Este texto, assim como vários outros, não é para te dar uma conclusão fechada. É simplesmente para expor um assunto tão em voga e que nesta semana fez parte da discussão com os amigos nesta semana. Somos todos bem instruídos (pelo menos é isso que se espera de uma faculdade), leitores ávidos, cheios de opinião… por natureza e por profissão (jornalista costuma querer saber de tudo, entender tudo e “pitacar” sobre tudo). Vamos lá: a palavra da vez é ASSÉDIO SEXUAL!!!

Nada muito inédito, mas sempre comentado, principalmente quando é escancarado pela mídia pelo assediador (a) e vítima serem “famosos”. Mas quantos não famosos sofrem isso diariamente em casa, na rua, no trabalho até mesmo em seus relacionamentos. A gente tem a falsa impressão de que o assédio ocorre apenas em casos de maior hierarquia e que o assediador é sempre um homem. ERRADO. Tudo bem que acredito que nós mulheres somos muito mais assediadas do que os homens, mas mulheres têm assediado cada vez mais (conheço pelo menos três casos e um deles foi cometido por uma subalterna).

Mas voltando à discussão com os amigos: como definir e caracterizar o que é ou não assédio. Eu sou muito brincalhona, cumprimento todos com beijos e abraços. Um beijo e um abraço podem ser assédio? A resposta veio com exatidão de um dos meninos: Depende de quem recebe. Se gostar, não é. Se não gostar, é. Mas como assim? Outra resposta básica: se o cara ou a mulher te cantam e você tem pré-disposição, você jamais veria isso como assédio, e sim como flerte. Agora, se você não tem interesse por qualquer motivo, você vê como assédio e denuncia (se tiver coragem).

Tenho certeza de que a linha de divisão entre um flerte, uma brincadeira e assédio é muito tênue e fácil de ultrapassar. E ainda estamos aqui, pensando, sem ter uma opinião clara de um código de condutas que defina o que é ou não assédio sexual. É claro que excluímos dessas dúvidas ações explícitas como toques inapropriados, em partes íntimas por exemplo, ou abuso de poder mesmo, com palavras, na lei do toma lá, dá cá. A dúvida é mesmo nas ações mais sutis: olhares, abraços mais demorados, carinhos no cabelo, brincadeiras…

Segundo o Aurélio, assédio é “pôr assédio, cerco a; perseguir com insistência, e/ou importunar com tentativas de contato ou relacionamento sexual”. Ok, nós aqui estamos no caminho certo… Mas por que é tão difícil discriminar as ações quando elas não são explícitas? Seria tudo uma questão de percepção?

Essa discussão é sem fim. A única certeza que tenho é que, mais uma vez, como quase todos os problemas do país, a solução está no respeito ao próximo e na educação social. Muitos de nós, enquanto sociedade, temos que parar cultuar assediadores. Não são raros os casos de famosos ou pseudos famosos nacionais e internacionais que são acusados de agredir suas companheiras e que continuam a ser admirados pelo público.

Sonhadora que sou, espero que não tenhamos mais que nos deparar com outras Su Tonanis e Zé Mayers num futuro bem próximo. Mas essa é a parte do sonho e dos meus eternos óculos cor de rosa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Se você pedir para uma plateia fechar os olhos e apontar pra si mesmo, ao menos 80% das pessoas irão apontar para o peito na direção do coração, embora seja no cérebro que está o centro de suas convicções, todo seu pensamento e decisões. Por que isso?

Porque no fundo temos o mesmo conceito dos gregos, somos o que SENTIMOS. No fundo o que realmente  importa são as emoções, mais especificamente o AMOR.

Tomei conta disso lendo um livro de um médico, “Emoções Mortais” Dr Don Colbert.

Mas e no nosso dia a dia?

Se um coração físico estiver com veias e artérias entupidas o que vai acontecer? Infarto. Morte.

Será que somos a geração que entupiu as artérias das emoções e desaprendeu a amar?

Amar envolve confiança, de cara já há um problema, vivemos um caos de confiança. Qual laboratório vende remédio realmente confiável? Qual marca vende lavadora que não quebra? Qual site realmente vai entregar o produto comprado? Qual operadora vai entregar o plano contratado de verdade? Imagine então você confiar SEUS SENTIMENTOS em uma relação. Vou ser tratado bem? Rejeitado? Meu amor será retribuído? Acabamos por proteção e instinto de sobrevivência a pisar em cascas de ovos, vamos tateando. O problema é que acabamos nunca vivendo um amor verdadeiro, e quando enfim acontece um amor verdadeiro corremos assustados porque isso envolve baixar nossos escudos. Amor é uma rua de duas mãos, e quando deixamos nossos sentimentos, afetos, carinhos, amor, perdão etc. parados congestionamos a rua do amor e acabamos infartando sufocados de amor retido.

Se você soubesse que fosse morrer hoje procuraria quem você ama? Precisamos aprender logo a amar e perdoar. Não tem perdão sem amor ou amor sem perdão.

Não tem amor sem entrega e sem confiança. Talvez alguém quebre a confiança, te decepcione, mas você só vai saber se tentar. Vivemos a geração do DESAMOR. Quantos relacionamentos onde,  estão investindo de tudo, menos no amor. Quem pode dizer de verdade que recebeu um abraço eterno onde olhos se cruzaram e nesse olhar almas se tocaram e não desejavam mais sair daquele abraço? Entregamos nossos corpos, mas, não entregamos nossa alma. Você já enxergou a alma de alguém? Almas são lindas porque elas não conseguem dissimular nada. Por isso as pessoas não se olham mais nos olhos….

Imagine que uma pessoa fosse proibida de beber água por uma semana, na verdade fosse apenas liberada para beber refrigerante de cola. Daqui a uma semana como estaria o organismo dessa pessoa? No mínimo, caso não tivesse morrido, estaria com diabetes e outros casos graves. Provavelmente alguns dentes destruídos. Se para nós é inaceitável imaginar uma pessoa passar dias sem água, como podemos aceitar nossa alma viver sem amor?

Hoje vejo pessoas fazendo essa tortura com sua alma, alimentam a alma com um bombardeio de medo (notícias, telejornais…), um bombardeio de desamor, de desesperança, falta de fé, falta de carinho. É tanta orfandade que o que sobra nessa criatura bombardeada pelo medo acaba sendo pior do que o medo que ela tinha. Em outras palavras, pessoas com medo de amar acabam recebendo em si mesmas,  algo muito pior do que o medo delas: recebem desamor, indiferença e morte espiritual.

Estamos com as emoções na UTI, um mundo de muros, de uma esquerda grotesca que insiste em vulgarizar com suas “artes” tudo que era belo, e uma direita ultra conservadora que insiste em voltar com a castração. Não há mais o equilíbrio. Não há mais AMOR.

Espero que você que teve a paciência de ler até aqui, faça um favor a si mesmo: INTERROMPA A MÍDIA TRADICIONAL E SUA CULTURA IMEDIATAMENTE NA SUA ALMA. Busque alternativas, não aceite mais essa ordem mundial. Já está provado que roubaram nossa felicidade e tiraram a nossa paz, nossa beleza.

Depois, limpe suas artérias da alma, retire medos, orfandades, se perdoe e  perdoe os outros e viva, porque com medo de viver, muitos estão morrendo sem amor, e alguns vivem sem saber que são zumbis. Amem, tentem, já pensaram que de repente PODE DAR CERTO?

Aproveitem o hoje, e respirem, saiam desse turbilhão. Eu resolvi quebrar rotinas impostas, uma delas, estou mexendo dez vezes menos no celular…. e descobri que tenho tempo sobrando no meu dia acreditam?

Bora AMAR?

Renato B Sampaio – Belo Urbano, publicitário, cristão e um questionador da vida, sempre em busca da verdade. Signo de áries, fã de Jazz, Blues e Música gospel.

 

Abraço envolve

Amasso bagunça

Abraço é sempre bom

Amasso depende

 

Abraço ganho

Amasso atordoa

Abraço dou

Amasso e passo (a roupa)

 

Abraço meu amor

Amasso com amor

Abraço com braços

Amasso com o corpo todo

 

Abraço é apertado

Amasso é aguardado

Abraço sempre acolhe

Amasso desarruma

 

Abraço conforta

Amasso confunde

Abraço responde

Amasso estremesse

Abraço ou amasso?

 

Abraço e amasso VOCÊ.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos www.3bis.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

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Eu vinha pela vida tristemente
Sem ter sonhos ou aspirações
De repente, senti dois olhos lindos
Me fitarem de maneira diferente.

Por alguns segundos me fitaram
Me desarmando então completamente
E vi que meus anos de espera
Haviam se acabado finalmente.

E como quem espera tanto tempo
A chegada é sempre tão bonita
Recebi-a naturalmente, sem espanto
Pois isto era coisa decidida.

Agora quando estou em seus braços
Me sinto até recompensado
A cada gesto afirmam-se estes laços
Te amo e sei que sou amado.

E sorrindo, às vezes fecho os olhos
Agradecendo a Deus sua chegada
Então beijo suas mãos e peço
Venha, vamos seguir juntos esta estrada

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Wilson Santiago – Belo Urbano, Brasileiro, natural de Potunduva SP, união estável, engenheiro de produção, pesquisador, corintiano, espiritualista, musico, poeta, produtor musical e do signo de áries.

 

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Dia de chuva em São Paulo é um verdadeiro caos. A cidade parece que vira do avesso e o trânsito simplesmente pára, não anda para um lado nem para o outro.

Com esse breve raciocínio Antonio resolveu optar pelo metrô no lugar de usar o seu carro naquela sexta-feira, o quinto dia consecutivo de uma chuva intermitente a encharcar os ânimos dos paulistanos. Toda sexta, das nove ao meio dia, dirigia um grupo de teatro amador na zona leste. Para evitar o trânsito surreal daquele dia chuvoso, empreendeu uma epopéia por debaixo da terra. Saiu cedo, por volta das 7h30 da casa de uma ex-namorada que visitava com freqüência. Uma atriz com tendências suicidas no palco e na vida. Começou a viagem pela estação Parada Inglesa, na zona norte. Desceu na Sé e pegou a linha vermelha no sentido Corinthians-Itaquera. De guarda-chuva na mão, saltou na estação Patriarca, andou uns 15 minutos a pé e chegou quase todo molhado. A cabeça e os ombros respingados aqui e ali pelos furos irregulares e assimétricos no tecido puído e amarelado do seu guarda-chuva. E dos joelhos pra baixo era uma molhadura só, incluindo sapatos e meias – Ele sempre usava dois pares de meia em dias de chuva. Não era superstição, era medo de ficar resfriado – Tudo correu bem como de costume, a não ser pelo certo nervosismo que tomava conta dos seus 13 filhos adolescentes, como ele assim os chamava. No dia seguinte, sábado, seria a estréia daquele grupo na sede da associação de moradores do bairro. Ele tinha um carinho especial por aquela turma de jovens cheios de vida e vontade de vencer as dificuldades de viver na periferia. Dificuldades que todos aqueles que, assim como ele, que viveram ou vivem à margem da zona central da cidade, sabem muito bem o seu tamanho. Era o primeiro diretor e o responsável direto pelos primeiros passos na formação desses promissores futuros artistas. Alguns, tinha certeza, seriam grandes atores e atrizes, outros tinha lá suas dúvidas, mas todos eram como se fossem seus filhos de verdade. Tudo estava pronto e o último ensaio foi ótimo, fato esse muito diferente do que se está acostumado a ver no teatro profissional. O ensaio antes da estréia é sempre uma catástrofe. Acertou os últimos detalhes com os atores, afinou a luz, deu retoques no figurino e repassou o som. Ao término do ensaio, que se estendeu um pouco além das três horas habituais, foi abordado pelo presidente da associação de moradores, que havia chegado pouco antes do fim dos ensaios.

– Professor, estamos todos muito felizes com o seu trabalho por aqui. Nunca poderemos pagar pelo que o senhor fez pelos nossos jovens. Seremos eternamente gratos por isso.

– Deixa de bobagem homem.

– O senhor está com pressa?

– Não. Por quê.

– É que preparamos uma pequena surpresa pro senhor, e como amanhã vai ser uma confusão por aqui, queremos fazer isso hoje. Vamos até a sede?

– Claro que sim.

Lá se foram os dois. Antonio tentando preservar o que ainda não tinha sido molhado pela chuva. Sebastião, o presidente da associação, foi andando pela chuva mesmo. Estava de camiseta, bermuda e chinelo de dedos. Não era costume dele, andar vestido assim, em pleno dia de semana, mas estava de folga do restaurante. Era um homem alto e um pouco gordo, cuja barriga se pronunciava para além da camiseta, pelo menos dois números menores.

– Não tá com frio não Sebastião? Eu tô gelado.

– Nada Antonio. Tenho gordura de sobra aqui e ela me protege. Disse isso batendo na pança enquanto desviava de uma poça enlameada.

Na sede da associação foi recebido por mães, tias, avós e primas, fãs incondicionais daqueles atores estreantes. Pra surpresa de Antonio, ele era esperado com uma suculenta feijoada. Não era quarta nem sábado, dias sagrados dessa iguaria tipicamente nacional, mas a feijoada estava lá, completa, com tudo que ele tinha direito. Antes mesmo de dizer qualquer coisa em agradecimento, sentiu sua boca se encher lentamente de água. Era a reação física e mais sincera que alguém poderia ter diante do seu prato preferido e que exalava um aroma inigualável. Abriu um largo sorriso.

– É o meu prato preferido.

– E nós não sabemos, seu Antonio. Foi a Juju quem contou, disse dona Chica.

Juju era uma das atrizes que ele apostava todas as fichas. Uma menina talentosa e que quando sorria, lembrava uma grande amiga sua, também atriz, que sempre sorria com os olhos. Ela, a amiga, que ele não via há anos, tinha deixado o Brasil em busca de aperfeiçoamento em suas pesquisas no trabalho do ator. Essa era a última notícia que teve dela uns cinco anos antes daquela data.

– Ela disse que o senhor comentou isso num dos ensaios.

– É verdade. Disse isso enquanto tentava se lembrar de quando foi que tinha falado que adorava feijoada. Antes mesmos de puxar a cadeira e sentar-se ao lado de Sebastião, a imagem do tal dia brotou cristalina da sua memória. Ele havia proposto aos seus atores que representassem em dez movimentos, por meio de uma ação, o ato de comer o prato preferido de cada um. Lógico que no final do ensaio todos queriam saber qual era o seu prato preferido.

– E o seu professor, qual o seu prato preferido?

– Feijoada, Juju. Feijoada.

Comeu e comungou com aquelas pessoas da comida e de conversas o aproximaram ainda mais daquela gente. Em muitos momentos, a sua história de vida se confundia com um pouco da vida de cada um ali. Neide, que era a cara de uma prima sua e que ajudara Dona Chica na preparação do prato, não deixava nada passar em branco.

– Professor, acho que se o senhor andar sem o seu guarda-chuva vai ficar menos molhado. Parece uma peneira.

O riso foi geral na mesa. Deixa comigo que dou uns pontos e resolve o problema, disse isso Dona Matilde, levantando da mesa indo buscar a sobremesa. Sim, o cardápio era completo. Tinha até sobremesa. Uma torta de chocolate como poucas que tinha comido até então. Depois do café, olhando bem nos olhos daquelas pessoas simples e cheias de amor no coração, sentiu seus olhos encherem de lágrimas. E antes que todos caíssem no choro, Neide emendou:

– Não vem que não tem professor. Já tem água demais por aqui. Engole esse choro.

Abraçou um por um com um abraço longo e silencioso. Antes de ir embora, abriu um sorriso e disse:

– Tô pensando em começar a ensaiar com eles todos os dias. O riso estrondoso de todos mais uma vez competiu com o barulho insistente da chuva lá fora. Despediu-se e tomou o rumo da estação do metrô. A chuva, que teimava em não dar tréguas, completou o seu serviço. Antonio, pelas suas contas, estava aproximadamente noventa e três por cento molhado. Alguns pedaços da camisa, da calça e a sua cueca ainda estavam secos. Apesar da situação aparentemente diversa daquela sexta-feira, tudo tinha saído bem. A chuva, a roupa molhada, o sapato empapado de água e barro e o seu pé congelado apesar dos dois pares de meia, tinham pouca ou quase nenhuma importância. Estava feliz, e isso era o que importava. Com as mãos molhadas e os dedos duros de frio, segurou com cuidado o bilhete, que mesmo dentro do bolso da camisa, foi incapaz de resistir à chuva. Estava umedecido em uma de suas pontas, bem próximo à fita magnética. O bilhete passou pela catraca e saiu quase ileso do outro lado, apenas um pouco borrado, com sua tinta azul e preta misturada uma na outra. Antonio olhou para ele e pensou que a água havia provocado um efeito de aquarela no bilhete ao diluir a tinta impressa. Guardou o bilhete. Um dia pensaria naquilo com mais calma. Quem sabe não poderia tentar vender um projeto pro metrô, intitulado talvez de Arte no bilhete. O nome ocorrido ali, naquele momento, lhe parecia bom e o artista já sabia quem seria, o seu amigo Tarifa. Desceu as escadas, era momento de focar em outra coisa: ir pra casa e tomar um banho quente.

Durante todo o caminho da volta pra casa, fez o caminho inverso em sua cabeça. De trás pra frente, repassou sua vida até aquele momento. Apesar das dificuldades do dia-a-dia, a arte e o teatro sempre lhe proporcionaram momentos únicos, como o trabalho com aqueles jovens da periferia e feijoadas como a de Dona Chica. É não tinha o que reclamar, talvez não lhe faltasse nada, a não ser aquele grande amor que um dia fugiu pelo vão dos seus dedos. Não estava pensando numa mulher, estava pensando em todas aquelas que, em maior ou menor grau, poderiam ter sido companheiras para a vida toda. Mas assim como um heterônimo de Fernando Pessoa, não sabia se sentia demais ou de menos. Na dúvida, na eterna incerteza não agiu. Deixou a vida passar. Distraído em seus pensamentos, quase não desceu na Sé. Só conseguiu, porque naquela hora o trem anda vazio sempre. Era como se o metrô, no início da tarde, vivesse um verdadeiro buraco negro de passageiros. Frequentado apenas por mães com seus filhos, donas de casa, aposentados, vendedores ambulantes e trabalhadores, que como ele, têm horários flexíveis. Resumindo. Entre duas e quatro da tarde, o metrô era frequentado por todo tipo de gente, excluindo, é claro, a população economicamente ativa com emprego formal. Pelo menos a grosso modo, concluía Antonio calado, enquanto esperava o outro trem com destino ao Paraíso. Dentro do trem, resolveu que desceria na Ana Rosa. Era sempre mais tranqüilo pegar o trem na Ana Rosa. Não havia aquela afobação costumeira da estação Paraíso, mesmo naquele horário. O vagão não estava cheio. Conseguiu um lugar pra sentar. Na Brigadeiro, o carro ficou quase vazio. Bem a sua frente, sentada no lado oposto do vagão, estava uma mulher jovem. Não dava pra ver o seu rosto – O seu cabelo preto e longo cobria o seu rosto, enfiado num jornal – mas certamente ela tinha menos de 30 anos, a julgar pelo que o seu corpo revelava. O caderno era o de classificados e ela carregava uma caneta vermelha na mão direita. Olhou-a de cima a baixo. Vestia-se como uma bailarina. Sim, ela deve ser bailarina. Contudo, seu jeito de cruzar as pernas revelava outra coisa. Antonio tinha uma teoria: só as atrizes são capazes de cruzar as pernas de um jeito enlouquecedor. Ela era uma atriz. Nenhuma outra mulher é capaz de cruzar as pernas daquele jeito, só uma atriz. Ficou olhando por mais um tempo. Viajou em seus pensamentos naquela tarde fria. Será ela a mulher da minha vida, aquele amor que ainda não vivi? Mas como. Nem a conhecia, sequer viu o seu rosto. Como ela poderia ser o seu grande amor? Tentou desviar o olhar e o pensamento. Impossível. Tudo o que queria naquele momento era arrumar um jeito de chegar até ela, descobrir o seu rosto e conhecer aquela mulher. Ao chegar à estação Sumaré, a luz do dia, apesar de nublado, iluminou o vagão. Ela, num instante mágico, levantou a cabeça para saber de onde vinha aquela luz. Ele, petrificado pela surpresa, só pode dizer: Elisa. Ela olhou na direção dele imediatamente.

– Não acredito! Antonio é você?

– Nem eu.

Com o coração quase saindo pela boca, não dissemos mais nada. Nos enlaçamos num longo abraço. O trem saiu e quase caímos. Sem se desgrudar sentou ao lado dela.

– O que você ta fazendo aqui? Você não estava….

– …..não tô mais. Cheguei faz um mês.

– Vai ficar?

Mostrou-me o jornal.

– Sim. Em São Paulo. Resolvi aceitar o conselho de um velho amigo que dizia que meu lugar era aqui, onde as coisas acontecem.

– Seja muito bem-vinda.

– Curti minha família esse mês que passou. Cheguei ontem e estou na casa de uma amiga lá na Praça da Árvore.

– Você tá indo pra onde agora?

– Ver apartamentos pra alugar. Disseram-me que a Vila Madalena é um lugar legal.

– Muito. Eu moro lá.

Riram como duas crianças. O trem chegou à estação final. Como dois adolescentes, subiram as escadas atropelando os degraus, quase correndo e de mãos dadas.

– Lembra daquela cena que tivemos que sair correndo feito dois loucos?

– Lembro sim, mas ando meio fora de forma.

Esbaforidos, estancaram na porta da estação. A chuva continuava forte lá fora. Se esconderam na marquise ao lado da porta. O espaço diminuto os obrigou a ficar bem próximos. Frente a frente, podiam sentir a respiração do outro e o hálito quente apaixonado que escapava dos lábios de ambos. Olharam-se em silêncio por quase um minuto. Eles sempre tinham o hábito de ficar olhando diretamente um no olho do outro. Isso desde quando se conheceram, anos atrás. Ela tremia. Um pouco de frio e um pouco talvez pelo nervoso sutil do encontro inesperado. Aquele não era um encontro qualquer. Era possível ser um desfecho ou o início de uma nova história. Seus olhos diziam isso e brilhavam como nunca.

– O que você vai fazer agora?

– Procurar apartamento com você.

Ela sorriu quase à toa e apertou a mão de Antonio.

– Você continua sorrindo com os olhos, disse Antonio.

– É você que sorri com os olhos. Olha aí.

Estavam tão próximos que um beijo seria inevitável. Sabiam que tinha chegado o momento. Sem dizer palavras concordaram em esperar. Queriam curtir um pouco mais o desejo incontrolável do real primeiro beijo. Antonio abriu o seu guarda-chuva, passou a mão pela cintura de Elisa e abraçados começaram a descer a rua desviando de algumas poças de água.

– Hoje tem a estréia de um amigo. Você quer ir comigo?

– Claro que eu quero.

– Onde é a rua do apartamento?

– Aspicuelta. É isso né?

– É sim. E eu moro na Girassol, que corta essa rua.

– Quem sabe não seremos vizinhos.

– Depois do teatro podemos jantar. O que você acha?

– Pode ser comida italiana? Tô com saudades de comer uma massa, beber um vinho.

– Ah! Amanhã tem a estréia de um grupo de adolescentes que eu dirijo lá na Zona Leste. Se você puder…..

– Puxa…. eu quero ir sim. Ai meus deus…já tô me convidando.

– Acho que tá na hora de eu trocar de guarda-chuva. Tô pensando em comprar um maior.

– Eu vou achar ótimo. Disse isso e aninhou sua cabeça no ombro de Antonio.

Viraram à direita. Estavam tão abraçados que pareciam ser um só.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

 

 

 

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Ela é taurina e ele de escorpião

Brava e ele mandão

Ela acorda cedo e ele dorme tarde

Sua companhia é o gato e a dele o cachorro

Ela é punk rock, ele aprecia metal

Ele eterniza o que é importante na jornada, idealista ela investe na jornada

Arredio e inquieta

Juntos, tomam sorvete, conversam, ficam de mãos dadas

Juntos, vinho, queijo, filme e beijo

Juntos, ele toca, ela escuta… ela fala e ele pacientemente escuta

Juntos, dormem, acordam e namoram ou namoram, dormem e acordam

Juntos, alegram-se com o encontro

Maduros, apenas aceitam o presente!

Não por acaso eles se encontraram

Não por acaso eles estão juntos

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Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre :) 

 

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Mulher, 44 anos, solteira, com um filho de 15 anos, estudou duas faculdades, investiu em uma especialização, atua em uma fundação do terceiro setor!

Namora… ou não! Ela não sabe dizer, pois não sabe se a relação que ela tem segue os protocolos para caracterizar o que “rola” como namoro, mas isso não diminui o encanto dessa história.

Simples no modo de agir, complexa no modo de pensar.

Se sente livre por não servir a partidos políticos, por não ter que responder a limites acadêmicos e ainda, por não ter que responder as expectativas duvidosas que encontra nos espaços.

Gosta de gente, bichos e plantas, especialmente as árvores. Gosta tanto, mas tanto, que respeita a relação destes com sue habitat! Vai entender essa mulher!

Ah, e tem mais, gostar de animais não a impede de comer carne! Embora passe muito tempo sem ter essa necessidade.

Acha zoológico e espaços de confinamento de bichos para apreciação do ser humano, esquizofrênicos! Mas não pensa em lutar por essa causa.

Gosta de ler, principalmente livros de filosofia, mas se delicia e sente prazer quando uma charge anuncia o seu pensamento, ou mesmo, ilumina-a em um posicionamento.

Acredita na política!

Entre as crenças que cultua, vejamos… pode-se afirmar que:

– a incompletude é o que dá sentido a vida;

– que se constitui nas relações que vive;

– que a dúvida é sábia e necessária;

– quem quer fazer o bem, deve primeiro fazer para quem está a sua volta;

– quem faz mal feito, faz várias vezes;

Algumas ela aprendeu com sua mãe. Admira muito a sua família!

Ter amigos irmãos e irmãos amigos, a deixa mais segura e confortável em sua trajetória. E ela faz questão de dizer isso a eles.

Sorriso largo, não economiza afeto… Mas não pensem que gosta de gente pegajosa e com afagos superficiais. Ela entende afeto, de um modo muito peculiar!

Acorda bem humorada!

Diz que gosta de beber!

Quando escuta música, sua alma dança delicia e maravilhosamente. Ninguém imagina o que ela faz e como ela faz.

Gosta de dirigir e fazer baliza! Sério mesmo!

Sarcástica, se diverte cotidianamente com o que vê.

De imaginação prodigiosa, sempre tem um texto e uma ação teatral no seu imaginário. Acha muito mais fácil viver assim!!!!

Já foi mais ou mesmo! Hoje é mais e de vez em quando é menos!

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Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre 🙂 

 

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Ela 16, ele 17.

Amor à primeira vista? Depende da vista…

Ela num momento deprê, sem ver sentido em continuar… Resolveu encontrar a irmã numa festa, mas com uma atitude foda-se a vida, que, por algum motivo, passou  por… Autoconfiante a menina! Ele adorou aquela menina super decidida, pena que ela não queria papo com ninguém…

A campainha da casa toca, a irmã pede para ela ver quem é. Ele estava no portão, junto com o primo, para fazer um trabalho com a irmã. Ela, num momento mais animado com a vida, viu-o pela primeira vez…

Meses se passaram, os dois adolescentes, ele finalmente a pediu em namoro… Ela: “até que enfim”

Casaram, criaram os filhos, vieram os netos…

Hoje ela olha para ele e sabe que o que eles tem é especial… Passaram por tanto nessa jornada, mas a vontade de estar junto e a capacidade de se re apaixonar foi definitivo naquele primeiro olhar, no amor à primeira vista, que nunca saberemos exatamente quando foi.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

 

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Capítulo 1 – ROSANA

i. manhattan

Era uma noite fria…
Eu estava completamente só. Pelo vidro embaçado via tudo branquinho. Eu gosto de neve. Os pedacinhos caindo lenta e levemente, forrando o chão, clareando a paisagem. Não cai como lágrima, chuva ou confete colorido. Cai como neve. Silenciosa, branca, branca, branca.

Gostando ou não, está cedo demais para estender esse carpete de luz fria, é estranho ver tanta neve em Nova York no início de novembro. Também não existe nenhuma razão para eu não conseguir dormir, o Furacão Sandy já está bem longe, a temperatura aqui dentro marca perto de 26o Celsius e me sinto cansada, o que na teoria facilitaria o sono.
Reli a imensa lista de presentes de Natal que ainda tenho que comprar, são mais de vinte. Este ano vou ficar aqui e receber minha irmã e meu sobrinho mais velho. O Eduardo é meu grande amor, um menino reservado, diferente, uma fera com programas de computador. No dia de Natal ele vai fazer 18 anos e diz que virá morar comigo. Eu e a Roberta gostamos da ideia, mas vamos esperar para ver como vai ser em relação ao Doutor Klaus, o pai com quem ele mora desde pequeno.
‘Quase quatro e meia da manhã e eu aqui fazendo chazinho’ pensei enquanto me servia de um chá japonês chamado ‘Camellia Sinensis’, presente da Kristin. Nós saímos juntas algumas vezes nos últimos dois ou três meses, mas sabemos que não temos e nem teremos um relacionamento. Ela de fato é uma mulher interessante, eu é que não consigo passar da primeira pele, sou sempre muito superficial. Meu único mérito é reconhecer isso.
Peguei a xícara, o maço de cigarros e escolhi ouvir aleatoriamente o álbum de clássicos para ver se relaxava. A música sorteada não poderia ser mais linda ou triste, era a ‘Suite número 3 de Bach’.
Em uma explosão de TOC, alinhei em fila os meus quatro livros publicados com ensaios fotográficos e arrumei a Yashica FX-3/50mm que foi a primeira máquina da minha vida, eles ficam em cima de um baú de madeira maciça lotado de passado. Também endireitei a moldura vertical pendurada entre as janelas da sala com dez ‘selfies’ mal tiradas. Com as pernas empurrei o
divã de retalhos coloridos para perto de uma das janelas, acendi um cigarro e deitei confortavelmente olhando a neve cair, esperando o sono chegar.

Depois de quase vinte anos em Nova York eu posso me considerar uma pessoa realizada profissionalmente, estudei nos melhores institutos, ganhei dinheiro, fiz alguns trabalhos bárbaros, outros medíocres. Fotografei as modelos mais bem pagas, lindas e chatas do mundo até chegar aqui.
Meu único luxo é o apartamento onde moro no Soho. Amplo, tem o pé direito alto com quatro imensas janelas de vidro que vão do chão ao teto deixando à mostra as escadas de ferro externas. No andar de baixo fica o ‘Estúdio CaVVeg’ que divido com Alejandro Vega, fotógrafo espanhol que faz grande sucesso com ensaios de corpos nus.
Há mais ou menos dez anos ele chegou aos Estados Unidos com um visto de estudante. Bateu na porta do meu antigo estúdio em um dia de muita chuva dizendo que era meu fã.
– Você quer o que?
– Quero fotografar como você.
– Você quer me fotografar?
– Não! Quero aprender! – gritou tremendo de frio, com os olhos cheios de água da chuva e de choro. Tinha vinte aninhos o moleque.
Trazia na bolsa uma fotografia premiada num importantíssimo concurso internacional em Los Angeles no início dos anos 2000, era uma foto em preto e branco parte de um ensaio homoerótico que fiz para uma revista francesa. Um case consagrado em diversos países que ganhou destaque também na imprensa brasileira por meio de uma revista paulista que fez um encarte bárbaro e de certa forma apresentou o meu trabalho ao Brasil.
Naquele dia o Alejandro entrou no ateliê e nunca mais saiu da minha vida. Além de me auxiliar nas fotos, arrumou bicos em uma produtora de vídeos e aos domingos passou a utilizar o estúdio para fazer os seus sonhados ensaios nus.
Eu demorei a me acostumar com aquele entra e sai de gente pelada, mas ele mostrou que estava no caminho certo e o seu trabalho chamou a atenção ganhando prêmios de menor expressão. Fechou bons contratos, passou a andar com as próprias pernas e três anos depois de bater na minha porta não dependia mais de mim. Virou um grande fotógrafo, meu sócio e melhor amigo.
O engraçado neste ‘mundo redondo’ é que fiz pelo Alejandro exatamente o que um dia fizeram por mim, só que eu cruzei o caminho do polêmico Christopher Miller, fotógrafo nova-iorquino, hoje com quase sessenta anos. Na
época ele era um dos grandes nomes em fotografia de moda, amigo de Oliviero Toscani, participava das polêmicas campanhas da Benetton.
Encontrar o Miller foi como achar uma pérola no oceano. Eu o conheci por acaso pouco tempo depois de chegar em Nova York. Pisei no Aeroporto John F. Kennedy puxando duas malas imensas no dia 1o de janeiro. Saí do Brasil em 1993 e cheguei aos Estados Unidos em 1994 para uma nova vida, a outra tinha ‘acabado de acabar’. Naquele primeiro dia do ano eu vi neve pela primeira vez e a Rosana Nazaré Cavalcante deu lugar a Rose Caval.
O Miller foi meu professor de fotografia na Academia e ofereceu a oportunidade da minha vida. Contava pra todo mundo que tinha me contratado como estagiária por um simples e absurdo motivo: eu era morena e brasileira como a Sônia Braga. Dizia que conheceu sua musa anos antes, mas eu nunca soube se isso era verdade ou não.
Vinte e três anos, naturalmente morena com cabelos cacheados e longos, recém-saída do dourado verão baiano para contrastar com as caras brancas e pálidas do inverno nova-iorquino. Foi essa ‘Dona Flor’ que o Miller enxergou em mim, uma imagem bastante distorcida que acabou virando o meu Greencard.
Eu não desperdicei as chances que tive, andei ao lado do Miller e depois segui em frente, exatamente como aconteceu com o Alejandro. Por sorte, os dois se tornaram minha família.

ii. revés

Acordei no divã toda torta, amanhecia, a chuva batia contra as vidraças com força fazendo um barulho que competia com a música alta. Novamente tocava a ‘Suite número 3 de Bach’, não sei se por coincidência ou a música tinha se repetido sem parar. Eu estava suando, o chão molhado e a xícara de chá com a asa quebrada caída perto da janela. Desliguei o som angustiante lembrando apenas de ter deitado no divã sem sono algum. Olhei para a fileira de fotos penduradas entre as janelas e senti a ‘sombra da Isabel passeando pelo meu pelo’. Eu estava completamente arrepiada.
Recolhi os pedaços da xícara quebrada e fui buscar alguma coisa para limpar o chá japonês que escorria pelo chão da minha sala. Quando abaixei senti uma forte tontura, sentei no divã tentando me manter consciente, mas não sei se consegui. Vi cenas desconexas onde a Roberta chorava, depois sorria enquanto o Eduardo, ainda garotinho, brincava abraçando a mãe, passando por
baixo das suas pernas, rindo. Aí de repente não era a Roberta, era eu e as nossas imagens me confundiam.
Apertei o pano molhado contra o rosto sentindo uma náusea incontrolável. Corri para o banheiro já vomitando e sentei dentro da banheira com a água despencando em cima de mim, nem escutei o celular que tocava sem parar na mesinha da sala. Quando finalmente atendi, vi que o Alejandro ligava pela quinta vez seguida.
– Hello moleque… – falei amorosamente misturando idiomas como sempre fazemos.
– Oi Rose, tudo bem? – perguntou sério, em inglês.
– Mais ou menos, devo ter comido alguma porcaria ontem. O que tá me preocupando é você acordado domingo cedinho – tentei rir, mas não consegui.
– Rose, eu estou chegando ai na sua casa. Tenho um assunto pra falar com você.
– Putz Ale, aconteceu alguma coisa? É de trabalho? – perguntei nervosa.
– Eu estou estacionando o carro, beijo – desligou.

Ouvi as batidas na porta enquanto vestia uma calça branca de capoeira muito velha, as listras coloridas nas laterais já bem desbotadas. O Ale estava todo molhado, pálido e não veio sozinho, o Miller entrou atrás dele. Tiraram os casacos sem olhar para mim, os dois de cabeça baixa. ‘Meu Deus, é grave’ pensei e não esperei mais nem um segundo.
– Alejandro o que aconteceu?
– Rose, eu preciso que você fique calma… – respondeu nervoso.
– O que foi Ale? Fala!
– Você vai ter que ser muito forte.
– Pelo amor de Deus Alejandro, o que tá acontecendo? – perguntei com vontade de chorar.
– Senta Rose – o Miller apertou minha mão com força e me larguei no sofá – Aconteceu um acidente lá no Brasil – começou devagar me olhando de frente.
– Meu pai? Isabel, Edu, Beta? – falei de uma única vez, em um ato falho sem tamanho e fechei os olhos para ouvir a resposta.
– Eduardo.
Meu coração parou. Senti como se estivesse caindo nesses elevadores que projetam queda livre nos parques de diversões, só que eu não parava de cair.
– O que aconteceu Alejandro? O que foi? – perguntei sentindo as lágrimas e o meu corpo despencando cada vez mais rápido.
– O Edu foi atropelado ontem no final da tarde, ele estava em uma estrada quando…
– Atropelado? Ele tá machucado? – sacudi o meu amigo pelo colarinho – Me responde Alejandro! Ele se machucou?
– Rose, foi bem grave… Se acalma! – pediu tentando fazer com que eu largasse sua camisa – Ele atravessou a tal estrada correndo, veio um desses carros grandes, um Jeep em velocidade e…
– Um Jeep? – esfreguei o rosto com as duas mãos e abri a boca tentando pegar ar – Ele está vivo, né? Alejandro pelo amor de Deus, diz que meu sobrinho tá vivo! – implorei com a voz anasalada.
– Não Rose, o acidente foi muito grave. O Eduardo morreu.
Foi como se o elevador onde eu me encontrava despencando se espatifasse no chão em mil pedaços. Soltei um grito gutural e me contorci no sofá sentindo uma dor dilacerante. Não sei quanto tempo fiquei ali sendo velada pelo Alejandro e pelo Miller.
– Meu Edu! – falei baixinho e me sentei – E a Beta? Como é que tá a minha irmã?
– Eu não sei muita coisa, quem ligou pra mim foi o Klaus – contou.
– O Klaus, por que logo ele? – levantei e comecei a andar de um lado para o outro – E o meu pai?
– Eu sei que a sua irmã está a caminho da cidade onde aconteceu o acidente, porém não falamos sobre o seu pai Rose, me desculpe.
– Quando foi o acidente? – perguntei soluçando e tentei acender um cigarro, o que era impossível de tanto que eu tremia.
– Ontem no final da tarde por lá, mais ou menos umas nove da noite – o Alejandro pegou o cigarro da minha mão e devolveu aceso.
– E por que demoraram tanto pra me avisar?
– Eles decidiram não te dar a notícia por telefone e eu também demorei pra atender porque estava em um lugar barulhento e não ouvi o celular – confessou culpado não conseguindo mais segurar o choro – Me desculpe Rose, eu sinto tanto.
Abracei o meu amigo consolando e sendo consolada, enquanto o Miller carinhosamente afagava nossas costas sem conseguir dizer uma única palavra.
Quando entramos no JFK meus olhos estavam ardendo, o Alejandro chorava e apertava a minha mão como quem deseja receber uma transfusão de
dor, o Miller continuava em silêncio. Tentei falar com a Roberta umas dez vezes e nada, a minha cabeça não parava de rodar.

Foto Carla Dias Young

Carla Dias Young – Bela Urbana,  tem 46 anos é jornalista, (tenta ser) escritora e trabalha na empresa ‘Young.comunicação Consultoria em Comunicação e Licenciamento Ambiental’. Nasceu em Santos, mora em Campinas, é casada e tem um cachorro e uma gata, todos vira-latas.

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A primeira vez que eles se encontraram foi no portão do colégio, no final da aula, e como moravam perto um do outro, caminharam juntos. Um mês depois ele a pediu em namoro, ela aceitou. Namoravam ainda na formatura do colegial e durante a faculdade.

Quando se formaram, já moravam juntos e começaram a planejar o casamento, para assim que tivessem estabilidade de empregos. Em algum momento cada um conseguiu uma carreira promissora. Ele comentou que deveriam repensar depois que os filhos chegassem. Ela comentou que não pensava em ter filhos, na verdade, não queria ser mãe, queria fazer carreira na su área, que ela amava. Ele ficou devastado, sempre quisera ser pai.

Após conversarem durante a noite mais longa de suas vidas, cada um seguiu um rumo diferente. Era a hora do adeus e do recomeço.

Dois anos se passaram e ele se casou, assim ela ouviu dizer. Ela se mudou para o exterior, a trabalho e sua carreira prosperava, assim os amigos contaram a ele.

Dez anos depois ele vivia feliz com a esposa e tinha dois filhos… Ela vivia feliz com o companheiro em algum lugar além-mar.

Mais anos se passaram e ele se separou, o casamento acabou, por nada, apenas era morno e era melhor assim… Ela decidiu que era hora de voltar a viver na terra natal, junto da irmã e da afilhada que a chamava de solteirona…

A primeira vez em que eles se reencontraram foi na formatura do filho dele e da sobrinha dela. Ele a tirou para dançar… Ela sentiu um arrepio e aquele friozinho na barriga.

Eram tantos os fins, os começos e recomeços, tantas vidas vividas por eles e agora, naquela dança, era como se apenas tivesse havido um breve parênteses na vida dos dois.

A música acabou, eles ficaram parados olhando nos olhos do outro. Estava tudo lá. Era o fim de um ciclo e o recomeço de outro… Saíram de mãos dadas.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.