tem tido a coragem de se expor e escancarar os bastidores. 

Não há tesão. Há dinheiro, há muitos hematomas e nada, nada mesmo de glamour. Mesmo assim o público sádico e masculino que alimenta essas empresas são os mesmos que riem de uma atriz quando ela está vestida e relatando algo sério. 

Lembram da vez em que a própria Mia disse ter gravado cenas em que precisava de muito preparo físico pois antes da transa fake já havia sentido muita dor para conseguir levar o take até o fim? Isso já foi o suficiente para ela ser alvo de chacota entre homens, porém para uma mulher isso é assustador pois se assemelha ao estupro. Isso é real e muito sério.

Mas vejo uma ponta de luz em um futuro melhor ao saber que essas mesmas mulheres inspiram e dão forças para que outras se levantem e se mostrem mulheres comuns e normais também. É preciso força, apoio e paciência. O movimento é lento mas nunca ineficaz. Parece que estamos no caminho.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Segue abaixo trecho extraído do Livro “Pombagira, A deusa – Mulher Igual a Você”. do autor Alexandre Cumino.

Em uma sociedade Machista, não basta não ser machista, é preciso ser AntiMachista”
(Frase adapitada da frase de Angela Davis, segue frase original
‘Em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista’).

Hoje não damos conta do que é o machismo, pelo fato de que já estamos muito acostumados com a visão distorcida sobre a Mulher. A mulher não é frágil, a sociedade a torna assim para ela não ter força diante do homem, cozinha e lavanderia são lugares de homens e mulheres; cuidar dos filhos é responsabilidade do pai e da mãe, se uma mulher é livre afetivamente, ela tem o mesmo valor de outra que escolhe a castidade; virgindade não é sinônimo de caráter, muito menos de dignidade ou qualquer outro valor. O rito do casamento é um ritual de posse em que, no modelo tradicional católico, o pai, proprietario, da filha, a entrega para o noivo, seu novo proprietario, e a partir daí a sociedade considera que ambos têm obrigações um para com o outro, de casal.

Na memória da sociedade, a mulher continua tendo a carga maior de obrigações, e pesa sobre ela o olhar do falso moralismo e hipocresia social. Se essa mulher escolhe uma vida de solteira, é dito “ficou para titia”.

Todos já ouviram as frases e expressões: loira burra, mulher é falsa, mulher não tem amiga, tem mulher que dá motivo para apanhar, se acabou depois dos filhos, já sabe cozinhar já pode casar, trocou uma de 40 por duas de 20, mulher que bebe não presta, só engravida quem quer. E também adjetivos do mundo animal: ESSA MULHER É UMA VACA, GALINHA, POTRANCA, CAVALA, CADELA ETC.

Precisa dizer mais? Feminismo é a consciência de todos esses machismos, de origem patriarcal, chamados de sexismo. Quando não temos a percepção somos machistas, mesmo passivos.

Agredir fisicamente é um extremo, há sutilezas perversas na sociedade, que passam despercebidas principalmente para quem não é mulher, gay, lesbica, trans, negro, indio ou nordestino na região Sul do Pais.


Meus comentários: Entender o universo feminino é entender a si mesmo, indiferente o Gênero, não observar as pequenas sutilezas de maldade já inseridas no contexto social é também fazer parte desta maldade.
Precisamos mudar os pequenos hábitos para ter grandes resultados, nenhum tipo de segregação, seja por qual motivo for pode ser considerada positiva, nossa obrigação social é educar nosso filho e reaprender veementemente os membros de nossa sociedade que praticam tais atos.

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Acho que todos nós enfrentamos o machismo em alguma época de nossas vidas.

Às vezes em casa, com truculências machistas de pais e irmãos…

Mas vamos falar aqui de machismo entre namorado e namorada, entre marido e mulher, que vem recrudescendo mais e mais nesta época de pandemia, com o isolamento social e o desemprego. O feminicídio tem sido tema de reportagens policiais, em volume nunca visto!

O machismo é um sentimento pegajoso, que impregna uma relação perigosamente, demonstrando baixa autoestima e medo.

O homem, nesta situação, com medo de perder a namorada/esposa, estabelece regras, fiscalizando as roupas que vestem, determinando que se aumente o comprimento, proibindo calças compridas coladas, roupas justas. Também remove o blush, o batom, proíbe a pintura de olhos, coisas que são muito caras às mulheres, que são vaidosas. Elas se arrumam para eles. Mas o ciúme e a covardia falam mais alto, o medo e a falta de segurança criam os nós quase impossíveis de se desatar.

A maioria de nós, mulheres, teve namorados doces, agradáveis, boas praças, que pouco a pouco modificaram seus comportamentos e se tornaram ácidos, descontrolados, perigosos. Muitas mulheres começaram a apanhar, a partir daí, machismo perigoso, descontrolado. Muitas mulheres observaram pouco esta transformação, que não ocorre da noite para o dia, mas o que ocorre é o sentimento de posse, de propriedade, que não combina com o amor e com a plenitude da relação conjugal…

E ela passa a ser vítima, tanto de agressões físicas, como de receber ordens absurdas de não trabalhar, de não sair de casa, sem nada para comer em casa, com crianças pequenas dependendo do casal. Também o homem se sente acuado, desempregado, sem projetos  de vida, avolumando o seu ódio contra si mesmo, que não tem como reverter a situação, e passando necessidades.

Qualquer coisa, por menor que seja, acende a fogueira do desamor, do desamparo, e culpar a mulher é o menor caminho a percorrer. Bebedeiras são acompanhadas de surras violentas, contra a mulher, que tem medo de denunciar, pois o machismo é brutal e a retaliação é uma sentença de morte.

É o fundo do poço, não respeita classes sociais, não respeita religião, não respeita nada à sua frente.

Este é um retrato muito rápido da sociedade doente, não só da pandemia, mas da  proximidade maior do casal e filhos, que só se viam à noite ou em fins de semana, obrigados a conviverem muitas vezes a família toda, com resultados dolorosos para todos os atores da relação humana, nessa difícil fase que passamos.

Assim, mulher, tome as rédeas de sua vida, evite ser mais uma vitima fatal!

Bem por isso, DENUNCIE!

Marilda Izique Chebabi – Bela Urbana. Desembargadora Federal do Trabalho, aposentada, e há 20 anos advogando. Ministrou aulas de Direito e Processo do Trabalho, na Unip, e na pós graduação em Direito Empresarial,  da Unisal. Foi docente da Escola Superior da Magistratura do Trabalho. Participou de dezenas de Congressos de Direito do Trabalho, como palestrante e mediadora. Participou de várias bancas de concurso público para a Magistratura do Trabalho e ainda mãe de 04 filhos homens.

Brancos, heterossexuais e machistas, sorrateiros e tão contentes,
vêm e vão disseminando seus preconceitos.
Alheios a todos e a tudo, são os reis do mundo!

Vivemos num pais que culpa mulheres pelos estupros?
Pedófilos virtuais sequestram crianças reais e postam nas redes sociais,
como vocês dormem em paz?
Pequenas meninas se exibindo e rebolando a mando dos próprios pais.
Cada like vale a pena? Ao menos separe uma grana para a psicóloga (você vai precisar)
Eu me distancio disso tudo, não me culpem por querer fugir da realidade, pode dizer que é uma crise de bipolaridade.

Aqui tem pra todos os desgostos, encontramos também homofóbicos, transfóbicos e racistas!
Eu não consigo lidar, não dá pra mensurar a maldade nem a insanidade dessa raça de víboras como já diria João Batista.
Me ajuda, João! Eu sou reflexo do machismo antigo, filho do patriarcado ou é simplesmente a minha falta de tato? (talvez os 3 de uma só vez).

Eles falam e eu me entedio, ouço e observo, mas não absorvo.
Talvez por isso, facilmente me irrite, pode ser, até porque, parece um rito.
Idiotas reunidos, bebendo o próprio mijo, exalando masculinidade, sem deixar de se preocupar com a vaidade. Passam a noite vomitando constantemente seus conceitos inconstantes de egoísmos reprimidos. Eu me sinto perdido, procurando abrigo, longe do seu machismo, distante dos seus preconceitos eleitos por antepassados tão antiquados quanto aquele quadro que pede intervenção militar já! É hora de mudar, de acordar, vamos recordar a história ou esquecer tudo que já conquistamos até agora?

Vocês são piadas para a minha assepsia, eu não me lavo com o lodo que escorre da pia.
A cada dia que passa, passo o dia em lentos passos, procurando espaço pra respirar neste crepúsculo de aço! Sou um filósofo raso, buscando novidades em velhos ditados, me contradigo e repito, transito entre o medo de morrer e a eterna vontade de começar a viver.
Nunca tivemos boas referências para admirar, mas isso não é desculpa!
A culpa é só minha e eu coloco em quem quiser, provavelmente será em uma mulher.
É mais fácil de acreditarem, é mais fácil de me deixarem em paz.
Eu já não tenho mais esperanças, talvez você que me lê possa nos ajudar.

Eu vejo no futuro o mundo colapsar
mas, não acredito que algo vá mudar.
Desculpe o pessimismo, não me culpem por fugir da realidade,
eu sou reflexo do machismo antigo,
filho do patriarcado ou é simplesmente a minha falta de tato, já sei
pode dizer que é uma crise de bipolaridade.

Lucas Alberti Amaral – Belo urbanonascido em 08/11/87. Publicitário, tem uma página onde espalha pensamentos materializados em textos curtos e tentativas de poesias  www.facebook.com/quaseinedito  (curte lá!). Não acredita em horóscopo, mas é de Escorpião, lua em Gêmeos com ascendente em Peixes e Netuno na casa 10. Por fim odeia falar de si mesmo na terceira pessoa.

Dezembro de 1980, com uma ordem judicial em mãos, me despedi da casa e da vida que eu tinha até então. Estava com 14 anos de idade quando pedi essa ordem para me proteger do lar abusivo que eu vivenciava, da parte da minha mãe, que era uma pessoa muito severa, tinha muita violência psicológica e física desde os 5 anos de idade e de abuso do meu pai, dos 8 anos e meio até os 13. Hoje, com 55 anos, eu olho para tudo isso e penso que o machismo, todo tipo de machismo, vem com uma sequência de abuso e o abuso vem com uma sequência de machismo. Se tratando de homem eu não vejo uma maneira de separar uma coisa da outra, porque o machista quer impor e a partir do momento que você quer impor algo, você já está abusando. Agradeço muito essa oportunidade que BELAS URBANAS abriu para a minha fala e gostaria, não de falar desse passado necessariamente, mas sim partilhar como essas experiências desafiadoras tornaram quem eu sou hoje.

Aos 14 anos, eu disse para mim mesma: eu não quero essa vida, eu não mereço, vou fazer minhas escolhas e para fazer isso, eu tenho que me afastar de tudo e de toda essa realidade, mesmo sendo o meu lar, minha família e meus pais.

Foi o que eu tive que fazer, parar os estudos, mudar de cidade e trabalhar para o meu sustento. Casei muito cedo porque eu queria a emancipação, foi a maneira que eu encontrei de me sentir segura tendo a certidão de casamento e também sendo mãe. Fui mãe aos 17 anos da minha primeira filha, eu desde lá, sempre mantive a determinação de trabalhar, ter a minha renda, a minha independência financeira. Trabalhei em várias áreas, se contasse daria um livro (pretendo escrever um dia, minha biografia sobre essa história que é muito, muito longa).

Quando meu primeiro casamento chegou ao final, por abuso e por machismo, não dava mais pra continuar, foi ele quem saiu de casa e eu, com minha independência financeira, mantive a minha vida. Ter a facilidade de me adaptar a equipes de trabalho e à grupos contribui para enfrentar meus medos, acreditando que eu podia seguir em frente.

Tive o segundo relacionamento, esse um pouco diferente, ele morava com a mãe na semana e no final de semana comigo. Tive meu segundo filho e depois de um tempo, por machismo e infidelidade, esse relacionamento também acabou. Eu estava com meus dois filhos, na nossa casa, tinha as minhas coisas, meus empregos e até voltei a estudar!

De todos os desafios que foram vários e muitos sérios, mantendo minha dignidade, eu fiz minhas escolhas, estando e sendo quem eu quisesse ser. Criei meus filhos (hoje adultos, formados e casados), priorizando a igualdade, sempre fizeram de tudo em casa. Aos finais de semana todo mundo trabalhava, colaborava com os afazeres do dia a dia e aprendiam também a cuidar de suas coisas e isso foi naturalmente, eu achava que era muito importante seguir meu coração. Hoje vejo meu filho dividir todo o trabalho de casa com a esposa, que no meu olhar é a prática daquilo que ensinei: a igualdade. Assim como percebo essa qualidade na relação da minha filha com seu companheiro.

Busquei transmitir tanto para o menino quanto para menina que somos iguais, que devemos ter respeito a todos independente de gênero, que somos responsáveis pelos nossos atos e que a nossa felicidade está em nossas mãos, não está nas mãos do outro.

Hoje me sinto em um relacionamento saudável buscando equilíbrio e igualdade em todos os sentidos, me aposentei, continuo trabalhando, mas agora trabalho naquilo que me libertou, que tanto me ensinou, que tanto me abriu os olhos para o meu caminhar: as terapias integrativas e a constelação familiar. Quero levar para todos, principalmente para as mulheres, como profissão e como voluntariado (já iniciei atuando no grupo de mulheres pela justiça) minhas experiências e saberes. O mais grandioso e mais plausível disso tudo é que eu sou uma mulher preta aprendendo, desaprendendo, para reaprender… ressignificando.

Elizabeth de Farias– Bela Urbana. Facilitadora de Constelação Familiar e terapias integrativas. Os saberes da sistêmica e das integrativas me transformaram para o melhor que eu posso ser e estar. Contribuir na vida das pessoas , com meu melhor e facilitar em seus processos no caminho da expansão da consciência, se fortalecendo resolvendo seus conflitos e traumas. Amo astrologia e tudo o que se revela no dia do nosso nascimento, sou geminiana…rsrs Dando um bom lugar aos aprendizados e aberta aos ensinamentos que estão por vir…A serviço da vida!

Amor e carinho a minha companheira que registrou essa foto em nosso jardim e contribuiu com o texto acima, gratidão Carolina Teixeira Martins por estamos juntas nessa existência.

Uma das perguntas que mais ouço ao longo da minha vida é: Tiago com h ou sem?

Várias vezes eu disse que meu nome não tem h pois sou Homem com H maiúsculo, portanto não preciso desta letra extra; demonstrando orgulho (no mau sentido). Por quê me orgulhar de algo que não foi obtido por escolha ou esforço?

Desde tenra idade percebi que minha vida seria moldada por ter encarnado em um corpo masculino desta vez, afinal o preconceito faz parte de toda sociedade. Durante décadas vi os preconceitos, não apenas os de gênero, diminuírem muito. As mulheres passaram a ocupar funções antes exclusivas dos homens, beneficiando não apenas elas, mas toda a sociedade.

Criado em uma família de cinco filhos, tivemos tratamentos diferentes, minhas duas irmãs, na adolescência, não podiam frequentar qualquer ambiente sozinhas; a preocupação, neste caso, era apenas a segurança.
Machistas ou não, pais de filhas adolescentes têm a obrigação de zelar por elas.

Acabei de escrever uma frase machista, pois poderia ter escrito filhos. Foi por uma questão gramatical, o português é um idioma com gênero, o que não ocorre no inglês, por exemplo. Os plurais devem ser no masculino, não importa a proporção. Idioma machista, não acham?

É evidente que o zelo deve se estender aos meninos, mas a natureza nos fez diferentes. A sociedade, apesar dos avanços, nos trata com diferença. Jamais vou passar pelo sofrimento que minhas semelhantes estão sujeitas e por mais que me esforce, minha empatia será sempre limitada.

Lendo as notícias, escandalizo-me, protesto nas redes sociais do meu jeito tosco e muitas vezes insensível e colérico. São todas minhas irmãs, como ficar insensível diante de tanta brutalidade?!

Não posso me comportar como um homem com h minúsculo. Tenho que ouví-las para crescer. Somente elas vão me ensinar a tornar nossos relacionamentos mais harmoniosos. Oro diariamente à Mãe Divina por todos nós, pois só a sintonia com o aspecto feminino de Deus vai completar meu entendimento nesta luta.

Ao amadurecer este entendimento, graças à ajuda feminina, principalmente das minhas Mães, a divina e a terrena, que até hoje me ensinam, vou procurar fortalecer as principais armas para lutar por elas: solidariedade, compaixão e amor.

Tiago Nogueira – Belo Urbano. Formado em publicidade pela PUC Campinas e jornalismo pela FACHA-RJ, atuou profissionalmente em audiovisual desde 1986, jamais escrevendo, é melhor com as imagens. Em raros momentos de inspiração e dedicação tenta produzir textos para contribuir para a sociedade, através deste fascinante e multifacetado mundo digital. Sem filhos, mas apaixonado por crianças e mágicas, descobriu no trabalho voluntário em pediatrias de hospitais públicos, como levar alegria a elas através da risoterapia através da Fundação Griots http://www.griots.org.br/2019/

– Moça, a senhora é escritora?

A pergunta veio de duas crianças. Um garoto e uma garota.  Menino, o porta voz.

– Por que vocês acham?

– Você tá aí quietinha. Olhando e anotando. Os outros turistas estão almoçando e comprando.  Sente fome não?

Risos.

– Sinto fome sim. E que doce vocês tão vendendo?

Disseram num unísono de boca cheia: – Cacau e chocolate da terra! E é muito bom! ( espanto – a menina sabia falar).

O menino continuou:  – A outra mulher ali, aquela senhora branca que acho que é de São Paulo, só queria experimentar sem pagar. Eu disse não. Tem que  pagar pra modo de abrir o pacote. Ela pagou. Comeu e não gostou. Queria o dinheiro de volta! Falou que era direito de consumidor!

– E você deu o dinheiro de volta?

– Dei não. Ela nos devolveu o doce. Você acha que se tivesse ruim estaríamos comendo ele? Tava não!

– Acho também não.

Riram de gosto.

– E moça, você não respondeu. Você é escritora?

– Não propriamente. Na idade de vocês,  sonhava em ser. E vocês, o que sonham ser quando crescerem?

– Quero ser fuzileiro naval!

Olhei para a menina. Que de nada perguntava e pouco respondia. Tinha um pé com havaianas,  outro descalço e machucado. Espécie diferente de Emília nos sapatos trocados. Muda, como a boneca de pano antes de tomar as pílulas do Doutor Caramujo.

– E você, o que sonha em ser quando crescer?

Ela me olhou. Sorriso tímido e açucarado. Olhos verdes e pele escura. Eu e as crianças três tons frutos do projeto de eugenia brasileiro. Antes dela verbalmente se manifestar, ele recomeçou a falar.

– Moça, ela não pensa nestas coisas não. E sabia que ela magoou o pé ali na praia. Pisou numa pedra e o chinelo escapou (…).

Liliane Messias – Bela Urbana, é pagadora de profissional: bancária. Cresceu na hoje vacinada cidade de Serrana-SP. Fez Letras em Araraquara. E adora dançar.