Neste texto, gostaria de levar você para uma análise das relações amorosas positivas, prazerosas e reais.

Será que isso é possível?

Vamos refletir: duas pessoas, com histórias de vidas diferentes, com valores próximos e nem sempre tão parecidos, que se encontram e precisam se dar bem, se respeitar e manter aquecidos os sentimentos.

Será que isso ainda é possível?

O desafio foi lançado e os casamentos continuam em alta.

Qual o sentido disso?

Enfim, nós, seres humanos, somos ensinados e incentivados à convivência social, desenvolvendo habilidades e nos mantendo em contato com as pessoas e, consequentemente, isso reflete no quanto ficamos realizados, quando temos alguém para dividir as histórias.

Não defendo que a felicidade está nas relações amorosas, entendo que cada um tem as suas decisões. Se quiser ficar só e essa for uma escolha, não uma condição ou uma falta de opção, está tudo bem. A autossuficiência e o favoritismo também é algo para se pensar e respeitar.

Nos países orientais, essa situação tem se tornado cada vez mais comum e usual. O importante é estar bem consigo mesmo e estar leve com as decisões/escolhas.

Aqui, conversaremos sobre as relações e como nos mantermos saudáveis.

Itens primordiais em uma relação saudável:

  1. Diálogo;
  2. Entender que o casal tem o mesmo objetivo;
  3. Entender como cada um responde (se comporta) para a vida;
  4. Entender como cada um lida com os sentimentos;
  5. Exercer a empatia; e,
  6. Exercer a paciência.

Relacionar-se é um autoconhecimento mútuo, é estar disponível para a construção; o que é bom para mim, não necessariamente é importante para o outro, sendo que isso não quer dizer que há mais ou menos amor envolvido na relação.

O amor está nos pequenos detalhes, nas pequenas atenções, no carinho, na companhia, na amizade, na convivência não competitiva, sendo que a união de referidos detalhes, dentre outros, torna o amor grandioso.

            Mas, o que seria essa convivência não competitiva?

            Em um texto, de autoria do Rubens Alves, chamado “Tênis x Frescobol”, fica claro o sentido de convivência não competitiva, sendo que é utilizada a metáfora a respeito do sentido desses dois esportes.

Existem casais que são como o jogo de tênis, competitivos, que precisam destruir e ou diminuir o outro para se sentir importantes; são relacionamentos que competem por questões financeiras, trabalhos mais imprescindíveis, que disputam por atenção exclusiva dos filhos, amigos, familiares, enfim, relacionamento altamente destrutivo.

Por sua vez, existem casais, que são como o frescobol, um jogo totalmente cooperativo, em que o parceiro se atenta e joga a melhor bola para o outro, para que esse jogo continue gostoso para ambos; esse tipo de relacionamento agrega valor, se completando com coerência e crescimento junto!

Além disso, outra demanda importante para se manter saudável: entender qual é o tempo de elaboração do sentimento alheio, porque o certo para mim não é necessariamente correto para o outro.

            Ainda, “combinados” são regras importantíssimas para a convivência saudável, sendo importante para que o casal possa cumprir suas tarefas sem grandes sacrifícios.

Por exemplo, se um acha importante resolver uma situação problema naquele exato momento e o outro ainda não elaborou, porque seu sentimento ainda “grita” pelo ocorrido, não é hora de se sentar e conversar.

            Os ânimos precisam estar controlados para que o diálogo flua e a conversa ocorra de maneira amena.

            Diante da situação aversiva, se você contar até 10, tomar uma água, um banho quente, provavelmente a sua resposta não será a mesma. A resposta imediata, geralmente, tende a ser agressiva/reativa e você terá muito mais trabalho para consertar isso depois.

Diante das discussões, foque nos argumentos e na razão pela qual teve início o desentendimento; se você tiver um descontrole diante da situação, o (a) seu (sua) parceiro (a) focará no comportamento exacerbado e o conteúdo, que muitas vezes era coerente, se perde diante do exagero do seu comportamento.

            Autocontrole, paciência e empatia são qualidades essenciais para o casal se acertarem diante das diferenças sendo que está tudo bem ter diferenças, já que tudo isso faz parte das relações, sendo que lidar com isso significa agregar valores valiosos para a convivência.

            Quando identificamos os defeitos, a paixão está cada vez mais distante e isso significa que estamos saindo do novo, do frio na barriga, da insegurança, o que mostra que estamos caminhando para a estabilidade, a segurança e a confiança, que é justamente o amor.

            Importante destacar que uma relação de paz não significa uma relação morna, sem amor. Ao contrário, esse sentimento seguro e retilíneo é a melhor sensação que podemos atingir em uma relação.

            Quem quer viver com adrenalina, com emoções muito afloradas, não está pronto para vivenciar o amor e está tudo bem. Como defendo sempre, que o certo para um, não é a razão para o outro. Tem pessoas que gostam da montanha russa e tem pessoas que gostam do Desfile com os personagens “Pixar”.  E esse o é encanto das convivências.

            E mais um ponto para reflexão, pensando sobre as diferenças: os opostos se atraem?

            Penso que na Lei da Física, isso é algo fidedigno, contudo, nas relações amorosas, essa frase não é tão verdadeira assim.

Em uma consulta clínica recebi esse questionamento de uma cliente de 42 anos, casada há 10 anos “…. até então pensava que as nossas diferenças, me encantava, porém, cada vez mais me sinto irritada com o comportamento do meu marido, por que isso ocorre?”

            Quanto mais parecido for com o (a) parceiro(a), menos diferenças enfrentará, desde que os objetivos no relacionamento caminhem juntos.

Imagina você, caseira, com trabalho estável, que no máximo gosta de caminhar na Lagoa do Taquaral (Campinas-SP), conhece uma pessoa que é do rafting, que ama esportes radicais, adrenalina e moto esportiva.

Você consegue imaginar dando certo esse relacionamento?

            Não podemos ser generalistas, entendo que pode dar certo e muito certo; todavia, será necessário um exercício constante de cedências, compreensão e paciência.

            Quando há um casal que gosta das mesmas coisas, a situação está um pouco mais “pronta”, mas, mesmo assim, o primordial para que essa convivência não se acabe são os dois continuarem sendo reforçadores para ambos.

            Um grande erro nas relações é pensar que o outro o completa, que isso é uma tarefa essencial do casamento, esse pensamento é distorcido. Alguns termos, como: “achei a tampa da minha panela”, “encontrei a minha alma gêmea”, “é a manteiga do meu pão”, “é a cama e o colchão”, “você é a metade do meu coração”; são frases fadadas ao grande fracasso do casamento. Ora, se não somos inteiros, ou seja, metade, é fato que não teremos função alguma em nossas vidas.

            Além disso, responsabilizar o outro pela sua felicidade também é algo a se repensar com urgência, pois, primeiramente, temos que buscar o nosso autoconhecimento para entendermos o que nos deixa feliz e infeliz, ficando claro que essa missão é de cada um. Se estou feliz, exalo isso. Se estou contente, automaticamente serei agradável e leve para o outro.

            É nossa tarefa tirar a responsabilidade do outro de me fazer feliz, eu posso escolher ser feliz independentemente do que o outro faz; quando chegamos nessa conclusão, é libertador!

            Importante termos em mente que devemos caminhar juntos e paralelo a(o) parceiro(a), sendo que ao atravessarmos o caminho do outro estamos interferindo em sua essência e invadindo a história do nosso (a) parceiro(a).

Uma “fórmula” fácil para ajudar a entender melhor tudo isso: pense sempre na soma 1 + 1 = 3, sendo que SUA História de vida + História de vida do(a) PARCEIRO(A) + a História de vida do CASAL = 3.

            Por exemplo, (i) os amigos: é importante que cada um mantenha as amizades consideradas “individuais” e as amizades que foram construídas diante do namoro/casamento; (ii) costumes das famílias: é importante o respeito mútuo de cada tradição familiar, porém com o casamento, os envolvidos precisam se voltar para o novo núcleo familiar, se dedicando e se somando diante dessa nova convivência.

Ainda, temos que aprender a respeitar o passado de cada um, pois se você ficar preso(a) a isso, se renderá a uma experiência que, se recorrente, se tornará depressiva. No mesmo sentido, se ficarmos aflitos com o futuro, antecipando as situações que não aconteceram, fantasiando catástrofes, com certeza estaremos expostos a uma crise ansiosa.

Importante também pontuar que tudo a que nos dedicamos, quer seja pouco ou muito, temos que repensar para entender e analisar o contexto que nos tem levado a isso. Por exemplo, uma pessoa que ama receber flores e que o(a) parceiro(a) discrimina esse valor, semana sim e a outra comprando flores para impressionar, com certeza, será chamado(a) a atenção pelo excesso do comportamento.

E o que nos dedicamos dentro do pouco, pode se tornar nada, sendo que essa extinção de dedicação poderá ser alvo do fim da relação.

De toda forma, importante que não nos sintamos fracassados(as); se você não tem conseguido se manter em uma relação saudável, você não é o único(a) responsável por isso. Para que uma relação aconteça, eu preciso do outro. Outro ponto a se ressaltar, se os objetivos do casal não forem mais o mesmo, o mais saudável é sair dessa relação.

Conforme evoluímos em nossas relações, nosso repertório comportamental vai selecionando estímulos dos ambientes aos quais nos relacionamos e para quais ficam-se sensíveis, sendo que relacionar-se é complexo e, por isso, precisamos nos autoconhecer.

E uma das maneiras para o autoconhecimento se dá pela terapia, a qual se mostra imprescindível para que esse processo de aprendizagem aconteça de maneira natural, processual, permanente e equilibrada.

Clarissa Saito Lopes – Bela Urbana. Psicóloga e Especialista Comportamental e Clínica há 18 anos. Casada há 14 anos, mãe do Heitor, 06 anos.
“Amo cuidar das pessoas, ter a convivência com os meus familiares, ter o privilégio de ser mãe e estar em um casamento em que ambos são reforçadores positivos e efetivos.”
Contatos: (19) 99112-0055 (WhatsApp), E-mail: clarissafyds@gmail.com

Tempos de bailinhos na garagem com vitrolas revestidas de vinil, long. plays, compactos de sucesso, tudo sempre preparado para se dançar livre ou coladinho.
 
A cidade pequena, turma do colégio, turma de sair, de frequentar a casa… se tivesse um aniversário todos eram convidados; “bicão”, como se dizia na gíria da época, só se não fosse da turma, mas se fosse, poderia chegar em qualquer festa e levar a irmã, porque essa também era da turma.
 
E lá fui eu com meu irmão, num domingo à tarde, na festa do aniversário do novo menino da turma, filho da professora de OSPB, (para quem não sabe, OSPB – Organização Social Política Brasileira) que se mudara de Campinas com a família porque o pai advogado, com clientes na cidade, e a mãe efetivada no colégio. 
 
Aniversários na garagem eram assim:  nada de álcool, adultos supervisionando, músicas tocando… e a música proibida que causava “frisson” era “Je t’aime moi non plus”, Canção de Jane Birkin e Serge Gainsbourg, e ele me tirou pra dançar.

Nada ocorreu de mais próximo durante os anos que fomos amigos de turma. Meu irmão e ele, sim, se tornaram grandes amigos, andavam de bicicleta, viajavam juntos, aprontavam juntos.

Ele, um menino diferente, com hábitos de cidade grande (Campinas, na nossa imaginação, já era uma Metrópole), namorou amigas em comum; enquanto eu me mantinha fiel a uma “paixonite” de adolescente que me acompanhou por anos. (Mas essa é uma outra história). Ele fazia a sensação entre as meninas por ser diferente (articulado, inteligente) e tinha amigos e primos “gatos” que sempre trazia nos finais de semana para ficar na sua casa. 
 
Desde aquele dia quando dancei com ele a proibida “Je t’aime mói non plus”, nada aconteceu entre nós, a não ser um episódio, 10 anos depois (1979), num encontro rápido  de amigos saudosos que, em função da distância, (já que agora ele estudava na USP) e não se viam há tempos, teve muito beijo na boca… beijos que nenhum dos dois havia programado … e não passou disso.
 
Vida que segue. A minha. A dele. Não nos vimos mais.
 
Anos e anos depois, eu, divorciada, passei a ser o interesse de um também amigo; amigo daquela turma da cidade onde morei (até hoje tenho vínculos porque lá residem boas amigas e a minha família).

Esse amigo pretendente ao cargo de namorado sério numa insistência que, para mim extrapolava, buscava situações e conhecidos para que me decidisse ao compromisso. Era bombardeada diariamente com telefonemas pela manhã, tarde e noite… inúmeras mensagens para que eu acordasse, comesse, dormisse; era bom dia, boa tarde, boa noite e tudo mais… só eu não estava “de boa” porque me sentia vigiada… Cercava amigos, família, vó, vizinha… todos que pudessem me convencer a aceitá-lo como namorado. (Afff…)

Mas, como tudo na vida tem um “mas”… eu que estava buscando tropeçar no homem que seria meu amor, tal qual a cigana tinha previsto quando leu a minha mão, eu seguia fugindo do amigo que queria o compromisso sério e,  ao responder a uma  amiga em comum, via privado do Facebook,  que ele também procurara pra me convencer… na página chamou minha a atenção aquelas janelinhas  de amigos, pois havia um nome conhecido e muito único… só podia ser ele… o amigo que não via há quase 23 anos. 

Mando um convite solicitando amizade e encaminho uma mensagem…  a resposta veio imediatamente. (Era 03 de junho de 2011).

Naquela sexta-feira trocamos mensagens de oi, como vai, onde estás e, cinco dias depois um convite para nos encontrarmos…. Sugeri um café, ele, um jantar. 

Às 20:30 passou em casa.

Comida italiana, vinho, conversa e 2 telefonemas do amigo insistente candidato a namorado; saímos da Tratoria e a música era “Amor I love you”.

A cigana acertou quando leu o meu destino. Casamos!

E o fim da história não é: “e foram felizes para sempre”, porque felizes para sempre não existe. Mas felizes, sim!

Shirley Andreuccetti – Bela Urbana. Professora de formação, por amor e por paixão. A Psicanálise e a Mediação são adendos para complementar o trabalho na Educação, o verdadeiro ópio. Canceriana com ascendente em Peixes e 7 Planetas em Leão, um mapa astral cheio de intensidade e contradições. Paixão pelo filho e pelo Mauridinho. Gratidão eterna aos meus avós, uma vez que fui uma criança criada por eles.

Olá, se você caiu aqui nesse texto saiba que essa é uma declaração de um amor torto.

Sabe aquele encontro que você pensa, “puxa, se eu não tivesse vindo parar aqui… nunca teria acontecido?” Nossa história é uma dessas, você já imaginou ver seu marido te avaliando em um trabalho de faculdade? Bom eu não, fui pega de surpresa pelo destino que colocou ele bem ali, entre os professores que me avaliariam em mais um trabalho semestral… Fico brava até hoje com a bendita pergunta: “por que preto esse logo?” (PORQUE, SIM MEU ANJO, reclame com o GUI!).

Seis meses depois, veja bem quem o destino resolveu por toda quinta feira na minha vida?

Ele mesmo, professor Euclides, o Crido (como outras pessoas o chamavam).

Ele era lindinho com seus três pares de botas, calça era verde escuro ou um tipo de tom terroso não identificado, as camisetas sempre lisas e os mesmos óculos de sempre. Eita homem de sorriso bonito! (sim meu caro leitor, reparei em todas as combinações possíveis de vestuário, e nas aulas também antes que pergunte!).

O melhor professor que já tive, e nem era por conta do meu crush por aquele homem!

Fui uma daquelas alunas pentelhas, que perguntam, interagem e se incomodam com o fato de outros alunos não conseguem ver a importância daquela matéria. Às quintas fazia questão de ir a mais arrumada possível, após as aulas ficávamos conversando sobre a vida, verdade e universo.

Era curiosa, afinal como um homem daqueles não tinha uma aliança no dedo? Podia ser meu… (pensei diversas vezes), cuidado com o que você joga para o universo!

As coisas mudaram bastante não é? Aos poucos não entendia o motivo de me sentir atraída por você, meu mundo virou de cabeça pra baixo ao perceber o estranho interesse por aquele homem, afinal eu não podia me interessar por você, professor-aluna, homem solteiro- mulher comprometida.

Foi então que tudo mudou, muito obrigada pelo melhor conselho de toda minha vida, abriu meus olhos, me fez entender que a vida que tinha anteriormente não poderia continuar existindo. Conversas e mais conversas e um pedido inusitado para almoçar acontece, o nosso dia 23 acontece.

Crido querido (pra mim meu XUXU, sempre!), sei que você é o escritor dessa família, mas tomei a liberdade de te dizer o quanto você importante pra mim. Feliz dois anos meu benzinho! Obrigada por me encorajar, por crescer ao meu lado, por ter acreditado, sonhado, e realizado esse amor junto comigo, por todo seu carinho, respeito e parceria. Por formar nossa família (você, eu, Nico e Olivia), e ser exatamente assim, desse jeitinho, imperfeito, incongruente e doce.

Feliz dia 23 de maio, dia do nosso amor.

Com todo amor do mundo,
Ana.

Ana Luíza Machado – Bela Urbana. Designer de formação, criativa na alma, guiada pela alegria, cidadã de mundo bonito.

Carnaval de 1997. Era uma viagem de uma turma de amigos recém-formados. Éramos em doze no total, enfiados em um apartamento de um quarto em Caraguatatuba. Havia gente dormindo até na cozinha.

Na terceira noite eu fiquei com um dos colegas. Romance improvável, não fosse o clima de carnaval. Graças a Deus na manhã seguinte já era dia de eu ir embora. Precisava voltar mais cedo pois havia levado uma prima minha, que não era da turma da faculdade e já trabalhava e tinha que retornar a São Paulo. Hoje em dia ninguém se importa mais. Mas na época era estranho ficar com colega de faculdade, depois de tantos anos sendo apenas colega de faculdade.

Algumas semanas depois, como de costume, a turma se reencontrou em mais uma baladinha. O constrangimento inicial não durou muito. Ficamos novamente. Nesse dia, já fomos embora de mãos dadas.

Depois da nossa segunda “ficada”, combinamos de sair para jantar e pela primeira vez após tantos anos, estaríamos somente nós dois. E nesse dia, ele me disse que precisava falar algo muito importante, que seria melhor falar antes que eu soubesse por terceiros. Diga-se terceiros, todos os demais colegas da turma.

Pois ele me revelou que no carnaval ficou comigo porque havia feito uma aposta com os amigos. O choque foi tão grande que francamente eu não sabia se ria ou chorava. Ele se desculpou, disse que não queria que tivesse começado dessa forma e eu meio desconcertada dei um sorriso amarelo e fingi ter achado engraçado.

Isso passou. Às vezes durante algumas brigas eu ainda escavava essa história, mas com o tempo isso deixou de ser importante. Após cinco anos esse romance gerou um casamento, que após mais dois anos gerou uma filha e um ano depois, gerou a nossa empresa. Foi um relacionamento de 17 anos. Hoje já estamos separados há 6 anos.      

O casamento acabou, mas a filha ficou, a empresa ficou e a amizade ficou.

O que teríamos feito das nossas vidas se não fosse o carnaval de 1997?

Impossível saber.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Viajei pela Nova Zelândia por aproximadamente 20 dias no final de 2017. Era meu período de férias de final de intercâmbio na Austrália.

Não fui sozinha. Fui com um namorado que tinha conhecido na Austrália. Ele era alemão.

Não sei se você sabe, mas alemão (ou pelo menos a maioria) ama uma trilha. Não qualquer uma, não uma curtinha de uma ou duas horinhas, as longas são as preferidas.

Uma brasileira tinha me contado que esse passeio, o Tongariro, era imperdível e de boas para quem nunca tinha feito trilha longa que nem eu. Esse monte fica na ilha norte da Nova Zelândia e possui três vulcões ainda ativos, sendo que a última erupção foi em 2012. Um desses vulcões interpretou Mordor e Emyn Muil na trilogia do Senhor dos Anéis, e como leitora do livro e fã dos filmes, claro que eu queria visitar né?

20 quilômetros me pareciam ok, afinal, estava acostumada a andar mais ou menos isso por dia enquanto viajava.

Preparamos várias marmitas e lanchinhos um dia antes, afinal chegaríamos as 6 da manhã e terminaríamos lá pelas 3 ou 4 da tarde a nossa “caminhada”.

Chegamos animados, conversando, e tirando fotos de toda aquela belezura, uma paisagem tão distinta de tudo que já tinha visto. Acontece que eu nunca tinha passado mais de duas horas fazendo trilha na vida, e veja bem, isso não era bem uma trilha de boas como me contaram, e sim a escalada de um vulcão até o topo, lembrando que eu tinha que descer tudo de volta também. Eram então dez quilômetros subindo e dez quilômetros descendo. Esse era o chamado Tongariro Alpine Crossing.

Eu era lerda, muito lerda. E meu namorado, bom, mais fit e acostumado a tudo isso era bem mais rápido do que eu. Em vários momentos falei que ele podia ir na frente sem mim, eu o alcançaria. Ele estava com meu celular e eu com minha câmera.

Parecia que o topo nunca chegava. Caminhei, caminhei, caminhei. Vi restos de neve ao longe (pela primeira vez na vida), subi algumas partes me agarrando a correntes. Sentei em pedras, tirei meus tênis e derramei de dentro deles aquela areia vulcânica como se tivesse enterrado meus pés por lá. Mas aquela monocromia cinza já estava me cansando um pouco, afinal, onde estava todo aquele glamour do Senhor dos Anéis?

Eu e meu namorado não combinamos de ele me esperar em lugares específicos. No começo, ele me esperava mais, perguntava se estava bem e seguia só depois de eu pedir para ele ir em frente. Depois de perceber que eu sempre estava bem, quando chegava perto, ele já desandava a avançar de novo. Acontece que eu tinha certeza que era mais do que óbvio que ele me esperaria no topo né? Só que ele não esperou. Esse abominável ser chegou no topo já descendo a bendita da montanha. Não deu nem tempo de gritar. Fiquei em choque, lá em cima, só observando ele praticamente correr ladeira abaixo, indo embora com meu celular e com meu possível sonho de qualquer selfie.

A vista dava para um lago de águas verdes lindo demais, e eu queria fotos com ele do meu lado e essa vista. Queria selfies com meu celular. E o sonho se foi, perdido, se tornando uma utopia da escalada do Tongariro.

Pelo menos eu tinha minha câmera, e ainda aturdida, pedi para um estranho tirar fotos minhas com ela. Ainda bem que ficaram boas, pois seria minha única recordação e prova de que cheguei ao cume.

Fumegando de raiva, tentei respirar fundo e aproveitar a paisagem. Depois de tentar me acalmar o suficiente, segui caminho. Fui descendo, e nossa, como era difícil. Aquela areia cinza vulcânica era muito fofa, a descida muito íngreme e a impressão que eu tinha era que eu poderia sair rolando a qualquer minuto. Uma alma caridosa percebeu a minha dificuldade e me avisou para eu descer andando de lado, tipo um caranguejo. Foi muito melhor assim. De qualquer maneira, meu pé afundava cada vez mais, e meu tênis antes amarelo virou cinza carbono.

Já ao longe comecei a ver aquele pontinho amarelo neon: meu namorado.

Me concentrei em terminar a descida sem passar vergonha, e fui direto a ele perguntar o porquê não tinha me esperado lá em cima, pois queria ter tirado fotos com ele e com meu celular. Foi um ataque digno de um mini cão raivoso. Não dei tempo para respostas. Estava fula da vida. Continuei minha caminhada andando cada vez mais rápido e deixando ele pra trás. Não queria papo.

Só que ele tinha a mochila da comida. E mais cedo ou mais tarde eu teria que parar e esperá-lo, pois meu estômago já estava começando a reclamar.

Parei em umas pedras e aguardei. Lá vinha ele, novamente. Parecia assustado, afinal até então ele nunca tinha presenciado meu ataque de mini Pinscher. Exigi minha refeição e sentei para comer. Depois me senti mais calma para conversar sobre o que tinha acontecido e o que eu não tinha gostado.

Tudo bem que não fui a pessoa mais bem humorada na descida. Aquele caminho parecia infinito e não havia tempo para descanso, se não perigava de ficarmos sem ônibus.

Finalmente, chegamos. E a melhor sensação foi ter sentado naquele ônibus para voltar e escutar ele dizendo: “Pronto, acabou. Está tudo bem agora.”

No hostel, a alegria de um banho quente, uma cama grande e uma pizza me trouxeram de volta à feliz normalidade.

Ariela Maier – Bela urbana. Uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Muito difícil começar a escrever a minha história… há um ano e cinco meses ela teve seu ponto final, mas, infelizmente, diariamente ainda lido com os efeitos de um ano e dois meses de um relacionamento extremamente abusivo.

Muitas pessoas ainda têm a errônea ideia de que relações de violência acontecem quando alguém viola seu corpo ou te bate, mas existem outros tipos de violência, na minha opinião, ainda mais destrutivas em alguns casos.

Bom, me apresentando, sou Malu, uma moça hoje com 22 anos, mas no tempo dos fatos tinha 20 anos. Sou cristã, de uma família religiosa de seguimento protestante, sou extrovertida, amo conversar com pessoas, trabalho desde os 14 anos de idade (sim, este é um fato importante para este
relato). Conheço meu abusador há aproximadamente 9 anos. Nesse período nutrimos uma amizade saudável, mas quando nos aproximamos e cogitamos o namoro, o primeiro alerta estava nítido. Sim, os sinais estão gritando a todo momento, mas a paixão não nos deixa enxergar. Este primeiro sinal se deu quando ele reclamou da distância que teria que percorrer para me encontrar (vinte minutos de estrada). Eu ignorei esse sinal, quis dar “N ” razões para a solução do problema, e me desculpei pelo transtorno do deslocamento.

No começo do relacionamento “eles” não mostram sua verdadeira face, mas aos poucos começam as manipulações. No meu caso, ele foi se utilizando de cada área onde eu era forte e as áreas que foi me afetando foram: relação familiar, minha carreira, visão que tinha sobre meu próprio corpo, meus
relacionamentos interpessoais, forma que eu utilizava meu dinheiro, tudo isso regado a muita manipulação, cinismo, comentários passivos-agressivos.
A grande porcaria de um relacionamento manipulador é que ele não vem como uma faixa na testa falando “sou um covarde abusador”. Geralmente são pessoas calmas e “centradas”, na visão de todos, mas que são verdadeiramente monstros.

Vou discorrer seu mecanismo e forma de agir em cada área. Espero ajudar pessoas que estejam passando por cada situação de abuso.
Relação familiar: Pessoas abusivas vão se utilizar de artimanhas para te colocar contra sua família, falando que sua família é a errada sempre, e que você nunca deve se parecer com as características da sua família. No meu caso, ele fez isso, pois não suportava o fato da minha família ser unida.
Quando tínhamos algum problema familiar, o que é normal, ele me colocava sempre contra meus pais e me fazia sentir inadequada o tempo todo, como se o único modelo de vivência era a forma como a mãe dele levava a vida. Diversas vezes ele me pressionava a agir como ela, falava que
odiaria me ver como a sua tia, alguém que era comunicativa e extrovertida. Isso foi me desgastando, mas eu acreditava nele e, por vezes, me afastava, ficava mais na minha. Comecei a não falar mais das situações que passava com ele. Minha mãe não gostava dele, mas sempre o respeitou.
O abusador vai querer te isolar da sua base, afinal, um alvo isolado é muito mais fácil de atingir e derrubar, e ele não tem escrúpulos para isso.

Carreira: Eu sou uma menina que veio de uma família de classe média-baixa, que passou por muitas privações quando era criança e sempre aprendeu o valor do dinheiro; por conta disso, desde muito nova sempre ajudei meus pais, sempre trabalhei, com o que fosse, sempre quis ter meu
dinheiro. Ele era uma pessoa que, próximo aos 30 anos, não tinha quase trabalhado com carteira assinada, e quem pagou a faculdade integral dele foram os pais, assim como cada gasto. Então, ele se afetava muito por eu já trabalhar dando aulas particulares, fazendo faxinas, ensaios fotográficos
para conseguir pagar meu curso. Constantemente ele queria que eu desistisse do curso, disse que eu não conseguiria me formar na faculdade, sempre tinha comentários passivos-agressivos que faziam eu me sentir incapaz e duvidar do meu potencial em tudo que eu domino.

Visão do meu corpo: Ele me conheceu quando eu tinha um corpo extremamente magro. Tinha 16 anos quando o conheci e ele na casa dos 24 anos. Com o passar dos anos, meu corpo mudou.
Mesmo sendo atletas, nós mulheres temos nossas particularidades. Sua forma de me magoar era com comentários como: “Você até que está bem, mas precisa emagrecer uns quilos para ficar melhor” (eu estava sete quilos abaixo do ideal para o meu IMC). Sou alta, e mesmo que tivesse um corpo fora do padrão, ninguém tem direito de falar que você é deformada. Mas ele sempre tinha um comentário malvado, com uma calma na fala. Eu fui me vendo no espelho e me odiando, com a autoestima cada dia mais afetada. Nessa altura ele já estava com domínio de três áreas da minha vida. Sem minha base familiar e perspectiva de valor, caí nessa cilada emocional.

Relacionamentos interpessoais: Esses abusos ainda foram mais intensos. Ele ficava com ciúmes que eu fosse amiga dos meus amigos de anos e também não gostava das minhas amizades da faculdade, dizia “por que eu tinha que me relacionar e ter amigos sempre homens?”. Eu não queria conflito, então deixei meus amigos e me esforcei para ter mais amizades femininas, mas nunca tive muita afinidade. Ele falava que era meu jeito que me afastava das mulheres, dizia que elas eram recatadas e menos expansivas, por isso eram amigas entre si, e que por isso, eu não conseguia me enturmar. Ele que nunca estava satisfeito com nada, falava que eu tinha que ter uma vida além dele.
Os abusadores não querem que você tenha amigos, querem te humilhar, querem ter você na palma da mão para que eles brinquem com seu emocional para satisfazer seu sadismo cruel.
Nesse processo, comecei a ter episódios de síndrome do pânico, ele causava os gatilhos e sumia por dias; depois manipulava toda a situação e eu sempre pedia desculpa, mesmo quando não tinha como eu ser culpada pelos seus desvios de caráter.
É uma prisão que é muito difícil ver as algemas, mas se você precisa abrir mão de quem você ama por outra pessoa, isso não é amor, é posse.

Vida financeira: Sempre tive menos poder aquisitivo que ele, os pais dele têm uma vida estável e segura financeiramente, e eu, como era a única responsável pelas minhas finanças, tinha que fazer aquele malabarismo para pagar todas as contas. Sendo autônoma, não tendo carteira assinada, ele sempre questionava cada gasto que eu fazia, sempre queria uma justificativa, falava como eu tinha que gastar meu dinheiro, motivo de inúmeras brigas que me desgastavam internamente. Sentia-me culpada por cada centavo que eu gastava, pois sempre era questionada em como utilizava meus recursos. Ele se sentia menosprezado, e um dia até disse: “Ainda bem que fui chamado no concurso antes de você ter carteira assinada”. Que tipo de pessoa fala algo assim? Alguém que se odeia e quer te fazer se odiar e viver culpada e frustrada. Como na vez que fomos ao shopping para jantar, eu pedi de sobremesa um sorvete do Mc Donald’s de R$ 10,00 e ele me respondeu: “Você merece uma casquinha”. Não era em tom de brincadeira não, ele tinha um vale de R$ 900,00. Você deve estar pensando, mas casquinha é legal, seria sim, se fosse o que ele pudesse me oferecer, eu aliás, tomaria com enorme felicidade, como em todas as vezes que paguei minha parte nas contas no namoro em todas as nossas saídas, mas essa situação foi única e exclusivamente para me humilhar e constranger.

Defraudação emocional: Como mulher cristã, meu maior sonho era casar e ter uma família. Não existe nada de errado com meu sonho, ele é legítimo, mas foi usado diversas vezes para me manipular quando eu não atendia às expectativas dele e ouvia a seguinte frase: “Você está quase pronta para eu te amar incondicionalmente e te pedir em casamento, mas isso eu não gosto”. E eu, como já estava com a minha vida nas mãos desse monstro, tentava me adequar a todas as exigências que eram inalcançáveis, pois ele nunca iria casar comigo, era sempre para me ver subjugada a ele.
Chegou a vir na minha casa falar sobre os planos de como queria a cerimônia, fez uma lista de casamento junto com meus pais, até com um cerimonial tínhamos marcado, ou seja, eu não estava criando expectativas do nada. O amor a esse sonho me fez aceitar o inaceitável, pois estava
empolgada com o casamento. Todo abusador faz um ciclo à ofensa, te faz pedir desculpa a ele. Não é podre o tempo todo, afinal, precisa te dar algumas migalhas para poder continuar com os jogos emocionais e fazer tudo novamente, então, ele sempre vai falar que você que é louca para casar, que você que o está pressionando, sendo que ele nunca quer se comprometer de verdade. Não tem capacidade de amar e de cuidar de alguém. Irá brincar com seus sonhos mais puros e te fazer se sentir culpada por sonhar. Um relacionamento abusivo é sempre recheado de culpa, infelizmente.

O fim do meu relacionamento veio após sucessões de humilhações, uma delas da minha ex-sogra, que tinha comportamentos extremamente inadequados, como oferecer resto de comida do próprio prato para que eu não realizasse um pedido em restaurante (mesmo eu tendo dinheiro para isso), com medo dela ter que pagar a conta. Aquilo foi muito humilhante. Muitas vezes ela ficava medindo a quantidade de comida que eu colocava no meu prato, fazia pouco-caso das comidas que minha família fazia em datas comemorativas, situações de extremo desagrado. Mas o estopim foi
ela reclamar e falar que iria me cortar de uma foto de família, pois segundo ela, eu não estava adequada (um shorts que “não era vulgar” era na metade da coxa), na opinião dela. Como ele me queria como uma mãe dele parte 2 , brigou comigo por eu ter ficado chateada, e fez eu me sentir como uma garota de programa por um shorts.
A partir daquele momento me enchi e perdi o medo, comecei a falar do que não gostava e não deixei ele me tratar mais daquela forma. Dois meses depois tivemos um desentendimento por ele não ter consideração por mim, ele sabia que estava errado e sumiu por uma semana, sabia que isso me gerava pânico.

Neste relacionamento foram três internações por crise de asma devido ao stress que ele me causava, tamanha era a pressão que fazia sobre mim.
Ele me encontrou pessoalmente e disse que queria terminar, conversei com ele por algumas horas, porque mesmo ele sendo um monstro, eu não sabia viver sem ele, era como um parasita me sugando energias e eu não sabia mais a minha identidade. Eu tinha aberto mão de tudo por conta do meu
sonho de ser esposa e mãe, não entrava na minha cabeça que mesmo abrindo mão de tudo, eu era descartável.

Um dia ele comprou bombom e disse que iríamos nos acertar, me levou em casa. No dia seguinte, ele disse que estava terminando comigo, que a culpa de tudo que ele me fez era minha e me bloqueou em todas as mídias digitais, ele e todos os membros da casa dele, que sempre passaram pano para tudo que ele fez. Meses depois, ele viu que tinha sido exposto e que as moças não se aproximavam dele. Eu descobri que eu não era sua única vítima. Fez isso com outra, abandonando da mesma forma covarde, só que o e-mail foi para a mãe da moça, que graças a Deus superou o que ele fez e hoje tem uma vida estável emocionalmente.

Ele me pediu perdão e disse que tudo que fez foi porque se sentia insatisfeito com quem era e como estava a sua vida, por isso agia assim comigo.
Um conselho: se passar por algo assim, perdoe, mas não mantenha contato, pois esse tipo de pessoa infelizmente não muda. Caráter ou você tem ou não tem.

Este é o meu relato!
Tiveram vezes que preferia ter apanhado a ter o dano emocional que ele me causou. Foi um longo caminho e ainda tenho uma enorme caminhada para me curar, mas cada dia é um passo para me perdoar. Acho que essa é uma das partes mais difíceis, se perdoar pelo que você passou e não se
culpar. Jamais a culpa é da vítima.
Quero voltar a me amar e saber o meu valor.
Espero que tenha ajudado alguém.

Malu Zaparoli – Bela urbana, 22 anos, cristã, formada em fotografia, professora de informática, líder de um projeto social que atende pessoas em situação de vulnerabilidade social

Hoje eu acordei sentindo que tudo está diferente e ao mesmo tempo fazem quase três semanas que estamos na mesma situação, entocados em casa.
Enquanto estou fazendo meu café, escuto pessoas gritando na rua. Achei que era briga de casal, uma mulher e um homem. Curiosa, abri a janela para descobrir de onde estava vindo essa comoção toda. Em uma casa na minha rua, uma mulher jovem na janela gritava para um homem jovem na rua. Os dois expressando um amor eterno e a saudade apertando o coração. Eles moram no mesmo bairro mas já fazem semanas que não se abraçam e para poder matar um pouquinho dessa saudade ele resolveu declarar um poema de amor para sua namorada, sem se importar com quem pudesse ouvir. Quando ele terminou a rua toda bateu palmas e ele agradeceu como se fosse um ator terminando a cena final de uma apresentação no teatro, depois de mais algumas promessas de amor para sua amada na janela, ele foi para casa, ela ficou na janela até ele virar a esquina e sumir de vista. 

Todos voltaram a fazer o que estavam fazendo. Imaginei o quanto deve ser difícil para uma paixão nova ter que esperar para poder se abraçar de novo. Não sou jovenzinha mas me lembro muito bem como é.
Moro na Inglaterra há 15 anos e tenho família aqui, na Itália e no Brasil. 
Converso por WhatsApp com várias pessoas quase todos os dias. Estranho pensar que antes do Covid-19 eu não falava nem com metade dessas pessoas, família e amigos, nem mesmo uma vez por ano. E agora faço e recebo chamadas de pessoas queridas que estavam perdidas no meu passado. 
Uma grande preocupação é com a família na Itália, minha tia-avó de 94 anos, a última de uma geração na minha família materna que passou por situações muito piores do que a que estamos passando agora. Ela sobreviveu guerras, a rua onde ela morava foi destruída por bombas, perdeu amigos nesse dia, passou fome, frio e terror, mas não perdeu seu coração e nem a vontade de viver. Ontem conversamos e ela me disse que ficar em casa com a família não parece ser esse horror que os jovens estão dizendo ser. Ela está aproveitando esse tempo, onde os netos não tem escolha mas ficar em casa com ela. Eu me senti tão pequena e boba, mas ela abriu meus olhos. Como eu admiro essa mulher! 
Fico imaginando como vai ser quando isso acabar. Será que todas as pessoas que conheço vão estar aqui? Será que meu trabalho vai estar lá? Quando saio para uma caminhada curta pelo bairro e cruzamos caminho com alguém pela calçada eu notei que se são adultos ou jovens as pessoas te olham feio. Aquela sensação que você desagradou alguém simplesmente por ter se atrevido a levar a cachorro para um rolezinho no quarteirão. Agora se são idosos, eles te olham e sorriem e perguntam se está tudo bem.
Não posso prever o futuro, mas posso imaginar que não vai ser como antes. Abraços apertados só para quem vive na mesma casa que você. Aperto de mão vai sair de moda. Sorriso amarelo e espaço pessoal de dois metros será a norma. A não ser que você use transporte público, daí não tem jeito. 
Adaptar e continuar como se tudo que mudou impactou para o bem. 
Bom, não sei, mas espero estar aqui para descobrir. 

Ana Carolina Beresford – Bela Urbana, trabalha numa caridade que ajuda pessoas com deficiências físicas e mentais a locomoverem-se, sente muito orgulho do seu trabalho. Adora animais e viajar sempre que pode.

Quer namorar comigo?

Pergunta a fêmea beija flor para o tímido macho beija flor?

Eu quero um beijo! Vem

 E o macho beija flor responde: Agora não posso, acabei de comer

e ainda não fiz a minha higiene!! Para espanto da fêmea beija flor!

 Então, estou indo…

Grata pela sua atenção, comigo é assim: Eu pedi e você não deu…

Então perdeu esta oportunidade, pois eu queria somente um beijo

que poderia ser técnico, eu na verdade somente queria um gesto de afeto

entre o meu “eu” e o teu “eu”, que observei estar sem teto!!

Não se esqueça beija flor a oportunidade só tem penas na frente…

atrás ela é carequinha!

Seres Humanos, pensem bem, muitas vezes alguém pede aquilo que a gente não tem, e temos vergonha de…

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

 

Fui com o R namorado no shopping, na casa da C e depois na sorveteria, onde soubemos que é proibido dar um beijo na boca, onde o garçom veio até nós e se nos proíbe dizendo que não pode “gestos amorosos” no local.

Eu odeio essa conduta moralista que na verdade é só cínica.

Um beijo, o que tem demais?

19 de dezembro – Gisa Luiza – 19 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

Próximo beijo será pra “ele”. Ele que um dia neguei muitos beijos. Ele que mesmo depois de anos de casados gostava de longos beijos.

Dizia que “o beijo aquece o amor que esta esfriando”. Por cinco anos ficamos ausentes um do outro, partiu e acreditando ser o fim buscou uma outra boca.

Fiquei sozinha gostando da pausa, da frieza, correndo na labuta, numa luta por viver… cinco anos … De vez em quando sonhos com beijos, beijos roubados, beijos consentidos… mas sonhados, não vivenciados. Vem a saudade, da boca de hálito puro, mesmo na manhã ainda no leito.

Vem a lembrança dos beijinhos terminados em mordidinhas nos lábios que pareciam esticar como chicletes numa provocação para outros beijos. A saudade daqueles beijos, foi chegando, se instalando, se firmando e agora?

Bora correr atrás daquela boca que depois de uma boa conversa diz também sentir saudades da minha. Confessa que enquanto outra boca beijava era a minha que ansiava… Bora buscar sua boca em minha boca e nunca mais desgrudar!

O próximo beijo, será pra ele, pois nunca foi de mais ninguém!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, 52 anos, divorciada, mãe de duas filhas, uma de 25 e outra de 17, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.