A Tal era a vizinha da minha bisavó.

Eu era uma menininha de 05 anos.

A bisavó era pequenininha mas era maior que eu.

Era véspera de Natal e todos se reuniam na casa da bisa. A vó, o vô, as tias avós, as tias, tios, primos de primeiro e segundo grau, embora eu nem soubesse o que era isso e a Tal.

A noite era de festa, música, cores e muitos sabores. Eu toda bonitinha, lacinho, sapatilha e roupinha rosa. A Tal, parecia uma árvore de Natal, saia curtinha, sapato salto, cabelão, muitas pulseiras e batom vermelho.

A casa ficava em festa. O piano era tocado, de mãos em mãos, as vezes a quatro mãos.

A Tal estava sempre comendo.

Nós crianças brincávamos, corríamos de um lado para outro, dando voltas na árvore da frente, mas vira e mexe dávamos de cara, ou melhor, nas pernas da Tal.

Quando o relógio batia 23h45 íamos todos para a sala como a bisa queria. Dávamos as mãos e rezávamos. Eu não entendia muito toda aquela reza, mas sentia que aquilo era importante e ficava quietinha, meus primos eram bagunceiros e não paravam deixando minha tias enlouquecidas.

Aquele ano eu vi a Tal chorando naquela hora, ela abaixou a cabeça e as lágrimas caíam. Eu tão pequena, vi quando as lágrimas pingaram no tapete. Não era para ninguém ver, mas eu vi tudo, inclusive que só eu vi. A Tal viu que eu vi. Nossos olhares se fixaram  por segundos como se fossem uma eternidade.

Papai Noel chegou com seu HOHOHO e quebrou esse olhar ou qualquer coisa que viesse a seguir. Suadão, nunca vi Papai Noel com tanto calor. Cadê o tio Zé? Diziam que ele tinha medo e por isso sempre sumia nessa hora, as crianças corriam para achar o Tio medroso, mas Papai Noel mais rápido começava a chamar o nome das crianças para dar os presentes e todos voltavam correndo.

Que bagunça. Que alegria, a Tal ajudava Papai Noel e entregar os presentes e quando o saco ficou vazio, ele saiu sem o trenó, andando pela porta da frente. Eu fui escondida ver como ele ia embora e para minha surpresa, vi Papai Noel beijando a Tal.

Descobri. Ela era namorada do Papai Noel. Sai correndo, eufórica, para contar o maior segredo de todos os tempos, mas a Tal me impediu e pediu que eu não contasse para ninguém porque segredos de Natal nunca podem ser revelados. Etc e TAL.

Fiquei quieta, mas feliz porque o segredo do Papai Noel só eu sabia. Que noite feliz!

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto: @gilguzzo @ofotografico

 

 

 

 

 

Dei os pêsames e foi assim que acabou o que nunca foi o que eu queria que tivesse sido. Foi a última palavra. A última, distante da penúltima. Todas distantes, poucos foram os momentos que as palavras não foram distantes.

Entender agora que pêsames foi a última para fechar aquele capítulo foi pesado.Tudo era pesado. E quando tudo é pesado não existe braços que aguentem… um hora cai e pode quebrar.

Nem sei se quebrou, mas caiu. Por muitos anos essa foi minha última palavra para ele. Palavra que esqueci, como esqueci vários detalhes, mas reler me faz lembrar e sentir de forma estranha toda essa história.

Talvez não seja bom mexer com os mortos, eles ressuscitam algo em você e se já morreram é melhor deixar essas memórias em paz. Reviver é se prender ao que já não existe mais. O tempo é outro, mas somos sempre um pouco do nosso ontem, para o nosso melhor e nosso pior.

As coisas não precisam ter mais peso do que já tiveram. Quero deixar o passado descansar em paz. Dar pêsames ao que me prende a ele. Jogar fora as armadilhas que levam as dores.

Passou e só o que ficou na minha memória e no meu coração verdadeiramente está vivo e assim deve ser. Preciso aprender enterrar de vez, deixar ir, esquecer os detalhes do passado. Zumbis só são legais nos filmes.

14 de agosto – Gisa Luiza – 50 anos

 

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

Foi para a entrevista de emprego. Currículo simples na mão. A vaga não exigia muito. Achava que podia dar conta, mas a idade já começava a pesar, 38 anos, 02 filhos moços.  Ser mãe envelhece, ser mãe cedo, envelhece mais ainda.

Pobreza envelhece. O limite da falta de dinheiro envelhece. Sobreviver e não viver, envelhece.

A pele mostra os vincos muito aparentes, algumas rugas na testa, mais profundas do que sua idade poderia ter se tivesse uma vida mais leve.

Sem emprego, o medo, o choro e o pouco consolo dos que estão do seu lado.

Na entrevista, a escova feita no cabelo comprido, liso e pintado, até que não estavam mal, só as pontas, muito despontadas. A maquiagem carregada no rímel. A unha nitidamente feita em casa não era das mais bem acabadas. A roupa discreta, nem bonita, nem feia. Os dentes, também não eram bonitos, média 04.

A entrevistadora olhou tudo, a vaga exigia boa aparência, elegância, simpatia, pró-atividade, não exigia formação, então o segundo grau dela, estava dentro, só isso estava na média, todo o restante média baixa.

Foi tudo rápido e tudo percebido. Difícil para as duas. Dizer não, não é fácil, veio em dose homeopática, “amanhã dou a resposta”. Não, de novo o não, outro não, depois de outro, outro e outros.

Difícil manter o sorriso no rosto, a tal pró-atividade que pedem, a maquiagem para esconder as olheiras das noites sem sono e logo mais, nem o esmalte para as unhas feitas em casa serão possíveis.

Talvez aquele subemprego de 12 horas de pé por dia, sem registro na carteira, sem vale refeição e transporte, seja sim sua única saída ou então o abismo da ponte que se encontrava a sua frente.

Parou.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

Olhinhos grandes. Ela tinha. Os olhos bem grandes mesmo sendo pequenininha. Era arteira. Os olhos grandes brilhavam quando viam brigadeiros, pudim, sorvete, chocolate. A boca salivava, as mãos escondidas escorregavam para perto dos doces. A casa era pequena, mas aos olhos dela era grande, chique e cheirava doce.

A mãe e a vó eram doceiras, tiravam o sustento do dia a dia dos doces. Ela tinha razão, a casa cheirava baunilha misturada com açúcar. Não era só uma sensação, era real.

Se pudesse teria sentido só o doce da vida, mas sabemos que isso é sonho, e não o que vende na padaria.

Sentiu sabores amargos, outros salgados como mar, que brotavam dos olhos grandes com a lágrima que caia. Gostava desse sabor, que a acalmava quando se dirigia para boca e ia virando brincadeira.

Simples como todos os melhores sabores, assim que ela sempre foi e assim como tinha sido sua Vó e sua mãe, talvez a sua filha também seguisse nessa linha, mas o que ela hoje sabia, é que a filha tinha a mesma mão. Mão para doce.

Seus olhos continuam grandes. Grandes para doces, mas a balança implora que se controle, assim como seu médico quando leva os exames de sangue. Ela, continua arteira e sua resposta vem com uma bomba. De chocolate. Não é o esperado, ela sabe, mas com a frase feita que uma amiga sempre dizia “de amarga já basta a vida”, ela não se continha e comia.

Memórias afetivas e coração quente, é assim que ela vai enfrentando os dissabores da vida e assim, seus olhos continuam grandes e brilhantes.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza. Entre uma fruta e um doce, prefere a fruta. Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :).

 

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