– Moça, a senhora é escritora?

A pergunta veio de duas crianças. Um garoto e uma garota.  Menino, o porta voz.

– Por que vocês acham?

– Você tá aí quietinha. Olhando e anotando. Os outros turistas estão almoçando e comprando.  Sente fome não?

Risos.

– Sinto fome sim. E que doce vocês tão vendendo?

Disseram num unísono de boca cheia: – Cacau e chocolate da terra! E é muito bom! ( espanto – a menina sabia falar).

O menino continuou:  – A outra mulher ali, aquela senhora branca que acho que é de São Paulo, só queria experimentar sem pagar. Eu disse não. Tem que  pagar pra modo de abrir o pacote. Ela pagou. Comeu e não gostou. Queria o dinheiro de volta! Falou que era direito de consumidor!

– E você deu o dinheiro de volta?

– Dei não. Ela nos devolveu o doce. Você acha que se tivesse ruim estaríamos comendo ele? Tava não!

– Acho também não.

Riram de gosto.

– E moça, você não respondeu. Você é escritora?

– Não propriamente. Na idade de vocês,  sonhava em ser. E vocês, o que sonham ser quando crescerem?

– Quero ser fuzileiro naval!

Olhei para a menina. Que de nada perguntava e pouco respondia. Tinha um pé com havaianas,  outro descalço e machucado. Espécie diferente de Emília nos sapatos trocados. Muda, como a boneca de pano antes de tomar as pílulas do Doutor Caramujo.

– E você, o que sonha em ser quando crescer?

Ela me olhou. Sorriso tímido e açucarado. Olhos verdes e pele escura. Eu e as crianças três tons frutos do projeto de eugenia brasileiro. Antes dela verbalmente se manifestar, ele recomeçou a falar.

– Moça, ela não pensa nestas coisas não. E sabia que ela magoou o pé ali na praia. Pisou numa pedra e o chinelo escapou (…).

Liliane Messias – Bela Urbana, é pagadora de profissional: bancária. Cresceu na hoje vacinada cidade de Serrana-SP. Fez Letras em Araraquara. E adora dançar.

Quando a gente tem filhos, passamos por situações que nunca imaginamos, não vc é?

Algumas tiramos de letra, outras levamos pra vida… mas o certo é que essa coisa de ser mãe não vem com manual ( que pena…).

A gente tenta fazer o melhor sempre, lutamos para dar uma boa educação, formar pessoas melhores para esse mundão, mas como saber se eles nos escutam, se estamos no caminho?

Difícil…

Um dia, há alguns anos atrás, estávamos eu e meu filho mais velho numa sala de espera de um pediatra. Na época morávamos em Manaus e ele estava com uns quatro anos de idade mais ou menos e o atendimento era no esquema de plantão e por ordem de chegada mesmo a gente tendo convênio…dito isso, sala cheia, nem me lembro o por que de estarmos lá, mas…

Meu filho sentadinho ao meu lado, a gente conversando, brincando de para ou ímpar em meio ao caos de crianças gritando, correndo e subindo e descendo de cadeiras…

De repente vem uma pergunta: – Mãe, pode jogar papel no chão?

Eu nem pensei e já respondi que não, que era feio e que para isso existiam lixos ou caso não achasse um lixo que leva-se o papel para ser jogado em casa…sempre ensinei isso.

Aí ele olha para o lado e diz em alto e bom som: – Então porque ele (aponta para um menino mais ou menos da mesma idade) acabou de jogar aquele papel ali ?

Olhei para o menino , olhei para um papel todo melado de sorvete jogado no chão…pensei em dar uma desculpa qualquer para não constranger a mãe…mas pensei: – … sempre ensinei isso e nunca tive certeza se ele estava me escutando… não vou “passar pano” pra ninguém e confundir a cabeça do meu filho com algo que ele não está errado em questionar. Em um átimo de segundos, resolvi, mesmo correndo o risco de um bate boca, confirmar o que achava certo. Olhei para mãe, meio que pedi desculpas com o olhar e soltei: – Talvez a mamãe dele não tenha ensinado ou talvez ele ainda não tenha aprendido.

Levantei, peguei o papel e joguei no lixo sabendo que essa lição meu filho tinha aprendido e até hoje sei que ele continua procurando um lixo ou trazendo para jogar em casa respeitando os espaços públicos ou não.

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr em São José do Campos – SP.

Fotos Taine Cardoso Fotografia


No texto poético “Morte e vida severina”, o escritor João Cabral de Melo Neto narra a história de um sertanejo, retratado como “Severino”, que deixa sua terra natal por causa da seca. O retirante sai em busca de vida, sai em busca de algo que lhe dê esperança. 

Na caminhada encontra um lugar de boa vegetação e trabalho. Por um momento, o cidadão pensa ter encontrado o que tanto buscava. No entanto, ele se depara com a morte de um dos trabalhadores e as marcas registradas no sofrimento de quem lá vive se aflora de tal forma que o retirante percebe que aquele não é o lugar que ele tanto buscava. Então, ele decidi continuar sua jornada em busca de esperança.

O sertanejo desejoso por vida chega até a capital e se choca com as mazelas do centro urbano. A condição de sobrevivência sub-humana continua e com isso o Severino fica totalmente desesperançado. Todavia, algo promissor acontece: o nascimento de uma criança. 

No final do texto, o Severino conversa com um carpinteiro sobre a descrença na vida. Sabiamente, o carpinteiro respondeu que “defender a vida em palavras é difícil, pra não dizer impossível”. O Severino pergunta: “Vale a pena viver?”. O carpinteiro diz que resposta para essa pergunta é dada pelo próprio espetáculo da vida, não importando se o espetáculo será o nascimento de mais um ser para viver essa vida severina. E “não há melhor resposta que o espetáculo da vida”. 

O poema “Morte e vida severina” foi escrito em 1950. 

Vida severina – vida sofrida.

O ano de 2020 apresentou um sofrimento a todos nós e escancarou a fragilidade da existência humana. Não saímos de casa, literalmente. Em compensação, figuradamente, saímos em busca de algo interior. Vasculhamos memórias. Rememoramos muitos momentos e nos questionamos como o Severino.

A minha resposta para 2020 é:

O movimento da vida faz a gente incessantemente buscar “vida” e não apenas “existência”. 

O nascimento renova a esperança e anuncia uma boa-nova.

Que não nos falte a esperança … porque um menino nasceu. É natal!

 Feliz Natal!

Miriam Camelo de Assis – Bela Urbana, alguém sendo constantemente reformada pelas palavras. Formada em administração e letras. É professora de língua portuguesa por profissão e paixão. Ama artesanato e uma boa conversa.

Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Tivemos a mais linda história de amor. Nos conhecemos naquela véspera de ano novo, na praia, em 31 de dezembro de 2018. Nosso primeiro beijo foi à meia noite. Foi mágico.

Logo, você me pediu em namoro. Disse que estava apaixonado, que queria conhecer minha família e fazer parte de cada detalhe da minha vida.

No meu aniversário, em fevereiro, você apareceu na porta da minha casa com um buquê de rosas vermelhas, todos os ingredientes para um risoto e uma garrafa de vinho tinto. Você fez tudo, e nunca, nenhum homem tinha feito uma surpresa assim pra mim.

Aos domingos, íamos à casa de meus pais para o café da manhã. Lá, você jogava vídeo game com o Carlinhos, meu irmão mais novo. Conversava sobre política com meu pai, e insistia em lavar a louça para minha mãe.

Você disse que sentia falta de uma família assim na sua vida. Me disse que cresceu sem pai e com mãe ausente, e que eu e minha família éramos tudo que você tinha ali. Nós te acolhemos, e você soube nos cativar.

Depois de alguns meses, nos casamos. Fizemos uma pequena cerimônia e um churrasco de almoço com minha família e poucos amigos, meus e seus. No fim, eu nunca conheci sua mãe.

Em seus votos, você me disse que eu era a mulher da sua vida, aquela para ser mãe de seus filhos, e a quem você gostaria de envelhecer juntinho, segurando entre mãos enrugadas e macias de tantas histórias, nossas canecas amarelas com chá de hortelã, o nosso favorito.

Nos mudamos para meu apartamento logo após o casamento. Não tivemos lua de mel, pois a situação financeira não era das melhores. Mas isso não importava pra gente, nosso amor era maior que tudo.

Pouco tempo depois, engravidei. Era nosso sonho se tornando real! Foi aí que você me disse que não fazia mais sentido eu trabalhar fora, afinal, eu estava grávida, e quem cuidaria do bebê depois que nascesse? Eu tinha acabado de receber uma promoção no meu trabalho. Eu trabalhava no RH de uma pequena empresa, e gostava muito de lá, mas mesmo assim entendi que sua ideia fazia mais sentido, pois então eu poderia descansar mais na gravidez, e focar na limpeza da casa, no enxoval do bebê e na cozinha, afinal isso eram afazeres de mulheres. (palavras suas, não minhas). Acatei, pois enxerguei ali um cuidado que você queria ter comigo e com nosso filho.

Decidimos ainda não contar a ninguém sobre a gravidez, afinal estava no começo né? Antes eu tivesse falado.

Descobri no médico que eu tinha que tomar algumas precauções com a vinda do nosso filho. Era uma gravidez de baixo risco, mas ainda assim de risco.

Quando minhas amigas me chamavam pra sair, no começo, você pedia pra eu ficar te fazendo companhia, porque tava sempre com saudades. Depois que eu engravidei me disse que agora éramos uma família e não pegaria bem eu ficar andando com um bando de meninas solteiras por aí. Até achei isso bonitinho sabe? Esse seu cuidado comigo. Então um dia, minhas amigas finalmente se cansaram de mim.

Você começou a reclamar que eu estava gastando demais com comida, com o enxoval do bebê e disse que começaria a fazer hora extra no trabalho. Me imaginei tricotando pra fora para ter alguma renda, o que já era um sonho meu, mas você disse que não. Que eu devia focar na gravidez, na limpeza da casa, nas nossas refeições. Tudo bem então.

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Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Você passou a chegar cada vez mais tarde em casa. Disse que era o trabalho, o chefe. Mas comecei a sentir seu hálito de álcool. Um dia que você chegou bêbado e foi direto pra cama, encontrei marcas de batom vermelho pelo seu corpo. Clichê né? Aquilo doeu, como se uma faca tivesse pulsado em meu coração.

Guardei pra mim. Chorei no banho. E a vida continuou. Entendi que aquilo era sua maneira de escapar, afinal não podíamos transar por causa da gravidez de risco que eu tinha, e por isso você teve que buscar isso fora de casa. Eu compreendi depois de um tempo e aceitei. Era temporário, e eu sempre seria aquela que você amaria. Com as outras era só sexo. Tudo bem então.

Noitadas esporádicas se tornaram rotina, e o cheiro de álcool impregnava o quarto. Era cada vez mais difícil te entender e sentir aquele cheiro sem ir vomitar no banheiro. Não sei mais se eu vomitava pelo enjoo da gravidez, ou pela mágoa do que você estava fazendo comigo. Ainda assim, decidi ficar quieta. Eu não queria brigar com você. Eu ainda te amava, e você era o pai do filho que eu carregava no ventre. Não te contei, mas era um menino.

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Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Uma noite você chegou pior do que das outras. Chegou quebrando tudo. Estava muito nervoso. Você gritava comigo. Disse que não tinha comido nenhuma puta naquela noite, e então só restava eu. Eu disse que não, te implorei, disse que ia perder o bebê. Você nem me ouviu. Me jogou no chão, e com uma faca em meu pescoço me obrigou a ficar de quatro. Você me machucou. Machucou meu corpo, machucou minha alma, e me largou ali no chão como se eu fosse um nada pra você. Eu perdi o nosso filho naquela noite.

Desde então, a vida perdeu o sentido para mim. Nada mais me importava. Você chegava em casa e me batia. Um dia era porque o jantar não estava na mesa, o outro era porque o arroz estava muito salgado. Você me batia, pois dizia que eu era a responsável por ter perdido o nosso filho. Você me estuprava porque dizia que eu tinha obrigação de engravidar de novo.

Eu não resistia. Eu tinha vergonha. Eu tinha culpa do que tinha feito com a gente, do que tinha feito com a minha vida. Na verdade, eu nem sei o que eu tinha feito. Eu me escondia dos vizinhos, e da minha própria família. A cada final de semana, inventava uma desculpa. Dizia que estávamos sempre a viajar. Até que minha mãe descobriu.

Ela bateu na porta de casa um dia, e me encontrou. Marcas roxas pelo corpo, rosto esfolado. Eu já não era mais eu há muito tempo.

Ela quis me levar embora, mas eu não fui. Eu já tinha tudo planejado.

Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Desculpa mãe, desculpa pai, desculpa Carlinhos por não ter sido a filha e irmã forte que vocês queriam que eu tivesse sido. Perdão por ter me tornado cega de amor. Perdão por não ter escutado a vocês enquanto era tempo.

Esta manta é a lembrança do neto que vocês nunca chegaram a saber que existiu. Não contei a vocês, mas era um menino. Ela é azul, assim como a minha manta de quando eu era bebê.

Agora é tarde, e eu já não consigo mais viver com a culpa do que aconteceu na minha vida. Eu o matei. O matei por ter me tirado a alma, e ter me deixado só com o corpo. O matei por ter tirado à força de mim meu bem mais amado. O matei pelas tantas outras mulheres que descobri depois que ele violentou e enganou.

Não quero que chorem, pois estarei melhor pra onde quer que eu vá.

E eu me vou despida de bens, despida de amor, despida de medo, com o alívio de não ter que viver mais essa vida. Eu o matei a punhaladas, e cada punhalada foi por uma mulher que ele fez sofrer. Foram dez.

Ariela Maier – Bela urbanas, uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Menino veste azul e menina veste rosa… e quem veste humanidade? Respeito? Educação? Carinho? Ternura? Que cores determinam o cuidado que podemos e devemos ter com o outro?

Esse papo me fez pensar em duas questões pra mim muito caras. Primeiro me lembrou “bandeiras antigas”, que no caso eram (ainda são e é preciso que continuem) sendo levantadas por minorias, como as mulheres por exemplo, buscando voz, o voto, o direito de escrever, de se expressar… Depois me fez pensar em masculinidades “construídas” permeadas por violência, força, disputa… As duas questões determinadas por questões de gênero.

Falando especificamente sobre a diferença entre meninos e meninas, o gênero talvez seja umas das primeiras diferenciações sociais que as crianças percebem, afinal são expostas a modelos, a papéis sociais desenvolvidos pelas pessoas com as quais convivem. É e nesse momento em que começam as limitações do que “é de menino” e o que “é de menina”. Uma limitação construída e incentivada socialmente. Que fique claro que estamos falando de crianças, sendo assim, não falamos sobre opção sexual, afetiva ou algo do tipo e sim de sonhos, de brinquedos, de brincadeiras, de profissões, de lugares, que eles aprendem desde cedo que podem ou não ocupar…

Quando eu penso em um grupo de crianças vivendo os seus processos educativos, a escola/educação, ainda que com todas as suas questões (estruturais, valorização dos profissionais, adaptação de currículos…) ainda me vem à cabeça como um espaço de convivência ímpar. Lá, meninas e meninos, crianças, encontram seus pares, seus diferentes e iguais ao mesmo tempo. E a dinâmica de se relacionar nesse espaço, apesar de muitas vezes trabalhosa, é extremamente potente no que diz respeito ao olhar para a igualdade.

Tem uma frase do Boaventura de Souza que diz que “…temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”. E pra mim, isso quer dizer que temos o dever de mostrar para as crianças que a singularidade delas as torna especiais e que ainda que sejamos todos diferentes, podemos ser iguais nos nossos sonhos, desejos e planos – meninos ou meninas, ou como se sentirem. Meninos e meninas… crianças vestem sonhos!


Michelle Felippe – Bela Urbana, professora por convicção e teimosa. Apaixonada por doces, cinema, poesia urbana e astrologia. Acredita que ainda vai aprender a levar a vida com a mesma leveza e impetuosidade das crianças.

Um soldado
só é soldado quando luta.
Antes disso,
ele é só um menino,
sem andar,
sem falar,
uma criança que brinca de adulto.
Quando batalha
as pessoas o veem como um homem.
Vejam lá!
Vejam como ele é belo em seu caminhar!
As mães ficam com medo por ele,
mas elas tem muito orgulho.
Elas veem seu bebê
agora como um homem.
O que elas não veem é seu olhar
terror durante a guerra.
Os sons estranhos e distantes.
Explosões, tiros e mortes.
Mortes dele,
só um menino.

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

Ipê roxo
amarelo
Ipê amarelo
estrada longa
verde mata
Atlântica
Colorida paisagem
fique assim
verde selvagem
reggae nativo
lirio branco
solta o som
amizade
Povo bom
da peste
da ribeira
contraste
sonhar:
Deixa o menino jogar.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Foto Crido: Gilguzzo/Ofotografico

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Vou começar contando um flagrante da vida real. Há alguns anos, um belo sábado, depois de ter trabalhado a semana inteira, e acordando com a casa suja e desarrumada de uma semana sem cuidados, olhei para o companheiro de jornada, que na época estava desocupado, dei uma resmungada e comecei a faxinar. Reclamei sim, porque não acho justo. E ouço a pérola:

– Não tenho culpa se desde que o mundo é mundo, as mulheres cuidam disso…

Respiro fundo… (Senhor, dai me paciência, porque se der força, eu bato!!).

– Amigo, desde que o mundo é mundo, os MAIS APTOS saem pra caçar e colocar comida na mesa, e os MENOS APTOS, ficam na caverna, mantendo-a limpa, livre de pragas e aquecida!! Não tenho culpa se as aptidões necessárias hoje são diferentes e quem sai pra caçar sou eu. Portanto, ajude a manter essa caverna em ordem, por favor!!!!

Essa história me leva aos rótulos, que são tantos que encaramos no nosso dia a dia, e nesse caso especificamente, o que é ‘de menina’ e o que ‘é de menino’. E como isso vira feminismo e machismo. E como precisamos nos apegar a grupos de códigos préestabelecidos, ou melhor, preconceitos!

E quantas vezes me peguei pensando: E SE TODOS NÓS NOS TRATÁSSEMOS SIMPLESMENTE COMO PESSOAS??? E se a regra fosse o PESSOALISMO?

Nem mulher, nem homem, nem jovem, adulto ou velho, nem chefe ou subordinado, nem alto ou baixo, nem gordo ou magro, nem branco ou negro, nem budista, católico, umbandista ou qualquer outra das milhares de religiões que existem no mundo. E a história das gerações então? Baby boomers, X, Y, millenials… dos rótulos criados pelos serumaninhos, esse só não é pior que o de gêneros.

Porque temos tanta dificuldade em ver simplesmente uma pessoa, em sua individualidade, com suas características tão singulares, quando nos encontramos com alguém?

A resposta vem das cavernas… o mais apto é o mais forte, e consegue impor suas vontades, suas regras. Nem que seja à força… E algumas pessoas sentem certo conforto em serem vítimas! Afinal, algumas pessoas preferem responsabilizar os outros por suas mazelas, do que assumir as rédeas da própria vida.

Na religião, se não houver o domínio dos sacerdotes, como domar o rebanho? A resposta está em acreditar e incentivar o bem dentro de cada pessoa!

Na família, se o mais velho não impuser as regras e os limites, como fazer a família andar na linha? A resposta está na missão de criar pessoas boas!

No trabalho, se não houver chefe e subordinado, como fazer com que cada um cumpra suas tarefas e atinjam os objetivos da organização? A resposta está em como motivar as pessoas!

Mas ainda assim, mesmo que a hierarquia seja em algum momento necessária, e de modo geral as pessoas precisem de uma liderança, a opressão, a imposição, o domínio, ou mesmo a doutrinação, não deveriam acontecer. Acontecem quando os interesses não estão nas pessoas, e sim na ganância, nos bens, e no próprio sentimento de domínio.

Mas certamente não aconteceriam se em nossas interações com os outros, em qualquer meio, víssemos o que elas são em sua essência. Pessoas… como eu e como você!

Foto TOVE

Tove Dahlström – Belas Urbana, é mãe, avó, namorada, ex-mulher, ex-namorada, sogra, e administradora de empresas que atua como coordenadora de marketing numa empresa de embalagens. Finlandesa, morando no Brasil desde criança, é uma menina Dahlström… o que dispensa maiores explicações. Na profissão, tem paixão pelo mundo das embalagens e dos cosméticos, e além da curiosidade sobre mercado, tendencias de consumo, etc., enfrenta os desafios mais clichês do mundo corporativo, mas só quem está passando entende.

 

 

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“É de conhecimento comum que em 1970 mudou-se para o Brasil uma família, vinda de um país distante, ao norte do mundo, a Finlândia.”

O primogênito da família, cruzar a linha do Equador contava 17 anos.

Mas voltemos mais um pouco no tempo para o final da década de 50.

Considerado hiperativo por alguns, o comportamento do menino foi extremamente mal compreendido.

Ainda no berço, embora não permanecesse nele por muito tempo, conseguia montar e desmontar qualquer item ao seu alcance, incluindo o berço. Nenhum quebra-cabeça era difícil para ele e um cubo de Rubik (cubo mágico) era resolvido antes de você conseguir dizer “oi”. Detestava limites e entendia o funcionamento de qualquer mecanismo, o que lhe facilitava a fuga.

Objetos que, por ventura, passassem por ele, eram imediatamente dissecados e em seguida remontados com uma tecnologia mais avançada. Disso resultava que um carrinho de brinquedo, aparentemente despedaçado poderia ser apenas o estágio inicial de uma câmera fotográfica digital e de um rádio desmontado surgia o protótipo do forno microondas.

Só dava descanso aos pais enquanto dormia. Isso acontecia umas duas horas por noite e nunca de dia… Afinal, se há tanto para descobrir, por que perder tempo?

Um pouco mais tarde, na década de 70, seu quarto foi por ele transformado em laboratório fotográfico e o porão da casa em boate com som de alta tecnologia.

Autodidata, em tenra idade já falava fluentemente pelo menos três línguas e, além de escrever manuais de eletrônica, montou uma estação de rádio-transmissão capaz de alcançar as mais longínquas regiões do mundo. Também sabia explicar toda a lei de Murphy, pela ótica da física, ou seja, o motivo pelo qual a fatia de pão sempre cai com a manteiga para baixo.

Apesar dessa genialidade a família sentiu a necessidade de um ensino formal. De modo que ele, com toda a paciência que não lhe foi dada, precisava prestar atenção em horas e horas de aulas… Enfim, formou-se…

A nova geração de crianças da família puxou da geração que a antecedeu a genialidade, força e determinação, a capacidade de se interessar pelo funcionamento de objetos (como agulhas de toca-discos e outros artigos com mecanismo), mesmo que isso custasse a vida do objeto em questão e claro, foram também mal compreendidos. É pena que ainda se confunda curiosidade com bisbilhotice e busca de conhecimento com hiperatividade, traquinagem e teimosia.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.