“O que tiver que ser será!” “Nada é por acaso!” ” É o destino!” ” Está escrito!” “Maktub.” E por aí vai…

Mas alguém pode me explicar o que aconteceu comigo ontem?

Fui almoçar com minha querida amiga no chinês. Acabamos de almoçar e fomos ler as mensagens dos biscoitinhos da sorte, já que comer o biscoito é um mero detalhe! Evidentemente, almoçamos, desembrulhamos os biscoitos e os quebramos sem interromper nossa conversa (incrível como falamos de boca cheia sem perder a elegância!). Quando quebrei meu biscoito fiquei atônita! Não havia nada dentro dele! Imediatamente interrompemos o assunto e minha querida amiga caiu na gargalhada!

Como assim, sem mensagem? Poderia vir faltando o biscoito, não a mensagem! Aliás, o dito cujo se chama “biscoito da sorte” porque a mensagem revela a sorte de quem comê-lo!

Ameacei reclamar no restaurante, mas desisti. Confesso que achei um tanto quanto ridícula a reclamação: “Moço, meu biscoito veio vazio! Quero outro, mas exijo a mensagem!”

Ela ainda gargalhava da situação quando uma funcionária do shopping, ao tentar passar pelo estreito espaço entre duas mesas, quase derrubou uma bandeja com pratos sujos na minha cabeça. Aliás, na mesa ao lado, um garoto empurrou tanto sua cadeira que quase cai da minha.

Então pensei: isso só pode ser falta de sorte! Alguém já comeu um biscoito da sorte sem mensagem? Se tiver mais alguém podemos abrir uma comunidade “Eu comi um biscoito da sorte vazio”.

Mas sendo eu uma otimista irrecuperável que além de ser filha de um operário militante de esquerda, nasceu numa sexta-feira 13 , é professora, socióloga, mãe de 3 filhos, vê graça em tudo e fala até enquanto dorme, tirei outra conclusão.

Eu sou a única pessoa que eu conheço que já comeu um biscoito da sorte sem mensagem! Só pode ser sorte! Melhor um biscoito vazio do que uma mensagem que deixasse um certo ar de pessimismo ou negatividade no ar! Melhor a bandeja com o prato vazio quase cair na minha cabeça do que um prato cheio cair, de fato, não é mesmo?

Quanto ao garoto que quase me fez cair da cadeira… Bem, isso não foi falta de sorte, foi falta de educação mesmo! E sendo bem otimista, sorte a dele que eu estava preocupada com o biscoito, senão…

E assim sigo eu me espelhando em Lygia Fagundes Telles: “Maturidade não é discernir o bom do ruim, mas sim, tentar ver o bom em tudo aquilo que parece ser ruim”.

Denise Alcântara – Bela Urbana, socióloga e professora, pessoa livre nas ideias, no pensamento e nas atitudes. Minhas inquietações me mobilizam e motivam o meu aprendizado constante.

O mês de agosto chegou anunciando mudanças. Trouxe para mim, além do vento, uma carga de energia pulsante sobre minha cabeça e meu corpo. Tudo era muito denso e ao mesmo tempo ecos de pedidos de socorro soavam em meus ouvidos. Logo eu, que me vejo assim em fragmentos e tantas vezes recorro ao escudo da coragem, sou agora destinatária de alguém que pede a mim um alívio, um refúgio.

Uma missão.

Pois bem, como nada é por acaso nesta vida, estava agora diante do apelo de alguém especial. Sabe o que é não ter e ter que ter pra dar? Eu achava que não tinha nada e quando vi, eu era um tudo que faria um bem. Eu era colo, eu era escuta, eu era um leito suave e cheiroso.

O que posso fazer? Por que eu? Não cabe respostas, apenas gratidão por esse momento ímpar que vivi naquele dia. Difícil explicar a sensação mágica que tomou conta de mim.

Mas minha missão não terminaria ali. Outros alguéns, cada um ocupando um lugar na minha régua de afetos, cruzaram meu caminho. Mais uma vez eu pude entregar e receber sem nada pedir.

Quando imaginei que tivesse terminado, doado de mim todo o esperado e  desprendido minha energia mais pura, eis que aparece Pedro (nome fictício), trazido pelo vento de uma fria noite de agosto. Um cuidador de carros com uma história nada simples.

Pedro, um cara jovem, negro, trinta e poucos anos se aproxima e pede 10 reais como recompensa por ter olhado o carro, enquanto eu me divertia tentando me livrar da carga de uma pesada semana. Como não tinha um centavo, começamos a bater um papo. E foi ali que novamente aquela energia retornou e me vi diante de um novo apelo.

Pedro começou sua história, nada simples, dizendo ter 5 filhos. – Todos homens! (falou isso com um certo orgulho!) e de três mulheres diferentes! Com um ar de indignação ele logo soltou: – Duas dessas mulheres estão na justiça brigando por pensão. Como eu faço? Você precisa ver como o mais novo é “parrudinho”!, disse Pedro com um sorriso entre os dentes.

Pedro não tinha emprego. Pedro não terminou o segundo grau. Pedro, além de pai de 5 filhos ficou 15 anos preso na Penitenciária de Presidente Venceslau. Motivo: tráfico e assalto a banco. Não posso negar que nesse momento me bateu uma vontade louca de sair correndo. Medo! Estava conversando com alguém que oferecia riscos?

Mas Pedro tinha uma necessidade enorme em contar sua vida e esperava desesperadamente por conselhos positivos. Dava pra sentir em seus olhos. Ele ouvia cada palavra minha com atenção… respirava, pensava, concordava, às vezes desistia logo em seguida dizendo que não daria certo e que seu fim era voltar pra aquele lugar obscuro e sem perspectiva de vida.

Pedro dizia: – Sabe esse negócio de celular com whatsApp? Eu não sei o que é isso!!! Eu usava o celular para arrumar mulher quando tava trancado! Por isso tenho 5 filhos hoje!

A conversa com Pedro durou uns 15 minutos. Um tempo incompreensível.

E quando terminou, sem me cobrar os 10 reais, Pedro, o cara jovem, negro, de trinta e poucos anos, que passou 15 anos trancado, olha nos meus olhos e diz:

– Olha aí, obrigado pela conversa viu! Eu nunca tive um papo assim com ninguém. Nem com meus “parças” lá do bairro.

E foi assim que os 15 anos trancados de Pedro me soaram como 15 longos minutos de gratidão.

E gratidão pelo quê?

Pelo encontro com alguém que o vento frio de Agosto me trouxe.

Cris Saad – Bela Urbana, professora universitária, publicitária, fã do vento, da lua e do acaso. Apaixonada por música e dança, enfim apaixonada pela liberdade, pela loucura do movimento e o gozo do encontro.