Diário de uma pandemia
20/3/2020
8:30
É primavera.
Há uma semana declarou-se a crise COVID 19. Sentimentos e pensamentos poderiam ser resumidos nesta semana. Ação e o coração sofrendo. Ainda trabalhamos, damos serviços mínimos, porque o governo não nos colocou na lista de empresas que precisam fechar. Mas a pressão imposta pelo sistema de saúde é para fechar.

ficaemcasa.

Minha situação mental é estressante, ainda que ativa, adrenalina para administrar esse momento. Mas também muito sobrecarregada pelo de risco para nossa saúde, nossa economia necessária para nos dar suporte e os conflitos sofridos em nossas relações de trabalho.
É como ter sofrido um choque frontal entre dois trens: a equipe de direção e a de gestão decidimos o quê precisava ser feito e as necessidades individuais da maioria dos trabalhadores.
Esse confronto foi inevitável porque qualquer decisão tomada envolvia risco ou conflito em uma área ou outra.
Agora não sabemos se tomamos a decisão certa … Tudo será esclarecido em alguns meses e, honestamente, minha visão é de uma incerteza avassaladora.
Lidamos com muitos lutos de relance, aqueles que são realmente tristes pelas as pessoas que estão caindo com o COVID. De longe, este é o mais importante de todos e o que mais nos preocupa.
Mas há outros lutos que estamos vivendo e que devemos administrar em uma marcha forçada: o luto pela perda da normalidade, por não poder encontrar pessoas queridas, familiares, amigos, colegas que nos apreciam em vários campos. O luto por ter de interromper a atividade que, em alguns casos, é a nossa motivação e nos ativa todos os dias, o luto por sacrificar as férias para poder ter o meu tempo livre neste momento difícil.
Isolamento versus ter que trabalhar em tempos de isolamento.
E acima de tudo, o medo, a COVID, o sofrimento ou o sofrimento das pessoas que amamos, até o medo da morte.
E medo de fazer coisas erradas de um lado ou do outro.

E esperamos, todos os dias, as demonstrações de solidariedade, resiliência e respostas à emergência, ações de pessoas exemplares que aplaudimos desde nossas janelas todos os dias, e pessoas que não recebem esse aplauso explícito, mas que também nos dão suporte – muito obrigada! – reconhecimento a todas elas por favor.
Esta é uma reflexão resumida do que experimentamos atualmente. Existem muitas nuances, emoções opostas e o melhor e o pior de cada um de nós vieram à luz.
Proponho que nos reconheçamos nesse melhor e pior, que aceitemos diferenças em todas as áreas e que apostemos no exercício de nos colocar no lugar dos outros, agora é hora de nos encontrarmos novamente em espaços de solidariedade e cooperação que salve a todos nós com soluções coletivas que não deixem ninguém para trás.

Nati Yesares – Bela Urbana, vive em Barcelona, é formada em ciências ambientais e atualmente é chefe da área ambiental em Solidança, empresa dedicada a economia social. É motivada por tudo que ajude a construir uma sociedade sustentável e justa para todos.

Tradução Gisela Chebabi Abramides

De repente parei pra pensar e me deparei com algo inusitado… A força e o poder do medo!

Foram algumas notícias incertas, alguns dias de algo mais concreto, e pronto! O caos se instaurou, o pânico tomou conta e a tragédia aconteceu.

Fico me perguntando o porquê de alguns seres humanos terem tanto medo de adoecer e morrer, mas não se importam com o sofrimento e morte alheios.

Ao mesmo tempo, tantos outros são dedicados, disponíveis, capazes de uma doação íntegra, com atos ininterruptos de dedicação. E aí fica a questão… O que determina esse comportamento? O que é realmente transformador e faz com que atitudes estúpidas de uns sejam inversamente proporcionais à grandeza da empatia e entrega de outros?

Neste caso agora, o tal “invisível a olho nu”, que tanto estrago tem causado, imagino que mudou comportamentos porque vem apavorando a sensação de finitude gerada.

A vulnerabilidade escondida atrás dos muros da soberba, da ambição, do poder, de repente vem à tona e transforma todos igualmente em seres frágeis.

A capacidade de afetar um mundo gerou um sentimento igualitário… o pânico! E através desse medo incontrolável, a busca por sobrevivência se tornou o denominador comum.

Mas as evidências ainda mostram as diferenças. O sistema deixa de amparar uma classe, isso é injusto! E mortes continuam a acontecer… Os motivos são diversos, tão graves quanto esse. E o que efetivamente está sendo feito?

Também passada a pandemia, algo irá mudar?

Os olhares serão mais generosos? A mão poderá ser estendida para tirar alguém do chão? O abraço será um gesto que salva vidas? Poderemos nos aproximar e nos sentirmos seguros, amparados?

Será utopia?

Mais que isso, é o desejo genuíno de que ocorram mudanças. Mudanças de almas…

Passou da hora de ressignificarmos os olhares, os apertos de mãos, os abraços, os beijos, os valores, as prioridades… enfim, a vida!

Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

Existem muitas histórias e não histórias sobre o que ocorreu. Todas começam da mesma forma. Com amor. Diana amava muito seu marido, querido Ângelo. Querido… Ângelo chegou tarde em casa. Seu bafo fedia a bebida e seu colarinho manchado cheirada a mulher. Diana estava indignada, brava. Estapeou seu marido. Ângelo, bêbado, bateu de volta, só que muito mais forte. Diana caiu, desamparada, bateu a cabeça em uma quina e morreu na hora. Essa é a boa versão.

Na segunda versão, Diana tinha medo. Medo de que Ângelo voltasse pra casa “daquele jeito” mais uma vez. Medo de que novamente ele desse nela uma “lição de quem manda aqui”. Medo de que ela tivesse que precisar usar roupas largas durante mais uns dias para que ninguém pudesse ver as marcas. Medo de que alguém descobrisse depois. O que iriam pensar? Ângelo não fazia por mal, ela dizia pra si mesma. Só batia nela pois a amava, a queria bem. Não é? Diana se matou nessa versão.

Na terceira versão Diana nunca se casou. Ficou pra titia, mas nem ligava muito. Amava seus sobrinhos como seus filhos. Mais até! Mas Carlos, marido de sua irmã a achava uma sem vergonha. Como ousava ela morar sozinha naquela idade! Era uma PUTA! Era o que Carlos dizia a qualquer um que quisesse ouvir. Mulher nenhuma deveria viver daquele jeito. Solteirona, sozinha, e usando umas roupas curtas daquela… Carlos iria dar uma lição nela. E foi o que fez. Um dia, enquanto seus filhos e mulher viajavam, fez uma visita a cunhada. Não cabe a ninguém saber o que aconteceu naquela noite. Mas Diana, nunca mais foi vista, e os rastros de sangue e sinais de abuso eram visíveis em sua casa quando a polícia chegou nessa versão.

Em outra versão Diana não sobreviveu quando seu marido, ou seu namorado, ou seu amigo, ou seu vizinho, ou só um conhecido achou que ela os traia. Diana nunca fez nada de errado. Diana só dormia e sorriu. Sorriu para quem? Só poderia estar de casinho com um cafajeste, seu namorado pensou. Ou era seu marido? Ou conhecido e nem nada mais? Não importa, ela fez algo de errado e claro que deveria PAGAR!

Em outra, Diana tentou terminar, mas seu namorado não aceitou bem.

Em outra ela saiu para festejar, mas o homem na rua não gostou quando a viu.

Em outra Diana…

Em todas as versões Diana morreu. Algumas de forma quase instantânea, em outras com horas de dor. Será mesmo que nenhum vizinho a ouvir gritar por horas a fio? Será mesmo que ninguém se importou? Será mesmo que algum homem verdadeiramente a amou?

Diana era uma objeto, não uma pessoa. Um ser que os outros tomaram posse e fizeram uso do jeito que acharam melhor. Diana era nada. Diana morreu sendo nada. Diana só nunca soube que poderia ter sido alguém. Nunca contaram para Diana que ela ERA alguém.

DIANA ERA ANA BEATRIZ. DIANA ERA AMANDA. ELA ERA JANAINA, THAIS, JESSYKA, ROMILDA, MARY, TAUANE… DIANA JÁ FOI MUITAS PESSOAS, E SERÁ AINDA MAIS SE NADA MUDAR.


Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do terceiro ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

Vamos ser realistas: Fazer com que a corrupção desapareça do Brasil (e da Terra) em uma única eleição é uma ilusão. Quem pensa assim talvez seja infantil demais para entender a complexidade do problema, e saber que há um trabalho intenso de expurgo, eleição a eleição dos velhos caciques e seus herdeiros, que, parceiros de uma mídia conivente, perpetuam as barbáries morais que vivemos.

Vamos ser realistas: Boa parte dos candidatos (principalmente no legislativo) é oportunista. Boa parte mas não todos, por isso há uma solução. Perceba: daqueles ditos “representantes dos revoltados da sociedade apartidária”, maioria saiu candidato em partidos corruptos, como se fosse um teatro armado. Porém, há caminhos de se livrar dessa corja de sacanas: pesquisar, ler, buscar informações verdadeiras para seu voto. Depois da eleição, cobrar e ficar em cima. Sempre foi esse caminho, mas buscamos atalho porque? Pura preguiça e certa visão mágica de que não somos capazes de dominar o processo e mudança. Discurso não faz governo. Discurso fácil menos ainda. É preciso que tomemos atitudes constantes de vigilância.

Vamos ser realistas: Violência não é, senão, falta de investimento em escola e oportunidades econômicas para o povo. Esse papo de que “armar população resolve” é coisa de quem apoia uma indústria bélica americana, que vê riscos de o congresso de lá limitar o acesso da população as armas frente a casos bizarros de “gente de bem” desequilibrada causar mortes gratuitas. Essa industria bélica pode perder mercado interno a uma canetada. Aconteceu o mesmo com a Monsanto, quando a Europa proibiu substâncias tóxicas de seus produtos. Eles vieram a nós e convenceram a bancada ruralista a liberar os mesmos produtos por aqui. Um povo despreparado armado só vai fazer com que bandidos, que detém a vantagem do efeito surpresa, atirar primeiro e roubar depois. Além de fornecer armas mais que de graça a bandidagem, que entrará nas casas dos cidadãos para roubá-las, ao invés de pagar propina a uma cadeia de policiais corruptos nas fronteiras. Sem contar os valentões de plantão…

Vamos ser realistas: A economia não está tão ruim assim e a solução grita aos olhos. Todos nós temos o que resolver se tivéssemos mais dinheiro em mãos. Seja a compra ou a reforma da casa, concerto de algum bem, aquisições de bens e serviços que são postergados, cuidados pessoais e com a saúde etc. Todo mundo tem uma pendência que depende de grana. E isso é um enorme mercado contido, aguardando por uma economia revisada, que faça o dinheiro circular para a mão de quem deveria: o povo.

Época de crise é assim, os donos da grana realizam lucros de seus investimentos e concentram a renda, fornecendo o discurso do medo para cooptar o povo. Mas isso também é, de certa forma burro. Uma economia ativa geraria lucratividade constante e sustentável a qualquer companhia. Lucro gera arrecadação, arrecadação gera mais investimentos e assim por diante, o ciclo torna-se virtuoso. O nome disso é desenvolvimentismo e consiste em uma política econômica que foque não na proteção dos investimentos especulativos (o tal do mercado), mas na produção e circulação dos bens que faltam para atender nossa demanda contida. Fabrica-se, vende-se, gera-se empregos e arrecadação, ponto. Todos sabem disso no fundo. Temos um medo falso que nos faz acreditar em contos de fadas dos megainvestidores, que são minoria.

O tal “mercado” não vota senão por proteger seus lucros. Veja, mercados de armas, de seguros, de escolas, de planos de saúde, tudo o que o estado deveria fornecer por direito constitucional é cooptado por velhos coronéis que associam-se a políticos, a fim de sucatear tais serviços públicos, gerando mais mercado aos coronéis. Esse mecanismo exclui os mais necessitados de uma vida melhor, mais produtiva e mais digna, gerando o caos social que vivemos. Por isso o “mercado’ tem seus candidatos, que fingem ser do povo. Esses barões, quando a “água bater na bunda”, pegarão seus jatinhos rumo ao exterior, olhando a desgraça pela janela. Não são compatriotas, entende?

O povo é quem deveria vota por si. Mas acaba votando por medo em candidatos que não representam a si, acreditando que um mercado em crise, o prejudicará. Um papo furado, que circula em propaganda e noticiário incansavelmente, convencendo os incautos. Quando o povo perde o medo, olha para a realidade e decide com base nela, entende sempre o que é melhor para si e para a nação. É dever de cada um de nós recobrar a consciência e, com coragem, pensar de forma independente.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Foto Crido: Gilguzzo/Ofotografico

Ele perdeu a noção do tempo. Não sabia qual era o dia da semana, o mês, o horário. Tudo isso deixou em uma outra vida, em um certo dia.

O dia que uma dor tão profunda apertou seu peito, maior do que todas as outras que já tinha sentido. Ele sempre sentiu dores fortes, desde criança. A dor de um vazio, como se fosse a queda em um buraco, ele sempre se sentia caindo. As vezes parava e se agarrava em algo, mas não conseguia segurar por muito tempo, logo caia de novo.

Em cada queda a dor aumentava, foi ficando tão grande, mas tão grande, assim como o vazio que sentia. Vazio infinito. Dor crescente.

Tinha sorte, mas não a percebia. Perdia, sempre perdia, não pela falta de sorte, mas pela confusão mental que o VAZIO lhe causava.

Tentou o suicídio três vezes em épocas diferentes, mas não morreu, foi salvo.

Salvo? Ele nunca viu assim, preferia ter ido, mas se achava incompetente até para isso.

Em uma tarde de inverno resolver largar tudo, a madrasta, a namorada, a irmã, o cachorro. Saiu pela porta, não deixou bilhete, não levou roupas, não levou comidas, não levou telefone, nem carteira, nem cartões, nada. Foi embora somente com o VAZIO.

Quanto tempo faz? Ele não sabe, Não sabe mais quem era. Sabe quem é, sabe que vive nas ruas, sabe que mendiga, nem sabe se está na sua cidade ou em outras, já andou tanto, que não sabe nem se já voltou.

A dor acalmou, se sente anestesiado. Nunca mais amou, amar machucava. Nunca mais quis se matar. Nunca mais quis nada. Não sentia nem dor, nem amor.

Uma noite bem tarde, ruas vazias, estava na frente de uma uma loja, com televisores que começaram a acender e mostravam um show de rock de uma banda que ele ouvia e gostava.

Uma lágrima escorreu de seus olhos. Ficou olhando aquilo. Lembrou da dor, lembrou do amor. Lembrou de si. Do vazio. Da queda. Fechou os olhos, pediu perdão. Foi embora, era melhor ser invisível. Não queria ascender.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

 

 

Havia uma criança, vestida em negro.
Ela era o cowboy,
O atirador do desapego.
Era uma criança, vestida em negro,
Senhora do puro ódio,
Da violência e desespero.
Caminhava pela rua totalmente sozinha. Sem um adulto por perto,
Uma alma,
Nadinha.
Sem mãos para segurar,
Sem pessoas para se apegar,
Sem carinho para guardar.
Só uma criança vestida em negro,
Totalmente sozinha e saída de um enterro.
Uma criança vestida em negro,
Saída de sua sina,
Sem nem mesmo vida
E perdida no próprio medo.
Onde que foi parar sua família?
Por que saiu pelas ruas,
Sozinha?
Onde foi parar,
Onde deve estar,
Onde irá ficar,
Pra onde irá levar…
Talvez
Para seu
Lar…
De onde ela veio,
Estará de saco cheio
Morro em seu anseio!
Qual é seu
Meio?
Havia uma criança vestida em negro,
Ela era o cowboy,
O atirador do desapego.
Era era uma criança, vestida em negro,
Senhora do puro ódio,
Da violência e desespero.
Onde está seu pai?
Onde estão seus irmãos?
Onde esta sua mãe!?

O choro em suas mãos…
Onde foi parar?
Onde deve estar?
Onde irá ficar?
Pra onde irá levar?
Terá você…
Um lar?
Pobre criança,
Por quê está a chorar?
Pobre menina, vestida em negro,
Caída no chão
Sozinha e sem emprego.
Pobre menino vestido em negro,
Seria ele o meu filho,
Gritando em desespero?
Havia uma criança vestida em negro…
Havia uma criança vestida em negro…
Havia uma criança perdida em seu medo. Havia ela e o puro desespero.
O sozinho atirador do desapego.
Veio de longe, fugindo de um enterro. Qual seria dela o seu anseio?
Qual o seu meio,
De onde ela veio?
Pobre criança vestida em negro…

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

Essa semana aconteceu algo que me fez pensar sobre ser professor… me deparei com uma foto com algumas professoras que me deram aula na adolescência, alguns daqueles rostos me causaram tristes lembranças… professor deveria ser aquele que acolhe e ensina seus alunos a lutarem em meio a suas dificuldades. Eu era essa aluna com dificuldades de aprendizagem, mas nem sempre no meu caminho escolar encontrei professores com essas preocupações. Infelizmente foram professores que se alegravam em trabalhar com alunos ditos inteligentes, aqueles que nem precisam do professor para aprender. Então questiono, qual a importância desse professor? Professor deveria se alegrar em ensinar independente a quem! Como um médico que cura o doente… mas estar nas mãos de um professor que não se sensibiliza com a necessidade de seu aluno é doloroso, causa danos e muitas vezes podem ser permanentes. Um professor deve sempre ser lembrado que terá em mãos seres humanos em formação, daí tamanha responsabilidade dessa profissão, que é linda!
Mas nesse mesmo caminho tortuoso apareceram outros professores maravilhosos que me entenderam e me levaram a escolher ser professora, e de forma inconsciente naquele momento ( mas consciente mais tarde), escolhi essa profissão exatamente para levar o meu olhar e minha sofrida experiência, para ajudar aqueles pequenos que encontrei em meu caminho com dificuldades muito parecidas com as que tive.
O magistério foi uma escolha que mudou minha vida escolar, me reaprendi, tive professores de olhares sensíveis que me ensinaram a superar-me e a mudar a minha história. Me superei quando fui fazer pedagogia na Unicamp, encontrei novos desafios e novos professores mas nesse momento eu já era outra pessoa, bem mais forte e acreditando em mim, isso era o fruto dos professores competentes que encontrei nessa caminhada!
Quando me tornei professora, já muito diferente e mais madura daquela adolescente que deixou para trás aqueles professores opressores, voltei para trabalhar na mesma escola da adolescência, nesse momento me redefini enquanto pessoa, pois encontrei um novo lugar, de olhar sensível ao aluno e pude colocar o meu amor ali!
O olhar sensível do professor é uma das ferramentas mais importantes para exercer essa profissão. É esse olhar que percebe a dificuldade, que busca caminhos para instrumentalizar o aluno, para que ele possa se superar.
Enfim, esse emaranhado de sentimentos me fez constatar algo que já sabia, o quanto o professor é importante na vida de seus alunos, e quanto ser sensível às dificuldades deles é urgente!
Veja bem, após 30 anos, ao ver a foto com algumas pessoas q me ignoraram nas minhas necessidades (sim é forte dizer isso, mas é verdadeiramente doído) senti indignação!!!!
E então me lembrei de uma reportagem que dizia que somente 2,4% dos jovens hoje escolhem ser professor, eu reflito, diante dos diversos motivos óbvios (falta de reconhecimento, salários baixos, condições de trabalho ruins etc) para os jovens não escolherem essa profissão, também devemos incluir a possível experiência de se depararem com a falta de sensibilidade de alguns professores que não deveriam estar onde estão! Essa falta de identificação com esse profissional também afasta os jovens dessa escolha.
No meu caso consegui usar a experiência negativa para buscar uma mudança para melhor, mas imagino que muitos que desistiram de seus sonhos tenham tido professores insensíveis que colaboraram com o fracasso escolar!

Viviani Raimundo Viégas Barreira –  Bela Urbana, psicopedagoga. Muitos alunos passaram em seu caminho, foram 20 anos de magistério e mais alguns de professora de seus filhos. Sempre teve como objetivo encorajar na dificuldade., buscou ao longo da trajetória o olhar sensível. Hoje é mãe em tempo integral de João Vitor e Milena, continua se sensibilizando e encorajando-os a enfrentarem os obstáculos.

 

Viajandão…

Com minha cara de hippie, meus cabelos longos, sempre vestindo jeans e camiseta, a vida toda me chamaram de maconheiro e viajandão.

O cara que vive viajando.

Pois acordei pensando nisso hoje. Pago um pau pra quem não tem medo do novo, do lugar novo, do desconhecido. Quem viaja sem destino ou sem grana, ou ainda as duas coisas juntas.

Sem falar outra língua, conhecer pessoas do lugar, ruas, casas, onde vai dormir, comer, essas coisas triviais.

Logo pensei na minha filha Nina, que saiu de casa aos 20 anos, foi morar sozinha, começou trabalhar numa grande empresa. Por essa empresa viajava pelo Brasil sem parar. Pegou até um avião da TAM num domingo e ele caiu logo na terça.

Depois de 3 anos mudou pra São Paulo, outra nova empresa, um novo lugar, sem conhecer nada nem ninguém por lá…

Assustador!?!

Passou 7 anos naquela cidade, foi promovida e veio a proposta: se mudar para a Holanda pela mesma empresa e com um ótimo cargo. Foi correndo, ou melhor, voando!

Ela mora lá há mais de 4 anos, trabalha na mesma empresa e viaja loucamente por todos os países da Europa, o tempo todo. Diz que é perto um do outro, pra ela normal, nem aventura é mais, ou será nunca foi.

Admiro ela e outras pessoas que fazem isso, conheço mais algumas que pior que minha filha, foram com a força e a coragem, sem destino e sem grana alguma. Como disse acima, dou o maior valor.

Eu tenho medo! Sempre que vou a algum lugar novo vou tremendo, tentando planejar cada passo, nada pode dar errado!

Daí você me pergunta “como crio”? Como pinto imagens novas o tempo todo com tanto medo?

E te respondo com clareza e coragem: a imaginação é minha casa, meus papéis, telas e tintas minhas viagens, nasci com o passaporte da criatividade. Nelas me sinto seguro, sempre!

Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

Desde criança sempre fui fanzão de Jesus, meus pais muito católicos nos obrigavam a ir na igreja, porém eu achava enfadonho e falso todo aquele mise-en-scène dos padres, sentia fazendo mímicas que vinham sendo repetidas através dos séculos.

O tempo passou mas nem por isso deixei de ser fanzão de Jesus, a vida me ajudou, e mesmo sendo eu um Artista de Teatro consegui juntar o “Sagrado dinheirinho” para conhecer a terra de meu Ídolo. Passei uns cinco meses sem dormir direito, só vendo fotos, lendo matérias sobre quem já havia viajado a Israel, tinha medo e curiosidade ao mesmo tempo, mas todo mundo falava nas matérias que Israel é um país extremamente seguro, eu acreditei e lá fui conhecer a terra de Jesus.

Chegando lá entendi porque Israel é seguro, levei uma GERAL e fui sabatinado na imigração de maneira incisiva, eles encasquetaram porque eu estava lá sozinho (alias não estava, estava com DEUS) e fizeram um milhão de perguntas, mais de um policial da imigração o fizera, e para piorar tudo o que eu falava só poderia ser comprovado com os documentos que estavam na minha mala, que detalhe, não estava comigo porque a esteira é depois da Imigração, na volta fui entender porque eles pegaram no meu pé, eu ao tempo todo no meu parco e porque não dizer “POOR” english dizia que estava lá pra conhecer os SANTOS CAMINHOS DE JESUS, repeti isso várias vezes, e depois descobri que embora lá seja um pais que recebe turistas Judeus, Católicos e Muçulmanos, os Judeus que são maioria, não são AFEITOS com quem é fanzão de Jesus como eu, isso senti na viagem toda. Mas lá estávamos Eu, Jesus e DEUS, na terra do Pai, do Filho e do Fã.

Gente no ótimo português: é de Passar mal !!! A minha visão de Deus e Jesus não é a da igreja católica que tanto me traumatizara, mas de um cara que veio ao mundo pra ensinar, tudo dentro de uma simplicidade muito grande, fui a todos os locais que Jesus passara, e os que mais me chamavam atenção e me fazia sentir meu Ídolo eram os mais simples, outra coisa que me chocou era que você chegava a locais como Nazaré e via uma cidade moderníssima e do lado a parte antiga do tempo de Jesus, todas elas eram assim, sempre o lado INTERNET, e o lado deserto de rípio, aliás me choquei com o deserto que não é formado de areia, que era assim que eu imaginava Jesus andando por ele.

Três foram os melhores momentos, quando fui a Cafarnaum, Jerusalém e Belém. Jerusalém é a consagração da viagem, é muito LOUCO aquelas muralhas gigantescas, portões gigantes, gente de TODO MUNDO, e vielas, becos sem fim, da a sensação que você não vai sair dali nunca, de tanta rua pequenina. Sem mapa ninguém anda lá não, até de GPS me perdi, mas algo estava errado… uma curiosidade, o Google MAPS não acha Belém de jeito nenhum, apelei para o WAZE, que detalhe é de ISRAEL, porém quando você cria a rota, aparece em VERMELHO, esse local é de RISCO, meu amigo me deu medo e não entendia porque, porém ao me dirigir pra lá entendi, não há sinalização de Jerusalém para Belém, e quando você chega em Belém o WAZE começa e manda sinais em vermelho dizendo que lá é uma zona de risco, para completar você começa a ver soldados armados até os dentes e com cara de poucos amigos, mas eu estava lá, lá onde meu Ídolo nascera, mas algo estava errado….

Continuei minha viagem programada pra dez dias, é obrigatório ir ao mar morto, lá você vê em todos lugares, beba muita água e não afunde a cabeça na água … fiz tudo ao contrário, sou teimoso, e confesso que me arrependi de ter afundado a cabeça, imaginem a ardência da água do mar vezes 100 nos olhos, mas fiquei por ali aguentando na raça pra não passar vergonha de ser teimoso. Uma coisa que também me chamou a atenção, eu estava sem agencia sem guia, loquei um carro criei meu roteiro e fiz tudo por mim, eu ia a locais e ficava por horas me deleitando com o espaço, sentindo emoções e via aqueles montes de pessoas com guias passando segundos, nos locais a quilômetros deles e eu tive a honra de ser visto dentro do palácio de Herodes, isso mesmo, os turistas guiados a uns 100 metros do palácio e eu lá com meu carrinho do lado e dando uns “Rolês” dentro do palácio. Uma curiosidade as agencias dizem que em dez dias em Israel você não conhece nada, eu resolvi tudo em quatro dias, essa é a vantagem de você ter um carro é escolher o que vai fazer.

Tel Aviv é sem graça, me senti em Copacabana, tudo infinitamente caro e você só vê a modernidade de Israel lá, existe Haifa a parte antiga, mas não se compara com as cidades menores, não era isso que eu procurava, eu estava lá pelo meu amigo Jesus. Eis que chega o grande dia a ida a Cafarnaum, algo me dizia que lá seria especial, e foi, é a menor cidade que se pode associar a Jesus, é uma gracinha e o mais legal esta na frente do mar da Galiléia. Quando sentei embaixo de umas árvores em formato de círculo e olhei pra casa de Pedro e o mar da Galiléia, veio o sentido da viagem, senti um calor no corpo e na alma, uma vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo e me senti abraçado pelo meu ídolo amigo e irmão Jesus, chorei meu povo feito menino !!! Era Jesus do jeito que eu sempre pensei, simples, pequenino, humilde como Cafarnaum, ali tinha valido a viagem e entendi o que estava “ERRADO” em Belém e em Jerusalém, os Judeus após a vida e morte de Jesus não queriam perpetuar a história dele, muito fora destruído, até a própria Jerusalém, na gruta da natividade você é tratado com truculência e não pode meditar no que seria o local do nascimento de Jesus, e quando se fica diante dele você tem certeza que não é lá, Jesus não era o comércio de souvenirs, não era a pompa das igrejas, Jesus era o homem que andava no deserto e que nada tinha além das vestes e da humildade.

Depois de Cafarnaum entendi o porque de tantas perguntas na imigração. Porém, em todo os lugares que você vá, é muito bem tratado pelos Judeus que são educadíssimos e falam muito bem inglês, só eu quem não. É maravilhoso ir a Israel mas fiquem bem longes da parte GLAMOUR TURISTICO , lá o meu amigo e Ídolo não está.

Hugo Vidal – Belo Urbano, é jornalista, ator e diretor há 29 anos, gosta muito de descobrir novas paisagens rodando com sua moto, aliás uma de suas paixões é o motociclimo. 

É à noite que as horas se prolongam
E se esticam que nem garça para fazer caber os silêncios.
Nas noites insones adormeço meus vazios
E acomodo as minhas imensidões.
À noite, quando tempo não passa,
É que passeiam os receios,
As incertezas, devaneios,
O turbilhão de nós mesmos.
E enquanto tudo adormece,
O sono desobedece,
E os medos ensaiam danças.
Mas é também à noite, quando o dormir não chega,
Que sonhos brincam de esconde-esconde,
Que o escuro e a quietude fazem tranças.
Há uma beleza incerta no sono que foge,
Há uma calma escondida na pressa do sono em fuga.
O silêncio noturno que acorda os tormentos
É o mesmo que desperta lindas saudades
E flores de pensamentos.
É que noite acordada tem cheiro de lua,
E segredos de vaga-lume.
Esperar pela manhã é quase é um exercício de poesia.
Ah, não devemos temer as noites.
Não, não devemos temê-las.
Nas noites moram as insônias
mas também moram as estrelas…

Alda Nilma de Miranda – Bela Urbana, publicitária, autora da coleção infantil “Tem planta que virou bicho!” e mais 03 livros saindo do forno. Gosta de tudo que envolve tinta e papel: ler, desenhar e escrever, mas o que gosta mesmo é de inventar motivos para reunir gente querida. Afinal, tem coisa melhor que usar o tempo para estar com os amigos?

(poesia premiada – Prêmio Literário Acrisio de Camargo 2017- 2o lugar-categoria poesia)