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Antenor entrou decidido na sala assim que a recepcionista abriu a porta e foi logo disparando, antes mesmo de dar bom dia: “Doutor, eu gostaria de solicitar a vossa senhoria o obséquio de pleitear junto ao metrô uma indenização por perdas e danos à minha pessoa”. Cláudio, um jovem advogado e de carreira brilhante apesar dos poucos anos de profissão, era experiente e perspicaz o suficiente para saber que aquele homem simples ali parado na sua frente, deveria ter elaborado minuciosamente a frase proferida. E pelo certo embaraço e rapidez com que foi dita, deixava claro que aquelas eram palavras emprestadas de um outro vocabulário. Nesse caso era necessário quebrar o gelo para se aproximar do seu talvez futuro cliente e tentar entender afinal do que se tratava tal pedido. Não teve tempo de dizer nada antes que Antenor, que estava ansioso e sentia o calor úmido e frio de suas mãos, perguntasse: “Então doutor, o senhor pode me ajudar?”. “Claro que sim. Por favor, sente-se”. Antenor puxou a cadeira de um jeito tão tímido que parecia estar pedindo desculpa por se sentar numa cadeira tão imponente e cujo revestimento do assento e do encosto deveria custar mais do que todo seu guarda-roupa. Olhou ao redor e começou a se dar conta que nunca havia visto um lugar como aquele. Era tudo muito moderno, diferente da imagem que fazia de um escritório de advocacia, com suas salas escuras, carpete verde musgo e madeira por todos os lados. Ali era tudo branco, iluminado, com uma enorme parede de vidro que revelava uma São Paulo gigantesca, do tamanho de um mundo. Um mundo ao qual fazia parte como um ser minúsculo perdido no meio da multidão. Antes que entrasse em transe nesse universo desconhecido, foi acordado pela voz cortante de Cláudio: “O senhor?”. “Antenor, esse é meu nome. Antenor da Luz e Silva. Luz por parte de mãe e Silva por parte de pai”. “O senhor Antenor aceita um café, uma água?”. “Água sem gelo e café com adoçante por favor”. Nunca tinha tomado água sem gelo nem café com adoçante, mas havia ouvido essa frase num filme, achou chique e resolveu que ali era o lugar exato para usá-la. Cláudio o olhou com um certo sorriso enigmático enquanto fazia o pedido a sua recepcionista. “Mas vamos lá seu Antenor da Luz e Silva, me explique o motivo pelo qual o senhor quer ser indenizado por perdas e danos”. “É por causa do trem da madrugada”. “Seja mais claro”. Antes de continuar, foram interrompidos pelas batidas na porta da recepcionista que trazia a água e o café. A água veio num copo triangular e o café numa xícara quarada. Ficou olhando sem entender essa geometria das coisas simples num mundo sofisticado. Para ele, copo e xícara são redondos. Bebeu a água de uma vez e deixou o café pra depois. “É assim doutor, o senhor sabe que sábado é dia de namorar. Não sabe? Tem gente que namora com dia marcado. Uns na segunda, quarta e sábado. Outros na terça, quinta e sábado. O senhor vê, sempre tem sábado. Até pra quem não tem dia certo, sábado é dia de namorar. É dia de tomar sorvete, ir ao cinema, beber uma cerveja. É dia de passear com a namorada. Sábado sem namoro não dá. O senhor me entende, doutor?”. Antes de ouvir a resposta de Cláudio, atento e incrédulo, continuou. “E como sou um sujeito que respeita a tradição das coisas, não abro mão de namorar no sábado. Chova ou faça sol, todo sábado eu saio com a Ritinha e com a Alessandra”. Cláudio o interrompe. “Um momento, por favor. Marcela, uma água com gás bem gelada”. Colocou o telefone no gancho, afrouxou um pouco a gravata, recostou-se na sua cadeira e com ironia interessada voltou à conversa. “Me diga, Antenor, se eu entendi bem até aqui, você afirma que sábado é dia de namorar e que você tem duas namoradas.Certo?”. “Sim senhor”. “Mesmo?”. “Certamente doutor”. “Duas namoradas?”. “É..sim…tem algum problema?”. “Não..quero dizer..sim…bem, eu não atuo na vara de família..”. “Peraí doutor, que história é essa de vara de família?”. “Calma, eu só estou dizendo que a minha área de atuação é outra. O senhor me entende?”. “Mais ou menos”. “Mas vamos continuar a sua história, por que eu ainda não entendi o que o metrô tem a ver com o senhor e suas duas namoradas, e também o que eu tenho a ver som isso tudo”. “Ué, o senhor não é advogado?”. “Parece que sim, não é?”. “Então, preciso que mexa as coisas pra processar o metrô”. Cláudio, um pouco irritado, toma um gole na sua água com gás que sua recepcionista havia colocado na mesa, respira fundo e pede que Antenor seja mais claro e objetivo porque ele não tem o dia todo. Antenor toma o café, que já está gelado e vai direto ao ponto. “Doutor, esse tal de trem da madrugada que o metrô acabou de inventar, me acarretou sérios problemas na administração interna dos meus relacionamentos afetivos. O senhor já teve duas namoradas? O senhor já teve que sair com as duas no sábado? Pois bem, antes do pessoal do metrô inventar de prorrogar os horários de funcionamento aos sábados até a uma da manhã, tudo era perfeito. Vou explicar: No sábado de tarde eu ia pra casa da Ritinha e ficava na casa dela ou em algum lugar por perto até umas onze da noite. Depois me despedia e pegava o metrô na estação Jardim São Paulo. Descia na Sé e pegava outro até Arthur Alvim. Pra ela, a Ritinha, eu trabalha numa distribuidora de jornal lá na Zona Leste e entrava às 4 da manhã pra entregar o jornal de domingo. E como o metrô parava meia noite e eu não podia bobear, era preciso sair mais cedo para garantir meu transporte até o trabalho. O senhor tá me acompanhando?”. Cláudio empurrou a cadeira para trás, levantou-se, foi até a parede de vidro, olhou a cidade lá embaixo. “Essa cidade é gigante não acha? Como o senhor chegou até mim?”. “Lista telefônica doutor”. Desolado, voltou a cadeira sem dizer palavra. “Veja só doutor, aí é que tava a jogada. Não existia trabalho de entregador de jornal pra ganhar grana extra. Na zona leste estava a minha Alessandra me esperando. Pra ela, eu dizia que trabalhava numa padaria da Zona Norte até as onze da noite. E como o senhor já sabe, sábado é sagrado pra mim. Eu chegava na casa dela às onze e quarenta e três da noite, ou seja ainda era sábado. A minha pimentinha, a Alessandra, também pensa como eu. Sábado é dia de namoro e ela valorizava meu esforço em chegar a tempo. Doutor, tudo funcionava como um relógio até sábado retrasado”. “Seu Antenor, seja mais rápido”. “Resumindo: no sábado retrasado cheguei na casa da Ritinha e ela estava radiante. Estava com um jornal na mão me mostrando que o horário do metrô havia sido estendido até a uma da manhã, o tal do trem da madrugada. E que como comemoração a isso, ela me daria um presente especial naquela uma hora a mais. Não tive como fugir, ela usou de artimanhas que só as mulheres têm…o senhor sabe, né? Com isso, em vez de sair as onze saí meia noite. Em vez de chegar onze e quarenta e três, cheguei meia noite e quarenta e três. A Alessandra já tava doida de preocupação. Me deu um abraço apertado logo no portão e antes de perguntar o que tinha acontecido, sentiu um cheiro forte de perfume de mulher. Doutor, eu tomo sempre o maior cuidado pra não sair cheirando perfume da casa da Ritinha. Sempre tomo um banho na casa dela antes de sair, com a desculpa de ir pro trabalho. Mas naquele sábado, ela queria me dar o tal presente na uma hora a mais que havíamos ganhado. E que presente doutor…mas não deu tempo de tirar o perfume dela e a Alessandra matou de cara. Eu falei que ela era pimentinha. Me encheu de tapas, arranhou meu braço e me puxou pra dentro de casa. Aos prantos, exigiu explicações. Congelei. Por favor, olha só a minha situação: O que eu iria falar pra ela? Que meu chefe tinha aumentado meu horário de trabalho e que caiu um vidro de perfume que tava na última prateleira do balcão do caixa e que era da mulher do dono da padaria. Sem essa. Mulher nenhuma acreditaria nisso, por mais apaixonada que fosse. Paralizado, olhei nos olhos dela e comecei a chorar. Doutor, como eu amo a minha pimentinha. O ataque de fúria começou de novo, ela pegou a bolsa, me agarrou pelo colarinho e disse: vamos conhecer essa vagabunda. Eu ainda tentei dizer que não dava tempo. Ela disse que dava sim, que o metrô tava ficando aberto até a uma da manhã e enquanto tivesse gente dentro, tinha trem. Olha, eita serviço bom, mas que desgraça. Como quem caminha pra forca, pegamos o trem rumo a estação Jardim São Paulo. O metrô estava praticamente vazio, e sentamos em bancos separados. Um em frente ao outro. Ela me fuzilava com os olhos, eu olhava pra baixo. Bom, nem precisa dizer o que aconteceu na casa da Ritinha. Elas descobriram tudo e veio abaixo uma linda história de oito anos. A Ritinha eu comecei a namorar no carnaval de 1999 e a Alessandra na Páscoa do mesmo ano. Eu a conheci no supermercado. Eu comprando ovo de Páscoa pra filha da Ritinha e ela pro seu afilhado. De lá pra cá não consigo nem dormir direito. To arrasado. Eu amo aquelas duas mulheres. Parece loucura, mas não vivo sem as duas. O que eu faço agora? Um amigo meu me chamou de banana, que não deveria ter levado a Alessandra na casa da Ritinha. Disse que fui bobo, que perdi as duas porque marquei bobeira. Mas veja, não tinha como dizer não a Alessandra. Eu nunca disse um não a ela, nem ela a mim. Éramos felizes, os três. Agora não sou nada, sozinho. Senhor doutor Cláudio, por isso o metrô me deve uma indenização. Estou na rua da amargura graças a eles. Eu sei que eles não quiseram fazer mal a mim, mas é possível prejudicar alguém mesmo sem ter intenção, não é mesmo? E aí, como é que eu fico? Alguém tem que pagar por isso? O trem da madrugada passou em cima da minha cabeça. Me ajude por favor”. A sala estava completamente em silêncio. Antenor imaginava que Cláudio estava preparando alguma resposta pro seu caso. Cláudio só imaginava o que poderia dizer a Antenor. Por mais que não fizesse sentido mover uma ação dessas, que a motivação era absurda e baseada num adultério, aquele homem tinha sido prejudicado por um terceiro. Isso era um fato. Além disso, Claudio não estava ali pra julgar a ética e a moral daquele sujeito. Ele poderia ou não aceitar o caso. Mas que caso. Por um instante pensou que estivesse enlouqeucendo. Tirou os óculos, esfregou demoradamente os dois olhos ao mesmo tempo, levantou-se e andou sem rumo pela sala. Antenor o acompanhava quieto com os olhos. O caso dele era complicado e o doutor deveria estar pensando numa estratégia. Sentou-se no sofá atrás de Antenor, que virou-se imediatamente em sua direção. “Meu caro Antenor, o seu caso é realmente complicado. Eu realmente nunca vi uma situação assim. Sinceramente eu vejo sinceridade no senhor. É possível imaginar o amor que sente por essas duas mulheres. Sendo assim, por que não tenta reconquistar o amor delas em vez de tentar ser ressarcido de um suposto prejuízo?”. Enquanto falava, Cláudio se revirava por dentro. Não acreditava que estava ali dando conselhos sentimentais a um completo desconhecido, mas preferia isso a aceitar o caso e conquistar um vexame profissional. “Não tem mais jeito doutor. O encanto quebrou. Agora o que me resta é dor e sofrimento. Tudo por culpa do metrô”. Cláudio levantou-se, foi até sua mesa, apoiou os dois braços em cima do tampo de vidro e olhando bem no fundo dos olhos de Antenor disse: “O senhor cometeu adultério e o metrô não pode ser responsabilizado pelo término de um ato ilegal aos olhos da lei. Juiz nenhum do mundo vai aceitar uma coisa dessas e ainda é capaz do senhor ser processado pelo estado. Apesar disso concordo que o senhor está no prejuízo, mas não posso fazer nada”. Pensou que foi duro demais com aquele homem, mas disse o que deveria ser dito sem nenhum julgamento. “Aceita mais uma água ou um café?”. Antenor percebeu que sua consulta tinha chegado ao fim. Levantou-se e foi em direção a porta. Antes de sair, abriu um sorriso que era um misto de dor e esperança. Voltou alguns passos e estendeu a mão ao jovem advogado. “Obrigado por ter me ouvido”. Saiu sem fechar a porta. A história daquele homem ficou martelando na sua cabeça a semana toda. Não teve coragem nem de contar para os amigos. Fez o certo, mas aquele homem tinha sido prejudicado sim e tinha, como cidadão, o direito de reclamar. Na sexta-feira deu de cara com aquele homem na recepção do seu escritório. Sentiu um frio na barriga, mas foi logo perguntando se poderia ajudá-lo. Ele disse que não, mas que me seria eternamente grato e que de alguma forma tinha sido muito bem indenizado. Sem entender nada, Cláudio entrou na sala. Invadido por uma curiosidade que não lhe é costumeira, não fechou a porta. Mais do que isso, esforçou-se pra ouvir o que se passava do outro lado. Não demorou muito para saber o que de fato Antenor da Luz e Silva estava fazendo ali se não queria nada com ele. “Então fica assim: como eu não gosto de sair cedo no sábado, te encontro lá pela meia noite e meia na estação Saúde. O metrô funciona até a uma e depois só volta a operar lá pelas cinco da manhã. Tempo suficiente pra gente aproveitar a noite antes de voltar pra casa. No domingo, tenho que ir a missa cedo e almoçar com minha família, mas quem sabe a gente não toma um sorvete de tarde”. Cláudio, aliviado e inconformado com o que ouvia, simplesmente fechou a porta. Antenor não era mais problema dele. Dali pra frente seria da sua secretária.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

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“É de conhecimento comum que em 1970 mudou-se para o Brasil uma família, vinda de um país distante, ao norte do mundo, a Finlândia.”

O primogênito da família, cruzar a linha do Equador contava 17 anos.

Mas voltemos mais um pouco no tempo para o final da década de 50.

Considerado hiperativo por alguns, o comportamento do menino foi extremamente mal compreendido.

Ainda no berço, embora não permanecesse nele por muito tempo, conseguia montar e desmontar qualquer item ao seu alcance, incluindo o berço. Nenhum quebra-cabeça era difícil para ele e um cubo de Rubik (cubo mágico) era resolvido antes de você conseguir dizer “oi”. Detestava limites e entendia o funcionamento de qualquer mecanismo, o que lhe facilitava a fuga.

Objetos que, por ventura, passassem por ele, eram imediatamente dissecados e em seguida remontados com uma tecnologia mais avançada. Disso resultava que um carrinho de brinquedo, aparentemente despedaçado poderia ser apenas o estágio inicial de uma câmera fotográfica digital e de um rádio desmontado surgia o protótipo do forno microondas.

Só dava descanso aos pais enquanto dormia. Isso acontecia umas duas horas por noite e nunca de dia… Afinal, se há tanto para descobrir, por que perder tempo?

Um pouco mais tarde, na década de 70, seu quarto foi por ele transformado em laboratório fotográfico e o porão da casa em boate com som de alta tecnologia.

Autodidata, em tenra idade já falava fluentemente pelo menos três línguas e, além de escrever manuais de eletrônica, montou uma estação de rádio-transmissão capaz de alcançar as mais longínquas regiões do mundo. Também sabia explicar toda a lei de Murphy, pela ótica da física, ou seja, o motivo pelo qual a fatia de pão sempre cai com a manteiga para baixo.

Apesar dessa genialidade a família sentiu a necessidade de um ensino formal. De modo que ele, com toda a paciência que não lhe foi dada, precisava prestar atenção em horas e horas de aulas… Enfim, formou-se…

A nova geração de crianças da família puxou da geração que a antecedeu a genialidade, força e determinação, a capacidade de se interessar pelo funcionamento de objetos (como agulhas de toca-discos e outros artigos com mecanismo), mesmo que isso custasse a vida do objeto em questão e claro, foram também mal compreendidos. É pena que ainda se confunda curiosidade com bisbilhotice e busca de conhecimento com hiperatividade, traquinagem e teimosia.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

 

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Curta, falhada, perfeitinha, pontiaguda como um cactus, messiânica, patética, grande e emblemática, terrorista, pueril, tracejada, lenhador, ruivinha, grisalha, preta, loira, branca Noel, grossa, rala, sistematicamente cortada ou mal ajambrada como um naúfrago.

Não importa.

Um dia todo homem quer deixar a barba crescer e ver o que a genética guardou para seu rostinho.

Pra saber como é. Ou não é.

Minha relação com a barba (dos outros) começou cedo quando pedia para passar o creme Bozzano no rosto do meu pai, pincelando tudo, menos o bigode. Ele fazia religiosamente a barba, mas deixava o bigode intacto aparando e medindo como num momento sacro.

Gostava de olhar.

Meu avô também assim fazia. Do mesmo jeito.

Depois vi meu irmão brigar, conversar e renegar sua barba por anos a fio, já que dividíamos o mesmo banheiro.

Depois alguns namorados.

E daí o marido, que também teve várias facetas desde a mais lisinha até a mais áspera. E hoje sei muito bem o que vai acontecer com meus filhos um dia. E acho incrível!

 

Nós mulheres, não sabemos o que é isso. Deixar os pelos crescerem, aflorarem e dominarem, mas deve ser ótimo isso poder acontecer quando se quer.

A barba é uma verdade. Ela existe pra quem quiser. Os homens têm um privilégio em usufruir dessa condição social que boa parte das mulheres, verdade seja dita, gosta e muito.

 

Tive um tio que pouco falava, mas quando passava a mão na barba parecia ter todos os argumentos do mundo. Ele tinha um ar “fodão”, meio Sean Connery e uma reputação de namorador, um dia tirou a barba porque perdeu uma aposta. Acabou-se a magia.

“O que aconteceu com o Arnaldo?”

“Ele tirou a Barba?”

” Por que?”

Indagavam as moçoilas inconformadas da rua Maria Monteiro.

Era criança, mas atenta.

Acredito que como as mulheres usam seus cabelos, os homens usam a barba para criar pontos fortes e ocultar algumas fraquezas.

 

Acho incrível o número de barbearias que estão tomando conta da cidade dando aos homens formatos e texturas. Mas também acredito que como muitas mulheres, os homens devam atentar- se a realidade. Ou seja, não adianta querer ter a barba cheia do Ben Affleck se você só tem três pelinhos lindos. Melhor investir em outros aspectos e não sofrer com isso. Disso entendemos bem.

Novamente o difícil equilíbrio entre desejo e realidade.

Dentro desse mar de pelos não custa lembrar que atrás de toda essa barba que dia a dia brota dos poros dos novos homens a grande tendência é mesmo entender esse novo homem plural e contemporâneo convidado diariamente a discursar não somente sobre sua barba, mas também sobre si mesmo.

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Meg Lovato – Bela Urbana, formada em comunicação social, coreógrafa e mestra de sapateado americano e dança para musicais. Tem dois filhos lindos. É chocolatra e do signo de touro. Não acredita em horóscopo mas sempre da uma olhadela na previsão do tempo.