Na faculdade, na saída, L fez cara de coitada e disse que queria conversar comigo, mas quem falou tudo fui eu. Ela ficou com cara de tonta olhando para mim. O problema pra ela é o social, como é que ia ficar? Pode? Ficou fazendo gênero de sofrimento, detesto pessoa assim, sinceramente essa menina não merece a mínima, não merece de jeito nenhum minha amizade. To com raiva de toda essa falsidade. Passa, porque eu não sou de ficar com raiva de ninguém por muito tempo. “Chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia”.

….

Fomos para a festa. Lá, muitas pessoas da classe e de fora, ignorei os ignorados, alguns paqueras, inclusive o M que conheci ontem, ele pegou meu telefone. Alguns correios-elegantes, gostei! Expliquei, ou melhor, respondi o correio para o Z, falando que eu gosto dele, mas que ele é só meu amigo. Fomos para outra festa, muita gente conhecida, festa na rua e dentro… vinho, não deu para resistir, bom, já foi o dia que eu tinha direito de beber, tava engraçado eu e  o F bebendo vinho de graça, numa festa esquisita, demos muitas risadas. Fiquei altamente tonta, levei  a G e fui pra casa, bateu bode, chorei. Cheguei em casa, guardei o carro, me tranquei no banheiro e chorei, me veio algumas pessoas na cabeça, fui dormir, chorei, altamente neném.

Ah, na primeira festa o A me deu um abraço e disse que tá com saudades de mim, deu saudades de mim também, de verdade.

8 de julho – Gisa Luiza – 20 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

 

Romeu e Julieta que nada… Você está tentando dormir e começa a ouvir um diálogo entre prédios… De janela para janela…

Hey, como você chama?
Maria Luiza!
E você?
Paulo Henrique…
Paulo Henrique do que?
Me procura no Facebook…

Porque no mundo real é só atravessar a rua…

Michelle Felippe – Bela Urbana, professora por convicção e teimosa. Apaixonada por doces, cinema, poesia urbana e astrologia. Acredita que ainda vai aprender a levar a vida com a mesma leveza e impetuosidade das crianças.

Este texto, assim como vários outros, não é para te dar uma conclusão fechada. É simplesmente para expor um assunto tão em voga e que nesta semana fez parte da discussão com os amigos nesta semana. Somos todos bem instruídos (pelo menos é isso que se espera de uma faculdade), leitores ávidos, cheios de opinião… por natureza e por profissão (jornalista costuma querer saber de tudo, entender tudo e “pitacar” sobre tudo). Vamos lá: a palavra da vez é ASSÉDIO SEXUAL!!!

Nada muito inédito, mas sempre comentado, principalmente quando é escancarado pela mídia pelo assediador (a) e vítima serem “famosos”. Mas quantos não famosos sofrem isso diariamente em casa, na rua, no trabalho até mesmo em seus relacionamentos. A gente tem a falsa impressão de que o assédio ocorre apenas em casos de maior hierarquia e que o assediador é sempre um homem. ERRADO. Tudo bem que acredito que nós mulheres somos muito mais assediadas do que os homens, mas mulheres têm assediado cada vez mais (conheço pelo menos três casos e um deles foi cometido por uma subalterna).

Mas voltando à discussão com os amigos: como definir e caracterizar o que é ou não assédio. Eu sou muito brincalhona, cumprimento todos com beijos e abraços. Um beijo e um abraço podem ser assédio? A resposta veio com exatidão de um dos meninos: Depende de quem recebe. Se gostar, não é. Se não gostar, é. Mas como assim? Outra resposta básica: se o cara ou a mulher te cantam e você tem pré-disposição, você jamais veria isso como assédio, e sim como flerte. Agora, se você não tem interesse por qualquer motivo, você vê como assédio e denuncia (se tiver coragem).

Tenho certeza de que a linha de divisão entre um flerte, uma brincadeira e assédio é muito tênue e fácil de ultrapassar. E ainda estamos aqui, pensando, sem ter uma opinião clara de um código de condutas que defina o que é ou não assédio sexual. É claro que excluímos dessas dúvidas ações explícitas como toques inapropriados, em partes íntimas por exemplo, ou abuso de poder mesmo, com palavras, na lei do toma lá, dá cá. A dúvida é mesmo nas ações mais sutis: olhares, abraços mais demorados, carinhos no cabelo, brincadeiras…

Segundo o Aurélio, assédio é “pôr assédio, cerco a; perseguir com insistência, e/ou importunar com tentativas de contato ou relacionamento sexual”. Ok, nós aqui estamos no caminho certo… Mas por que é tão difícil discriminar as ações quando elas não são explícitas? Seria tudo uma questão de percepção?

Essa discussão é sem fim. A única certeza que tenho é que, mais uma vez, como quase todos os problemas do país, a solução está no respeito ao próximo e na educação social. Muitos de nós, enquanto sociedade, temos que parar cultuar assediadores. Não são raros os casos de famosos ou pseudos famosos nacionais e internacionais que são acusados de agredir suas companheiras e que continuam a ser admirados pelo público.

Sonhadora que sou, espero que não tenhamos mais que nos deparar com outras Su Tonanis e Zé Mayers num futuro bem próximo. Mas essa é a parte do sonho e dos meus eternos óculos cor de rosa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

 

shutterstock_199095767

Capítulo 1 – ROSANA

i. manhattan

Era uma noite fria…
Eu estava completamente só. Pelo vidro embaçado via tudo branquinho. Eu gosto de neve. Os pedacinhos caindo lenta e levemente, forrando o chão, clareando a paisagem. Não cai como lágrima, chuva ou confete colorido. Cai como neve. Silenciosa, branca, branca, branca.

Gostando ou não, está cedo demais para estender esse carpete de luz fria, é estranho ver tanta neve em Nova York no início de novembro. Também não existe nenhuma razão para eu não conseguir dormir, o Furacão Sandy já está bem longe, a temperatura aqui dentro marca perto de 26o Celsius e me sinto cansada, o que na teoria facilitaria o sono.
Reli a imensa lista de presentes de Natal que ainda tenho que comprar, são mais de vinte. Este ano vou ficar aqui e receber minha irmã e meu sobrinho mais velho. O Eduardo é meu grande amor, um menino reservado, diferente, uma fera com programas de computador. No dia de Natal ele vai fazer 18 anos e diz que virá morar comigo. Eu e a Roberta gostamos da ideia, mas vamos esperar para ver como vai ser em relação ao Doutor Klaus, o pai com quem ele mora desde pequeno.
‘Quase quatro e meia da manhã e eu aqui fazendo chazinho’ pensei enquanto me servia de um chá japonês chamado ‘Camellia Sinensis’, presente da Kristin. Nós saímos juntas algumas vezes nos últimos dois ou três meses, mas sabemos que não temos e nem teremos um relacionamento. Ela de fato é uma mulher interessante, eu é que não consigo passar da primeira pele, sou sempre muito superficial. Meu único mérito é reconhecer isso.
Peguei a xícara, o maço de cigarros e escolhi ouvir aleatoriamente o álbum de clássicos para ver se relaxava. A música sorteada não poderia ser mais linda ou triste, era a ‘Suite número 3 de Bach’.
Em uma explosão de TOC, alinhei em fila os meus quatro livros publicados com ensaios fotográficos e arrumei a Yashica FX-3/50mm que foi a primeira máquina da minha vida, eles ficam em cima de um baú de madeira maciça lotado de passado. Também endireitei a moldura vertical pendurada entre as janelas da sala com dez ‘selfies’ mal tiradas. Com as pernas empurrei o
divã de retalhos coloridos para perto de uma das janelas, acendi um cigarro e deitei confortavelmente olhando a neve cair, esperando o sono chegar.

Depois de quase vinte anos em Nova York eu posso me considerar uma pessoa realizada profissionalmente, estudei nos melhores institutos, ganhei dinheiro, fiz alguns trabalhos bárbaros, outros medíocres. Fotografei as modelos mais bem pagas, lindas e chatas do mundo até chegar aqui.
Meu único luxo é o apartamento onde moro no Soho. Amplo, tem o pé direito alto com quatro imensas janelas de vidro que vão do chão ao teto deixando à mostra as escadas de ferro externas. No andar de baixo fica o ‘Estúdio CaVVeg’ que divido com Alejandro Vega, fotógrafo espanhol que faz grande sucesso com ensaios de corpos nus.
Há mais ou menos dez anos ele chegou aos Estados Unidos com um visto de estudante. Bateu na porta do meu antigo estúdio em um dia de muita chuva dizendo que era meu fã.
– Você quer o que?
– Quero fotografar como você.
– Você quer me fotografar?
– Não! Quero aprender! – gritou tremendo de frio, com os olhos cheios de água da chuva e de choro. Tinha vinte aninhos o moleque.
Trazia na bolsa uma fotografia premiada num importantíssimo concurso internacional em Los Angeles no início dos anos 2000, era uma foto em preto e branco parte de um ensaio homoerótico que fiz para uma revista francesa. Um case consagrado em diversos países que ganhou destaque também na imprensa brasileira por meio de uma revista paulista que fez um encarte bárbaro e de certa forma apresentou o meu trabalho ao Brasil.
Naquele dia o Alejandro entrou no ateliê e nunca mais saiu da minha vida. Além de me auxiliar nas fotos, arrumou bicos em uma produtora de vídeos e aos domingos passou a utilizar o estúdio para fazer os seus sonhados ensaios nus.
Eu demorei a me acostumar com aquele entra e sai de gente pelada, mas ele mostrou que estava no caminho certo e o seu trabalho chamou a atenção ganhando prêmios de menor expressão. Fechou bons contratos, passou a andar com as próprias pernas e três anos depois de bater na minha porta não dependia mais de mim. Virou um grande fotógrafo, meu sócio e melhor amigo.
O engraçado neste ‘mundo redondo’ é que fiz pelo Alejandro exatamente o que um dia fizeram por mim, só que eu cruzei o caminho do polêmico Christopher Miller, fotógrafo nova-iorquino, hoje com quase sessenta anos. Na
época ele era um dos grandes nomes em fotografia de moda, amigo de Oliviero Toscani, participava das polêmicas campanhas da Benetton.
Encontrar o Miller foi como achar uma pérola no oceano. Eu o conheci por acaso pouco tempo depois de chegar em Nova York. Pisei no Aeroporto John F. Kennedy puxando duas malas imensas no dia 1o de janeiro. Saí do Brasil em 1993 e cheguei aos Estados Unidos em 1994 para uma nova vida, a outra tinha ‘acabado de acabar’. Naquele primeiro dia do ano eu vi neve pela primeira vez e a Rosana Nazaré Cavalcante deu lugar a Rose Caval.
O Miller foi meu professor de fotografia na Academia e ofereceu a oportunidade da minha vida. Contava pra todo mundo que tinha me contratado como estagiária por um simples e absurdo motivo: eu era morena e brasileira como a Sônia Braga. Dizia que conheceu sua musa anos antes, mas eu nunca soube se isso era verdade ou não.
Vinte e três anos, naturalmente morena com cabelos cacheados e longos, recém-saída do dourado verão baiano para contrastar com as caras brancas e pálidas do inverno nova-iorquino. Foi essa ‘Dona Flor’ que o Miller enxergou em mim, uma imagem bastante distorcida que acabou virando o meu Greencard.
Eu não desperdicei as chances que tive, andei ao lado do Miller e depois segui em frente, exatamente como aconteceu com o Alejandro. Por sorte, os dois se tornaram minha família.

ii. revés

Acordei no divã toda torta, amanhecia, a chuva batia contra as vidraças com força fazendo um barulho que competia com a música alta. Novamente tocava a ‘Suite número 3 de Bach’, não sei se por coincidência ou a música tinha se repetido sem parar. Eu estava suando, o chão molhado e a xícara de chá com a asa quebrada caída perto da janela. Desliguei o som angustiante lembrando apenas de ter deitado no divã sem sono algum. Olhei para a fileira de fotos penduradas entre as janelas e senti a ‘sombra da Isabel passeando pelo meu pelo’. Eu estava completamente arrepiada.
Recolhi os pedaços da xícara quebrada e fui buscar alguma coisa para limpar o chá japonês que escorria pelo chão da minha sala. Quando abaixei senti uma forte tontura, sentei no divã tentando me manter consciente, mas não sei se consegui. Vi cenas desconexas onde a Roberta chorava, depois sorria enquanto o Eduardo, ainda garotinho, brincava abraçando a mãe, passando por
baixo das suas pernas, rindo. Aí de repente não era a Roberta, era eu e as nossas imagens me confundiam.
Apertei o pano molhado contra o rosto sentindo uma náusea incontrolável. Corri para o banheiro já vomitando e sentei dentro da banheira com a água despencando em cima de mim, nem escutei o celular que tocava sem parar na mesinha da sala. Quando finalmente atendi, vi que o Alejandro ligava pela quinta vez seguida.
– Hello moleque… – falei amorosamente misturando idiomas como sempre fazemos.
– Oi Rose, tudo bem? – perguntou sério, em inglês.
– Mais ou menos, devo ter comido alguma porcaria ontem. O que tá me preocupando é você acordado domingo cedinho – tentei rir, mas não consegui.
– Rose, eu estou chegando ai na sua casa. Tenho um assunto pra falar com você.
– Putz Ale, aconteceu alguma coisa? É de trabalho? – perguntei nervosa.
– Eu estou estacionando o carro, beijo – desligou.

Ouvi as batidas na porta enquanto vestia uma calça branca de capoeira muito velha, as listras coloridas nas laterais já bem desbotadas. O Ale estava todo molhado, pálido e não veio sozinho, o Miller entrou atrás dele. Tiraram os casacos sem olhar para mim, os dois de cabeça baixa. ‘Meu Deus, é grave’ pensei e não esperei mais nem um segundo.
– Alejandro o que aconteceu?
– Rose, eu preciso que você fique calma… – respondeu nervoso.
– O que foi Ale? Fala!
– Você vai ter que ser muito forte.
– Pelo amor de Deus Alejandro, o que tá acontecendo? – perguntei com vontade de chorar.
– Senta Rose – o Miller apertou minha mão com força e me larguei no sofá – Aconteceu um acidente lá no Brasil – começou devagar me olhando de frente.
– Meu pai? Isabel, Edu, Beta? – falei de uma única vez, em um ato falho sem tamanho e fechei os olhos para ouvir a resposta.
– Eduardo.
Meu coração parou. Senti como se estivesse caindo nesses elevadores que projetam queda livre nos parques de diversões, só que eu não parava de cair.
– O que aconteceu Alejandro? O que foi? – perguntei sentindo as lágrimas e o meu corpo despencando cada vez mais rápido.
– O Edu foi atropelado ontem no final da tarde, ele estava em uma estrada quando…
– Atropelado? Ele tá machucado? – sacudi o meu amigo pelo colarinho – Me responde Alejandro! Ele se machucou?
– Rose, foi bem grave… Se acalma! – pediu tentando fazer com que eu largasse sua camisa – Ele atravessou a tal estrada correndo, veio um desses carros grandes, um Jeep em velocidade e…
– Um Jeep? – esfreguei o rosto com as duas mãos e abri a boca tentando pegar ar – Ele está vivo, né? Alejandro pelo amor de Deus, diz que meu sobrinho tá vivo! – implorei com a voz anasalada.
– Não Rose, o acidente foi muito grave. O Eduardo morreu.
Foi como se o elevador onde eu me encontrava despencando se espatifasse no chão em mil pedaços. Soltei um grito gutural e me contorci no sofá sentindo uma dor dilacerante. Não sei quanto tempo fiquei ali sendo velada pelo Alejandro e pelo Miller.
– Meu Edu! – falei baixinho e me sentei – E a Beta? Como é que tá a minha irmã?
– Eu não sei muita coisa, quem ligou pra mim foi o Klaus – contou.
– O Klaus, por que logo ele? – levantei e comecei a andar de um lado para o outro – E o meu pai?
– Eu sei que a sua irmã está a caminho da cidade onde aconteceu o acidente, porém não falamos sobre o seu pai Rose, me desculpe.
– Quando foi o acidente? – perguntei soluçando e tentei acender um cigarro, o que era impossível de tanto que eu tremia.
– Ontem no final da tarde por lá, mais ou menos umas nove da noite – o Alejandro pegou o cigarro da minha mão e devolveu aceso.
– E por que demoraram tanto pra me avisar?
– Eles decidiram não te dar a notícia por telefone e eu também demorei pra atender porque estava em um lugar barulhento e não ouvi o celular – confessou culpado não conseguindo mais segurar o choro – Me desculpe Rose, eu sinto tanto.
Abracei o meu amigo consolando e sendo consolada, enquanto o Miller carinhosamente afagava nossas costas sem conseguir dizer uma única palavra.
Quando entramos no JFK meus olhos estavam ardendo, o Alejandro chorava e apertava a minha mão como quem deseja receber uma transfusão de
dor, o Miller continuava em silêncio. Tentei falar com a Roberta umas dez vezes e nada, a minha cabeça não parava de rodar.

Foto Carla Dias Young

Carla Dias Young – Bela Urbana,  tem 46 anos é jornalista, (tenta ser) escritora e trabalha na empresa ‘Young.comunicação Consultoria em Comunicação e Licenciamento Ambiental’. Nasceu em Santos, mora em Campinas, é casada e tem um cachorro e uma gata, todos vira-latas.

Pes shutterstock_281698334 Belas

Além das tradicionais características dos homens brasileiros, como o samba, a cerveja e o futebol, “cantadas”, muitas vezes causam estresse e aborrecimentos, no lugar de satisfação ou alegria. Na verdade, quase sempre, a maioria das mulheres não aprova a abordagem. A maioria não gosta de ouvir cantadas, algumas mulheres já deixaram de passar por algum lugar por medo de serem abordadas, e outras já trocaram de roupa antes de sair de casa para evitar alguma provocação. As precauções revelam-se incipientes, diante da paixão com que os marmanjos se entregam “ao esporte nacional da cantada”. Eles, aliás, costumam se esconder atrás de eufemismos, como chamar de “galanteio” a palavrinha cheia de veneno para a moça bonita que vem e que passa. Elas se ofendem e, no império do politicamente correto, enxergam um jogo de dominação pelo sexo oposto. Nem tudo é baixaria, e alguns gracejos acabam consagrados. Um caso foi protagonizado por Fred, um jogador de futebol do Fluminense que, ao encontrar uma morena exuberante numa avenida de Belo Horizonte, caprichou na finalização:  “O que você faz, além de sucesso?”, mandou, como prova o vídeo que se transformou num hit instantâneo da internet. Acredito que o resultado serve para demonstrar que, por trás de uma cantada na rua, mesmo que aparentemente inocente, sempre há o risco de assédio. Em alguns casos, mulheres adultas e adolescentes narraram diversos casos de cantadas obscenas e até agressões físicas.

As cantadas quando é um desconhecido no meio da rua, em uma via pública, de uma pessoa que não deu abertura para isso, podem ser uma agressão, sim, por mais que seja só um “fiu fiu”. Quando a mulher responde, a maioria dos homens chama de vagabunda para baixo. Então não é algo inofensivo. Alguns homens começam a xingar. Eles acham que a mulher está querendo tolher a liberdade deles, sendo que é o oposto, eles é que cortam a da mulher quando fazem isso (cantadas na rua). Esse tipo de campanha reflete uma mudança profunda em curso na sociedade brasileira. Tradicionalmente, as brasileiras estão acostumadas a receber elogios em relação a sua beleza desde muito jovens, e esses elogios costumam representar uma espécie de reconhecimento. O momento que a gente vive, é de uma certa transição de uma lógica em que o valor e a visibilidade da mulher estavam atrelados ao corpo, para uma lógica em que os valores femininos estão ligados a outros capitais: a personalidade, a inteligência, a atitude. Uma coisa que a mulher brasileira gosta é de se sentir única. A cantada te padroniza, te torna igual a todas as mulheres. O “fiu fiu” faz você se sentir igual a todas as outras.

Conhecendo um pouco o universo feminino, acredito que o tema chega em boa hora. Existe uma peça teatral que depois virou comédia, denominada: “E aí, comeu?”, onde mostra que o assédio nas ruas é um problema enfrentado diariamente pela maioria das mulheres, brasileiras ou não.

Em algumas cidades brasileiras as mulheres conquistaram um vagão de Metrô separado. Isso já mostra o quanto essa é uma questão importante. A brasileira está encurralada o tempo todo. Concordo com aquelas que reclamam. Você está na sua, aí vem um motoboy e buzina, um caminhoneiro faz uma grosseria… Deve ser insuportável esse tipo de abordagem, só surte efeitos negativos. Uma troca de olhares ainda é a cantada mais eficiente que existe.

Apesar de concordar que um elogio dito na hora e no local errados pode ser incômodo ou até ameaçador, existe diferença entre uma cantada ingênua e um assédio como o elogio é dito.

No quesito eficácia, homens e mulheres concordam: as cantadas de rua raramente surtem efeito positivo. São, na verdade, uma simples expressão de masculinidade, geralmente na frente de outros homens,  e de poder sobre o sexo oposto. Esse homem que canta de forma agressiva é um frustrado que desconta na mulher por saber que é mais forte, que não vai haver reação. É um amostramento de homem para homem. Indo mais longe podemos até  dizer que a cantada é o “sintoma de um mal profundo”. O mal, no caso, é a objetificação da mulher. O que faz com que homens se sintam impelidos a chamar uma mulher de gostosa no meio da rua é uma noção de abuso em relação ao feminino. Se isso é OK por um lado másculo, talvez seja um problema de ordem cultural. Vejo a insegurança como principal fator por trás de investidas agressivas. Há uma característica predominantemente machista, mas não podemos dizer que toda cantada é uma agressão, senão começaremos a cercear toda e qualquer iniciativa. O ideal não seria uma proibição que nos levaria a uma cultura saxã, em que não existe essa troca de afeto. Proibir a cantada seria uma contenção artificial. Precisamos da afirmação do respeito mútuo. Está bem deselegante ultimamente. Já foi melhor. Antes tinha mais sutileza, era mais uma piada. Hoje está muito vulgar.
10983428_900522006636860_3665289255112629747_n Wilson Santiago

Wilson Santiago – Belo Urbano, brasileiro, natural de Potunduva SP, união estável, engenheiro de produção, pesquisador, corintiano, espiritualista, musico, poeta, produtor musical e do signo de áries.

whiskey shutterstock_183693863

Nenhuma mulher precisa ouvir o seu “fiu fiu” que quase sempre vem acompanhado de um “elogio” como: “gostosa!” ou “delícia!”.

Talvez não fosse preciso dizer, mas aparentemente somos seres evoluídos e conseguimos controlar nossas vontades, afinal ninguém abaixa as calças e caga na rua, né? Então, porque você faria isso pela boca?

O seu “fiu fiu” é desnecessário, inconveniente e invasivo!

Se é difícil para você respeitar uma desconhecida, tente visualizar sua mãe, esposa/namorada, filha ou neta. Com certeza elas já passaram por isso e não gostaram! Essa atitude “máscula” não te faz mais homem, muito pelo contrário.

E por mais que você insista em achar que elas gostam, você receberia algo que gosta de um completo estranho? Eu adoro uísque e nem por isso aceitaria uma garrafa de uma mulher desconhecida na rua, pior ainda se a cada 10 mulheres que eu cruzasse, 8 me oferecessem uma dose, eu ficaria bem assustado, agora imagine a opinião alheia sobre o meu corpo ou as vontades que sentem quando me veem?

Cara, é preciso e é possível mudar, eu já fui o babaca do “fiu fiu” e sei que nunca resultou em nada além de constrangimento alheio. Homens deixem os assobios para os pássaros, se for para imitá-los de alguma forma que seja para voar e fugir desse estereótipo tosco, desnecessário, inconveniente e invasivo.

IMG-20150123-WA0000 - Lucas

Lucas Alberti Amaral – Belo urbanonascido em 08/11/87, vem há 28 anos distribuindo muito mau humor e tentando matar a fome. Formado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela METROCAMP, trabalha na área há 6 anos, tem uma página onde espalha pensamentos materializados em textos curtos e tentativas de poesias www.facebook.com/quaseinedito (curte lá!). Concilia a dura missão de morar em Campinas – SP (cidade onde nasceu) e trabalhar em Barueri-SP, não acredita em horóscopo, mas é de Escorpião, lua em Gêmeos com ascendente em Peixes e Netuno na casa 10. Por fim odeia falar de si mesmo na terceira pessoa.

casal shutterstock_136921391

Mulheres de sobrancelhas grossas são sempre melhores na cama, principalmente as morenas.

Não sei se existe algum fundamento científico, estatístico ou se é um mero palpite, mas o fato é que essa frase ressurgiu das trevas, direto pra minha cabeça naquele fim de tarde de terça-feira. O autor da frase é um grande amigo meu e que foi de uma autoridade ímpar ao proferir tais palavras na mesa de um boteco na Praça João Mendes.

Mas vamos aos fatos. Era terça-feira, eu havia saído do Fórum atrasado. Desci correndo as escadarias da Sé e entrei rapidamente no segundo vagão. Eu sempre entro no segundo vagão quando estou atrasado. E só faço isso pelo simples fato de que o segundo vagão é o mais próximo da saída na estação Paraíso. Meio ofegante pela breve corrida e pelos 7 cigarros diários, recostei-me na porta oposta como quem espera a vida passar. O vagão estava vazio naquela hora. Eram 3 da tarde. Na estação Liberdade não subiu ninguém. Na São Joaquim duas pessoas. Mas minha vida mudou na estação Vergueiro.Foi justamente lá, quando o trem abriu as suas portas, que veio à minha cabeça aquela frase profética do meu amigo.

Fiquei pasmo, quase engasguei. Ela entrou e veio na minha direção. Parou mais ou menos a um metro de distância. Eu podia sentir o seu perfume. Era um perfume doce, misturado a um leve cheiro de nicotina. Isso era sinal de que ela também fumava. Minha cabeça virou do avesso. Lembrei-me na hora de uma antiga namorada, que adorava andar nua pela casa, de salto alto e tragando o seu cigarro. O perfume era o mesmo. Procurei me concentrar na realidade daquele instante. Olhei de cima a baixo sem cerimônia. O seu corpo era perfeito. Pernas torneadas, amparadas num salto doze e unhas vermelhas. O vestido preto, levemente displicente, envolvia o seu corpo tão perfeitamente quanto a água de um banho tépido. Um pouco mais acima, os peitos mais lindos e firmes que eu poderia imaginar. Pelo menos a aquela distância e sem poder tocá-los. Mais acima ainda, o seu rosto. Um conjunto em perfeita harmonia com o universo, emoldurado por um cabelo preto liso. O cabelo era comprido o bastante para ser puxado e curto o suficiente para denunciar o seu pescoço.

Foi nesse instante que, atento a todos os detalhes, vi a sua sobrancelha. Era uma sobrancelha grossa e ela era morena. Pronto. A partir daquele instante não consegui mais pensar em nada. Só via na minha frente aquela mulher e a frase do meu amigo. Suava frio como um adolescente e olhava fixamente nos seus olhos. Ela, percebendo o meu encantamento, retribuiu e me olhou com volúpia. Não sei quantas estações se passaram, mas naquele momento só existíamos eu e ela naquele vagão. Tudo em volta virou nuvem de esquecimento.

Num dado momento ela abriu a bolsa cuidadosamente. Ela o fez como se fosse revelar um segredo. Pegou uma bala, desembrulhou cuidadosamente e colocou na boca sorrateiramente. Depois, pegou uma caneta, esticou o papel da bala contra a sua pasta e escreveu algo nele. Guardou a caneta e dobrou várias vezes o papel da bala. Ela fez tudo isso sem tirar os olhos de mim.

O trem parou na estação São Judas e a porta abriu atrás de mim. Ela andou na minha direção, passou rente ao meu corpo e colocou o papel da bala no meu bolso. Meu coração disparou. A porta fechou, o trem começou a andar e ela me lançou um último olhar antes que o trem sumisse escuridão adentro.

Abri o papel rapidamente, mas não sei por que não tive coragem de olhar pra ele. Tive medo do que estaria escrito nele. Seria o número do seu telefone? Era o mais provável que fosse. Mas se não fosse o número e sim algumas palavras sem sentido ou um rabisco. Claro, ela poderia ter só rabiscado o papel. Afinal ela nem olhou pra ele quando escreveu. Devia ter percebido o meu estado de criança na frente da vitrine de uma sorveteria. Ela só podia estar brincando comigo. Que mulher me daria o seu telefone sem mais nem menos. Seria um presente dos deuses? Ainda mais uma mulher morena de sobrancelhas grossas? Não, isso não seria possível. Mas e se fosse? Era melhor então eu ler logo o que estava escrito no papel e acabar logo com a agonia. Tudo se resolveria rapidamente. Eu desceria, ligaria pra ela e em seguida ligaria pro escritório dizendo que não tinha passado bem e que iria pra casa. Ela estaria me esperando com um champagne. Abriria a porta e me daria um longo beijo. Tiraria minha gravata com violência, enquanto eu me apressaria em arrancar o seu vestido. Nos jogaríamos ao chão e transaríamos como animais a dilacerar suas presas. E então, no momento sublime do gozo, eu olharia bem nos seus olhos, emoldurados por aquela sobrancelha grossa, e gritaria rompendo o silêncio daquela tarde morna.

Tomei coragem e resolvi ler o que estava escrito no papel. Nesse instante o trem parou, abriu a porta, um office boy entrou correndo e me deu um encontrão. O papel voou da minha mão e foi cair direto no vão entre a estação e a plataforma. Olhei desolado. Tentei esboçar uma reação, mas fui impedido pela porta que se fechou a minha frente. Respirei fundo. Não havia nada mais a fazer. Apenas descer na estação Jabaquara e tomar o trem de volta pro Paraíso.

Nunca vou saber o que estava escrito naquele papel. Nem tão pouco se as mulheres de sobrancelhas grossas, principalmente as morenas, são sempre melhores na cama.

12084821_872243929489874_2008663406_o (2) Gil Guzzo 2

Gil Guzzo – é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

shutterstock_322148309 (1) menina no mar

… “uma vez eu e a C estávamos no mar, daí veio o P, o R e o A e ficamos conversando. O  A perguntou para mim:

-De quem você mais gostou de nós?

-De todos vocês, vocês são simpáticos (mentira, era dele).

Perguntei:

-E você de quem mais gostou?

-De vocêêêêêêê….”

Fiquei super feliz.

09/04 – Gisa Luiza – 15 anos

Foto-0010E001 dri

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde é a responsável pela autoria de contos e poesias, mas também e atreve a escrever no divã desse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza.

 

 

 

Edição 1

Alexandra tinha 49 anos, faltavam 05 meses para seu aniversário de 50. Os amigos do trabalho toda hora perguntavam: “- E a festa Alexandra como vai ser?”. Outros diziam: “ – Tem que comemorar com um festão a data”.

Alexandra, ouvia, esboçava um leve sorriso e pensava:  “é até que  seria bom, afinal nem festa de 15 anos eu tive”, mas aí, logo em seguida, pensava em todos os gastos extras, no marido sempre tão indiferente,  e sua  vontade já morria nesses pensamentos.

Ela vivia como muitas mulheres vivem nessa fase da vida: as rotinas da casa, as rotinas do trabalho e algumas idas ao Shopping com Aninha, sua melhor amiga desde os tempos do colégio.

Alexandra não era feia, mas digamos que pedreiro nenhum assobiava quando ela passava. Ela não era gorda, mas não era magra, vivia com um óculos do século passado, as roupas pioravam a situação, brincos, colares, pulseiras, ou qualquer tipo de bijuteria ou acessório não existiam em seu guarda-roupa. Esmalte? O mais ousado era “renda” e mesmo assim, por economia, só uma vez por mês.

No trabalho, Alexandra, sempre foi exemplar, uma contadora de mão cheia. Entrou na “firma” quando ainda era estudante universitária. Aplicada, dedicada, foi logo contratada. Ela cresceu com a firma de contabilidade nesses últimos trinta anos. O que era uma pequena empresa passou a ter uma equipe com mais de cem pessoas, hoje com vários profissionais diferentes: contadores, advogados, estoquista, a equipe de TI,  a assessoria de imprensa etc. Alexandra apesar de ter crescido no trabalho, ficava sempre muito isolada,  muito formal com todos, muito e somente em seus números e cálculos.

Eis que um dia, nesse mesmo ambiente, ela recebeu um e-mail que tinha como assunto “do seu admirador secreto”. Ela abriu o e-mail que estava escrito “Te vejo passar todos os dias, conheço seus passos de longe, seu perfume, o som da sua voz… e abra aqui para ler todo o resto”.

Ela deletou e pensou:  “Bobagem. Só  que a mensagem não saia da sua cabeça e pensava: “Será mesmo que ele me conhece?”

Coincidência ou não, no dia seguinte ela mandou fazer lentes de contato e resolveu aposentar os óculos.

Os e-mails continuavam a chegar, a cada dois dias o mesmo e-mail aparecia, e consequentemente, ela não abria e deletava , mas…se abria para  novas e pequenas atitudes: um batom mais forte, um corte de cabelo moderno, um salto alto, uma roupa mais justa. A cada e-mail não aberto, uma mudança no visual e na alma, e começava a sentir o mundo como há muito não sentia, sem perceber ficou mais leve, alegre, sorridente. Resolveu participar dos “happys” da “firma”.

Mas a curiosidade não saia da sua cabeça, quem seria que mandava os e-mails? Um dia desconfiou do jovem rapaz que cuidava da rede, era um moço bonito, alias, cá entre nós aqui, bem bonito, moreno, com um lindo par de olhos verdes e no auge dos seus 26 anos.

Primeiro seus pensamentos foram cruéis consigo mesma. “Que absurdo você tem idade para ser mãe dele, ele combina mais com sua filha, mas também começaram a vir outros pensamentos: Se essas atrizes da TV namoram garotões, por que eu não posso?”.  E na sua cabeça começaram a parecer todos os casos iguais em que conhecia que ela acreditava que “foram felizes”, pelo menos por um tempo, porque ingenuidade de acreditar no  “felizes  para sempre” ela já não tinha mais.

O marido, alguns anos mais velho, continuava no mesmo passo. Todo dia quando ela chegava em casa, encontrava ele na frente do computador comendo queijo e gelo. Ele não a via, não reparou no novo corte de cabelo, nas unhas vermelhas, nas calças mais justas. Um dia ele olhou mais demoradamente para ela e ela pensou:  “Ele vai falar, reparou”, mas não, só olhou mais demoradamente mesmo e nada disse, talvez tenha pensado, talvez tenha faltado coragem, talvez, talvez…o certo é que voltou para seu computador, seu queijo e seu gelo.

A filha de 16 anos reparou – mulheres sempre reparam – e gostou da nova mãe que via; o filho de 18 anos só pensava no vestibular e, como pai, talvez não fosse um bom reparador.

O moço da rede em um desses “happys” da firma ficou do seu lado. Conversaram, flertaram, e ela, certa que era ele perguntou depois de alguns chopes:

– É você?

E ele:

– Eu o quê?

– Me fala vai? É você?

– Você fica feliz se eu disser que sim?

– Sim

– Então digo que sim, só para ver você feliz.

– Amanhã vou abrir.

– O quê?

– Você sabe.

– Sei?

– Sei que sabe.

– Não sei.

– Sabe sim… Vou abrir heim…

– Hum, então vou esperar… que horas vai abrir? Onde?

Ela riu. Ele não entendeu.

E no dia seguinte ela abriu e literalmente, coincidência ou não, destruiu toda a segurança da rede da “firma”. O e-mail era um desses “supervírus” da informática que clonam os computadores, roubam as informações, e em uma firma de contabilidade isso era o pior que pode acontecer.

O escritório parou. O espanto, os comentários eram gerais: “Por que ela fez aquilo?”, “Que ingênua”, “Por que abriu esse tipo de e-mail?”, “Coitada, vai perder o emprego”. Os olhares eram os piores possíveis. A situação foi tão séria que ela foi mesmo mandada embora, mas ela não se abalou, algo de fato, tinha mudado.

Colocou suas coisas na caixa, deu tchau para poucos amigos que não a julgaram, deu  um ”up” na maquiagem . Quase indo embora, encontrou o moço da rede e disse:

– Eu disse que ia abrir.

Ela caiu na gargalhada e ele também.

Ele levou a caixa para ela até o carro e apanhou no jardim uma flor que entregou para ela. Ela ficou tão emocionada que seus olhos se encheram de água, e pensou:  “Há quantos anos não ganho flores?”.

Dias depois resolveu que não compraria mais queijo e se deu conta de que não gostava de nada gelado. Chega de gelos. Colocou um ponto  final no casamento e, quando saiu para caminhar na rua, ficou muito feliz com todos os assobios que ouviu dos pedreiros.

PS.: A festa de 50 anos foi de arromba, sem economias, dançaram todos até o sol nascer. Os amigos da “firma” foram em peso. Os amigos da ginástica. A turma da faculdade e do colégio foram  reencontrados e também foram. Foi realmente um festão. O gatão dos olhos verdes também foi… mas essa história eu conto em outra.

foto-adriana2

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde é a responsável pela autoria de todas as histórias do projeto. Publicitária, empresária, poeta e contadora de histórias. Divide seu tempo entre sua agência  Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, suas poesias, histórias e as diversas funções que toda mãe tem com seus filhos.