Era uma manhã de quinta-feira, 9h14 eu perdia meu segundo ônibus para uma consulta. Provavelmente me atrasaria. Já que não tinha outra escolha, sentei-me no ponto para aguardar e como única distração naquele momento, encontrei uma lixa de unhas na bolsa que logo coloquei em uso.

Avistei um senhor vindo em minha direção em sua cadeira de rodas. Era branco, comprido, queimado de sol, vinha vagarosamente enquanto observava o movimento.

Respirei fundo como imagino que a maioria das pessoas (ou seriam mulheres?) fazem quando um desconhecido se dirige a nós. Esse desconhecido se chamava Nelson.

Sr. Nelson colocou sua cadeira ao meu lado, estacionando-a perfeitamente “de ré”. Não me cumprimentou, achou melhor me oferecer uma bolacha que recusei alegando ter tomado café (até sinto o cheiro…). Ofereceu uma paçoca. Meu organismo respondeu ao estímulo, ignorei-o e recusei educadamente enquanto lixava a unha para desviar uma possível tensão. Sr. Nelson estendeu as mãos grandes e encardidas como que para “brincar” que queria lixar suas unhas também… Dei risada e aquele foi o aval que Sr. Nelson precisava para começar a contar histórias de sua vida. Confesso que este rumo da conversa me deixou mais aliviada…Dificilmente um assédio se iniciaria ali…Exibindo dois grandes dentes em uma “janelona”, talvez ele só quisesse falar sobre sua vida enquanto mastigava sua paçoca cheirosa.

Sr. Nelson iniciou falando das suas filhas que ascenderam socialmente, que por tal razão devem ter vergonha de vê-lo e visitá-lo. “Uma delas é dona de uma loja naquele Shopping Campinas, sabe? Ela tem uma caminhonete e mora no Guanabara(…) Eu fico até sem graça de ir visitar quando eles resolvem me buscar. Mas é melhor do que ir visitar o filho na prisão, né? Tem mais é que agradecer!”. Eu respirava fundo e balançava a cabeça… Vamos deixar o senhor Nelson falar, não é mesmo? Ele prosseguia: ”Quando cheguei em Campinas, eu fui garoto de programa por alguns meses, sabe? É algo de que me arrependo muito!”  Aqui o Sr. Nelson não tinha muita tristeza na voz, os detalhes deste momento da sua vida não pareciam ser acompanhados de muito arrependimento pela eloquência ao narrar. Daí pra frente, a conversa deu um salto! (Ou como diriam meus amigos cinéfilos: Um plot twist!) Nelson me revelou que em uma de suas viagens para o Paraná (em uma das suas diversas profissões) ele conheceu uma moça e se envolveu com ela. “Eu gosto de mulheres de cor, sabe?” (Esbocei um sorriso, mas minha cabeça apenas queria perguntar ao senhor Nelson: ‘Que cor?’). Antes de ir embora ele lhe deu seu telefone e disse que um dia voltaria para vê-la, bem como ela poderia visitá-lo… Mas que naquele momento da vida, havia outras coisas a serem feitas. E prosseguiu: “Sabe, ela me ligou alguns anos depois. Eu devo ter uma filha por lá!”
Era como uma trivialidade: “Eu devo ter umas terras por lá”; “Devo ter algum conhecido”…Uma filha fora do casamento branco do senhor Nelson. Uma menina “de cor” que TALVEZ, leiam…TALVEZ exista, visto que sua amante preta lhe comunicou por telefone. A certeza da existência e contato só existe para suas filhas abastadas de vida confortável do centro de Campinas.

Com toda essa conversa, com muitos detalhes de algumas coisas, poucos de outras… Sr. Nelson se demonstrou ser o recorte perfeito daquele Velho branco, que passa sua vida em um relacionamento social-branco-aceito…Fetichiza mulheres negras em situações extraconjugais e só resolve assumir para si este fato no final da vida, quando a sociedade já não irá mais julgá-lo tanto, haja vista sua invisibilização que os anos e as doenças lhe conferiram. Sr. Nelson não ama mulheres “de cor”, Nelson é só mais um racista. Nelson é mais um apático protegido pela idade e um discurso “romântico” de amor antigo. Nelson pode ser seu pai, seu avô (e os meus também). Seu parceiro pode se tornar um Nelson… Seu irmão (e os meus também). Você que está lendo isso pode ser um Nelson! Quanto de Nelson existe dentro de você? Dos seus?

Matem esse Nelson que existe aí dentro! Não romantizem fetichismo, racismo, não deixem pra assumir seus “amores antigos” quando não tiver ninguém vendo, quando for num cômodo fechado, quando for atrás de uma tela de computador. Eu espero que você durma menos Nelson hoje.

Maristella Cruz – Bela Urbana, aspirante a Geógrafa, buscadora de padrões complexos e amante (não-sabichona) de vinhos. É ariana, gosta de brincar com sabores, cantar no chuveiro e fora dele. Feminista abolicionista, sonha com um mundo melhor.