E ela Maria Getúlia, cochilou certa de que a Igualdade Social a faria vencer a máquina digital! E, sem vergonha de ser feliz colocou seu dedo no prumo, em riste, na ponta do terrível iceberg documentado em Cabos eleitorais, Senhas territoriais e  personalizados nas Zonas em Seções comportamentais.

Assim se via diante do Sistema saudado para a eclosão final da famigerada e da fama gerada pelo VOTO Feminino, seu nome santo Maria composto pelo nome Getúlia lhe dizia!

Sobre a capacidade de vigília que depende da mente em equilíbrio nesta situação de conflito entre o eu devo, quero, posso e sou Livre para manifestar!

E o agora acontece e ela sabe que existe um evento aos berros em prontidão por meio de uma mídia vultosa, que a tem chamuscado com um alvoroço de questões sobre seu sim e seu não. Sábio Fevereiro/1932 em que o Presidente da República Getúlio Vargas assina um mandato sobre o Direito de VOTO das Mulheres, e a Constituição se engrandeceu, porém, olhos machistas não o reconhece até hoje!

Ops! Ela, a intensa Maria Getúlia pensou neste ZONEAR comprometimento com o Estado afim de que seu VOTO a nada se subordinasse ou caísse em tentação, e como dizia sua falecida mãe:

Minha filha, a palavra ZONA tem muitas explicações supra temáticas e tem uma delas que nos reverencia e nos coloca em igualdade neste tambor de diferenças conceituadas, pela nefasta hipocrisia… O DIREITO DE VOTO!

Ahhhh! Mamãe!

Porém até hoje neste virtualizado Século XXI, a visão deste colóquio entre a URNA X Mulher é colocado como uma situação pândega ou até mesmo esdrúxula, com o perfil assentado e preconceituoso de que a mulher não pensa sobre Política, e para muitos pensamentos nós mulheres nem precisamos pensar em POLÍTICA!

Mesmo tendo em suas mãos o estereotipado “santinho”.

E Maria Getúlia, sabe com Consciência de que vive em um País Democrático e que o Voto é Secreto, e que nesta ZONA ela deve e pode frequentar como Direito de querer estar diante da Urna colocando sua personalidade ZONEADA, em total Liberdade de ação, afinal!

Acordem Getúlias em Marias para pleitearmos novos rumos!

Eles pensam que estamos cochilando.

Bom dia!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

Um amigo postou no Facebook que um policial tinha enquadrado ele por estar com um “back” e ainda disse a ele que dinheiro pra trocar as lentes dos óculos não tinha, mas pra maconha tinha (como se o dinheiro desse meu amigo fosse do tal “poliça” e não dele).

Infelizmente são esses tipos de pouco cérebro que votam no retrógrado, careta, ignorante, infeliz, homofóbico, atrasado e burro do BOZOnaro e querem a ditadura e os militares de volta!

Os mesmos dizem que maconha é o início do vício nas drogas, o que é uma grande ignorância, uma grande falta de percepção e discernimento!

Qualquer vício vem da ignorância, da falta de educação, da falta de cultura.

No interior por exemplo, naquelas cidades pequenas onde nada tem pra fazer nos finais de semana, os adolescentes se viciam em bebidas, quase todos! É impressionante!

O álcool é bem pior que a maconha por exemplo, enfim, sou a favor da liberação da maconha. Sou a favor da educação num país onde gente de faculdade confunde “esta” com “está”, “fica” com “ficar” (onde nunca usam o “S” no final), etc…

E esse meu Brasil, cada dia mais andando para trás!

Obs.: Eu não uso maconha mas usaria se gostasse, não vejo problema algum. Bebo Jack Daniel’s desde jovem e nunca fiquei bêbado.

Ensinamento do meu falecido pai. “Bebidas são feitas pra se apreciar, nunca pra embebedar” dizia ele.

É isso!

Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

“Maria Joana” – acrílico sobre tela, 1,00m x 0,80m – 2018 – by Mauro Soares

A cena está batida de tanto que foi vista. A russa, que não entende nada de português, mas que se esforça para ser simpática com os visitantes brasileiros, tão animados, repetindo o que eles gritam, na comemoração da Copa do Mundo. Enquanto esses mesmos brasileiros estão expondo ela ao assédio cretino, moral e sexual, gritando sobre a buceta rosa dela “que delícia”. Outras cenas aparecem, outros brasileiros fazendo russas repetirem que querem dar a buceta para eles, outro fazendo uma criança repetir que quer chupar o pau do Neymar… Vou parar, antes de vomitar.

Foi só uma brincadeira… Exageramos na bebida… Se fosse no Carnaval ou na favela estava tudo bem… Vocês estão exagerando… Frases machistas, sempre usadas por quem consegue justificar a violência contra a mulher ou vulnerável.

Só que não! Foi longe demais, compartilhado infinitamente em rede mundial.

O que faz com que esses babacas achem que isso é brincadeira? Que eles têm o direito de expor o Brasil inteiro ao ridículo?

Não bastasse a situação vexatória do assédio, tudo foi filmado e compartilhado! Com qual intenção? Mostrar a caça aos machos que não foram viajar?

Uma vez ouvi a seguinte frase “se não aprende em casa, vai acabar aprendendo na rua.” No caso desse bando de brasileiros desavisados, é isso que está acontecendo.

Acostumados a uma vida machista, criados para tudo poderem fazer, que o mundo é dos espertos, a passarem a mão na cabeça, coitados, que estavam só se divertindo, nesse Brasil de desigualdades, que luta por dignidade, eles viajam, bebem, acham bacana fazer os outros de idiotas na Gringa e, choram quando descobrem que atos têm consequências.

E se a cena fosse o oposto? Eles sendo expostos a situações constrangedoras pelos russos. A indignação seria nas mesmas proporções?

Infelizmente, não existe limite para o mau-caratismo, mas nos cabe fazer com que as próximas gerações entendam que esse tipo de comportamento é inaceitável, em qualquer lugar do mundo, em qualquer idioma.

A repercussão do caso mostra bem que apenas uma minoria justifica o acontecido, mas apenas uma minoria mesmo nos expôs à vergonha dessa amostra de comportamento considerado “brincadeira” no Brasil.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Ilustração: Synnöve Dahlström Hilkner

Era uma manhã de quinta-feira, 9h14 eu perdia meu segundo ônibus para uma consulta. Provavelmente me atrasaria. Já que não tinha outra escolha, sentei-me no ponto para aguardar e como única distração naquele momento, encontrei uma lixa de unhas na bolsa que logo coloquei em uso.

Avistei um senhor vindo em minha direção em sua cadeira de rodas. Era branco, comprido, queimado de sol, vinha vagarosamente enquanto observava o movimento.

Respirei fundo como imagino que a maioria das pessoas (ou seriam mulheres?) fazem quando um desconhecido se dirige a nós. Esse desconhecido se chamava Nelson.

Sr. Nelson colocou sua cadeira ao meu lado, estacionando-a perfeitamente “de ré”. Não me cumprimentou, achou melhor me oferecer uma bolacha que recusei alegando ter tomado café (até sinto o cheiro…). Ofereceu uma paçoca. Meu organismo respondeu ao estímulo, ignorei-o e recusei educadamente enquanto lixava a unha para desviar uma possível tensão. Sr. Nelson estendeu as mãos grandes e encardidas como que para “brincar” que queria lixar suas unhas também… Dei risada e aquele foi o aval que Sr. Nelson precisava para começar a contar histórias de sua vida. Confesso que este rumo da conversa me deixou mais aliviada…Dificilmente um assédio se iniciaria ali…Exibindo dois grandes dentes em uma “janelona”, talvez ele só quisesse falar sobre sua vida enquanto mastigava sua paçoca cheirosa.

Sr. Nelson iniciou falando das suas filhas que ascenderam socialmente, que por tal razão devem ter vergonha de vê-lo e visitá-lo. “Uma delas é dona de uma loja naquele Shopping Campinas, sabe? Ela tem uma caminhonete e mora no Guanabara(…) Eu fico até sem graça de ir visitar quando eles resolvem me buscar. Mas é melhor do que ir visitar o filho na prisão, né? Tem mais é que agradecer!”. Eu respirava fundo e balançava a cabeça… Vamos deixar o senhor Nelson falar, não é mesmo? Ele prosseguia: ”Quando cheguei em Campinas, eu fui garoto de programa por alguns meses, sabe? É algo de que me arrependo muito!”  Aqui o Sr. Nelson não tinha muita tristeza na voz, os detalhes deste momento da sua vida não pareciam ser acompanhados de muito arrependimento pela eloquência ao narrar. Daí pra frente, a conversa deu um salto! (Ou como diriam meus amigos cinéfilos: Um plot twist!) Nelson me revelou que em uma de suas viagens para o Paraná (em uma das suas diversas profissões) ele conheceu uma moça e se envolveu com ela. “Eu gosto de mulheres de cor, sabe?” (Esbocei um sorriso, mas minha cabeça apenas queria perguntar ao senhor Nelson: ‘Que cor?’). Antes de ir embora ele lhe deu seu telefone e disse que um dia voltaria para vê-la, bem como ela poderia visitá-lo… Mas que naquele momento da vida, havia outras coisas a serem feitas. E prosseguiu: “Sabe, ela me ligou alguns anos depois. Eu devo ter uma filha por lá!”
Era como uma trivialidade: “Eu devo ter umas terras por lá”; “Devo ter algum conhecido”…Uma filha fora do casamento branco do senhor Nelson. Uma menina “de cor” que TALVEZ, leiam…TALVEZ exista, visto que sua amante preta lhe comunicou por telefone. A certeza da existência e contato só existe para suas filhas abastadas de vida confortável do centro de Campinas.

Com toda essa conversa, com muitos detalhes de algumas coisas, poucos de outras… Sr. Nelson se demonstrou ser o recorte perfeito daquele Velho branco, que passa sua vida em um relacionamento social-branco-aceito…Fetichiza mulheres negras em situações extraconjugais e só resolve assumir para si este fato no final da vida, quando a sociedade já não irá mais julgá-lo tanto, haja vista sua invisibilização que os anos e as doenças lhe conferiram. Sr. Nelson não ama mulheres “de cor”, Nelson é só mais um racista. Nelson é mais um apático protegido pela idade e um discurso “romântico” de amor antigo. Nelson pode ser seu pai, seu avô (e os meus também). Seu parceiro pode se tornar um Nelson… Seu irmão (e os meus também). Você que está lendo isso pode ser um Nelson! Quanto de Nelson existe dentro de você? Dos seus?

Matem esse Nelson que existe aí dentro! Não romantizem fetichismo, racismo, não deixem pra assumir seus “amores antigos” quando não tiver ninguém vendo, quando for num cômodo fechado, quando for atrás de uma tela de computador. Eu espero que você durma menos Nelson hoje.

Maristella Cruz – Bela Urbana, aspirante a Geógrafa, buscadora de padrões complexos e amante (não-sabichona) de vinhos. É ariana, gosta de brincar com sabores, cantar no chuveiro e fora dele. Feminista abolicionista, sonha com um mundo melhor.

Nestes últimos dias tive um papo com um cara que me fez refletir bastante sobre um assunto tabu. Na conversa ele me disse que apesar de ser muito bonita e atraente dificilmente eu engataria um namoro pois tenho filho e essa questão diminui bastante as minhas chances.
Ok! Até certo ponto concordo pois o que mais se vê por aí é cara com medo de relacionamento serio, imagine então assumir uma família que ele não formou. Mas a partir deste pré-conceito resolvi enumerar alguns tópicos esclarecendo porque deve ser muito mega-master-bom me namorar sendo eu uma mulher com filho.
Então vamos la!

1. Sou muito mais madura e tenho menos mimimi.
Já vivi um relacionamento, enfrentei a separação e agora cuido do meu filho sozinha. O foco e a importância maior da minha vida está nele, não em você. Tenho pouco tempo para picuinhas ou infantilidades como algumas mulheres que saíram da adolescência e sufocam seus namorados. Namorar comigo é mais tempo para fazer as suas coisas sem alguém no pé para cobrar tua atenção a cada minuto.

2. Sou mais franca e com menos joguinhos.
Já vivi um relacionamento e já passei pela experiência de maternidade o que me tornou mais franca na parte sexual. Aqueles joguinhos do tipo “O que ele vai pensar de mim se eu tomar a iniciativa?”, ficou muito mais escasso pra mim. Somos adultos, se quisermos fazer algo prazeroso juntos, por que passar vontade?

3. Mais independente.
Resolvi cuidar do meu filho sozinha, preciso arcar com custos e responsabilidades para isso. Não preciso me escorar em você e você não precisa se responsabilizar pela minha vida financeira. Se estivermos juntos, é porque nos gostamos. E ponto.

4.Muito mais resolvida com meu corpo.
Depois que meu filho veio ao mundo, fiquei bem mais resolvida com meu corpo. Aquelas neuras com estrias, celulites ou quilinhos a mais são mais amenas para mim que já convivi com um turbilhão de mudanças muito mais drásticas. Aceito melhor meu corpo sou muito menos encanada e mais suscetível a me dar e proporcionar prazer.

5. Sem pressa pra decisões serias.
Ao contrário de algumas mulheres que são loucas pra casar, eu já passei por isso e sei bem o ônus e bônus deste passo. Eu posso até querer casar de novo, mas serei muito mais cautelosa para tomar esta decisão já que tenho uma vivência maior tanto em relacionamento quanto na maternidade. A coisa vai fluir naturalmente se tiver que ser. A pressão será muito menor e a tendência é que os passos aconteçam no momento certo, sem precipitação.

6. Sou uma mulher de atitude!
Ser mãe solteira não é fácil. Cuido sozinha do meu filho todos os dias, trabalho, cuido da casa, tenho responsabilidades com ele e ainda reservo um espaço para me arriscar na vida emocional… Namorar comigo é encontrar uma mulher forte e decidida! Ao contrario daquelas menininhas na balada.

7. A gente vai se curtir muito! (E é isso que importa!)
Meu filho não precisa de um pai, ele já tem um! Não precisamos de ninguém nos completando ou preenchendo o lugar de alguém. Tudo aqui já esta muito completo e resolvido. Então só o sentimento, respeito e atitude bastam.
De resto é só correr pro abraço!

Agora o recado vai para o cara que me fez refletir por horas sobre essa questão e me disse que dificilmente namoraria já tendo um filho.
Deixa o preconceito de lado! A vida não é uma equação matemática com resposta única. Você, provavelmente, já foi a tampa de outra panela e a tua ex a metade da laranja de outro cara. Por que me penitenciar por ter vivido algo que não deu certo? Por que me julgar por ter tentado? O importante não é se eu tenho um filho, se tenho outro status social, ou melhor ou pior resolvida financeiramente do que o cara que estou, o importante é que eu estou pronta para fazer alguém feliz e deixar alguém me fazer feliz! Se isso acontecer, todo o resto é balela.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

 

(Só leia esse texto se você for vítima da sociedade padronizada ou já tiverem te mandado sentar como Mocinha)

Estou farta, arrotando pelos cantos. Vítima da sociedade. 
Por quanto tempo mais terei que aguentar o dedo do jovem branco apontando pro meu cabelo afro? Quantas vezes vou ter que ouvir que eu ”não sou tão negra assim”? Quantas lojas eu vou ter que entrar para ser tratada como cliente e não como funcionária?
Estou farta! E não é pouco. Arrotando pelos cantos.
Cansada de ouvir que eu tenho que me desdobrar ao quintos pois sou mãe solteira. Tendo que conviver com a opinião de quem não me sustenta, dizendo que a responsabilidade da mãe é maior do que a do pai (oi?).
Por quantas vezes mais vou ter que me calar pra não ofender o outro? Quantas vezes vou ter que engolir seco a cantada de quem esta ali só para comer sexualmente o outro como um predador?
Quantas vezes vou ter que ouvir da mídia, do homem e da sociedade que meu quadril largo é ótimo pra procriar mas não constituir família?
Quantas vezes mais vou ter que ouvir do policial e do confidente qual era roupa que eu estava usando quando fui estuprada?
Até quando vou ter que aguentar ouvir que apanhei do namorado por que ele perdeu o controle e se exaltou, mas não foi por querer?
Por quanto tempo vou ter que levar meu filho no colo em pé no transporte pra não ser hostilizada por quem trabalhou o dia inteiro e está sentado no banco prioritário?
Quantas vezes vão me mandar sentar igual mocinha e ter a força de um bruto?
Quantos ‘Nãos’ eu vou ter que ouvir nas entrevistas de emprego por ter tatuagem, por ter filho, por ser solteira, por ser gorda, por ser mulher?
Tá doendo?
Em mim não dói nada. Não mais!
A sociedade me deixou assim, o soco na face me deixou assim. Aquele grupo de brancos me chamando de macaca, aqueles homens que eu atendia no restaurante insinuando sexo oral, aquele cara que me forçou pra ir além, aquela mulher que me olhou da cabeça aos pés e disse que eu não tinha o perfil, aquela empresa que preferiu um homem ou uma mulher sem filhos, aquela revista que disse que o manequim tinha que ser 38, aquele fora da família do namorado branco, aquela pessoa que eu achei que estava tendo um papo legal e logo já me mandou fotos obscenas, me deixaram assim.
Eu sou a Gi, eu sou a Mãe do Noah, eu sou aquela que escreve legal e os amigos gostam.
Eu sou a estatística, eu sou o vácuo, o grito abafado da dor, o sorriso amarelo, o “está tudo bem” disfarçado.
Eu sou mulher, eu sou filha, sou mãe, sou preta, sou gorda, sou tatuada, sou gente e não me calo.
Porque estou farta.
Farta e arrotando pelos cantos.
Digerindo o teu ódio e vomitando poder pra quem quiser ver.
Mandando nudes da alma pra quem pedir.
Essa sou eu.
Só mais um número na multidão.
Farta de toda pressão que aos poucos está me mutilando.
Farta e arrotando pelos cantos.

 

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Atualmente temos visto crianças de primeiro ano chegando à escola e segundo alguns olhares e falas, parecem descumprir as normas que a sociedade impõe. Normalmente ao invés de encarar a situação, por não estarmos preparados para lidar com a diversidade acabamos por ignorância evitando o assunto ou procurando aos pais um pouco receosos de suas reações, para que eles fiquem a par do que está acontecendo com seu filho ou filha que beijou o amiguinho ou amiguinha.

Felizmente quem tem nos ensinado a lidar com essa diversidade são os próprios pequenos.

Toda vez que esse tema surge na escola me vem na lembrança uma passagem que ocorreu há alguns anos. Chegou à escola onde fui coordenadora, na classe de primeiro ano, o aluno que chamarei de Pequeno E. Pois o pequeno E chegou, pobre, negro, franzino, com cílios alongadissimos ornamentando os olhos negros grandes e brilhantes. Pezinhos sujos em suas sandálias encardidas; quarto filho de uma família de oito filhos que dividiam o mesmo colchão, casa que tinha como fogão tijolos no chão. Pequeno E apesar de toda adversidade mantinha sempre um olhar que sorria. Hipótese de escrita inicial era pré-silábica e em um mês escrita alfabética, em três meses lendo e escrevendo tudo. Passeava pelo intervalo e recreio com livrinhos de histórias evangélicos e lia para todos que passavam; merendeiras, inspetores, professores e direção.

Todos se encantavam com o progresso e desempenho do pequeno E. Em todas as áreas se destacava; era convidado para todas as peças de teatro e, sem surpresa alguma, era sempre o personagem principal. Decorava suas falas e a de seus amigos também e, por vezes, sussurrava as falas para seus colegas que houvessem esquecido o que dizer na tentativa de fazer com que recobrassem o texto. Brilhou no primeiro ano e era o melhor aluno da classe, sua professora K, o amava e se orgulhava de tê-lo em sua turma. Seus colegas de classe o respeitavam e era querido por todos. No recreio quando algum aluno de outra classe dizia que ele parecia menininha brincando, lá vinham seus colegas de classe; colocavam as mãos em seus ombros o apoiando e tiravam-no de perto do agressor, cuidando, protegendo-o. Mesmo não estando frio, eventualmente vinha com um cachecol rosa ou roxo que circundava seu pescoço e, de vez em quando, jogava as pontas por cima dos ombros.

No ano seguinte estaria no segundo ano, seria um sucesso!.. Será? Não, não foi! O pequeno E desapareceu! Não entrou mais em cena! Não tinha mais voz! A professora A.L, do segundo ano, após ser questionada sobre a causa do pequeno E, que era ótimo aluno, não ter mais o mesmo desempenho e ser solicitado a ela que deveria observar o que estava acontecendo, disse que sabia exatamente o motivo. Segundo ela, E era insuportável, só ele queria falar e fazer as coisas, que ela se irritava com o fato dele andar rebolando, falar e querer só brincar com as meninas; que ela o havia colocado no lugar dele. Tivemos uma conversa com a professora, que ao invés de fortalecer esse pequeno quase o destruiu. Mudamos o pequeno E de classe, pois ela não merecia aquela joia. No mesmo dia, fui informada que Pequeno E estava chorando na hora do recreio e que por mais que se perguntasse não queria contar. Chamei-o até minha sala e comecei a conversar com ele que em lágrimas me disse:

– Sabe o que é? As pessoas querem que eu fale e ande de outro jeito, que eu seja diferente, mas eu só sei ser assim!!

Tentei conter as lagrimas que brotaram em meus olhos, o nó que se formou em minha garganta e abracei-o. A partir daquele dia decidi nunca mais permitir que ninguém fosse insensível a ponto de esquecer que não podemos forçar alguém a ser o que não é e, obviamente, a respeitar a diversidade. Antes dele sair lhe disse:

– Seja você meu querido! Não se esforce para provar nada a ninguém. Todos nessa escola te amam e te ajudarão a ser forte para quando sair daqui! Quando precisar me procure. Maria Teresa Cruz de Moraes.

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, 52 anos, divorciada, mãe de duas filhas, uma de 25 e outra de 17, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana rs.

 

 

Fui convidado a escrever para o “Belas Urbanas” depois de uma troca de constatações e relatos que eu e um grupo de amigos compartilhamos pelo Whatszapp. Achamos o assunto pertinente e atual, portanto parto daqui este relato.

Escrevo aqui hoje sobre uma preocupação minha e de grande parcela da população e da sociedade urbana mundial – a obesidade e suas consequências.

Viajei com minha família para Orlando/EUA em julho/16 com objetivo de conhecer, em família, os parques temáticos e um pouco da cultura norte-americana. Já tinha viajado para o mesmo destino em 1995 e em 1997. Mas em relação a esta última viagem, muita coisa mudou, muita coisa me assustou. Falo isso sobre a questão “corporal”, objeto de estudo da minha profissão, que é o corpo e o movimento humano na perspectiva do Educador Físico (profissão esta que abraço com carinho há 27 anos).

Quando estive nas primeiras vezes nos EUA, já tinha ficado extremamente chocado com a quantidade de obesos que encontrei por lá. Não era a maioria, mas sim pessoas distintas, um ou outro membro de uma mesma família, que apresentava essa, digamos, diferença corporal. Mas já eram muitos.

Em todos os lugares por onde passei – parques, centros comerciais, dia a dia – me surpreendeu aqueles corpos bem acima do peso que consideramos como ideal (ainda que consideremos como “ideal” uns quilinhos a mais nesse parâmetro). Eram corpos, desculpem a expressão, monstruosos. Vi pessoas já demonstrando sérias dificuldades em realizar movimentos simples, como o caminhar. Percebi, em suas grossas pernas, marcas arroxeadas e algumas feridas provocadas por problemas circulatórios e, possivelmente, causado pelo entupimento de veias e também pelo diabetes. Percebi em suas posturas, cansaço fácil e dificuldade em respirar.

Mas voltemos para 2016. A propagação midiática agora, da busca de uma qualidade de vida, é toda baseada no “saudável” – alimentos light, diet, sem gordura trans, facilidade de acesso a programas de atividade física, nova geração de profissionais de saúde atentos à questão – enfim, parecia que eu iria observar mudanças ao chegar lá.

E o que encontrei nos EUA, mais especificamente em Orlando, nos mesmos parques, centros de comerciais e no dia a dia, após esse tempo? Uma nova e aterrorizante constatação: agora várias pessoas de uma mesma família estão acima do peso e extremamente obesas. Já não andam com dificuldade…porque não andam mais. Como assim? Andam de carrinhos elétricos, motorizados. Nos parques você tem que desviar dos carrinhos de bebês e dos carrinhos motorizados dos adultos. Até adolescentes utilizam esse meio de transporte. Comida? Continuam se alimentado aos montes. Atividades físicas cotidianas e exercícios? Faz-me rir…

Fiquei pensando naquele velho ditado: “em terra de cego quem tem um olho só é rei”. Permita-me modificá-lo para “em terra de caminhantes, quem der o primeiro passo será…SAUDÁVEL”.

Maurício Maia – Belo Urbano – educador fisíco, ama a família, gosta de uma boa caipirinha e um happy hour com os amigos, principalmente os da infância… 😉

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Não pode ser gay, mas se for tem que ser discreto, se for só dentro do quarto.

Na rua não, mas se for, não pode andar de mão dada! Não pode ser preto, mas se for tem que ser pobre, não pode ser rico, mas se for, tem que ser jogador de futebol ou cantor de pagode. Mais que isso não pode!

Não pode ser mulher, mas se for tem que ser submissa, obedecer ao marido, se for mulher tem que apanhar calada. (Isso quieta e amargurada). Se não for assim, não pode!

Não pode ser gordo, mas se for tem que aceitar as piadas, se for tem que idolatrar gente magra.

Se não aguentar as “brincadeiras” ai é melhor emagrecer, se não… Não pode!

Mas e você?! Ah você pode, você pode tudo, é o dono do mundo, o pequeno príncipe! E quem contrariar vossa majestade é “héterofóbico”, pratica o racismo reverso, é “feminazi” ou não entendeu a piada!

Piada? Piada é a tua cara, tua fala, toda a tua laia, hipócrita e canalha que a tua máscara caia, que todos nós possamos olhar no espelho com orgulho de sermos nós mesmos. Sem precisar dar satisfação por conta do gênero, cor, peso ou da sexualidade.

Que sejamos do nosso jeito e livres de preconceitos, sem culpas, seja no corpo, na alma ou no coração!

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Lucas Alberti Amaral – Belo urbanonascido em 08/11/87, vem há 28 anos distribuindo muito mau humor e tentando matar a fome. Publicitário, trabalha na área há 7 anos, tem uma página onde espalha pensamentos materializados em textos curtos e tentativas de poesias www.facebook.com/quaseinedito (curte lá!). Não acredita em horóscopo, mas é de Escorpião, lua em Gêmeos com ascendente em Peixes e Netuno na casa 10. Por fim odeia falar de si mesmo na terceira pessoa.

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Há cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil.

Um em cada 3 brasileiros acredita que a mulher é culpada por ter sido estuprada e normaliza a violência sexual contra a mulher.

Poderia eu aqui questionar os resultados das pesquisas ou a metodologia de estudo estatístico, afinal não há nenhum dado que deva ser considerado exato e imutável numa sociedade dinâmica e em constante transformação. Mas hoje não. Hoje quero falar de nossos medos, nossa luta, nossa obrigação de ensinar as futuras gerações a respeitarem e também lutarem pela liberdade das mulheres.

Desde criança fomos educadas para termos medo do nosso próprio corpo e da nossa própria condição de sermos mulheres.

Menina não senta de pernas abertas porque é feio!

Menina não fala palavrão porque isso é coisa de menino!

Menina de família não sai na rua essa hora!

Menina decente se dá ao respeito e não bebe, não fuma!

E tantas outras afirmativas que lutamos para desconstruir e ensinar às gerações seguintes que é possível ser o que queremos desde que não violemos o direito do outro.

Mas por que algumas reações ficam enraizadas no inconsciente (ou consciente) da condição de ser mulher dominada por uma sociedade patriarcal?

A mulher quando é assediada na rua, por exemplo, abaixa a cabeça, acelera o passo e só quer sumir daquele lugar o mais rápido possível. Afinal, nos sentimos culpadas por termos provocado o instinto sexual do sexo oposto e convivemos com a conivência do machismo arraigado nas entranhas da sociedade dominada pelo homem.

Ouvir um grito de “gostosa” pode ser considerado para alguns como o reflexo da aceitação da fêmea- padrão na sociedade. Não é difícil os machistas afirmarem que “nem o peão da obra achou ela gostosa”, como se esse um sinal de selvageria fosse o aval necessário para a mulher se considerar aprovada ao macho alfa.

A objetificação do corpo feminino é utilizado como meio de venda e divulgação de produtos e convivemos com isso com a mesma naturalidade que baixamos a cabeça, aceleramos o passo e nos calamos perante os assédios, abusos e estupros.

Não! Não pode ser assim! Temos que gritar, lutar, enfrentar!

Recentemente fui assediada na rua e enfrentei o assediador. Parei de andar, me virei para a direção dele, olhei bem nos olhos dele e perguntei se ele não se envergonhava de me tratar daquela maneira, de falar aquelas obscenidades a uma desconhecida. A reação dele? Pediu desculpas. Justificou que estava um pouco bêbado e pediu desculpas. Foi para o outro lado da rua, de cabeça baixa e não cruzou mais meu caminho.

Por conta disso eu continuo acreditando que ensinar quem não sabe é a melhor forma de luta. Se não pode me respeitar espontaneamente eu exijo respeito, se não pode me considerar igual porque sou mulher eu exijo igualdade, se não pode bater suas próprias asas eu alçarei voos altíssimos para exigir que todos sejam livres e responsáveis por suas escolhas.

Enquanto houver uma mulher tendo sua liberdade e seus direitos arrancados eu estarei lutando e gritando por todas nós, pois é minha obrigação me fazer entender e explicar que ser mulher é ser livre para estar aonde quiser, fazer o que quiser, com quem quiser, quando quiser.

E como disse o jornalista e escritor Xico Sá: “Por mais que você, homem sensível, diga que sente na pele, jamais sentirá o pavor de vislumbrar no beco a ameaça do estupro que ronda as mulheres no Brasil.”

Portanto, continuemos na luta, pois para nós mulheres chegarmos até aqui, muitas de nós ficaram pelo caminho.

Nossa obrigação é gritar para o mundo que exigimos respeito e igualdade para sermos verdadeiramente LIVRES.

Dedico esse texto às Simones, Marias, Fridas, Cecílias, Lygias, Clarices, Márcias, Vivianes, Luisas, Lauras, Rosas, Terezinhas e tantas outras anônimas que constroem a nossa história com coragem, ternura, lágrimas e sorrisos.

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Denise Alcântara – Bela Urbanas, socióloga e professora, pessoa livre nas ideias, no pensamento e nas atitudes. Minhas inquietações me mobilizam e motivam o meu aprendizado constante.