Este é o mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Este mês deveria também ser o período de reflexão sobre os comportamentos que abreviam a vida de muitas pessoas. E algumas partidas poderiam ter sido evitadas, principalmente, se homens pudessem olhar um pouco mais para si e para os seus próximos. O amarelo é um sinal de atenção. Olhar com mais cuidado, mais profundo. O patriarcado vem impactando o número de suicídios masculinos porque causa uma cegueira emocional.

Se o suicídio é um assunto complexo, a construção da identidade masculina também acompanha esta mesma complexidade. O patriarcado cria um véu que encobre os sinais precoces de que alguma coisa não vai bem. Quando meu irmão mais novo, começou a dar os primeiros sinais, acreditava que ele iria superar, porque como homem, forte e saudável, como alguma coisa poderia abalar a sua vida.

Acostumado a suportar pressões, cobranças e pesos, homens não podem fraquejar ou desistir. Nunca e jamais iria pensar que o sofrimento interno pudesse ser tão escondido. Jovem com tantos privilégios, sucesso, e prestígio, dificilmente estava preparado para encarar que meu irmão estava em sofrimento. Homem não pode chorar. Não pode demonstrar sentimentos, não pode se aproximar porque o feminino significa fraqueza. Homens são treinados a praticar e sofrer assédios, domesticados a atacar e ser atacado, ferir e ser ferido. Enfim, a construção da masculinidade é a distorção do masculino, refletindo nos homens, comportamentos distorcidos, capaz de torná-los vítimas de si mesmo.

Se a pressão foi sobre ele, na verdade também a pressão foi sobre mim, por não ter entendido mais profundamente, como a banalização pode causar cegueiras e silêncios. Em uma sociedade patriarcal, costumamos seguir regras e comportamentos comuns a maioria dos homens. Esquecemos das individualidades, das subjetividades e infelizmente optamos por um comportamento de rebanho.

As masculinidades e suas relações tóxicas surgem dentro de uma descontinuidade. Dentro de uma ruptura com a realidade projetando como reais as ilusões assumidas na vida de cada homem. A descontinuidade é um processo de rompimento consigo e com os demais que estão a sua volta. Bloqueio de emoções e de palavras. Império tirânico do silêncio e do vazio preenchedor das necessidades masculinas. Meu irmão não tinha tempo para nada, mas eu também deixei de ter tempo para ele. Porque agendas não batiam. Compromissos disfarçados como fugas. A falta da vontade do encontro. Um hábito se torna uma regra de conduta, quando essa regra passa a ser seguida e obedecida cegamente. Sem questionamentos. É isso que as relações tóxicas fazem nas masculinidades. Assumimos um processo de generalização, de padronização e de naturalização. Ahhhh, homens são todos assim, calados, fechados e não se abrem com ninguém. É necessário vencer esta força com muito carinho e afeto. Gostar de si mesmo é o primeiro passo a aprender a ouvir a angústia do outro.

O alerta amarelo deve ser dados a todos os homens. Quebrar com o código das masculinidades tóxicas porque em seu ciclo vem aumentando a situação de suicídios. Quero deixar um claro aviso, que homens possam cuidar de si, que homens possam cuidar de outros homens, com exemplos de vida. A vida é muito mais forte que padrões que inibem os sentimentos. Acolher, escutar, abraçar pode fazer a diferença.

Aprender significa estar num fluxo contínuo de olhar a si mesmo para ver o outro. Porque aprender é um processo corretivo de nossas percepções. Aprender é possibilitar a continuidade da vida dentro de nossos corações.

Sergio Barbosa – Belo Urbano. Professor de Filosofia. Co fundador da Campanha Laco Branco. Gestor de projetos voltados para homens autores de violência contra a mulher. Pai de três pessoas maravilhosas. Adora plantas e verde.

Recentemente tivemos mega empresários lançando suas naves em direção ao espaço. A acumulação de capital foi capaz de tirar do estado o protagonismo no investimento em áreas de fronteira tecnológicas e, a título de explorar negócios tanto no turismo espacial quanto às patentes tecnológicas derivadas dos desenvolvimentos técnicos desse intento, enchem os bolsos desses magnatas.

Em paralelo, jovens garotos crescem unindo técnicas da psicologia social ao campo da TI, inventando redes de contato social que transferem dados comportamentais à conglomerados empresariais que, sabendo o que somos e gostamos, oferecem produtos nas redes sociais. Ambos os exemplos mostram a revolução que estamos passando na atualidade, semelhante ao que ocorreu no início do século XX, quando a eletricidade mudou o mundo.

E naquele tempo, mega empresários disputavam as fronteiras tecnológicas, econômicas, sociais e culturais para emplacar tecnologias tão distópicas para aquele tempo quando dar um rolê à gravidade zero, enquanto vê a terra (redonda) lá de cima, muito de cima. Homens super capazes, tornando-se mitos da história e enriquecendo.

Cadê as mulheres? No início do século XX, lutavam para votar. No início do século XXI, lutam para serem votadas.

Antes de ser um texto que critique o já combalido capitalismo que vivemos, esse texto evoca não a ausência das mulheres no topo do mundo, mas o lugar que colocamos ela em nosso dia a dia. Onde elas se escondem e como nós, homens a escondemos.

A ausência de mulheres na mesma proporção que homens nos postos históricos não ocorre porque nós homens, aqui embaixo, travamos seu potencial a cada momento que, empoderados da chave do carro e do cartão de crédito, os cedemos a elas como conquistas corriqueiras. Coisas que são delas por natureza passam pela nossa benção no dia a dia da casa. Quem pensa em mudar o mundo se precisa da bênção do pai ou do marido?

Toda vez que uma mulher precisa esperar um homem ser promovido para ter seu talento (bem maior na maioria dos casos) reconhecido, vai se ocupar de gastar sua energia provando que merece aquele posto. Essa energia deveria ser gasta em cálculos complexos (que ela domina bem mais inclusive) que matem a fome do mundo e lhe garantam um Nobel da paz.

Três ou quatro rodadas de Whisky e nós homens fechamos contratos milionários. Para ganhar o pão, a mulher precisa se esquivar de sofás nojentos (sejam físicos ou subjetivos…). Essa energia desperdiçada em fugir do patriarcado é, sem dúvida, um desperdício para a humanidade.  E faço um exercício de pura lógica física: Energia que se perde num circuito é energia perdida no trabalho. Pense a metáfora em escala Joule (J) e vai entender (e vá para o Google se precisar).

Então vamos criar uma lei que ordene esse comportamento e coloque essa energia toda à disposição da sociedade! Já existe, nós homens distorcemos. Então vamos prender quem o faça: os juízes homens soltam….

Você, homem que lê esse texto, observe se você não age fazendo com que a energia das mulheres ao seu redor fique represada ou desviada para exercícios hercúleos (vide 12 trabalhos de Hércules, uma bela metáfora) para provar quem são. Veja se sua postura, conservadora de privilégios sob a forma de gentilezas, não torna a mulher alguém sutilmente submissa. Começa por aí: dentro de casa, na fila do pão, no trabalho.

E mais: todas as vezes que nós, homem, lembrarmos dos romances e relacionamentos que terminaram meio que sem entendermos, saibamos que, muito provavelmente, a mulher que estava ao nosso, lado (ou pessoas de outros gêneros, diga-se de passagem), cansou de gastar energia em tentar provar quem são, não colocando nenhum Joule a mais que for nem para explicar sua decisão para nós.

E antes de julgá-la pensemos: o que será que devo mudar em mim para acolher uma igual sem roubá-la a energia que deveria ser usada para mudar o mundo? Porque se, depois de milênios de patriarcado, ainda nos deparamos com mazelas sem precedentes, é porque fracassamos com nosso falo. É hora de confiar a elas para liderar um novo mundo possível.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.