Ele trata todos bem.

Sempre alegre,

Sempre de bem.

Mesmo solitário,

Segue solidário.

Esse é o Zé.

Que não tem nada de mané.

Pensa, com a nega se casar,

Não para dominar.

Mas família fazer.

Tenta ser justo,

Preza pela verdade.

Junta os amigos

Na humildade.

Com dignidade.

Escreve uns lances,

Pinta umas cores,

Faz um som

E espanta as dores.

Espalha sorriso.

Mesmo com um passado triste.

Com uma mãe doente,

Com um pai velho,

Um irmão distante.

O Zé segue enfrente, doce.

Trata bem as mulheres,

Cumprimenta os camaradas,

Respeita a criançada,

É solicito como velhos.

Grita pelo time, futebol.

Ama sua gente.

Gosta de ser bom,

De graça assim por ser.

Nunca reclama e acredita

Que o amanhã pode melhorar.

Mas tem que se cuidar…

Pois sabe que tem gente

Que não gosta dele,

Que tem medo dele,

Que tem inveja dele,

Que acha ele meio viado.

Se isso ofensa fosse…

Boca mole,

Vida dura.

Água fria,

Um balde de amargura?

E o Zé segue, na sua.

Segue e acredita na bondade,

Convicto, firme assim.

Do ser humano que vê,

Algo de bom pode vir.

O Zé é homem forte. Espero assim.

Mas tantos outros Zés,

Se perdem nas agruras.

Das calunias alheias, no dia-a-dia.

Que vagam pelas ruas.

Escolhem a carranca à alegria.

Mais um Zé amargo, triste,

que larga seus ideais, se um dia teve.

Deixando pela eternidade

um mundo mais cinza. É escolha?

De Zé para Zé contagia, escolha!

Somos apenas o Zé que queremos ser.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Foto Crido: Gilguzzo/Ofotografico

Foto abertura: Pierrick VAN-TROOST

Esse dia voltará, sentirei as ondas, o mar, a areia no pé, a brisa do mar, a criança correndo, o cachorro latindo, a pedra na mão, o assovio do pássaro, a música do nada, a pipoca doce com a maresia do mar, o pé-de-moleque na festa, a fofolete na sala, os eucaliptos indo e voltando sobre o vento, a neblina na estrada, as curvas do caminho, as montanhas te chamando, a cachoeira com pedras e cipós.

Eu ainda sentirei tudo de novo bem na face, soprando no meu ouvido, a fé de viver…

Macarena Lobos –  Bela Urbana, formada em comunicação social, fotógrafa há mais  de 20 anos, já clicou muitos globais, assim como grandes eventos, trabalhos publicitários e muitas coberturas jornalísticas. De natureza apaixonada e vibrante, se arrisca e segue em frete. Uma grande paixão é sua filha. 

Dois homens morreram hoje. Pai e filho. Mas que lástima ser essa. Que tristeza
inominável isso é para seus parentes e amigos. Um pai nunca quer ter uma vida mais
longa que a de seu filho, e o filho não quer nem pensar de em perder o seu pai. Claro isso
serve apenas para verdadeiros pais e filhos, onde um soube cuidar de sua criação e ter
dado a ele amor e carinho. Pai é quem cria alguns chegam a dizer. E apenas assim que
se é um verdadeiro pai.
Mas pais não são criaturas perfeitas. Afinal, quem é? Os únicos homens perfeitos
que existem estão presentes nas histórias antigas que dizemos uns aos outros na
escuridão da noite, mas nunca nas histórias pessoais de nosso dia a dia. E mesmo na
morte, essa imperfeição não se vai. Pois é apenas na morte que somos obrigados a ver
aquilo que sempre negamos em nós mesmos e nos outros. E assim foi, para um pai e um
filho que se foram no mesmo momento.
O pai chegou as portas do mundo dos mortos alguns instantes antes de sua
descendência, como deve ser (segundo alguns). E chegando lá conversou por um tempo
que pareceram ser horas, com uma entidade que nunca vira e nunca ouvira falar. Falaram
sobre histórias de sua própria vida e talvez nesse ínterim, tenha tido até mesmo a sua
alma medida de cima a baixo. Pois a história do pai fora longa e sofrida. Em sua historia,
fora abandonado e largado. Lutara e se desesperará. Muito ele passou e diversas
cicatrizes ele acumulou em seu espírito. E apenas ali, no mundo dos não vivos que ele
havia sido capaz de enxergar isso.
Pois em um mundo que não é mundo, onde a carne não existe e o que sobra é o
espirito, apenas as almas podem ser vistas, mesmo que não da forma as quais as
pessoas pensem que as almas são. E o pai e a entidade viam que nele, em sua alma,
havia uma grande gama de cicatrizes. Cicatrizes que apenas os vivos sabiam fazer. E o
pai se entristeceu, se adoeceu e se redimiu. Pois é assim que as coisas são no mundo
dos não vivos. E o filho, após poucos segundos que foram a eternidade, chegou também.
E o pai ao ver o filho ficou horrorizado com o que via. Pois mesmo sem saber, viu
o filho de verdade pela primeira vez. E em seu coração soube que não havia sido o pai
que pensara ser. Pois ao olhar para seu filho pela primeira vez, viu que nele as cicatrizes
eram muito maiores e mais profundas do que o pai jamais havia tido em si mesmo.

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

Eu estou tentando, eu juro que estou. Não tentando ser feliz ou rico. Isso é bobagem, nunca dará certo, e se der, não é da forma que achamos que deveria ter sido. Felicidade não é algo que se procura, pois quem a procura nunca acha. Pois ao procurar muito e com tanto afinco, acabamos por nos esquecer como sermos simplesmente felizes. O dinheiro por outro lado é só uma questão de tentar ao máximo e ter as oportunidades certas. Mas quem dirá que é assim tão fácil ter essas ditas oportunidades? E quem será esse que conseguirá impor tanto esforço e dedicação em algo que muito colocam imenso esforço e dedicação e mesmo assim não conseguem.
Não podemos nos sentir lindos e especiais, pois somos todos a nossos modos, iguais! Quem sois vós para conseguir aquilo que todos buscam tão desesperadamente ter? Dinheiro e felicidade, por certo. Todos querem, todos tentam e falham. Então por quê tentar? Tentar pois queremos? Non-sense! Tentamos pois devemos. Tentamos, pois se falharmos sabemos o que vêm. E a sombra de nosso sono continua a nos perseguir…

Pra que lutar? Lutar pelo medo sonso de se errar. Não é a vitória que você almeja. É a derrota que você evita.

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

2017 foi um ano de MUITAS mudanças na minha vida! Entre as diversas mudanças, a que as pessoas mais comentam são os vários quilos que eu emagreci!! Estou impressionada e confesso, bastante surpresa e até mesmo chocada sobre como isso impacta a forma como algumas pessoas me vêem!! Ouvi diversos comentários sobre a “minha nova aparência” (será que mudei tanto assim?). Todos comentários “positivos”! No começo, ficava até feliz: quem não gosta de se sentir magra e “bonita”, de caber em qualquer roupa e ter o armário quadruplicado de opções? rs… mas, com o tempo, a alegria foi se tornando surpresa e ultimamente se transformou em espanto! E na última semana virou indignação total ao ouvir, de pessoas diferentes, em situações diferentes, comentários como:

1. Nossa! Você é uma outra pessoa! muito melhor!

2. Agora você pode até voltar a trabalhar no mundo corporativo!

3. “Agora” você vai “até” arrumar um namorado! E a máxima dessa semana: “você “merece” até um marido novo!”

Oi? Como assim? Será que as pessoas achavam mesmo que estavam me elogiando ou me dando um reforço positivo ao fazerem esses comentários? Uma mulher se torna uma “pessoa melhor” porque emagreceu? Porque a aparência atual está mais de acordo com o padrão estético socialmente aceitável?

Meu QI melhorou ou minhas habilidades profissionais aumentaram porque eu emagreci? Isso acontece com as pessoas que emagrecem? Elas se tornam mais capazes profissionalmente?

E só quem é magrinha merece namorado e marido novo? Desde quando a capacidade de amar e ser amado tem a ver com o peso da pessoa?

Então…. apesar dos quilos a menos (12, no espaço de 9 meses) informo que continuo a mesmíssima pessoa: mãe babona, cozinheira apaixonada (logo eu, que adorava dizer que cozinheiras magras não são de confiança! rs), ainda perco a chave do carro e o celular todos os dias, adoro viajar, amo vinho, odeio injustiça, coentro e pimentão, etc, etc, etc… tudo igualzinho como era antes! Continuo solteira (porque ser magra não faz aparecer nenhum príncipe encantado!! rs) e morando e trabalhando no meio do mato!

Nada mudou! Simplesmente porque minha essência, que não é medida em gramas ou quilos, continua exatamente a mesma!

Katia Reis – Bela Urbana, arquiteta, empresária, cozinheira, mãe babona, adora viajar, ama vinho, escrever e receber amigos

Você já experimentou se nutrir do que lhe faz bem? Natação, meditação, pompoarismo, pilates, poledance, dança do ventre, sapateado e tudo mais que desejar, já ousou?

Arriscou ler, ler, ler e se der tempo, ler de novo? Já experimentou se conhecer em profundidade? Já apostou em estabelecer relações de afeto protetivas?

Encontrar amigos… com que frequência você faz isso? Acordar e trabalhar no que se acredita, acha possível? Já sentiu o cheiro e a temperatura de grama molhada?

Quando está no trânsito, tem coragem de cantar e dançar? Brindou a existência de gatos (ou cachorros, rsss) brincando com eles? Escutou o silêncio da noite e ficou em paz e em gratidão por estar com quem ama?

Obviedade?

Então porque não experimenta?

Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, mãe e caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre 🙂 

 

Com você aprendi que nem sempre ficamos com quem amamos. (Por hora)

Que às vezes é preciso abrir mão do que você quer pra que as coisas voltem a fluir. (Mesmo que seu coração grite)

Que existe um outro alguém que pensa diferente de você. (É preciso ter empatia)

Que as pessoas passam por processos necessários. (Pela dor ou por amor)

Que é preciso ter paciência e ignorar a todos que sopram no seu ouvido. (Cada um com sua ferida)

Que o amor é lindo mas também pode ser cruel. (Não é uma simples dor de cotovelo)

Que não existe amor maior que deixar ir porque se for amor um dia ele volta. (O universo conspira)

E se ele voltar…tudo não passará de mais um amor. (Mas sempre será único)

Cris Saad – Bela Urbana, professora universitária, publicitária, fã do vento, da lua e do acaso. Apaixonada por música e dança, enfim apaixonada pela liberdade, pela loucura do movimento e o gozo do encontro.

A frase mais ouvida de uma mulher diante do meu olhar de observadora e pronta para captar  as suas inúmeras máscaras, suspeitas ou não, é quase sempre: Qual seria o seu melhor ângulo?

Antes do grande dia tão esperado e que eu mesma, sendo do mesmo gênero, não me dou conta o quanto esse momento comigo pode ser tão transformador e significativo.

Antes do encontro, pergunto se elas tem algum vestido, se querem um cabelo diferente, um batom mais chamativo ou mais discreto. Ouço tantas respostas sem muita certeza de ser o que elas são realmente.

Uma já me disse: nossa, percebi que minhas roupas são neutras e quase todas pretas. Minhas lingeries são todas beges. Uma outra mulher: será que eu vou me soltar? Estou com medo. Acho que não sou bonita. Não tenho um bom ângulo. Não tenho um sorriso bonito. Minhas gorduras vão aparecer. Por favor, não esquece do photoshop para tirar as minhas marcas de expressão.

Meninas, mulheres, se vocês soubessem como vocês crescem interiormente, se conhecem sem querer e ficam tão lindas e tão especiais do jeito que bem entenderem na sua maior liberdade diante dos meus olhos e da minhas lentes.

Se vocês mulheres tivessem a consciência do seu poder feminino, entenderiam que não sou só eu que me rendo em cada olhar, cada gesto, de cada uma de vocês.

Macarena Lobos –  formada em comunicação social, fotógrafa há 20 anos, já clicou muitos globais, assim como grandes eventos, trabalhos publicitários e muitas coberturas jornalísticas. De natureza apaixonada e vibrante, se arrisca e segue em frete. Uma grande paixão é sua filha. 

 

O despertador toca! De novo parece tanto pouco tempo de sono. Cheguei do trabalho pra lá das onze, tomei um banho, as vitaminas, pulei pra cama, não consegui dormir.

Coloquei a nova série no Netflix e lá pelo terceiro episódio cheguei à conclusão que era melhor desligar a TV.

Novamente o despertador toca, passados cinco minutos da primeira vez. Sento na cama, desligo o aparelho. Esfrego os olhos, me espreguiço e bora viver mais um dia. Saio da cama exausta, mas acima de tudo feliz.

Minha rotina é não ter rotina no trabalho, mas trabalhar muito. Como tantas outras “Belas Urbanas”, mulheres modernas, multitarefas, que não abrem mão de viver intensamente, buscar o prazer da vida, mas que sempre têm um senso aguçado de responsabilidade. Bom, no meu caso, aguçado demais quando o assunto é trabalho.

Há mais de 10 anos achei o “nicho” de mercado que amo. Passei por maus bocados longe dele, não por questões profissionais, mas desejos pessoais. Então, trabalhar por horas a fio, correr, me descabelar e às vezes chorar de frustração (quando as coisas teimam em não sair do meu jeito, o que não significa estarem necessariamente erradas), ou seja, tudo o que faz parte de um dia-a-dia feliz e realizado.

Me arrumo, entro no meu carro, pego um trânsito de leve, chego ao trabalho. Cumpro uma agenda bagunçada, pois organização nunca foi muito meu forte. Às vezes, me esqueço de ir ao banheiro, de tomar água e até de comer. Há pouco tempo entendi que pelo menos uma refeição deve ser feita direito. Isso não significa que consiga sentar com calma, desligar do celular e comer. Isso significa apenas não comer lanche de fast food toda terça-feira ou me e entupir de pastel porque “sou magra e posso”. Me tornei adepta de comidas mais leves, estou tentando não matar aula de pilates e yoga toda semana, ando me esquecendo da meditação com frequência. Novamente, coisa de mulher moderna.

Reclamo do pouco tempo para os amigos, pois meus horários são malucos, mas não me esqueço dos verdadeiros nem por um dia. Sigo na rotina maluca que escolhi (sim é uma questão de escolha consciente). Parei de fumar, de tomar Coca Cola, diminui o café. Ainda não aprendi a desligar o celular ou a não responder mensagens imediatamente.

Dia desses sofri um acidente grave, assustei. Sabe aquela cena de filme que o carro desliza na estrada desgovernado e a vida da personagem principal passa em flashes? Pois é, vivi isso. Fiquei sensível, chorei e cheguei à conclusão de que era hora de parar e repensar a vida. Pois tudo aqui nesse plano é muito rápido e passageiro. O fiz. Sozinha, na terapia e com as confidentes. E a conclusão a qual cheguei é simples: corro feito louca, às vezes me esqueço de mim mesma, me privo de algumas coisas, mas, sou sim extremamente feliz. Escolhi a vida que escolhi baseada em uma única coisa: o amor. Amor pelas pessoas e pela profissão.

Às vezes, sim, é difícil arrumar um tempo para sonhar nessa rotina acelerada. Mas meus sonhos estão todos comigo: o trabalho, as pessoas, as paixões que me movem, o feriado na praia, os domingos com os sobrinhos, os alongamentos e força para do pilates. Meu maior erro – até o tal acidente de carro e as tais reflexões – era achar que o futuro e os sonhos tinham que ser grandiosos, regrados, estudados e roteirizados. Os meus sonhos e o meu futuro estão todos aqui, nas pequenas coisas que realmente me completam, impulsionados, vividos ao extremo nessa rotina estafante e acelerada, que me faz brigar com o despertador toda manhã.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

 

Há três meses me mudei para a Alemanha. Deixei o Brasil pela segunda vez em busca da solução para os “meus problemas”, de um melhor futuro para os meus filhos, de um novo emprego, de mais segurança, menos medo, mais certezas. O Brasil não está fácil, afirmar isto é chover no molhado, eu sei, mas há alguns meses um pensamento tomou conta de mim. “Tenho 47 anos, no melhor dos casos estou partindo para a segunda metade da minha vida, será que aguento esperar as coisas melhorarem vivendo trancada em casa, no shopping, no carro, tentando recuperar um bom emprego como o que tinha antes da crise? E o meu sonho de viajar o mundo, que está parado por causa das crianças, do trabalho, de mil coisas que iam aparecendo e aparentavam ser o fundamental, a prioridade; esqueço e deixo no mundo das impossibilidades para todo o sempre?”

Na minha opinião nós mulheres que chegamos ou estamos vivendo os 40 anos, temos este impulso do “tudo ou nada”, do “agora ou nunca”, por puro medo da vida não ter valido a pena. Já vivemos um bocado e sentimos que não sabemos de nada, que muita coisa deixou de ser realizada e somos assombradas pelo fantasma do tempo, nos olhando cara a cara.

Me lembro de ter sentido este medo no início dos meus 20 anos. Foi esta mesma sensação de hoje, somada à uma completa falta de experiência de vida inerente à idade, que me fez largar meu primeiro emprego e ir embora para a Itália. Buscava uma vida que valesse a pena (novamente a mesma frase, o mesmo sentimento); foi “ele” que me fez arriscar, sair da zona de conforto.

Não pensei que mudaria novamente do Brasil, depois de sete anos na França, um na Itália, e um retorno ao Brasil em 2003, quando estava mais apaixonada do que nunca pela terrinha. O Brasil vivia uma falsa abundância, estávamos na boca da mídia internacional com uma profusão de empresas ampliando suas atuações no país. O meu emprego ia muito bem obrigada. Ainda não sabíamos que a conta do governo chegaria mais cedo ou mais tarde, e 2014 quebrou as pernas de muitos.

A decisão de deixar o país não foi fácil, foi bem dolorosa. O desemprego bateu à nossa porta, tínhamos que encontrar uma saída para manter a casa, os filhos em escola particular, empregada, carros, plano de saúde e uma pilha de contas.

Meu marido é alemão e sempre admirei a cultura, precisão e organização alemãs, à distância. Durante os 11 anos de casamento moramos no Brasil e a Alemanha ficava ali, no cantinho dos sonhos. Eu não sabia se queria realizar o feito de morar em um país tão “perfeito”. Sim a Alemanha é perfeita, e até a perfeição é chata e as vezes cansa.

Colocamos na balança a questão monetária, é claro, pois no Brasil gasta-se pelo menos duas vezes mais. Também pesou a qualidade de vida, segurança, boas escolas e universidades públicas. Apesar dos alemães pagarem 50% aproximadamente do salário em impostos você sente que valeu a pena.

Vendemos quase tudo e viemos. Tinha a minha dificuldade com a língua, o alemão não é nada fácil e eu sempre deixava de lado o aprendizado, nunca priorizei. A adaptação é muito mais difícil quando não se fala a língua local. Mas ainda assim resolvemos encarar.

Chegamos no final de julho deste ano e minha maior preocupação eram as crianças, que no final das contas foram a razão maior da nossa vinda. O ditado de que para criança tudo é mais fácil é totalmente verdadeiro na mudança de país. Os meus filhos de 8 e 13 anos estão nos primeiros meses de aula, que começaram em setembro. Aqui o calendário escolar se inicia no meio do ano. Estão refazendo a mesma série que no Brasil e voltaram um semestre. Devagarzinho as coisas estão entrando nos eixos com eles. Como diz a Caroline, uma grande amiga inglesa, criança tem a tecla da felicidade sempre ligada e isso é super valioso nestas horas.

Para a mãe, já são outros quinhentos. A Europa de luxo é para pouquíssimas pessoas e a vida aqui não é para os fracos, apesar de toda a estrutura. Uma mãe de classe média brasileira não está preparada para a vida em uma região do mundo que batalhou muito para dar dignidade para sua população, e onde cada um faz o seu e não existem “ajudantes, diaristas, secretárias do lar”.

Costumo falar para meu marido que estou passando por vários MBAs em paralelo: prendas do lar, culinária, professora, mediadora, tradutora, técnica em sustentabilidade, sem esquecer do Alemão, esta língua que me faz ganhar vários cabelos brancos, e que finalmente acho que vou deixar, pois aqui as mulheres são práticas e verdadeiras. Bonito de ver.

Ainda é cedo para saber se foi uma boa escolha, pois o Brasil, apesar dos enormes problemas, é a minha terra e a dos meus filhos. Eu tenho uma enorme esperança nos brasileiros e amo meu país. Sei que vou voltar para ficar, só não sei quando.

Como falei lá em cima, em alguns momentos da minha vida senti este impulso que me fez balançar as estruturas. Acho que todas as mulheres na minha idade tem isto. O trabalho e a inquietação por um lado e a responsabilidade com a família de outro. Parece que já fizemos muito, investimos na carreira e tentamos no meio disto tudo criar nossos filhos, e ainda assim bate um vazio. E agora?

Pela minha experiência e tendo feito isso outra vez, o que mais ganhei quando saí da rota de vôo não foi conhecer pessoas, ver o outro lado do mundo, aprender uma nova língua, entender e viver uma nova cultura, para minha surpresa este crescimento estava diretamente relacionado com o que eu deixei de ver.

Quando se sai do próprio país é como se vivêssemos um longo período de silêncio, pois as vozes não são conhecidas, e elas nos fazem escutar a nossa própria.

Tenho plena certeza que estes tem sido os momentos de maior encontro comigo mesma, quando nem tudo está favorável e preciso resgatar o que de melhor tenho, mesmo o que já me esqueci e que ainda faz parte de mim. São montanhas de coisas e conhecimento que estão escondidos no passado e são exatamente eles que me ajudam a passar por longos períodos de readaptação.

Talvez esteja sendo muito simplista, mas viemos sozinhos para este mundo e o melhor que temos a fazer é nos lançarmos em experiências profundas e solitárias que nos transformem e preparem para outras vidas, ou simplesmente para a próxima etapa.

O zona de conforto é atraente, mas não é transformadora. No meu caso o “meu país” é o que chamo de zona de conforto, mas poderia ser um emprego, um casamento, um relacionamento desgastado.

Será que precisaria ir embora ou mudar meu jeito de viver, ficar e lutar durante a tempestade? Acredito que as duas opções são verdadeiras, e podem ser transformadoras na mesma intensidade. Tanto faz, desde que o desconforto seja combatido e as vozes estranhas estejam gritando tão alto que nos façam olhar para dentro nós.

Aparentemente nossas maiores inimigas, a inquietação e a adversidade, são na verdade grandes amigas e podem ser a chave para nos sentirmos cada vez mais vivas, logo após é lógico de uma boa manicure!

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Atua na área de moda internacional com foco em sustentabilidade. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. Acredita no casamento, desde que não seja sempre com o mesmo marido, já que está no terceiro, que foi coletando mundo afora! É uma das sócias da Kbsa Inovação Responsável, que ajuda empresas de moda brasileiras a atuarem no mercado internacional por meio da sustentabilidade. www.kbsa.com.br