Viajei pela Nova Zelândia por aproximadamente 20 dias no final de 2017. Era meu período de férias de final de intercâmbio na Austrália.

Não fui sozinha. Fui com um namorado que tinha conhecido na Austrália. Ele era alemão.

Não sei se você sabe, mas alemão (ou pelo menos a maioria) ama uma trilha. Não qualquer uma, não uma curtinha de uma ou duas horinhas, as longas são as preferidas.

Uma brasileira tinha me contado que esse passeio, o Tongariro, era imperdível e de boas para quem nunca tinha feito trilha longa que nem eu. Esse monte fica na ilha norte da Nova Zelândia e possui três vulcões ainda ativos, sendo que a última erupção foi em 2012. Um desses vulcões interpretou Mordor e Emyn Muil na trilogia do Senhor dos Anéis, e como leitora do livro e fã dos filmes, claro que eu queria visitar né?

20 quilômetros me pareciam ok, afinal, estava acostumada a andar mais ou menos isso por dia enquanto viajava.

Preparamos várias marmitas e lanchinhos um dia antes, afinal chegaríamos as 6 da manhã e terminaríamos lá pelas 3 ou 4 da tarde a nossa “caminhada”.

Chegamos animados, conversando, e tirando fotos de toda aquela belezura, uma paisagem tão distinta de tudo que já tinha visto. Acontece que eu nunca tinha passado mais de duas horas fazendo trilha na vida, e veja bem, isso não era bem uma trilha de boas como me contaram, e sim a escalada de um vulcão até o topo, lembrando que eu tinha que descer tudo de volta também. Eram então dez quilômetros subindo e dez quilômetros descendo. Esse era o chamado Tongariro Alpine Crossing.

Eu era lerda, muito lerda. E meu namorado, bom, mais fit e acostumado a tudo isso era bem mais rápido do que eu. Em vários momentos falei que ele podia ir na frente sem mim, eu o alcançaria. Ele estava com meu celular e eu com minha câmera.

Parecia que o topo nunca chegava. Caminhei, caminhei, caminhei. Vi restos de neve ao longe (pela primeira vez na vida), subi algumas partes me agarrando a correntes. Sentei em pedras, tirei meus tênis e derramei de dentro deles aquela areia vulcânica como se tivesse enterrado meus pés por lá. Mas aquela monocromia cinza já estava me cansando um pouco, afinal, onde estava todo aquele glamour do Senhor dos Anéis?

Eu e meu namorado não combinamos de ele me esperar em lugares específicos. No começo, ele me esperava mais, perguntava se estava bem e seguia só depois de eu pedir para ele ir em frente. Depois de perceber que eu sempre estava bem, quando chegava perto, ele já desandava a avançar de novo. Acontece que eu tinha certeza que era mais do que óbvio que ele me esperaria no topo né? Só que ele não esperou. Esse abominável ser chegou no topo já descendo a bendita da montanha. Não deu nem tempo de gritar. Fiquei em choque, lá em cima, só observando ele praticamente correr ladeira abaixo, indo embora com meu celular e com meu possível sonho de qualquer selfie.

A vista dava para um lago de águas verdes lindo demais, e eu queria fotos com ele do meu lado e essa vista. Queria selfies com meu celular. E o sonho se foi, perdido, se tornando uma utopia da escalada do Tongariro.

Pelo menos eu tinha minha câmera, e ainda aturdida, pedi para um estranho tirar fotos minhas com ela. Ainda bem que ficaram boas, pois seria minha única recordação e prova de que cheguei ao cume.

Fumegando de raiva, tentei respirar fundo e aproveitar a paisagem. Depois de tentar me acalmar o suficiente, segui caminho. Fui descendo, e nossa, como era difícil. Aquela areia cinza vulcânica era muito fofa, a descida muito íngreme e a impressão que eu tinha era que eu poderia sair rolando a qualquer minuto. Uma alma caridosa percebeu a minha dificuldade e me avisou para eu descer andando de lado, tipo um caranguejo. Foi muito melhor assim. De qualquer maneira, meu pé afundava cada vez mais, e meu tênis antes amarelo virou cinza carbono.

Já ao longe comecei a ver aquele pontinho amarelo neon: meu namorado.

Me concentrei em terminar a descida sem passar vergonha, e fui direto a ele perguntar o porquê não tinha me esperado lá em cima, pois queria ter tirado fotos com ele e com meu celular. Foi um ataque digno de um mini cão raivoso. Não dei tempo para respostas. Estava fula da vida. Continuei minha caminhada andando cada vez mais rápido e deixando ele pra trás. Não queria papo.

Só que ele tinha a mochila da comida. E mais cedo ou mais tarde eu teria que parar e esperá-lo, pois meu estômago já estava começando a reclamar.

Parei em umas pedras e aguardei. Lá vinha ele, novamente. Parecia assustado, afinal até então ele nunca tinha presenciado meu ataque de mini Pinscher. Exigi minha refeição e sentei para comer. Depois me senti mais calma para conversar sobre o que tinha acontecido e o que eu não tinha gostado.

Tudo bem que não fui a pessoa mais bem humorada na descida. Aquele caminho parecia infinito e não havia tempo para descanso, se não perigava de ficarmos sem ônibus.

Finalmente, chegamos. E a melhor sensação foi ter sentado naquele ônibus para voltar e escutar ele dizendo: “Pronto, acabou. Está tudo bem agora.”

No hostel, a alegria de um banho quente, uma cama grande e uma pizza me trouxeram de volta à feliz normalidade.

Ariela Maier – Bela urbana. Uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Muito difícil começar a escrever a minha história… há um ano e cinco meses ela teve seu ponto final, mas, infelizmente, diariamente ainda lido com os efeitos de um ano e dois meses de um relacionamento extremamente abusivo.

Muitas pessoas ainda têm a errônea ideia de que relações de violência acontecem quando alguém viola seu corpo ou te bate, mas existem outros tipos de violência, na minha opinião, ainda mais destrutivas em alguns casos.

Bom, me apresentando, sou Malu, uma moça hoje com 22 anos, mas no tempo dos fatos tinha 20 anos. Sou cristã, de uma família religiosa de seguimento protestante, sou extrovertida, amo conversar com pessoas, trabalho desde os 14 anos de idade (sim, este é um fato importante para este
relato). Conheço meu abusador há aproximadamente 9 anos. Nesse período nutrimos uma amizade saudável, mas quando nos aproximamos e cogitamos o namoro, o primeiro alerta estava nítido. Sim, os sinais estão gritando a todo momento, mas a paixão não nos deixa enxergar. Este primeiro sinal se deu quando ele reclamou da distância que teria que percorrer para me encontrar (vinte minutos de estrada). Eu ignorei esse sinal, quis dar “N ” razões para a solução do problema, e me desculpei pelo transtorno do deslocamento.

No começo do relacionamento “eles” não mostram sua verdadeira face, mas aos poucos começam as manipulações. No meu caso, ele foi se utilizando de cada área onde eu era forte e as áreas que foi me afetando foram: relação familiar, minha carreira, visão que tinha sobre meu próprio corpo, meus
relacionamentos interpessoais, forma que eu utilizava meu dinheiro, tudo isso regado a muita manipulação, cinismo, comentários passivos-agressivos.
A grande porcaria de um relacionamento manipulador é que ele não vem como uma faixa na testa falando “sou um covarde abusador”. Geralmente são pessoas calmas e “centradas”, na visão de todos, mas que são verdadeiramente monstros.

Vou discorrer seu mecanismo e forma de agir em cada área. Espero ajudar pessoas que estejam passando por cada situação de abuso.
Relação familiar: Pessoas abusivas vão se utilizar de artimanhas para te colocar contra sua família, falando que sua família é a errada sempre, e que você nunca deve se parecer com as características da sua família. No meu caso, ele fez isso, pois não suportava o fato da minha família ser unida.
Quando tínhamos algum problema familiar, o que é normal, ele me colocava sempre contra meus pais e me fazia sentir inadequada o tempo todo, como se o único modelo de vivência era a forma como a mãe dele levava a vida. Diversas vezes ele me pressionava a agir como ela, falava que
odiaria me ver como a sua tia, alguém que era comunicativa e extrovertida. Isso foi me desgastando, mas eu acreditava nele e, por vezes, me afastava, ficava mais na minha. Comecei a não falar mais das situações que passava com ele. Minha mãe não gostava dele, mas sempre o respeitou.
O abusador vai querer te isolar da sua base, afinal, um alvo isolado é muito mais fácil de atingir e derrubar, e ele não tem escrúpulos para isso.

Carreira: Eu sou uma menina que veio de uma família de classe média-baixa, que passou por muitas privações quando era criança e sempre aprendeu o valor do dinheiro; por conta disso, desde muito nova sempre ajudei meus pais, sempre trabalhei, com o que fosse, sempre quis ter meu
dinheiro. Ele era uma pessoa que, próximo aos 30 anos, não tinha quase trabalhado com carteira assinada, e quem pagou a faculdade integral dele foram os pais, assim como cada gasto. Então, ele se afetava muito por eu já trabalhar dando aulas particulares, fazendo faxinas, ensaios fotográficos
para conseguir pagar meu curso. Constantemente ele queria que eu desistisse do curso, disse que eu não conseguiria me formar na faculdade, sempre tinha comentários passivos-agressivos que faziam eu me sentir incapaz e duvidar do meu potencial em tudo que eu domino.

Visão do meu corpo: Ele me conheceu quando eu tinha um corpo extremamente magro. Tinha 16 anos quando o conheci e ele na casa dos 24 anos. Com o passar dos anos, meu corpo mudou.
Mesmo sendo atletas, nós mulheres temos nossas particularidades. Sua forma de me magoar era com comentários como: “Você até que está bem, mas precisa emagrecer uns quilos para ficar melhor” (eu estava sete quilos abaixo do ideal para o meu IMC). Sou alta, e mesmo que tivesse um corpo fora do padrão, ninguém tem direito de falar que você é deformada. Mas ele sempre tinha um comentário malvado, com uma calma na fala. Eu fui me vendo no espelho e me odiando, com a autoestima cada dia mais afetada. Nessa altura ele já estava com domínio de três áreas da minha vida. Sem minha base familiar e perspectiva de valor, caí nessa cilada emocional.

Relacionamentos interpessoais: Esses abusos ainda foram mais intensos. Ele ficava com ciúmes que eu fosse amiga dos meus amigos de anos e também não gostava das minhas amizades da faculdade, dizia “por que eu tinha que me relacionar e ter amigos sempre homens?”. Eu não queria conflito, então deixei meus amigos e me esforcei para ter mais amizades femininas, mas nunca tive muita afinidade. Ele falava que era meu jeito que me afastava das mulheres, dizia que elas eram recatadas e menos expansivas, por isso eram amigas entre si, e que por isso, eu não conseguia me enturmar. Ele que nunca estava satisfeito com nada, falava que eu tinha que ter uma vida além dele.
Os abusadores não querem que você tenha amigos, querem te humilhar, querem ter você na palma da mão para que eles brinquem com seu emocional para satisfazer seu sadismo cruel.
Nesse processo, comecei a ter episódios de síndrome do pânico, ele causava os gatilhos e sumia por dias; depois manipulava toda a situação e eu sempre pedia desculpa, mesmo quando não tinha como eu ser culpada pelos seus desvios de caráter.
É uma prisão que é muito difícil ver as algemas, mas se você precisa abrir mão de quem você ama por outra pessoa, isso não é amor, é posse.

Vida financeira: Sempre tive menos poder aquisitivo que ele, os pais dele têm uma vida estável e segura financeiramente, e eu, como era a única responsável pelas minhas finanças, tinha que fazer aquele malabarismo para pagar todas as contas. Sendo autônoma, não tendo carteira assinada, ele sempre questionava cada gasto que eu fazia, sempre queria uma justificativa, falava como eu tinha que gastar meu dinheiro, motivo de inúmeras brigas que me desgastavam internamente. Sentia-me culpada por cada centavo que eu gastava, pois sempre era questionada em como utilizava meus recursos. Ele se sentia menosprezado, e um dia até disse: “Ainda bem que fui chamado no concurso antes de você ter carteira assinada”. Que tipo de pessoa fala algo assim? Alguém que se odeia e quer te fazer se odiar e viver culpada e frustrada. Como na vez que fomos ao shopping para jantar, eu pedi de sobremesa um sorvete do Mc Donald’s de R$ 10,00 e ele me respondeu: “Você merece uma casquinha”. Não era em tom de brincadeira não, ele tinha um vale de R$ 900,00. Você deve estar pensando, mas casquinha é legal, seria sim, se fosse o que ele pudesse me oferecer, eu aliás, tomaria com enorme felicidade, como em todas as vezes que paguei minha parte nas contas no namoro em todas as nossas saídas, mas essa situação foi única e exclusivamente para me humilhar e constranger.

Defraudação emocional: Como mulher cristã, meu maior sonho era casar e ter uma família. Não existe nada de errado com meu sonho, ele é legítimo, mas foi usado diversas vezes para me manipular quando eu não atendia às expectativas dele e ouvia a seguinte frase: “Você está quase pronta para eu te amar incondicionalmente e te pedir em casamento, mas isso eu não gosto”. E eu, como já estava com a minha vida nas mãos desse monstro, tentava me adequar a todas as exigências que eram inalcançáveis, pois ele nunca iria casar comigo, era sempre para me ver subjugada a ele.
Chegou a vir na minha casa falar sobre os planos de como queria a cerimônia, fez uma lista de casamento junto com meus pais, até com um cerimonial tínhamos marcado, ou seja, eu não estava criando expectativas do nada. O amor a esse sonho me fez aceitar o inaceitável, pois estava
empolgada com o casamento. Todo abusador faz um ciclo à ofensa, te faz pedir desculpa a ele. Não é podre o tempo todo, afinal, precisa te dar algumas migalhas para poder continuar com os jogos emocionais e fazer tudo novamente, então, ele sempre vai falar que você que é louca para casar, que você que o está pressionando, sendo que ele nunca quer se comprometer de verdade. Não tem capacidade de amar e de cuidar de alguém. Irá brincar com seus sonhos mais puros e te fazer se sentir culpada por sonhar. Um relacionamento abusivo é sempre recheado de culpa, infelizmente.

O fim do meu relacionamento veio após sucessões de humilhações, uma delas da minha ex-sogra, que tinha comportamentos extremamente inadequados, como oferecer resto de comida do próprio prato para que eu não realizasse um pedido em restaurante (mesmo eu tendo dinheiro para isso), com medo dela ter que pagar a conta. Aquilo foi muito humilhante. Muitas vezes ela ficava medindo a quantidade de comida que eu colocava no meu prato, fazia pouco-caso das comidas que minha família fazia em datas comemorativas, situações de extremo desagrado. Mas o estopim foi
ela reclamar e falar que iria me cortar de uma foto de família, pois segundo ela, eu não estava adequada (um shorts que “não era vulgar” era na metade da coxa), na opinião dela. Como ele me queria como uma mãe dele parte 2 , brigou comigo por eu ter ficado chateada, e fez eu me sentir como uma garota de programa por um shorts.
A partir daquele momento me enchi e perdi o medo, comecei a falar do que não gostava e não deixei ele me tratar mais daquela forma. Dois meses depois tivemos um desentendimento por ele não ter consideração por mim, ele sabia que estava errado e sumiu por uma semana, sabia que isso me gerava pânico.

Neste relacionamento foram três internações por crise de asma devido ao stress que ele me causava, tamanha era a pressão que fazia sobre mim.
Ele me encontrou pessoalmente e disse que queria terminar, conversei com ele por algumas horas, porque mesmo ele sendo um monstro, eu não sabia viver sem ele, era como um parasita me sugando energias e eu não sabia mais a minha identidade. Eu tinha aberto mão de tudo por conta do meu
sonho de ser esposa e mãe, não entrava na minha cabeça que mesmo abrindo mão de tudo, eu era descartável.

Um dia ele comprou bombom e disse que iríamos nos acertar, me levou em casa. No dia seguinte, ele disse que estava terminando comigo, que a culpa de tudo que ele me fez era minha e me bloqueou em todas as mídias digitais, ele e todos os membros da casa dele, que sempre passaram pano para tudo que ele fez. Meses depois, ele viu que tinha sido exposto e que as moças não se aproximavam dele. Eu descobri que eu não era sua única vítima. Fez isso com outra, abandonando da mesma forma covarde, só que o e-mail foi para a mãe da moça, que graças a Deus superou o que ele fez e hoje tem uma vida estável emocionalmente.

Ele me pediu perdão e disse que tudo que fez foi porque se sentia insatisfeito com quem era e como estava a sua vida, por isso agia assim comigo.
Um conselho: se passar por algo assim, perdoe, mas não mantenha contato, pois esse tipo de pessoa infelizmente não muda. Caráter ou você tem ou não tem.

Este é o meu relato!
Tiveram vezes que preferia ter apanhado a ter o dano emocional que ele me causou. Foi um longo caminho e ainda tenho uma enorme caminhada para me curar, mas cada dia é um passo para me perdoar. Acho que essa é uma das partes mais difíceis, se perdoar pelo que você passou e não se
culpar. Jamais a culpa é da vítima.
Quero voltar a me amar e saber o meu valor.
Espero que tenha ajudado alguém.

Malu Zaparoli – Bela urbana, 22 anos, cristã, formada em fotografia, professora de informática, líder de um projeto social que atende pessoas em situação de vulnerabilidade social

Hoje eu acordei sentindo que tudo está diferente e ao mesmo tempo fazem quase três semanas que estamos na mesma situação, entocados em casa.
Enquanto estou fazendo meu café, escuto pessoas gritando na rua. Achei que era briga de casal, uma mulher e um homem. Curiosa, abri a janela para descobrir de onde estava vindo essa comoção toda. Em uma casa na minha rua, uma mulher jovem na janela gritava para um homem jovem na rua. Os dois expressando um amor eterno e a saudade apertando o coração. Eles moram no mesmo bairro mas já fazem semanas que não se abraçam e para poder matar um pouquinho dessa saudade ele resolveu declarar um poema de amor para sua namorada, sem se importar com quem pudesse ouvir. Quando ele terminou a rua toda bateu palmas e ele agradeceu como se fosse um ator terminando a cena final de uma apresentação no teatro, depois de mais algumas promessas de amor para sua amada na janela, ele foi para casa, ela ficou na janela até ele virar a esquina e sumir de vista. 

Todos voltaram a fazer o que estavam fazendo. Imaginei o quanto deve ser difícil para uma paixão nova ter que esperar para poder se abraçar de novo. Não sou jovenzinha mas me lembro muito bem como é.
Moro na Inglaterra há 15 anos e tenho família aqui, na Itália e no Brasil. 
Converso por WhatsApp com várias pessoas quase todos os dias. Estranho pensar que antes do Covid-19 eu não falava nem com metade dessas pessoas, família e amigos, nem mesmo uma vez por ano. E agora faço e recebo chamadas de pessoas queridas que estavam perdidas no meu passado. 
Uma grande preocupação é com a família na Itália, minha tia-avó de 94 anos, a última de uma geração na minha família materna que passou por situações muito piores do que a que estamos passando agora. Ela sobreviveu guerras, a rua onde ela morava foi destruída por bombas, perdeu amigos nesse dia, passou fome, frio e terror, mas não perdeu seu coração e nem a vontade de viver. Ontem conversamos e ela me disse que ficar em casa com a família não parece ser esse horror que os jovens estão dizendo ser. Ela está aproveitando esse tempo, onde os netos não tem escolha mas ficar em casa com ela. Eu me senti tão pequena e boba, mas ela abriu meus olhos. Como eu admiro essa mulher! 
Fico imaginando como vai ser quando isso acabar. Será que todas as pessoas que conheço vão estar aqui? Será que meu trabalho vai estar lá? Quando saio para uma caminhada curta pelo bairro e cruzamos caminho com alguém pela calçada eu notei que se são adultos ou jovens as pessoas te olham feio. Aquela sensação que você desagradou alguém simplesmente por ter se atrevido a levar a cachorro para um rolezinho no quarteirão. Agora se são idosos, eles te olham e sorriem e perguntam se está tudo bem.
Não posso prever o futuro, mas posso imaginar que não vai ser como antes. Abraços apertados só para quem vive na mesma casa que você. Aperto de mão vai sair de moda. Sorriso amarelo e espaço pessoal de dois metros será a norma. A não ser que você use transporte público, daí não tem jeito. 
Adaptar e continuar como se tudo que mudou impactou para o bem. 
Bom, não sei, mas espero estar aqui para descobrir. 

Ana Carolina Beresford – Bela Urbana, trabalha numa caridade que ajuda pessoas com deficiências físicas e mentais a locomoverem-se, sente muito orgulho do seu trabalho. Adora animais e viajar sempre que pode.

Quer namorar comigo?

Pergunta a fêmea beija flor para o tímido macho beija flor?

Eu quero um beijo! Vem

 E o macho beija flor responde: Agora não posso, acabei de comer

e ainda não fiz a minha higiene!! Para espanto da fêmea beija flor!

 Então, estou indo…

Grata pela sua atenção, comigo é assim: Eu pedi e você não deu…

Então perdeu esta oportunidade, pois eu queria somente um beijo

que poderia ser técnico, eu na verdade somente queria um gesto de afeto

entre o meu “eu” e o teu “eu”, que observei estar sem teto!!

Não se esqueça beija flor a oportunidade só tem penas na frente…

atrás ela é carequinha!

Seres Humanos, pensem bem, muitas vezes alguém pede aquilo que a gente não tem, e temos vergonha de…

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

 

Fui com o R namorado no shopping, na casa da C e depois na sorveteria, onde soubemos que é proibido dar um beijo na boca, onde o garçom veio até nós e se nos proíbe dizendo que não pode “gestos amorosos” no local.

Eu odeio essa conduta moralista que na verdade é só cínica.

Um beijo, o que tem demais?

19 de dezembro – Gisa Luiza – 19 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

Próximo beijo será pra “ele”. Ele que um dia neguei muitos beijos. Ele que mesmo depois de anos de casados gostava de longos beijos.

Dizia que “o beijo aquece o amor que esta esfriando”. Por cinco anos ficamos ausentes um do outro, partiu e acreditando ser o fim buscou uma outra boca.

Fiquei sozinha gostando da pausa, da frieza, correndo na labuta, numa luta por viver… cinco anos … De vez em quando sonhos com beijos, beijos roubados, beijos consentidos… mas sonhados, não vivenciados. Vem a saudade, da boca de hálito puro, mesmo na manhã ainda no leito.

Vem a lembrança dos beijinhos terminados em mordidinhas nos lábios que pareciam esticar como chicletes numa provocação para outros beijos. A saudade daqueles beijos, foi chegando, se instalando, se firmando e agora?

Bora correr atrás daquela boca que depois de uma boa conversa diz também sentir saudades da minha. Confessa que enquanto outra boca beijava era a minha que ansiava… Bora buscar sua boca em minha boca e nunca mais desgrudar!

O próximo beijo, será pra ele, pois nunca foi de mais ninguém!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, 52 anos, divorciada, mãe de duas filhas, uma de 25 e outra de 17, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

 

Nestes últimos dias tive um papo com um cara que me fez refletir bastante sobre um assunto tabu. Na conversa ele me disse que apesar de ser muito bonita e atraente dificilmente eu engataria um namoro pois tenho filho e essa questão diminui bastante as minhas chances.
Ok! Até certo ponto concordo pois o que mais se vê por aí é cara com medo de relacionamento serio, imagine então assumir uma família que ele não formou. Mas a partir deste pré-conceito resolvi enumerar alguns tópicos esclarecendo porque deve ser muito mega-master-bom me namorar sendo eu uma mulher com filho.
Então vamos la!

1. Sou muito mais madura e tenho menos mimimi.
Já vivi um relacionamento, enfrentei a separação e agora cuido do meu filho sozinha. O foco e a importância maior da minha vida está nele, não em você. Tenho pouco tempo para picuinhas ou infantilidades como algumas mulheres que saíram da adolescência e sufocam seus namorados. Namorar comigo é mais tempo para fazer as suas coisas sem alguém no pé para cobrar tua atenção a cada minuto.

2. Sou mais franca e com menos joguinhos.
Já vivi um relacionamento e já passei pela experiência de maternidade o que me tornou mais franca na parte sexual. Aqueles joguinhos do tipo “O que ele vai pensar de mim se eu tomar a iniciativa?”, ficou muito mais escasso pra mim. Somos adultos, se quisermos fazer algo prazeroso juntos, por que passar vontade?

3. Mais independente.
Resolvi cuidar do meu filho sozinha, preciso arcar com custos e responsabilidades para isso. Não preciso me escorar em você e você não precisa se responsabilizar pela minha vida financeira. Se estivermos juntos, é porque nos gostamos. E ponto.

4.Muito mais resolvida com meu corpo.
Depois que meu filho veio ao mundo, fiquei bem mais resolvida com meu corpo. Aquelas neuras com estrias, celulites ou quilinhos a mais são mais amenas para mim que já convivi com um turbilhão de mudanças muito mais drásticas. Aceito melhor meu corpo sou muito menos encanada e mais suscetível a me dar e proporcionar prazer.

5. Sem pressa pra decisões serias.
Ao contrário de algumas mulheres que são loucas pra casar, eu já passei por isso e sei bem o ônus e bônus deste passo. Eu posso até querer casar de novo, mas serei muito mais cautelosa para tomar esta decisão já que tenho uma vivência maior tanto em relacionamento quanto na maternidade. A coisa vai fluir naturalmente se tiver que ser. A pressão será muito menor e a tendência é que os passos aconteçam no momento certo, sem precipitação.

6. Sou uma mulher de atitude!
Ser mãe solteira não é fácil. Cuido sozinha do meu filho todos os dias, trabalho, cuido da casa, tenho responsabilidades com ele e ainda reservo um espaço para me arriscar na vida emocional… Namorar comigo é encontrar uma mulher forte e decidida! Ao contrario daquelas menininhas na balada.

7. A gente vai se curtir muito! (E é isso que importa!)
Meu filho não precisa de um pai, ele já tem um! Não precisamos de ninguém nos completando ou preenchendo o lugar de alguém. Tudo aqui já esta muito completo e resolvido. Então só o sentimento, respeito e atitude bastam.
De resto é só correr pro abraço!

Agora o recado vai para o cara que me fez refletir por horas sobre essa questão e me disse que dificilmente namoraria já tendo um filho.
Deixa o preconceito de lado! A vida não é uma equação matemática com resposta única. Você, provavelmente, já foi a tampa de outra panela e a tua ex a metade da laranja de outro cara. Por que me penitenciar por ter vivido algo que não deu certo? Por que me julgar por ter tentado? O importante não é se eu tenho um filho, se tenho outro status social, ou melhor ou pior resolvida financeiramente do que o cara que estou, o importante é que eu estou pronta para fazer alguém feliz e deixar alguém me fazer feliz! Se isso acontecer, todo o resto é balela.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

 

Na faculdade, na saída, L fez cara de coitada e disse que queria conversar comigo, mas quem falou tudo fui eu. Ela ficou com cara de tonta olhando para mim. O problema pra ela é o social, como é que ia ficar? Pode? Ficou fazendo gênero de sofrimento, detesto pessoa assim, sinceramente essa menina não merece a mínima, não merece de jeito nenhum minha amizade. To com raiva de toda essa falsidade. Passa, porque eu não sou de ficar com raiva de ninguém por muito tempo. “Chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia”.

….

Fomos para a festa. Lá, muitas pessoas da classe e de fora, ignorei os ignorados, alguns paqueras, inclusive o M que conheci ontem, ele pegou meu telefone. Alguns correios-elegantes, gostei! Expliquei, ou melhor, respondi o correio para o Z, falando que eu gosto dele, mas que ele é só meu amigo. Fomos para outra festa, muita gente conhecida, festa na rua e dentro… vinho, não deu para resistir, bom, já foi o dia que eu tinha direito de beber, tava engraçado eu e  o F bebendo vinho de graça, numa festa esquisita, demos muitas risadas. Fiquei altamente tonta, levei  a G e fui pra casa, bateu bode, chorei. Cheguei em casa, guardei o carro, me tranquei no banheiro e chorei, me veio algumas pessoas na cabeça, fui dormir, chorei, altamente neném.

Ah, na primeira festa o A me deu um abraço e disse que tá com saudades de mim, deu saudades de mim também, de verdade.

8 de julho – Gisa Luiza – 20 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

 

Estamos velhos, amigo.
Aquele nosso amor antigo
Dorme o sono bom do passado,
Perdeu a memória
E não se lembra mais de nós.
Aquele amor dos tempos idos
Não mais nos reconhece
E nem nós o reconhecemos mais.
Ainda assim lhe convido:
Caminha um pouco comigo, amigo.
Vamos dar as mãos e rir um pouco,
Desempoeirar algumas boas lembranças
E levar a saudade mansa
Pra tomar um pouquinho de sol…

Alda Nilma de Miranda – Bela Urbana, publicitária, autora da coleção infantil “Tem planta que virou bicho!” e mais 03 livros saindo do forno. Gosta de tudo que envolve tinta e papel: ler, desenhar e escrever, mas o que gosta mesmo é de inventar motivos para reunir gente querida. Afinal, tem coisa melhor que usar o tempo para estar com os amigos?

 

Este texto, assim como vários outros, não é para te dar uma conclusão fechada. É simplesmente para expor um assunto tão em voga e que nesta semana fez parte da discussão com os amigos nesta semana. Somos todos bem instruídos (pelo menos é isso que se espera de uma faculdade), leitores ávidos, cheios de opinião… por natureza e por profissão (jornalista costuma querer saber de tudo, entender tudo e “pitacar” sobre tudo). Vamos lá: a palavra da vez é ASSÉDIO SEXUAL!!!

Nada muito inédito, mas sempre comentado, principalmente quando é escancarado pela mídia pelo assediador (a) e vítima serem “famosos”. Mas quantos não famosos sofrem isso diariamente em casa, na rua, no trabalho até mesmo em seus relacionamentos. A gente tem a falsa impressão de que o assédio ocorre apenas em casos de maior hierarquia e que o assediador é sempre um homem. ERRADO. Tudo bem que acredito que nós mulheres somos muito mais assediadas do que os homens, mas mulheres têm assediado cada vez mais (conheço pelo menos três casos e um deles foi cometido por uma subalterna).

Mas voltando à discussão com os amigos: como definir e caracterizar o que é ou não assédio. Eu sou muito brincalhona, cumprimento todos com beijos e abraços. Um beijo e um abraço podem ser assédio? A resposta veio com exatidão de um dos meninos: Depende de quem recebe. Se gostar, não é. Se não gostar, é. Mas como assim? Outra resposta básica: se o cara ou a mulher te cantam e você tem pré-disposição, você jamais veria isso como assédio, e sim como flerte. Agora, se você não tem interesse por qualquer motivo, você vê como assédio e denuncia (se tiver coragem).

Tenho certeza de que a linha de divisão entre um flerte, uma brincadeira e assédio é muito tênue e fácil de ultrapassar. E ainda estamos aqui, pensando, sem ter uma opinião clara de um código de condutas que defina o que é ou não assédio sexual. É claro que excluímos dessas dúvidas ações explícitas como toques inapropriados, em partes íntimas por exemplo, ou abuso de poder mesmo, com palavras, na lei do toma lá, dá cá. A dúvida é mesmo nas ações mais sutis: olhares, abraços mais demorados, carinhos no cabelo, brincadeiras…

Segundo o Aurélio, assédio é “pôr assédio, cerco a; perseguir com insistência, e/ou importunar com tentativas de contato ou relacionamento sexual”. Ok, nós aqui estamos no caminho certo… Mas por que é tão difícil discriminar as ações quando elas não são explícitas? Seria tudo uma questão de percepção?

Essa discussão é sem fim. A única certeza que tenho é que, mais uma vez, como quase todos os problemas do país, a solução está no respeito ao próximo e na educação social. Muitos de nós, enquanto sociedade, temos que parar cultuar assediadores. Não são raros os casos de famosos ou pseudos famosos nacionais e internacionais que são acusados de agredir suas companheiras e que continuam a ser admirados pelo público.

Sonhadora que sou, espero que não tenhamos mais que nos deparar com outras Su Tonanis e Zé Mayers num futuro bem próximo. Mas essa é a parte do sonho e dos meus eternos óculos cor de rosa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!