O carnaval em Portugal começou como um período para aproveitar tudo, antes do início da Quaresma, momento de jejum e sacrifícios. Antigamente, a Igreja exercia enorme poder sobre as pessoas e, no período da Quaresma, era proibido música, dança, etc. Logo, foi a própria Igreja Católica que serviu de estímulo para a criação do carnaval em Portugal.

Na época do renascimento, iniciou-se a fase das máscaras e bailes.

Hoje em dia, as festividades carnavalescas são conhecidas por “entrudo”, ou seja, entrada. Preparação para a entrada da Quaresma.

Nunca houve plumas ou mulheres sem roupa no carnaval antigo. Muito pelo contrário, nas aldeias, as pessoas trocavam as roupas. Por exemplo, homens com roupas de mulher e vice-versa.

As ruas ficavam enfeitadas com luzes como no período do Natal.

Em algumas localidades, não passava de brincadeiras e gozações. Em outras freguesias, chegavam a ter carros enfeitados e muita alegria.

Em algumas cidades, há o desfile dos cabeçudos e gigantones. Em Estarreja, temos escolas de samba. Também há freguesias que optam pelo carnaval luso-brasileiro, com participação de brasileiros e desfiles inspirados nos sambódromos. Em Torres Vedras, a farra fica por conta das Matrafonas, homens vestidos de mulher e carros alegóricos. Em vários lugares há sátira à política. Varia muito de um lugar para o outro.

No entanto, não se parece muito com o carnaval brasileiro.

Nas escolas, apenas as crianças mais novas podem usar fantasias. Aos estudantes maiores cabe a tarefa de observar e recordar. Muitas pessoas aproveitam a época para viajar e descansar. Há uma comida típica muito forte apreciada pelos portugueses no dia do carnaval (terça-feira). Trata-se de um cozido com muitas carnes, legumes e verduras.

Apesar de ser diferente, acho que vale a pena conhecer e conferir a diversidade que existe em cada canto do país! Há um calendário próprio com a programação de cada região.

Espero por vocês em carnavais futuros.

Eliane Pacheco Engler – Bela Urbana, luso brasileira, vive em Portugal a quase 7 anos. Fonoaudióloga de formação de coração, mas atualmente o seu maior amor é pela família. Dedicação quase que exclusiva. Tem se aventurado pelo YouTube e pela área imobiliária.

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Portugal é, ou deveria ser, mais do que um destino turístico para os brasileiros. É o reencontro com uma parcela importante de nossa herança histórica e cultural, que nos ajuda a entender e aprender mais sobre nós mesmos e nosso próprio país.

Talvez seja devido a que moro fora do Brasil – na Dinamarca, um país geografica e culturamente bem distante da minha terra natal – o fato de me sentir tão em casa quando estou em Portugal. Estive lá quatro vezes, duas a passeio, e duas a trabalho; todas as vezes em Lisboa e arredores. E cada vez me identifico mais e me dá mais vontade de voltar, seja para os mesmos lugares, seja para outras partes ainda não visitadas.

Uma cidade predominantemente ensolarada, tendo o rio Tejo como espelho, Lisboa guarda pequenos tesouros entre suas ladeiras estreitas, em lojinhas de quinquilharias que parecem ter parado no tempo, nas casinhas amontoadas, com varais que dão para a rua, nos azulejos das fachadas… Cada cantinho tem algo de pitoresco e revelador das semelhanças entre eles e nós.

Isto sem falar das vistas maravilhosas que se tem, por exemplo, do Castelo de São Jorge ou dos miradouros no Bairro Alto e do Elevador de Santa Justa, além da simpática região ribeirinha, onde se encontram o monumento aos navegantes, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerônimos, circuito obrigatório para qualquer visitante.

E as comidinhas, então? A variedade de pratos com peixes e frutos do mar, a infinidade de docinhos regionais com os nomes mais inusitados, como lampreia de ovos, cavacas das Caldas, fofos de Belas, trouxas da Malveira, queijadas de Sintra, os famosos pastéis de Belém, ou ainda os tradicionais caldo verde e pão com chouriço, são “de comer e chorar por mais”, para usar uma expressão bem portuguesa.

Aliás, para quem gosta de idiomas, decifrar a língua portuguesa deles é uma atração à parte.

Embora seja possível entender quase tudo, há sempre umas palavrinhas ou expressões desconhecidas, ou que soam engracadas para os ouvidos brasileiros, como ‘pequeno almoço’ para café-da-manhã; ‘pastilha elástica’ para goma de mascar, ‘comboio’ para trem, ‘telemóvel’ para celular, ‘equipa’ para time, e por aí vai… Uma vez, numas das minhas viagens de trabalho, uma colega portuguesa me contou que seu filho tinha ‘magoado’ o pé, jogando futebol. E na mesma ocasião, ela me comentou que tinha visto um ‘carro a arder’ no trecho da rodovia por onde passávamos naquele momento. Convenhamos, um carro ‘a arder’ soa muito mais poético que um carro ‘pegando fogo’; é como se tivesse sido extraído de um livro de Eça de Queirós.

Falar no autor de Os Maias me fez pensar em Sintra, onde a trama do romance foi parcialmente ambientada. Patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, Sintra é um destino imperdível, situado numa região montanhosa nos arredores de Lisboa, com paisagens belíssimas. Entre seus vários edifícios monumentais está o Palácio da Pena, “o mais completo e notável exemplar da arquitetura portuguesa do Romantismo,” segundo um site de turismo português.

Então, depois de visitar Sintra, vale a pena rodar mais um pouquinho, direção sul, e ir até o Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental. Dali, pode-se admirar o Atlântico e vislumbrar a posição geográfica privilegiada de Portugal, de braços abertos para o mar, o único caminho possível para a expansão do pequeno país na época dos descobrimentos, quando sua história de grandeza foi escrita, mudando também os rumos da nossa história para sempre.

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Miriam Moraes Bengtsson – É formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCCAMP e possui mestrado em Comunicação e Inglês pela Universidade de Roskilde, na Dinamarca. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação. Natural de Garca, SP, vive atualmente em Copenhague, Dinamarca, com marido e dois filhos, e trabalha com comunicação digital e branding em empresa da área farmacêutica. Em seu tempo livre, gosta de praticar esportes, viajar e estar com família e amigos. Contribui para o Belas Urbanas com suas experiências de viagem.

“A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes.” Alexander Fleming (1881-1955)

 

O vinho é um presente dos deuses. Assim acreditavam os povos antigos, a ponto dele ser citado em muitas tradições mitológicas e também nos livros sagrados das principais religiões. A Bíblia não apenas faz menção ao vinho (mais de 200 vezes) como também atribui ao patriarca Noé a sua descoberta (e também o primeiro pileque). Porém, há um vinho que foi presente especial: o Vinho do Porto.

Pouco conhecido dos brasileiros, o Vinho do Porto é produzido na região demarcada mais antiga do mundo: o vale do Rio Douro (decretada pelo Marquês de Pombal em 1756). O Rio Douro nasce na Espanha e cruza a região norte de Portugal até desaguar no Atlântico, onde se encontram as cidades do Porto (de onde o vinho herdou o nome) e Vila Nova de Gaia. O duro trabalho dos portugueses nessas encostas de xisto e granito, de solo pobre e árido, onde as videiras são cultivadas em socalcos (degraus), transformou uma região improvável para o cultivo em uma paisagem reconhecida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

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Mas por que o Vinho do Porto é tão especial? Ele é um vinho “fortificado” (assim como o Jerez), ou seja, durante o processo de fermentação, é adicionada uma quantidade de aguardente vínica (feita de uva), que interrompe a fermentação, retendo a parte do açúcar da fruta que ainda não foi transformada em álcool. O resultado é uma bebida equilibrada que combina a doçura natural da uva e a força do álcool. Ele se distingue dos vinhos tradicionais pela diversidade e persistência de aromas e sabores, pelo teor alcoólico mais elevado (entre 19° e 22°), pelas diferentes graduações de doçura e pela variedade de cores.

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Depois de produzido, o Vinho do Porto passa por um processo de envelhecimento, e os tipos mais comuns de vinho são:

  • Ruby – vinho elaborado com uvas tintas (o nome é uma referência à sua cor) que, mesmo envelhecendo durante dois a três anos em tonéis de madeira, ainda mantém muitas de suas características originais; encorpado e frutado, é um vinho jovem, com sabor puxando para ameixas e frutas silvestres;
  • Tawny – elaborado com as mesmas uvas do Ruby, ele também fica envelhecendo de dois a três anos em tonéis de madeira; a diferença é que, posteriormente, ele é transferido para barricas de carvalho, onde fica envelhecendo por mais alguns anos; o contato prolongado com a madeira faz com que sua cor vá clareando e adquirindo variados tons de âmbar (por isso o nome Tawny, que significa “aloirado”); tem sabor mais amadurecido e elegante, puxando para amêndoas e outras frutas secas.

Estes vinhos podem ser encontrados numa faixa de preço a partir de R$ 60, aumentando nos casos dos tipos mais sofisticados (Reserva, Colheita, Vintage, etc.). Existem ainda os Vinhos do Porto branco e rose, mas esses são menos consumidos.

Um Vinho do Porto (apenas “Porto” para os íntimos) deve ser servido numa taça de tamanho médio, tipo tulipa (evite aqueles cálices minúsculos que não permitem desfrutar todos os aromas e sabores do vinho), e a temperatura ideal é em torno de 14°C. O Porto harmoniza com diversos pratos, mas tradicionalmente é servido acompanhando queijos, como um vinho de sobremesa ou combinando com chocolates. Os Vinhos do Porto branco-seco, rose e até um Ruby podem ser servidos também como aperitivo. Mas, sem dúvida, toda a exuberância deste vinho só é conhecida quando, ao final de um jantar especial, apreciamos calmamente um maravilhoso Tawny.

O Porto também tem diversas aplicações culinárias, devido aos seus fortes sabores frutados e doçura. É, por exemplo, uma boa adição nos molhos de carnes assadas, mas é nas sobremesas que sua participação é mais marcante – experimente colocar uma dose na calda de ameixa ou de frutas vermelhas de um manjar branco. O truque é não exagerar. Ah, e um segredo de família: a Dona Flor (tia querida e cozinheira de mão cheia) põe sempre uma dose de Vinho do Porto no popular brigadeiro, o que o deixa mais aveludado.

O Vinho do Porto é a bebida perfeita para um momento romântico. Certamente alguém vai perguntar: “Mais que o Champagne?” O Champagne é uma bebida maravilhosa, que inspira festa, excitação, arrebatamento, êxtase (nada de errado com isso). Já um Porto induz tranquilidade, cumplicidade, aconchego, um gesto de carinho, uma carícia. Mas é apenas uma opinião, e se você discordar, brindemos a isso. Com um Porto, é claro.

O Porto está associado a muitas tradições, talvez por influência dos britânicos, os primeiros e ainda principais importadores da bebida (várias das atuais Caves de Vinho do Porto são de origem inglesa). Uma dessas tradições reza que a garrafa deve ser passada de mão em mão, para que cada um se sirva, sempre pela esquerda (“Port never goes to right”, isto é, “o Porto nunca vai para a direita”). A razão viria do tempo dos duelos, para que a mão direita estivesse livre no caso de um eventual ataque. Mas os portugueses preferem a versão de que o lado esquerdo é o do coração e, por isso, o Porto é servido sempre pela esquerda e tomado com a mão esquerda.

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Uma outra tradição é que o Porto é a única bebida com a qual se pode fazer o “Loyal Toast”, o brinde à Rainha da Inglaterra. Por isso é que recomendo ter sempre um bom Porto à mão, afinal, a próxima vez que baterem à porta, pode ser a Rainha Elizabeth que resolveu “dar uma passadinha lá em casa”. Ou, mais importante, pode ser simplesmente alguém que amamos.

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FERNANDO FERNANDES, economista, executivo da área de Recursos Humanos, e um mero apreciador das coisas simples da vida: uma boa comida, um bom vinho, uma boa leitura e, principalmente, as boas companhias.