Era leve

e para ser leve não precisava ser breve.

Era quente, pegava fogo, ardente

e para ser fogo não precisava ser doente.

Era cheio de preliminares

começando pelo bom dia!

E tinha cheiro de rosa atrevida…

aquele cheiro de dedos entrelaçados e das bocas lambidas.

Era flor

esculpida nos detalhes minúsculos das verdades diárias.

Flor de livres gestos, admiração e cuidado,

aquele cuidado noturno de desejar bons sonhos

e poder recordar da leveza das palavras.

Não era tudo ou nada…

Não era sal e nem dor.

E tinha aquele gosto de saudade boa…

porque era amor.

Siomara Carlson – Bela urbana. Arte Educadora e Assistente Social. Pós-graduada em Arteterapia e Políticas Públicas. Ama cachorros, poesia e chocolate. @poesia.de.si

A noite vinha chegando sem muito floreio… Obscura e incerta, como de costume, e apagando luzes e temperaturas com menos eficiência que o normal, mas firme nesse propósito de séculos. Eu jamais diria que não havia, ali, naquele dia comum, uma noite trivial se aproximando… Eu sempre fui meio desligado, e fosse como fosse, o que eu poderia imaginar que aquela noite me daria? Não havia mesmo muita expectativa, sabe? Um salto no inesperado. E saltei.

Até que chegou, no susto, mais cedo do que eu esperava, a tal anoitecida, o que me fez acelerar um pouco meu ritual de banho e camarim. Eu investia algum tempo nisso, confesso. Na falta de beleza genética, sempre compensei com estilo, remendando aqui e ali as fantasias da vez. Um bom palhaço entende a importância de sua pintura de guerra, e era noite de picadeiro. Rir no final era fundamental.

Com algum suspense suspenso no ar, e a tal da ansiedade que eu ocultava por baixo do perfume, sempre que era dia de festa, saí de casa rumo ao clube onde eu praticava vôlei. E aqui cabe um pouco mais de história… Vôlei havia entrado tarde na minha vida, depois de muitas outras experiências menos interessantes com esportes diversos, de futebol à ginástica olímpica, que embora eu até gostasse, pareciam nunca gostar de mim de volta. Era bom finalmente ter um que me aceitava, acolhia e divertia. E foi dele a culpa que me levou à festa que nos aguarda, e que eu guardo na superfície da memória há tantos anos, revisitando sempre, como faço agora.

A aniversariante era minha amiga de vôlei, assim como dos outros amigos com quem marquei de encontrar na porta do clube, para irmos juntos para a festa dela. Tudo entre amigos faz mais sentido, né? E a mera caminhada de quarteirões virou coleção de risadas que ecoam ainda hoje em mim, feito a mais linda moldura que antecede a mais perfeita obra de arte. Indo, sem saber, descobrir o colorido da vida, fui, ainda por cima, bem acompanhado. Tem sortes que a gente precisa mesmo emoldurar.

E chegamos… Festa de quintal de casa, com decoração despretensiosa, ali apenas para ilustrar um pouco do que acontecia de mais importante: as interações. E como sempre acontecia nas chegadas, liguei meu radar para entender melhor o lugar, as pessoas que eu conhecia, as que eu não conhecia, banheiro, comida e “espelhos”. Espelhos, entendam, eram aqueles caras descolados que serviam de inspiração para meus desajeitados passos de dança… Eu era um pot-pourri de passos surrupiados discretamente, mas nunca colocados em prática como deveriam. Mas era festa, e ser feliz sem muitos cuidados era obrigatório.

Eu já estava nessa, de ser feliz e livre entre amigos e risos na pista de dança, há um tempo já quando ela chegou… Não sei dizer o motivo real de tê-la visto entrando, de longe, tão rápido. Talvez meu radar ainda estivesse ligado, procurando algum salgadinho diferente dos que eu já tinha provado, ou o rodopio copiado do garoto de topete maneiro tenha me deixado de cara com ela… Não sei. Acho que tudo isso… Ou talvez nada disso fosse mesmo preciso, já que eu não era o único sob os efeitos da hipnose. Mas quis acreditar que ela era meu feitiço particular.

Não foi a primeira vez que a vi. Na estreia, alguns anos antes, a conheci como amiga da minha cunhada e, portanto, presa a ser apenas isso, embora houvesse já algum desconforto nessa limitação. Ela foi sempre dessas pessoas que roubam o fôlego da gente, sabe? Quando a vi pela primeira vez acho que desaprendi a respirar, e agora ali, naquela festa de quintal, zonzo por rodopios nada dominados, senti voltar com tudo o poder da inspiração.

Caramba! e agora? Pernas bambas mesmo, que deixavam aquela cópia fajuta de coreografias alheias ainda mais descabida… Será que ela lembrava de mim? Será que ela tinha me visto? E será que eu estava dando pinta demais daquele interesse incubado por tanto tempo e tantos “não possos”? Me vi um enorme e desajeitado ponto de interrogação, com a sensação de que estava piscando florescente, e ainda por cima fora do ritmo da música que tocava. O que estava acontecendo?

Olhando daqui do futuro, penso que eu havia acabado de receber o golpe… Cambaleando ainda do choque com aquela paixão gigante que despencou sei lá de onde, e foi tomando todo o quintal, desrespeitando qualquer limite que via pela frente. E de repente, era só eu, ela e os escombros daquela paixão, espalhados por todo lado, saindo sem controle de mim. De uma coisa eu sabia… Era impossível esconder aquele troço. E eu também não queria esconder.

Ok, ok. Eu estava entre amigos, e ficava sempre mais a vontade nesses casos… Havia meu figurino de festa, elaborado com dedicação para superar a natureza, e havia aquela composição de estilos, remixados com a trilha sonora que tocava, mas por baixo daquilo tudo, eu era um cara tímido pra essas coisas. Ótimo nas palavras que ziguezagueavam atrás dos olhos, mas super enrolado na hora de fazê-las sair. O coração começava a descompassar, e junto dele, as poucas que saiam pareciam não saber mesmo o que dizer. E por acaso, naquela simples ocasião, parecia que toda a minha vida estava em jogo… E, de novo aqui do futuro, sei que estava mesmo.

Fiquei então ali… No esconderijo da roda de amigos, criando coragem como quem cultiva o mais complexo dos grãos… Arando aquele terreno de poucos metros que nos separava, e que parecia tão maior e mais arisco. Lava imaginária, creio ter visto até. E dali, do outro lado da pista, ficava lançando olhares como quem pede socorro, em SOS, esperando alguma fisgada de coragem. Nunca soube pescar.

Mas, como tudo entre amigos faz mesmo mais sentido… Numa jogada inesperada, e na mais incrível levantada que já recebi na partida de vôlei da minha vida, a aniversariante veio até mim, vencendo aquele terreno ilusoriamente flamejante, e perguntou o que eu achava da garota fulana, justamente aquela que havia me sequestrado da festa e da razão. Oi? Lembro de ser pego mesmo desprevenido… Acho que engasguei… Certeza que gaguejei… Mas consegui formular algo que foi suficiente pra declarar meu total interesse. E completei com “por que?”. Eu precisava saber porque… E mais, o porque tinha que me levar até os lábios dela.

A resposta veio. E sei lá pra onde me levou naquele instante. Minha amiga de vôlei, que era já tão mais que isso, disse que ela, a feiticeira, havia perguntado de mim… Em algum momento dos poucos que a perdi de vista. Por que? Estaria interessada também? Curiosa? Eu estava encarando além do saudável? Tudo isso passou feito um calhambeque numa rua de paralelepípedo, trepidando em minha total incredulidade. Era, enfim, uma coragem fisgada.

O que se desenrolou desse momento em diante é difícil de descrever. Acho que por haver, não sei, alguma coisa de magia mesmo, dessas névoas de encantamento sobrevoando aquela cena de encontro. Nos aproximamos, os dois, vencendo uma distância que nem parecia mais real… Ela vindo mergulhada no sorriso mais lindo que já vi até hoje, e eu indo por já não poder mesmo segurar aquele impulso de ir, até ela, pra ela. Cataclisma. A pele dela, imantada, exercia uma atração impossível… E resistir seria imperdoável.

Já próximos, enlaçado pelo perfume dela, descobri ali meu aroma preferido. Engraçado como há coisas que marcam, feito ferro incandescente… Fecho hoje meus olhos, cansado pelo tempo, e sinto ainda aquele perfume, cravado em mim, permanente. E agora um na órbita do outro, mudamos a trajetória indo juntos para fora daquele quintal. Outra dessas coisas que não consigo explicar. Simplesmente fomos, com uma certeza impossível de que era o que o outro também queria. Rua vazia… Sozinhos abarrotados de tanto o que dizer e fazer… E a noite, ali perdida, sem saber para onde olhar.

Nao sei mais o que esperam de mim nesse relato… Esperam que eu conte como foi o beijo? O que eu disse? E o que ela falou? Não posso. Não há nas palavras que eu conheço alguma combinação que consiga traduzir aquela paixão. Antíteses… Um tanto de incêndio, com uma dose de céu… Perdido completamente naquele lábio que parecia meu, ganhado, absorvido… Embaralhando desejos, sonhos, mãos e gostos, como se não houvesse mesmo amanhã. E hoje, alguns amanhãs depois, sei que não haveria mesmo nenhum que pudesse ser maior que aquele instante.

Tudo parece ir e voltar daquele ponto. A vida, o volei, os amigos e antigas namoradas, a rua e a noite me levando como se me devolvessem àquele beijo, que volto também, com a vida em curso hoje, sempre que preciso me refazer, respirar, e me reencontrar. Origens…

De volta àquela festa, da amiga do volei…
De volta àquela rua, vazia e tão perfeitamente à espera de nós dois…
De volta, ao começo de absolutamente tudo.

Paixões como essa são feito estrelas, que estendem seu brilho no manto da nossa história e seguem iluminando e atraindo passe o tempo que passar.

E hoje?
Hoje essa estrela dá novos sinais, novos horizontes, de novas chances e novos encontros.

Reencontros…
E reencantamentos.

A noite vem aí, obscura e incerta, como já conheço, e agora aprendi a não deixar na mão do universo o desfecho do meu espetáculo. É noite de picadeiro, e rir no final é fundamental.

Bernardo Fernandes – Belo Urbano. Um gêmio canceriano, e um ingênuo de 35 anos, nesse contínuo processo insano de se descobrir. Achou na Comunicação uma paixão e uma labuta, e vive nessa luta de existir além do resistir, fazendo diferente e diferença… Ser feliz de propósito, sabe? Sem se distrair desse propósito. E vai assim, escrevendo o que a alma escolhe dizer, tocando o que a viola resolve contar, fazendo festas com cachorros e amigos perdidos, e brincando de volei, de pique, e de ser feliz na aventura da sua viagem. Vai uma carona?

Acredito que esteja relacionado a forma como você olha;

Um certo ar de coração, profundo, de quem carrega a dor do mundo;

Este jeito meio moleca, meio menina, traz ainda mais empatia a este olhar;

Acredito que seja isso que cause nas pessoas está gigantesca vontade de estar ao seu lado;

Ou será que não é em todos e eu talvez sinta alguma coisa igual a você?;

Não dá, não tenho o seu coração, mas sou também carregado de emoção;

Hoje olhei os seus olhos e vi um certo ar de pureza nesta linda sexualidade pulsante;

Antagónico este olhar, mas completamente pertinente a quem te observa;

Significa dar sentido aos pensamentos mais profundo e depois se arrepender;

Não porque você não vale a pena, pois seria mentira, mais sim porque você parece tão frágil a ponto de quebrar;

Mas, se te quebro, junto a você, despedaço-me, fico só um caco, para depois você me montar;

Mas talvez eu já esteja em frangalhos e aí você já não parece mais tão frágil, e isso seja só uma desculpa para me aproximar;

Dentre todas as formas ou pensamentos que eu possa ter isso sempre termina do mesmo jeito;

Cacos, frangalhos, sentimentos e emoções, tudo destemperado, sentido, rasgado, apaixonado por querer-te;

Este sentido que vem de nos, de dentro de nós, meio como um trem desgovernado;

Causa o maior estrago no nosso ser, isso é quem somos, nervos expostos a sentir tudo que se possa ter;

Sentimos tanto que o nosso calor queima mais forte;

O nosso beijo beija mais profundo;

O nosso resumo conta uma longa história;

A nossa história abre espaçado para muitos vários resumos;

Então ao pegar o meu barco e navegar neste vasto oceano por mais de anos, só;

Dentre muitas tempestades, ventos, ondas, mares e saudades;

Talvez o que o marinheiro realmente queira e ancorar numa bela Marina;

Se perder neste profundo olhar, beijar até quase desmaiar e quase desmaiando só pensar em amar-te;

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Caminhei olhando a rua e me peguei no tempo;
Como em um sonho, as coisas ao meu redor pareciam andar mais devagar;
Uma leve música cantarolava em meus pensamentos;
Anti a rua, o tempo e o som lembrei do seu olhar;

Sua voz doce recitava uma poesia;
Seu olhar demonstrava muita paixão;
Pensei, lembrando, quem sabe um dia…
Poderei conhecer seu coração!

Hoje conheceremos as minhas lembranças de um sonho bom;
Onde, de mãos dadas, caminhava com você;
Tinhas a rua, o som a brisa e o tempo, que ao seu lado, no meu sonho, parecia não correr;

Foi próximo ao lago, amparado pelo belo pôr do sol;
Que segurei suas mãos levemente e, com os lábios trêmulos, beijei você!
Foi um beijo leve como a brisa daquela tarde linda, sensível como uma poesia recitada por você;
E, ao final deste beijo, com um olhar um pouco sem jeito, descansou seu rosto no meu peito;

Peito este que tinha o coração palpitante de emoção, e em um turbilhão de pensamentos, não encontrei palavra nenhuma para dizer;
Passei meu braço pela sua cintura, e como em um doce que chega ao fim, caminhamos sem falar, mas ficou escrito, isso nunca mais se apagará!

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Sou cartunista, mas não leio o futuro nas cartas. Desenho o presente com lápis e humor.

Minha formação acadêmica é em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda e já trabalhei na área. Depois, aliando o mundo business e o meu conhecimento fluente em alguns idiomas, passei a dar aulas. Também trabalho com construção civil, junto com a família.

Porém, a minha grande paixão é a arte! Já sofri muito pela falta de tempo de produzir o que minha mente criativa pedia. Cores, tintas, lápis, papéis, dá até água na boca de pensar.

Juntando a arte com a veia de humor, que sempre esteve presente em mim, nasceu a cartunista. Há alguns anos tomei coragem e inscrevi uma ou duas caricaturas em salões de humor, que foram selecionadas e eu passei a amar esse novo mundo que se abria. Com o passar do tempo, o vício foi dominando e, charges, cartuns, até tirinhas foram surgindo. O Brasil é uma terra rica em matéria-prima para essa arte, seja pela homenagem às nossas
grandes figuras ou pela crítica à política do momento. E tem o mundo.

Nunca pensei ser a ‘mulher cartunista’, mas, aos poucos, acabei me tornando uma ativista cultural também. Fui percebendo a pouca representatividade feminina na área e procurei entender os motivos para isso, visto que o mundo do cartum é uma bolha masculina. Os grandes chargistas são majoritariamente homens – procure “cartunistas do Brasil” no Google – e nem mesmo eles parecem perceber esse círculo fechado em que vivem.

Sabemos que, há muitos séculos, existe um trabalho por parte de sociedades, principalmente as religiosas, para destruir a relevância do papel da mulher. O sexo frágil, a bela, que deve ser também recatada e do lar. No seu papel de procriadora, ela acabou sendo dominada e o seu
conhecimento ancestral foi chamado de bruxaria e queimado nas fogueiras da inquisição e outras semelhantes.

Quando surgiu o movimento feminista, toda a luta foi desmerecida. O que se buscava era a igualdade de direitos, como poder votar, trabalhar, ter direito à herança, sair à rua desacompanhada e sem ouvir bobagens. Mas denunciar o machismo é coisa de “histérica”, ela é feia, tem sovaco cabeludo, não gosta de homem, mal-amada, não conseguiu segurar marido,
a lista é longa… O humor que ela desenha é, também, desmerecido como arte inferior.

Uma vez, em uma feira de quadrinho, na Alemanha, Maurício de Sousa foi indagado sobre a falta de mulheres quadrinistas em sua comitiva. Ele respondeu que, no Brasil, “Mulher ainda não tem essa liberdade sem vergonha que homem tem, de trabalhar até tarde, tem que cuidar
da casa, dos filhos, quadrinho exige muito tempo de dedicação”.

A mulher, como protagonista de seus próprios desenhos de humor precisava ser resgatada e furar a bolha.

Na procura por essas cartunistas, salões de humor, exclusivos para mulheres, surgiram, como é o caso do “Batom, Lápis & TPM”, que acontece todo mês de março, em Piracicaba e que reúne artistas, que, mesmo espalhadas pelo mundo, são muitas e seus desenhos e mensagens são
impressionantes. Sororidade passou a ser um lema. Esse ano, 2021, houve a tentativa da secretaria de cultura de Piracicaba de cancelar o Salão. Quando tomei conhecimento de que não haveria uma edição inédita, entendi que era a hora de mobilizar os cartunistas e passei a enviar mensagens e e-mails mundo afora e, assim, conseguimos reverter a situação. Preciso dizer que também recebi algumas reações estranhas, de negação, como se o salão fosse realmente algo inferior e que não merecia atenção, por parte de pessoas que eu admiro. Não guardo rancores, mas guardo nomes…

Trata-se de um precedente perigoso. O primeiro corte é nas mulheres. Era preciso agir para que não houvesse corte (ou censura) a outras exposições de humor. O Salão de Humor de Piracicaba tem uma longa tradição de resistência política. Nasceu no auge da ditadura militar no Brasil e está em sua 48ª edição, em 2021. Todos os anos o Salão Batom, Lápis & TPM, abre a temporada, em março. Em seguida, sai o regulamento e as inscrições para o salão principal, que acontece em março. Muitas atividades são levadas às escolas da cidade, e existe o salãozinho, para crianças. Quem sabe o que mais pode ser cortado, alegando custos e organização, mas sabe-se que é política. E parece que a atual política é tendenciosa à censura do humor questionador.

Há 3 anos, eu fiz a curadoria da exposição “Humorosas”, que reuniu 20 artistas. A ideia original foi do amigo artista, o Robinson, para expor as mulheres artistas que fazem humor. Foi um sucesso, a abertura foi no MACC, Museu de Arte Contemporânea de Campinas, depois passou
por mais 3 locais, antes de encerrar. Estamos programando uma nova edição de Humorosas para logo, pois temos um problema recorrente. Hoje, nas páginas das redes sociais, que anunciam festivais de humor, pouquíssimas mulheres são mencionadas. Quando uma de nós levanta a questão, denunciando o clube masculino, a recepção é sempre fria e negado o machismo. Acabo de ver um cartaz com “cartunistas do Brasil”, com umas 100 fotografias. Não cheguei a ver 3 mulheres entre os grandes.

O trabalho de charges, cartuns e caricaturas que realizo, estão muito ligados a essas situações, de sexismo e política, basicamente. Recebo prêmios e críticas pelo meu trabalho. Prêmios no Salão Internacional de Piracicaba e, ano passado, 2020, o “Prêmio Destaque Vladimir Herzog Continuado”, junto com 110 cartunistas (6 mulheres), por uma charge continuada, em apoio a
um cartunista, ameaçado pela Lei de Segurança Nacional. Críticas vem nas formas mais variadas. Tem gente que acha que eu não devo criticar o governo, que acha que estou torcendo contra. Tem gente que pergunta se eu não tenho medo. Medo do quê, amigo?

Enquanto conto os números de mortos na pandemia, a cada charge ou texto que publico, nunca terei medo de expor as mazelas e irresponsabilidades de um governo genocida. Não é um prazer desenhar o terror que estamos vivendo e ainda tentar agregar humor. Para mim, é um dever. Estamos em março de 2021 e nadando a braçadas para os 300 mil mortos pela Covid-19.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Como um segredo que se quer revelar aos poucos, foi tirando lentamente o capacete com uma vontade de respirar a si mesmo. Olhou por um instante ao redor enquanto afagava seu cabelo amassado. Estava de volta. Estava de volta à cidade que havia abandonado pra nunca mais voltar e estava de volta ao bar em que havia começado a trabalhar como motoboy no dia anterior. Não contou a ninguém que havia voltado. Queria ficar escondido enquanto recuperava tudo que havia perdido fora dali. O emprego de motoboy no bar era perfeito. Vivia invisível dentro do seu capacete enquanto percorria os quatro cantos da cidade. Era assim que queria, era assim que seria por um tempo. Sentia-se um flaneur às escondidas. Sentado na moto ao lado dos demais entregadores, começou a fitar a todos dentro do bar. De repente, seu coração gelou e um arrepio gelado subiu pelas costas. Imediatamente colocou o capacete, causando um certo estranhamento aos outros entregadores ao redor. Era ela! Ela estava ali. Sozinha na mesa do bar. Ela parecia esperar alguém. Ninguém chegou. Ela bebeu, sorriu, beijou um estranho. Ele foi invadido por memórias e calafrios. Memórias do amor pra vida inteira. Aquele amor que nunca acaba. Vieram as memórias da pele, do cheiro, dos seus corpos ainda mornos e abraçados na manhã seguinte e de tantas outras coisas. Engolia seco e suava frio, ao mesmo tempo em que ainda podia sentir o gosto da sua boca e da textura das suas costas molhadas entre seus dentes. Sentiu um ímpeto de ir até a mesa, mas não foi. Ela levantou-se e saiu cambaleando pelas ruas escuras. Não pensou em nada. Saiu da moto e foi caminhando atrás dela. A situação era quase bizarra e chegou a rir. Afinal, resolveu ir atrás sem tirar o capacete. Mas era assim que tinha que ser. Cuidadosamente se esgueirava pelas calçadas sem ser notado. A não ser quando uma ou outra pessoa resolvia dizer alguma coisa ou brincar com a situação. Afinal, não era comum ver um homem andando escondido pelas ruas só de capacete. Mas ele não ligava pra nada. Enquanto ia atrás dela a sua cabeça revirava. Queria vê-la mais de perto, sentir o seu perfume, olhar no seu olho. A madrugada avançava e nada. Ele a protegia com suas memórias. Memórias que também a levaram para uma praça que ambos sabiam o que significava. Decidido, depois de um tempo, tirou o capacete e arrumou o cabelo. Deu um passo à frente em sua direção. De repente, um telefone começou a tocar. Ela não atendeu. Tomou coragem e tentou de novo. O telefone tocou novamente e ela atendeu. Desligou. Ela olhou ao redor e respirou fundo. O dia estava amanhecendo. Enquanto o dia chegava a coragem dele ia embora. Mesmo assim, tirou o celular do bolso e colocou uma música do Milton que havia cantado pra ela. A música que era “Quem sabe isso quer dizer amor” começou a encher a praça ainda silenciosa e vazia daquela manhã. Ela olhou em volta com um ar surpreso. Quase não acreditava. Procurou instintivamente por ele. Ele já havia colocado o capacete e se afastava junto com a música. Ela ficava com a memória. Ele caminhava, assim como os versos do Milton, com a vontade “… de chegar a tempo de te ver acordar, de vir correndo à frente do sol, de abrir a porta e antes de entrar, reviver uma vida inteira…”

Gil Guzzo –Belo Urbano, é artista, professor e vive carregando água na peneira. É um flaneur catador de latinhas. Faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO PRESS (Agência de imagens) e professor universitário. Adora cozinhar e ficar olhando distraidamente o mar. É alguém que não se resta a menor dúvida…só não se sabe do que…. 

Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês, e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada; sem pensar lascou-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinham risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão, com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia ‘de cór’ nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda! Já tinha feito aquilo uma vez com ele (ele de novo nos seus pensamentos), ela ria e tinha vontade de dançar, melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu: – Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como a mente clareava para seu estado normal.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Dificilmente uma relação abusiva começa com cenas de terror! E muito menos as pessoas carregam plaquinhas escritas “oi eu sou um desgraçado!”.
Muito pelo contrário! E no meu caso foi exatamente assim!
Quando conheci o abusador, e vi nele a alegria e leveza em pessoa… mal eu sabia o que estaria por vir!

Começamos a nos relacionar e foi lindo, ele escreveu uma música sobre mim no dia seguinte do nosso encontro! E que encontro! Passamos a noite conversando! Parecia um encontro de almas!

Ele foi sutilmente me mostrando que minha vida toda estava errada! Que o que ele propunha era o certo!
Começou aos poucos me fazendo enxergar que meu trabalho era péssimo! E que eu mãe solo há 8 anos, estava o tempo todo falhando como mãe! Aliás eu estava falhando em todas as áreas da minha vida!

E ele sendo um ser de luz, grandioso em toda a sua bondade me aceitava!
Não só me aceitava! Estava disposto a ficar ao meu lado, construir uma família comigo, e me mostrar novos horizontes! Mesmo eu sendo bem péssima em todas as áreas da minha vida!

Me colocou em dúvida em todas as minhas questões! Inclusive eu que corria, que surfava, que estava com a autoestima lá no céu…. aos poucos ele me fez acreditar que tinha algo errado comigo!

Não foi aos gritos, não foi me batendo! Não!
Foi com carinho! Foi sendo fofo!

Chegou a me falar que tudo bem minha vagina ser feia, que provavelmente um cirurgião plástico arrumaria! E quando eu indignada questionei… não… ele não gritou! Ele chorou copiosamente me pedindo perdão! E chorou por horas! Me fazendo sentir o gosto amargo da manipulação!

Era sempre assim! No fim eu acabava sempre colocando em dúvida o meu próprio caráter! Porque como assim eu era capaz de magoar uma pessoa tão incrível?

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

NOITE QUENTE ARDENTE E PRUDENTE.
NOITE AUSENTE DIFERENTE E IN… CONSEQUENTE.
DIA BELO, SINGELO E ASSIM…
ESPERO GOZAR O QUE ABRE, DO QUE FECHA,
E NESSA TABELA SALIENTE,
A PAIXÃO VISLUMBRA, COMO SEMPRE.
ENVOLTA EM AGUARDENTE,
SEI QUE NÃO É PRUDENTE,
MAS, É ARDENTE… AL DENTE!
E POR DEMAIS QUENTE!!
A PAIXÃO, NÃO É AUSENTE,
CADA UMA É DIFERENTE, MAS…
TODAS SÃO INCONSEQUENTES!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

No trabalho as relações são as mais bem definidas. As funções, obrigações e interesses de cada um estão pré-estabelecidos e essa simbiose de interesses precisa ser saudável. Nem empregados nem empregadores estão prestando favores uns aos outros. É necessário que essa interdependência seja óbvia. Abusos e excessos de qualquer uma das partes prejudicam direta e instantaneamente a saúde da empresa. Empresa esta, que provê todos interesses de cada parte. Sejam eles financeiros, profissionais, ou qualquer tipo de crescimento esperado.

Na família o laço é eterno. Talvez seja o plano onde se cometam alguns abusos, por haver um vínculo compulsório e indestrutível. Às vezes não há simbiose, às vezes nem existem interesses em comum. De toda forma, acredito eu, que por algum motivo fomos inseridos em nossos contextos familiares. E na maior parte das vezes é na relação entre pais e filhos que a criança tem o primeiro contato com a construção de um relacionamento. Portanto as promessas feitas nunca deveriam ser descumpridas. Sejam elas de gratificações, sejam elas de punições. Pois é nessa fase da vida que se aprende o valor do respeito e da palavra.

A amizade é a mais singela de todas as relações, pois é onde não há uma simbiose. É onde não existem interesses. É onde se desenvolve a capacidade do bem querer por alguém que você não tem vínculos nem obrigações. São pessoas que se divertem juntas, compartilham bons momentos, trocam experiências e conhecimentos, dividem alegrias e tristezas. O sentimento genuíno da amizade é altruísta pois é absolutamente desinteressado. É, portanto, um vínculo extremamente raro.

O amor romântico? Sim ele existe. Existe entre pessoas que antes do “I love you”, são capazes de dizer “I see you”. O I love you é egoísta. Refere-se aos próprios sentimentos.  O I see you demonstra a capacidade de enxergar as necessidades do outro. Esse tipo de relacionamento não é desinteressado. As trocas são necessárias. A espiritualidade e os objetivos de vida precisam ser compatíveis. Deve haver sintonia na maneira de enxergar o mundo e os relacionamentos. E quais são os interesses? Ah… são os mais carnais e mundanos que existem. 

Mas seja qual for o tipo de relacionamento, eles são sagrados. E podem se quebrar.

Uma vez quebrados, partem-se em muitos pedaços que podem até ser colados, podem até voltar às suas formas. Mas as marcas serão eternas.  

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.