A frase mais ouvida de uma mulher diante do meu olhar de observadora e pronta para captar  as suas inúmeras máscaras, suspeitas ou não, é quase sempre: Qual seria o seu melhor ângulo?

Antes do grande dia tão esperado e que eu mesma, sendo do mesmo gênero, não me dou conta o quanto esse momento comigo pode ser tão transformador e significativo.

Antes do encontro, pergunto se elas tem algum vestido, se querem um cabelo diferente, um batom mais chamativo ou mais discreto. Ouço tantas respostas sem muita certeza de ser o que elas são realmente.

Uma já me disse: nossa, percebi que minhas roupas são neutras e quase todas pretas. Minhas lingeries são todas beges. Uma outra mulher: será que eu vou me soltar? Estou com medo. Acho que não sou bonita. Não tenho um bom ângulo. Não tenho um sorriso bonito. Minhas gorduras vão aparecer. Por favor, não esquece do photoshop para tirar as minhas marcas de expressão.

Meninas, mulheres, se vocês soubessem como vocês crescem interiormente, se conhecem sem querer e ficam tão lindas e tão especiais do jeito que bem entenderem na sua maior liberdade diante dos meus olhos e da minhas lentes.

Se vocês mulheres tivessem a consciência do seu poder feminino, entenderiam que não sou só eu que me rendo em cada olhar, cada gesto, de cada uma de vocês.

Macarena Lobos –  formada em comunicação social, fotógrafa há 20 anos, já clicou muitos globais, assim como grandes eventos, trabalhos publicitários e muitas coberturas jornalísticas. De natureza apaixonada e vibrante, se arrisca e segue em frete. Uma grande paixão é sua filha. 

 

O despertador toca! De novo parece tanto pouco tempo de sono. Cheguei do trabalho pra lá das onze, tomei um banho, as vitaminas, pulei pra cama, não consegui dormir.

Coloquei a nova série no Netflix e lá pelo terceiro episódio cheguei à conclusão que era melhor desligar a TV.

Novamente o despertador toca, passados cinco minutos da primeira vez. Sento na cama, desligo o aparelho. Esfrego os olhos, me espreguiço e bora viver mais um dia. Saio da cama exausta, mas acima de tudo feliz.

Minha rotina é não ter rotina no trabalho, mas trabalhar muito. Como tantas outras “Belas Urbanas”, mulheres modernas, multitarefas, que não abrem mão de viver intensamente, buscar o prazer da vida, mas que sempre têm um senso aguçado de responsabilidade. Bom, no meu caso, aguçado demais quando o assunto é trabalho.

Há mais de 10 anos achei o “nicho” de mercado que amo. Passei por maus bocados longe dele, não por questões profissionais, mas desejos pessoais. Então, trabalhar por horas a fio, correr, me descabelar e às vezes chorar de frustração (quando as coisas teimam em não sair do meu jeito, o que não significa estarem necessariamente erradas), ou seja, tudo o que faz parte de um dia-a-dia feliz e realizado.

Me arrumo, entro no meu carro, pego um trânsito de leve, chego ao trabalho. Cumpro uma agenda bagunçada, pois organização nunca foi muito meu forte. Às vezes, me esqueço de ir ao banheiro, de tomar água e até de comer. Há pouco tempo entendi que pelo menos uma refeição deve ser feita direito. Isso não significa que consiga sentar com calma, desligar do celular e comer. Isso significa apenas não comer lanche de fast food toda terça-feira ou me e entupir de pastel porque “sou magra e posso”. Me tornei adepta de comidas mais leves, estou tentando não matar aula de pilates e yoga toda semana, ando me esquecendo da meditação com frequência. Novamente, coisa de mulher moderna.

Reclamo do pouco tempo para os amigos, pois meus horários são malucos, mas não me esqueço dos verdadeiros nem por um dia. Sigo na rotina maluca que escolhi (sim é uma questão de escolha consciente). Parei de fumar, de tomar Coca Cola, diminui o café. Ainda não aprendi a desligar o celular ou a não responder mensagens imediatamente.

Dia desses sofri um acidente grave, assustei. Sabe aquela cena de filme que o carro desliza na estrada desgovernado e a vida da personagem principal passa em flashes? Pois é, vivi isso. Fiquei sensível, chorei e cheguei à conclusão de que era hora de parar e repensar a vida. Pois tudo aqui nesse plano é muito rápido e passageiro. O fiz. Sozinha, na terapia e com as confidentes. E a conclusão a qual cheguei é simples: corro feito louca, às vezes me esqueço de mim mesma, me privo de algumas coisas, mas, sou sim extremamente feliz. Escolhi a vida que escolhi baseada em uma única coisa: o amor. Amor pelas pessoas e pela profissão.

Às vezes, sim, é difícil arrumar um tempo para sonhar nessa rotina acelerada. Mas meus sonhos estão todos comigo: o trabalho, as pessoas, as paixões que me movem, o feriado na praia, os domingos com os sobrinhos, os alongamentos e força para do pilates. Meu maior erro – até o tal acidente de carro e as tais reflexões – era achar que o futuro e os sonhos tinham que ser grandiosos, regrados, estudados e roteirizados. Os meus sonhos e o meu futuro estão todos aqui, nas pequenas coisas que realmente me completam, impulsionados, vividos ao extremo nessa rotina estafante e acelerada, que me faz brigar com o despertador toda manhã.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

 

Há três meses me mudei para a Alemanha. Deixei o Brasil pela segunda vez em busca da solução para os “meus problemas”, de um melhor futuro para os meus filhos, de um novo emprego, de mais segurança, menos medo, mais certezas. O Brasil não está fácil, afirmar isto é chover no molhado, eu sei, mas há alguns meses um pensamento tomou conta de mim. “Tenho 47 anos, no melhor dos casos estou partindo para a segunda metade da minha vida, será que aguento esperar as coisas melhorarem vivendo trancada em casa, no shopping, no carro, tentando recuperar um bom emprego como o que tinha antes da crise? E o meu sonho de viajar o mundo, que está parado por causa das crianças, do trabalho, de mil coisas que iam aparecendo e aparentavam ser o fundamental, a prioridade; esqueço e deixo no mundo das impossibilidades para todo o sempre?”

Na minha opinião nós mulheres que chegamos ou estamos vivendo os 40 anos, temos este impulso do “tudo ou nada”, do “agora ou nunca”, por puro medo da vida não ter valido a pena. Já vivemos um bocado e sentimos que não sabemos de nada, que muita coisa deixou de ser realizada e somos assombradas pelo fantasma do tempo, nos olhando cara a cara.

Me lembro de ter sentido este medo no início dos meus 20 anos. Foi esta mesma sensação de hoje, somada à uma completa falta de experiência de vida inerente à idade, que me fez largar meu primeiro emprego e ir embora para a Itália. Buscava uma vida que valesse a pena (novamente a mesma frase, o mesmo sentimento); foi “ele” que me fez arriscar, sair da zona de conforto.

Não pensei que mudaria novamente do Brasil, depois de sete anos na França, um na Itália, e um retorno ao Brasil em 2003, quando estava mais apaixonada do que nunca pela terrinha. O Brasil vivia uma falsa abundância, estávamos na boca da mídia internacional com uma profusão de empresas ampliando suas atuações no país. O meu emprego ia muito bem obrigada. Ainda não sabíamos que a conta do governo chegaria mais cedo ou mais tarde, e 2014 quebrou as pernas de muitos.

A decisão de deixar o país não foi fácil, foi bem dolorosa. O desemprego bateu à nossa porta, tínhamos que encontrar uma saída para manter a casa, os filhos em escola particular, empregada, carros, plano de saúde e uma pilha de contas.

Meu marido é alemão e sempre admirei a cultura, precisão e organização alemãs, à distância. Durante os 11 anos de casamento moramos no Brasil e a Alemanha ficava ali, no cantinho dos sonhos. Eu não sabia se queria realizar o feito de morar em um país tão “perfeito”. Sim a Alemanha é perfeita, e até a perfeição é chata e as vezes cansa.

Colocamos na balança a questão monetária, é claro, pois no Brasil gasta-se pelo menos duas vezes mais. Também pesou a qualidade de vida, segurança, boas escolas e universidades públicas. Apesar dos alemães pagarem 50% aproximadamente do salário em impostos você sente que valeu a pena.

Vendemos quase tudo e viemos. Tinha a minha dificuldade com a língua, o alemão não é nada fácil e eu sempre deixava de lado o aprendizado, nunca priorizei. A adaptação é muito mais difícil quando não se fala a língua local. Mas ainda assim resolvemos encarar.

Chegamos no final de julho deste ano e minha maior preocupação eram as crianças, que no final das contas foram a razão maior da nossa vinda. O ditado de que para criança tudo é mais fácil é totalmente verdadeiro na mudança de país. Os meus filhos de 8 e 13 anos estão nos primeiros meses de aula, que começaram em setembro. Aqui o calendário escolar se inicia no meio do ano. Estão refazendo a mesma série que no Brasil e voltaram um semestre. Devagarzinho as coisas estão entrando nos eixos com eles. Como diz a Caroline, uma grande amiga inglesa, criança tem a tecla da felicidade sempre ligada e isso é super valioso nestas horas.

Para a mãe, já são outros quinhentos. A Europa de luxo é para pouquíssimas pessoas e a vida aqui não é para os fracos, apesar de toda a estrutura. Uma mãe de classe média brasileira não está preparada para a vida em uma região do mundo que batalhou muito para dar dignidade para sua população, e onde cada um faz o seu e não existem “ajudantes, diaristas, secretárias do lar”.

Costumo falar para meu marido que estou passando por vários MBAs em paralelo: prendas do lar, culinária, professora, mediadora, tradutora, técnica em sustentabilidade, sem esquecer do Alemão, esta língua que me faz ganhar vários cabelos brancos, e que finalmente acho que vou deixar, pois aqui as mulheres são práticas e verdadeiras. Bonito de ver.

Ainda é cedo para saber se foi uma boa escolha, pois o Brasil, apesar dos enormes problemas, é a minha terra e a dos meus filhos. Eu tenho uma enorme esperança nos brasileiros e amo meu país. Sei que vou voltar para ficar, só não sei quando.

Como falei lá em cima, em alguns momentos da minha vida senti este impulso que me fez balançar as estruturas. Acho que todas as mulheres na minha idade tem isto. O trabalho e a inquietação por um lado e a responsabilidade com a família de outro. Parece que já fizemos muito, investimos na carreira e tentamos no meio disto tudo criar nossos filhos, e ainda assim bate um vazio. E agora?

Pela minha experiência e tendo feito isso outra vez, o que mais ganhei quando saí da rota de vôo não foi conhecer pessoas, ver o outro lado do mundo, aprender uma nova língua, entender e viver uma nova cultura, para minha surpresa este crescimento estava diretamente relacionado com o que eu deixei de ver.

Quando se sai do próprio país é como se vivêssemos um longo período de silêncio, pois as vozes não são conhecidas, e elas nos fazem escutar a nossa própria.

Tenho plena certeza que estes tem sido os momentos de maior encontro comigo mesma, quando nem tudo está favorável e preciso resgatar o que de melhor tenho, mesmo o que já me esqueci e que ainda faz parte de mim. São montanhas de coisas e conhecimento que estão escondidos no passado e são exatamente eles que me ajudam a passar por longos períodos de readaptação.

Talvez esteja sendo muito simplista, mas viemos sozinhos para este mundo e o melhor que temos a fazer é nos lançarmos em experiências profundas e solitárias que nos transformem e preparem para outras vidas, ou simplesmente para a próxima etapa.

O zona de conforto é atraente, mas não é transformadora. No meu caso o “meu país” é o que chamo de zona de conforto, mas poderia ser um emprego, um casamento, um relacionamento desgastado.

Será que precisaria ir embora ou mudar meu jeito de viver, ficar e lutar durante a tempestade? Acredito que as duas opções são verdadeiras, e podem ser transformadoras na mesma intensidade. Tanto faz, desde que o desconforto seja combatido e as vozes estranhas estejam gritando tão alto que nos façam olhar para dentro nós.

Aparentemente nossas maiores inimigas, a inquietação e a adversidade, são na verdade grandes amigas e podem ser a chave para nos sentirmos cada vez mais vivas, logo após é lógico de uma boa manicure!

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Atua na área de moda internacional com foco em sustentabilidade. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. Acredita no casamento, desde que não seja sempre com o mesmo marido, já que está no terceiro, que foi coletando mundo afora! É uma das sócias da Kbsa Inovação Responsável, que ajuda empresas de moda brasileiras a atuarem no mercado internacional por meio da sustentabilidade. www.kbsa.com.br

Comecei a pensar nesse tema ao observar como os homens querem a atenção das mulheres para seus assuntos, mas não prestam atenção no que as mulheres querem dizer.

É comum ver piadinhas, memes, cartoons mostrando as mulheres falando sem parar e os homens entediados, sem prestar atenção ou batendo o carro, ou a mulher com a boca calada pelo cinto de segurança, enquanto o homem dirige tranquilo.

O que tenho observado é que há um conflito entre os assuntos de interesse do homem e da mulher. Muitos homens gostam de contar para a mulher seus novos projetos, seu dia no trabalho, sua discussão no trânsito. Enquanto outros, por considerarem seus assuntos somente interessantes para homens só conversam com os amigos do futebol, do trabalho, do bar. A mulher gosta de dividir seus assuntos com o parceiro, mas normalmente não encontra interesse da parte dele.

Mulheres gostam de falar sobre relacionamentos, comportamento. Quando comentam sobre o trabalho, geralmente falam sobre as atitudes do chefe ou dos colegas. Quando expõe seus projetos, levam em conta a parte humana da coisa. Para os homens, mais práticos, não interessa saber esses “detalhes”.

Os assuntos das mulheres que optaram por tomar conta do lar e das crianças, são ainda menos interessantes para eles. A nova receita de bolo, como as crianças se comportaram, tudo lhes parece tão chato!

A questão é que esse desinteresse gera uma distância tão triste entre um casal, uma falta de diálogo, que, acredito eu, tem causado muitas separações de casais.

Aquela pessoa que, um dia foi o centro dos seus interesses, de repente se torna alguém com quem você não quer conversar.

Para manter a chama do casamento ou do relacionamento acesa, não é preciso só sexo, mas é preciso saber ouvir, ter interesse no outro, compreender suas carências, suas necessidades e dificuldades. Temos dois ouvidos e só uma boca, por isso, temos que aprender a ouvir.

Filipa Mourato de Jesus –  Bela Urbana, 43 anos, a espera do terceiro filho, ex bancária concursada, atual mãe em tempo integral, larguei tudo em busca de fazer o que amo, quero ser confeiteira!

O mês de agosto chegou anunciando mudanças. Trouxe para mim, além do vento, uma carga de energia pulsante sobre minha cabeça e meu corpo. Tudo era muito denso e ao mesmo tempo ecos de pedidos de socorro soavam em meus ouvidos. Logo eu, que me vejo assim em fragmentos e tantas vezes recorro ao escudo da coragem, sou agora destinatária de alguém que pede a mim um alívio, um refúgio.

Uma missão.

Pois bem, como nada é por acaso nesta vida, estava agora diante do apelo de alguém especial. Sabe o que é não ter e ter que ter pra dar? Eu achava que não tinha nada e quando vi, eu era um tudo que faria um bem. Eu era colo, eu era escuta, eu era um leito suave e cheiroso.

O que posso fazer? Por que eu? Não cabe respostas, apenas gratidão por esse momento ímpar que vivi naquele dia. Difícil explicar a sensação mágica que tomou conta de mim.

Mas minha missão não terminaria ali. Outros alguéns, cada um ocupando um lugar na minha régua de afetos, cruzaram meu caminho. Mais uma vez eu pude entregar e receber sem nada pedir.

Quando imaginei que tivesse terminado, doado de mim todo o esperado e  desprendido minha energia mais pura, eis que aparece Pedro (nome fictício), trazido pelo vento de uma fria noite de agosto. Um cuidador de carros com uma história nada simples.

Pedro, um cara jovem, negro, trinta e poucos anos se aproxima e pede 10 reais como recompensa por ter olhado o carro, enquanto eu me divertia tentando me livrar da carga de uma pesada semana. Como não tinha um centavo, começamos a bater um papo. E foi ali que novamente aquela energia retornou e me vi diante de um novo apelo.

Pedro começou sua história, nada simples, dizendo ter 5 filhos. – Todos homens! (falou isso com um certo orgulho!) e de três mulheres diferentes! Com um ar de indignação ele logo soltou: – Duas dessas mulheres estão na justiça brigando por pensão. Como eu faço? Você precisa ver como o mais novo é “parrudinho”!, disse Pedro com um sorriso entre os dentes.

Pedro não tinha emprego. Pedro não terminou o segundo grau. Pedro, além de pai de 5 filhos ficou 15 anos preso na Penitenciária de Presidente Venceslau. Motivo: tráfico e assalto a banco. Não posso negar que nesse momento me bateu uma vontade louca de sair correndo. Medo! Estava conversando com alguém que oferecia riscos?

Mas Pedro tinha uma necessidade enorme em contar sua vida e esperava desesperadamente por conselhos positivos. Dava pra sentir em seus olhos. Ele ouvia cada palavra minha com atenção… respirava, pensava, concordava, às vezes desistia logo em seguida dizendo que não daria certo e que seu fim era voltar pra aquele lugar obscuro e sem perspectiva de vida.

Pedro dizia: – Sabe esse negócio de celular com whatsApp? Eu não sei o que é isso!!! Eu usava o celular para arrumar mulher quando tava trancado! Por isso tenho 5 filhos hoje!

A conversa com Pedro durou uns 15 minutos. Um tempo incompreensível.

E quando terminou, sem me cobrar os 10 reais, Pedro, o cara jovem, negro, de trinta e poucos anos, que passou 15 anos trancado, olha nos meus olhos e diz:

– Olha aí, obrigado pela conversa viu! Eu nunca tive um papo assim com ninguém. Nem com meus “parças” lá do bairro.

E foi assim que os 15 anos trancados de Pedro me soaram como 15 longos minutos de gratidão.

E gratidão pelo quê?

Pelo encontro com alguém que o vento frio de Agosto me trouxe.

Cris Saad – Bela Urbana, professora universitária, publicitária, fã do vento, da lua e do acaso. Apaixonada por música e dança, enfim apaixonada pela liberdade, pela loucura do movimento e o gozo do encontro.

 

Uma vez eu vomitei um mundo. O mundo era meu e de mais ninguém. Eu que o fiz e não tinha vergonha. Do fundo de meu amago, a minha garganta, minha boca e então posto para fora. E que sujeira esse mundo fez. Ele fedia. Ele era estranho. Ele era feito de mim e por mim, a minha imagem e semelhança. Assim como eu era feito dele. Olhei para baixo e vi meu mundo se espalhando pelo azulejo do chão do banheiro. Era tão lindo e tão meu. Quantos podem dizer o mesmo de seus mundos? Eu o olhava e o invejava pois meu mundo era o que eu não conseguia ser. Livre. Pois enquanto meu mundo estava ali, se espalhando e se misturando ao pano de chão e as frestas entre o chão, eu estava preso ao que eu era e a o que eu havia feito para minha vida. Eu que construí essa prisão particular em que estava preso. Mas quantos de nós não fazem ou não fizeram o mesmo em suas vidas? Eu olhei para meu mundo e imaginei o que eles pensavam sobre mim. Será que no meu mundo haviam “Eles” há quem pudessem pensar? Ou meu mundo era vazio? Será que no meu mundo eles pensavam em mim? Será que sabiam da onde vinham? As vezes podiam não fazer ideia de que o mundo deles iria acabar em instantes indo pelo ralo. Eu não tapei o ralo. Será que sequer chegaram a pensar que toda sua existência nada mais era do que o resto que meu corpo não quis mais? Ou seriam como nós, arrogantes como somos de que tudo o que existe é por nós e para nós? Senti raiva de meu mundo. Quem eram eles para se achar tão bons ao ponto de se achar melhor que eu!? Desgraçados! Eu gritei e joguei água e limpei tudo! O mundo deles acabou. Se não era mais meu mundo ao sair de mim, não seria de mais ninguém! Mas será que eu havia sido injusto com eles? Será que eles não mereciam uma segunda chance? Talvez. Melhor pensar melhor na próxima. Irei vomitar outro mundo amanhã e colocarei eles em um balde dessa vez. E se o mundo for pelo ralo dessa vez, será culpa deles e não minha.

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

 

 

Mudamos de século e ainda continuamos na luta, como as mulheres do final do século XIX, que terminaram queimadas em um incêndio de uma fábrica nos Estados Unidos, depois de serem trancadas no local apenas de seus direitos. Tempos depois, em 1968, cerca de 400 ativistas do WLM ((Women’s Liberation Movement) protestaram contra a exploração comercial da mulher, durante realização do concurso de Miss America, queimando sutiãs e outros adereços que simbolizavam a beleza feminina.

Hoje não queimamos mais sutiãs, mas parece que a incansável luta pelos direitos está longe de acabar. A discriminação, mesmo que camuflada está em quase todo o lugar e em quase toda cultura. Mas não vou entrar no mérito político e social da coisa, pois para isso, com certeza, existem pessoas muito mais gabaritadas, como filósofos, historiadores e psicólogos. Só quero expor, em como pleno Século XXI, ainda temos que provar no dia-a-dia que somos capazes e acima de tudo, merecemos RESPEITO. Neste sentido, coisas banais e cotidianas me deixam extremamente frustrada quando reflito sobre a questão de gênero. E a cada dia que passa, descubro quais são minhas lutas internas e na sociedade em que vivo.

1. Eu não quero ter que acordar todos os dias pensando que se eu colocar um vestido ou uma saia mais justa (por mais que seja na altura do joelho), minha capacidade profissional e intelectual vai ser colocada à prova;

2. Eu não quero ter que me “fantasiar” que nem boneca ou como para uma festa todo santo dia, porque a sociedade espera que eu esteja linda, de unhas feitas, cabelos escovados e maquiada;

3. Eu não quero andar nas ruas com a insegurança de que posso sofrer qualquer tipo de violência, porque se estou de roupa curta, nesse calor infernal do Brasil, estou pedindo para ser agredida sexualmente;

4. Eu não quero ouvir “fiu fiu” por onde passo ou aquele “gostosa” ou “oh lá em casa”. Socorro, mulher não é mercadoria de feira para você sair gritando, como que dando as qualidades da fruta;

5. Eu não quero ser promovida e ficar vendo rodinhas de homens (e até de mulheres, pasmem) sussurrando se eu teria a capacidade para o cargo ou teria conseguido em “troca de algo”;

6. Eu não quero ser julgada pela sociedade porque não casei e não tenho filhos com 36 anos de vida. Alguém já se perguntou se a profissão não foi mais importante ou se simplesmente não aconteceu ainda ou que sequer venha acontecer e eu seja feliz com isso? Não, é mais fácil dizer que o tempo está passando, que ficarei sozinha na velhice, que não gosto de homens, que não tenho sucesso no amor. Ah, eu tenho. E se eu contasse um terço da minha vida amorosa para essas pessoas que tanto julgam, tenho certeza que elas cairiam de costas e mudariam os seus (pré) conceitos.

Eu estava discutindo essa questão do gênero com uma amiga advogada… Questionei muito as frases banais que costumam aparecer nesta Semana da Mulher, do tipo: dia da mulher é todo dia, ou dia 8 de março é uma data em que devemos exaltar a mulher. Como? Acho, inclusive (e me perdoem as feministas), que as próprias mulheres fazem questão de comemorar esse dia acabam cometendo uma certa discriminação. Porque se lutamos por direitos iguais, como precisamos de um dia no ano para comemorar um massacre? Essa minha amiga, que diga-se de passagem é uma feminista e ativista em defesa da causa da mulher de primeira, falou: Marina, às vezes precisamos voltar ao preconceito para nos livrarmos dele. Fácil assim. Voltemos então a refletir no que realmente queremos como sociedade. E não só no dia 8 de março. E são tantas as coisas que eu não quero enquanto mulher. Mas fica difícil acreditar que a minha geração vai resolver isso, ou as seguintes. Só espero que não demore mais de século para que a sociedade em geral, homens e mulheres, perceba que a diferença entre os sexos realmente existe, mas que ela não deve segregar e sim, complementar a existência de cada um deles.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Você também se pega de vez em quando discutindo imaginariamente com você mesmo(a) ou outra pessoa, sobre os mais diversos assuntos? Na maioria das vezes você está nervoso, bravo, irritado com algo que considera um problema? E mais, está pensando na mágoa, na raiva, na culpa e muitas vezes na vingança?

Bem, você é mais um nessa multidão de pessoas que não conseguem desligar o pensamento e se deixam levar por ele. Um sentimento ruim gera um pensamento ruim, esse pensamento te domina e se desenvolve, na maioria das vezes piorando aquele sentimento.

Mas o pensamento não é o que nos distingue dos outros animais? A capacidade de raciocinar e pensar, acima do sentir?

Sim! Porém isso só é verdade quando dominamos esse pensamento. Penso que se nos deixamos levar por ele e o deixamos afetar negativamente nosso sentimento, e a reagir negativamente, não somos assim tão ‘superiores’, somos?

A boa notícia é que dá sim para dominar esse pensamento e fazer com que não nos afete negativamente, ou ainda, transformá-lo em positivo. E por incrível que pareça, no início vai exigir treino e esforço consciente para mudar nosso estado mental, porque ficamos por demais concentrados no nosso próprio sofrimento…

E a solução na maioria das vezes implica em tentar sentir o que o outro está sentindo, ou se concentrar na raiz do seu sofrimento e não no sofrimento em si. Mas como eu disse, no início requer treino e esforço… como começar uma academia!

Eu criei um jargão próprio para isso!

‘VIRA A CHAVINHA!!’

Quando me vejo reclamando de algo por muito tempo, discutindo comigo mesma ou outra pessoa sobre algo, culpando ou responsabilizando pelo meu sofrimento, e percebo que estou deixando o assunto crescer, logo dou o comando ‘Vira a chavinha!’. E imediatamente começo a me ‘auto-aconselhar-me-a-mim-mesma’:

Acalma esse coração… O que levou a essa situação? Como o outro está se sentindo? (quando tem outro) Qual é a solução? Pense na solução e não no problema…Pense em construir, não em demolir.

Depois de um tempo fica fácil e natural… Principalmente porque dá alívio e o resultado em geral é positivo, e assim acaba por condicionar a querer usar sempre!

E você não precisa usar a mesma frase!!! Pode criar o jargão que mais fizer sentido pra você!! ‘Acende a luz!’ ‘Abre a porta!’.

E aí? Qual vai ser o seu?

Tove Dahlström – Bela Urbana, é mãe, avó, namorada, ex-mulher, ex-namorada, sogra, e administradora de empresas que atua como coordenadora de marketing numa empresa de embalagens. Finlandesa, morando no Brasil desde criança, é uma menina Dahlström… o que dispensa maiores explicações. Na profissão, tem paixão pelo mundo das embalagens e dos cosméticos, e além da curiosidade sobre mercado, tendencias de consumo, etc., enfrenta os desafios mais clichês do mundo corporativo, mas só quem está passando entende.

 

17

 

E como é você nas redes sociais? Sorrisos, baladas, algumas lamúrias… Pelo meu trabalho sou obrigada a conviver com elas 24 horas por dia… e assim, como muitas pessoas acabei me viciando. Postava tudo que pensava, sentia… Tempos atrás comecei uma reflexão muito séria sobre isso. Sobre os perfis que a gente vê no Facebook e no Instagram. Gente feliz demais, viagens perfeitas, vidas tão redondinhas? Por que será que é assim? A gente até se pega pensando de vez em quando: “por que não pode ser assim comigo?”

Porque na verdade, não é assim com ninguém. Viagens dão errado, famílias brigam, casais se desentendem, nem sempre a foto linda da balada reflete seu estado de espírito. As pessoas se pegaram numa necessidade irreal de postar o que a vida deveria ser em sonho. Mas não o que é na realidade. Porque também é muito mais fácil eu curtir a suposta felicidade dos outros do que pensar nos problemas deles, e principalmente nos meus.

Não que nada seja real. Muita coisa é. Ouvi muita gente me dizer por várias vezes: Marina, você se expõe demais e isso traz inveja. Quer saber? A tal “inveja” não me pega mais. Se eu filtro tudo mentalmente, no meu dia-a-dia, por que não fazê-lo nas redes sociais? Hoje estou mais restrita. Não porque tenha algo a esconder. Mas porque sei que a vida não são aqueles mais de mil amigos que tenho nas redes (e olha que dei uma faxina bem grande). Quem quer saber como realmente estou, o que estou sentindo e o que estou fazendo, sabe como me achar. Na realidade. Me chama para tomar a caipirinha de picolé que amo, para ver um filme, para ir tomar Chay na Starbucks, para tomar sol… ou simplesmente me liga ou manda um whats… rs

Essa necessidade de ser perfeita e de ser midiática preenche um vazio por um segundo ou dois. E depois? Depois é a vida real, meu bem, com as sensações felizes e tristes…

Mas você, que me segue em alguma rede vai dizer: “mas você ainda posta”. Sim, posto, até porque não vou me alienar do mundo digital. Preciso dele no meu trabalho (foco das maiores postagens), posto as minhas conquistas no pilates (porque já tive relatos lindos de gente que se empolgou e porque quero dar valor à profissional maravilhosa que me atende), divulgo o Belas Urbanas, porque acredito nesse site e faço parte com orgulho, e faço uma ou outra homenagem em dia de aniversários de pessoas que me são queridas. Por enquanto é isso e será isso.

O futuro? Não sei, assim como não sabemos como serão as novas tecnologias… Vai que me apaixono por uma nova e vicio de novo? Ninguém está livre.

Respeito por demais as pessoas que vivem disso, meus amigos e amigas blogueiras e influenciadores digitais. Mas eu não sou uma delas. Então… menos é mais…

Não faço apologia contra algo que uso. Reencontrei pessoas queridas, converso com amigos de longe. As redes sociais realmente são facilitadoras nesse caso. Elas estão aí e vieram para ficar. Mas estava na minha hora de repensar como isso pode consumir nossa vida e nos afastar da realidade. Esse texto é um convite à reflexão. Nada além disso. O que você vê realmente é o que é? Jamais saberemos. O quanto vale a curtida de uma pessoa ou os views de uma foto, se eu não trabalho com isso?

Hoje me seduzo mais com mensagens de carinho, telefonemas, abraços apertados e olho no olho.

Deixei – e não sei até quando, porque sou humana – a vaidade cibernética de lado. E você? Como deixa os likes afetarem sua vida real? Pense, repense e, se fizer algum sentido, filtre. De carteirinha, posso dizer, que as coisas ficam mais leves.

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Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Às vezes me pego pensando até que ponto foi bom ter nascido nos anos 70, penso como deve estar a cabeça de quem nasceu nos anos 60, deve estar enlouquecendo….

É tão bom pensar nos tempos de infância, na inocência, nas brincadeiras de rua, de correr na chuva, de viajar pra casa da tia que cozinhava melhor que nossa mãe no fim de semana. É tão bom lembrar do cheiro de mato molhado, de roubar manga nos terrenos baldios e cercados por muros enormes, do primeiro beijo da adolescência, das revistas SOMTRÊS que demoravam a chegar na banca só pra ver as últimas notícias de bandas como Titãs, Iron Maiden, Kid Abelha…

Tudo era tão difícil no entanto tudo era tão mais fácil, não ter internet, celular, carros tecnológicos era tão bom, nessa época a gente olhava as pessoas nos olhos, olhava o que estava ao nosso redor, não ficávamos sentados diante de uma tela apenas nos esvaziando, tínhamos amigos que podíamos tocar, e ir nadar escondido nos rios mais perigosos da região e falar pra nossa mãe que estávamos na piscina do amigo. Shopping? Conheci já marmanjo com 19 anos e tive certeza que não era melhor que os pomares e canaviais dos arredores de meu pequeno bairro.

O primeiro trabalho vinha cedo como o maior orgulho e incentivo dos pais, o primeiro beijo vinha tarde e recheado de vergonha e zombaria dos amigos que estavam crescendo juntos, ai depois era só comprar com o próprio dinheiro fruto do trabalho a radiola sonata e ouvir Beatles pra chorar pela menininha que lhe trocara por o menino novo do bairro.

Assistir a pantera cor de rosa, Pica Pau, corrida maluca, Os trapalhões, tudo nos dias de hoje tão considerados politicamente incorreto, não fez da gente pessoas com desvios de personalidades. Ah, tudo isso foi tão necessário! Isso forma gente do bem! Isso faz a gente sorrir ainda hoje.

Acabou… tudo isso acabou….

Hoje está tudo tão difícil, conheço tanta gente que está sem destino, tanta gente que não consegue mais se relacionar, tanta gente com tantos problemas com os filhos, tanta gente perdendo tudo que demorou e lutou tanto pra ter apenas dignidade e conforto, tá tudo tão sujo na sociedade, tudo tão errado…

Tem gente que tem 1.000 amigos no face mas no fim de semana não tem um que queira ir tomar uma cerveja.

Onde perdemos o rumo? Onde está o erro? Porque os jovens perderam valores e ética? Porque nem se comemora mais natal ou a família? Às vezes da vontade de viver apenas de passado, de ir para o meio do mato criar galinhas e ter uma horta bem bonita, e voltar no tempo, se sentir abraçado pela natureza e viver pra dentro de si mesmo, ir na cidade apenas abastecer o carro uma vez por mês …

Alguém sabe me dizer onde erramos? Alguém sabe o caminho de volta para o nosso coração? Alguém sabe como fazer pra olhar o mundo com os olhos da bondade?

Alguém pode me ajudar, a ajudar aquele que: Está vivo só porque ainda não morreu?

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Hugo Vidal – Belo Urbano, é Jornalista Ator e diretor há 29 anos, gosta muito de descobrir novas paisagens rodando com sua moto, aliás uma de suas paixões é o motociclimo.