Atualmente, o que se fala em estupro, agressão física e feminicídio é uma enormidade e uma triste verdade.

Quando vejo as notícias e as imagens das mulheres que escaparam com vida, fico muito indignado. Rostos e corpos mutilados!

Acho inacreditável um homem (qualquer adjetivo que tente usar vou manchar a classe utilizada), mas utilizando, esses vermes se consideram donos de suas companheiras.

Eles não poupam nem seus próprios filhos de presenciarem essas atrocidades.

Houve um caso que o marginal atirou na esposa com o nenê no colo.

Agora analiso o comportamento das mulheres: todas têm o direito de tentar ser felizes.

Mas a maioria não procura checar a “capivara”  – ficha corrida do aspirante a companheiro.

As redes sociais são um facilitador para que isso comece a acontecer; digamos, o pontapé inicial da relação infernal.

Levam esses malditos para dentro de casa, aí a máscara começa a cair…

Aí não trabalha, bebe, usa drogas e o sustento da casa fica por conta dela.

E no extremo, abusam sexualmente de seus enteados.

As agressões começam e também os perdões.

Perdoa uma, duas, três e por aí vai.

Quando não aguenta mais, coloca o marginal para fora.

Não adianta! A perseguição por não aceitar é constante.

A vítima faz inúmeros boletins de ocorrência, consegue a medida protetiva, que não vale nada! O agressor usa esse seguinte bordão: “Se não for minha, não será de mais ninguém”.

Medida ignorada, ameaça cumprida: mais um feminicídio executado.

A dependência econômica, o medo são fatores que levam as mulheres a aceitarem essa condição degradante. E do outro lado, a total impunidade deixa os agressores e assassinos numa situação muito cômoda e tranquila.

A minha opinião é que, na primeira agressão, se separe desse verme, pois o cenário nunca mudará.

Mas para que as vítimas tenham coragem de denunciar é preciso ter leis mais duras e severas, caso contrário, os agressores se sentirão donos da situação, deitando e rolando na impunidade.

E o que se vê, na maioria dos casos, são as relações acabando e os vários filhos dos diversos relacionamentos ficando com a mãe.

Eu, como homem, repudio totalmente esses comportamentos.

Não se pode perder sua dignidade e sua vida em troca de uma relação amorosa.

Mulher não é objeto e muito menos propriedade de ninguém.

É a criação mais bela de DEUS!

Eduardo Gonzalez Domingo – Belo Urbano. Formado em Educação Física. Atuou com voleibol em todas faixas etárias, recreativamente e competitivamente. Há 14 anos atua como Corretor de Imóveis em construção, ama o que faz, pois ente que é facilitador para as pessoas realizarem o sonho da casa própria. É fiel as amizades, de bom coração e fanático por esportes e música.

Quando lançamos a série de textos sobre relacionamentos abusivos, não imaginava o quanto isso era muito mais comum do que eu pensava.

Essa discussão se estendeu por mais tempo do que o previsto inicialmente, mas foi necessário, porque muitas vozes precisavam falar. Vozes que me procuraram e que por sentir que eu estava disposta a ouvir confiaram em mim suas dores e superações.

Aprendi muito com cada um que escreveu, com cada pessoa que me procurou, com todos as conversas que tive nesse caminhar. E olhando esse trajeto de um pouco mais de um mês, olhei tanto para mim mesma.

Nas minhas conversas comigo mesma, nos meus diários, agendas, textos guardados e nas minhas memórias, fui me buscando, me olhando de fora de mim e tentando enxergar quem fui eu, quem sou eu, quem são e foram as pessoas do meu lado.

Posso afirmar que é muito difícil alguém nunca ter vivido alguma situação que o tenha exposto, humilhado, o deixado frágil…. Muitos se negam a enxergar, muitos não conseguem sair do papel imposto, mas muitos outros conseguem buscar caminhos melhores, não aceitam as dores.

Aprendi que ninguém tem o direito de julgar o outro, julgar não agrega valor nenhum e não ajuda nenhuma vítima a se sair desse papel. Acredito que cada um faz o melhor que consegue fazer com o recurso interno que tem. Como podemos ajudar? Incentivando a busca do autoconhecimento, isso fortalece.

Ainda vivemos uma sociedade com muitos traços machistas, mas muita, muita coisa mudou e melhorou da geração da minha avó para a da minha filha, que salto positivo! Mas ainda precisamos mais como sociedade. Qual a parte que lhe cabe em tudo isso?

Agradeço a todos os autores expostos aqui e os anônimos que corajosamente compartilharam suas vivências, pensamentos, poesias, contos, reflexões. Com toda certeza os textos irão ajudar pessoas que se encontram em situações abusivas e que não sabem o que fazer. Esses textos são luzes.

Belas Urbanas não aceitam abusos.

Obrigada.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Hoje me vejo me redescobrindo, como se tivesse me perdido por aí ( nem sei onde) e acabado de me achar. Me olho… não sei exatamente como funciono, como reajo, o que me falta, o que quero e o que tenho a oferecer.

Triste isso? Não é não… parece mas não é ! Na verdade estou encarando como uma conquista… uma libertação!

As pessoas falam de relacionamento abusivo como se resumisse em palavras grosseiras, agressão física ou algo muito escancarado que só a vítima não vê.

Pessoal, as agressões de todo tipo são horríveis e fazem parte da relação abusiva, mas vai muito além disso. Não é fácil se perceber sendo abusada ou abusado. Vamos abrir os olhos e principalmente nossa intuição.

Acabo de sair se um relacionamento abusivo de 10 anos.

Minha maior dificuldade é entender tudo que passei. Uma confusão mental horrível.

Me pego com culpa, saudade, raiva, medo… por anos fui tratada como inadequada, incapaz, dependente. A minha opinião não tinha muito valor porque eu era toda inadequada perto dele, um ser autosuficiente, autodidata, talentoso, que não precisava de médico, psicólogo, professor…nem de Deus. Qualquer coisa que eu precisasse eu podia consultá-lo que ele ia me dar as respostas corretas.

Uma pessoa extremamente inteligente e sedutora, que tinha o dom da palavra. Tanto tinha que não me deixava falar… quando ia expor minha opinião sobre qualquer coisa que não concordasse na relação, ele falava sem parar, me culpando, acusando, diminuindo meus sentimentos e raciocínio. E eu ficava perdida e irada com aquele jeito injusto de me tratar. Mas no fim acabava com dó dele… uma pessoa que tanto sofreu na vida e eu uma garota privilegiada, de classe média, com um passado totalmente inadequado… deveria sim procurá-lo para fazer as pazes. Eu não estava errada mas ele se perdia porque sentia muito ciúme de mim. Isso porque me amava muito, eu era única para ele. E isso me fazia sentir importante!

Somente ele me trataria de forma tão especial, mais ninguém no mundo.
Ganhei uma coleção de poemas, um mais lindo que o outro. Realmente muito bem escritos e que me faziam sentir uma espécie de deusa. Era como se eu tivesse achado meu príncipe encantado, uma pessoa que me via de forma única, me conhecia como ninguém, me realizava sexualmente, me protegia, me cuidava … e era só ele que fazia isso. Todas as outras pessoas, apesar de terem boas intenções, não sabiam o que eu precisava para ser feliz. Nem eu sabia. Só ele sabia. E este padrão se repetia com os filhos também. Todos nós éramos tratados com uma espécie de seguidores dele.

Era estranho as vezes, era doído outras, mas no final eu acabava fazendo as pazes, mesmo sem ter conseguido me fazer ouvir.

Começou rejeitando totalmente meu passado, eu fui desleixada, uma mulher que teve muitos namorados e não poderia ser valorizada por nenhum homem, a não ser ele, que topou ficar comigo e me mostrar uma vida diferente, mais respeitosa, mais contida, a vida de uma mulher de valor. Minhas amigas também era inadequadas, todas! Afinal fizeram parte de um passado meio fútil. Não teria como manter vínculos, pois teria que escolher entre elas ou ele. E ele estava me conduzindo para uma vida de família, mulher correta, mãe respeitável. Então, sumi da vida delas !

Minha família também era bem inadequada. Na verdade não era família. Eu mal convivia com alguns, então se era para ver só em festas e no Natal não eram pessoas que eu poderia contar. Quem estava do meu lado dia e noite era ele. Ele sim era minha família.

Minha mãe e minha tia, as pessoas mais próximas da minha vida, erraram muito comigo porque me superprotegiam e por isso não fiquei preparada para os sofrimentos da vida. Afinal, viver é sofrer, não é ? O sofrimento tem um valor muito grande porque viver sorrindo é coisa de gente vazia, fútil .

No trabalho eu era mediana, muito aquém dele. Deveria sim pedir dicas, conselhos para conseguir crescer e ter a visão dele. Ele, como gerente bem sucedido, era a única pessoa que ia poder me dar conselhos certeiros. Fui promovida algumas vezes e, por coincidência ou não, estávamos brigados e estive sozinha para comemorar comigo mesma as minhas conquistas.

Sozinha, engraçado como me sentia sozinha!

Nas brigas, que eram muitas, eu sempre estava muito errada, e no final, me sentia tão injustiça em não ser ouvida, em não ter meus sentimentos respeitados, que me enfurecia. E aí, além de errada eu era descontrolada.
Como posso falar em paz se eu não tenho paz? Como posso falar em Deus se sou tão desajustada ?

E assim fui me distanciando de Deus, de mim mesma, da minha família, dos meus amigos… me perdendo… e me achando inadequada pelas minhas escolhas.

Graças a Deus, algo dentro de mim pulsava e não me deixava entregar totalmente àquela situação. Não tinha consciência de tamanha manipulação, mas minha intuição me dizia para continuar com meus sonhos, com meus planos, com meu sorriso e com minha alegria nata.

Mesmo perdida eu continuava cultivando dentro de mim coisas muito boas e isso me salvou!

Hoje, recém separada, ainda me vejo muito frágil, por vezes me sentido inadequada ou errada, com pena dele, que tanto sofreu neste casamento… mas a lucidez tem me presenteado com momentos como este que consigo claramente enxergar a toxicidade da relação em que me encontrava.

Distante, vejo melhor. Como se me distanciasse da neblina.

Queria deixar um recado para as pessoas que se sentem confusas em uma relação tóxica. Esta confusão é a famosa manipulação e ela a responsável pela maior perda que se pode ter: a lucidez.

Não se deixe ficar confusa ou confuso. Medite! Respire! O amor é leve, não machuca, não vem cheio de exigências, não te diminui, não te cobra, não faz você ficar confusa e se sentir incapaz de nada. O amor também não te trata como deusa ou deus. Se sente algo de errado aí dentro, dê atenção a isso. Se escute! Se perceba!

A pior coisa que podem te roubar é a sua lucidez. Resgate-a.


MULHER – Bela urbana, 35 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Muitas pessoas tem a idéia equivocada de que em países desenvolvidos o abuso praticamente não existe; como se ele fosse fruto exclusivo da falta de acesso à educação e cultura.

Aproveitei o convite da Adriana Chebabi para escrever no Belas Urbanas e da minha experiência como brasileira que mora na Alemanha para ir atrás de dados e história, na tentativa de traçar o perfil da mulher alemã contemporânea e sua relação com o abuso.

De fato na Alemanha o abuso, seja ele psicológico, físico, moral, sexual acontece com menor frequência mas ainda assim ele acontece. Em 2019 uma mulher foi morta a cada 3 dias vítima de feminicídio na Alemanha (não considerando os abusos que antecedem à morte). No Brasil uma mulher é morta vítima de feminicidio a cada 2 horas.

Olhando para o passado descobri na mitologia referências às deusas germânicas, que lutavam lado a lado com homens e que eram associadas à valores guerreiros e de autossuficiência. Lenda ou não as mulheres guerreiras aparecem em diversos relatos encontrados sobre o Sacro Império Romano-Germânico na época da antiguidade.

Lembrando que os povos germânicos na época estavam espalhados pela atual Áustria, Suíça, França, Bélgica, Norte da Itália, Península Ibérica e Norte da África. As mulheres germânicas de fato influenciaram grande parte da cultura feminina européia.

É importante ressaltar que mais para frente, na Idade Média, a sociedade germânica era patriarcal, cabendo às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos,  alimentar a família, prover e utilizar os medicamentos.

Passados os séculos e chegando aos dias atuais sinto que a mulher alemã é altiva, forte e se orgulha disso, entretanto essa atitude sozinha não vem sendo suficiente para evitar os casos de abusos contra elas.

Uma realidade a ser considerada nesta análise, e que passa pela cabeça de muitos é o fato da Alemanha ter sempre recebido, em maior ou menor quantidade, um grande número de imigrantes, que trazem consigo diferentes costumes. Esse caldeirão de culturas obviamente traz choques que podem nos levar a pensar que a sociedade multicultural abre brechas para tal violência e que o abusador simplesmente é o outro,  o que veio de fora. Mas muito do que fui pesquisar sobre relações abusivas me fez acreditar que não é este o caso. Explico melhor a seguir.

A construção de uma personalidade abusiva, pelo que pude perceber, não depende apenas de fatores como, país de origem e classe social. Isso pode interferir quando o abusador vem de países em que a cultura do estrupro e da inferioridade feminina ainda existem, como a Somália, India, Afeganistão, Nigéria, para citar alguns; mas ainda assim seria simplista afirmar. O que venho constatando em minhas leituras sobre o tema é que a violência depende de algo maior e mais complexo, e que na grande maioria das vezes ela acontece em relacionamentos inicialmente consensuais, ou seja, sem barreiras, sem choques ou atritos.

Fica claro que existe um período de encantamento e que conforme a relação se desenrola os primeiros sinais aparecem. Desencorajamento, controle, tortura psicológica, agressão física, estupro entre outros. Neste período a vulnerabilidade entra em jogo e ela simplesmente desconhece área geográfica.

Claramente os tempos mudaram, os “gatilhos” mudaram e o sofrimento se mantém, no mundo todo.

Hoje em dia acredita-se que os abusos ligados à violência doméstica aumentaram, e de fato os dados mostram que sim.

A pandemia da Covid-19 vem expondo às pessoas à experiências de confinamento que não estão sendo saudáveis por diversas razões. Na Alemanha logo após o término do “lockdown” as denúncias de mulheres vítimas aumentaram em 30%,  somente na capital Berlim.

Contudo, o evento mais importante está acontecendo; as vítimas estão parando de se esconder e é exatamente por isso que os números de casos subiram.

O acesso à informação, os debates e o encorajamento de mulheres é um movimento sem volta e os casos emergem, o que nunca aconteceu com tamanha força.

E tanto você, que se interessou em ler este texto, quanto eu, que fui estudar sobre o tema, estamos colocando este assunto em pauta, debatendo, denunciando, reconhecendo e divulgando canais competentes de auxílio à mulher em situação de abuso.

Sim, o abuso é mundial, assim como a luta contra ele!

Vamos seguir lutando “miteinander”,  palavra alemã que eu adoro e que quer dizer “juntos”.

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. É responsável pela área de Marketing Digital
da Push Rio Activewear. www.pushrio.com

A violência contra a mulher é um tema recorrente, infelizmente.

Dados apontam que a cada 4 minutos uma mulher é agredida.

As estatísticas tornam-se ainda mais cruéis quando o feminicídio vem a somar vítimas numa conta que só faz aumentar.

Quando pensamos que os abusos se dão logo na infância, com uma porcentagem crescente de casos, tudo se agrava ainda mais.

Cada vítima é um ser humano, que está sofrendo danos físicos e psicológicos cruéis, com cicatrizes para o resto da vida. Isso tem que parar!

A sociedade como um todo tem que avançar para que medidas  eficazes sejam tomadas, de modo a sanar os danos já existentes e evitar novos casos de abusos em seus diversos aspectos.

Muita coisa tem sido feita, mas ainda há o que fazer para que os índices passem de crescentes a descrescentes, e os direitos e deveres de cada um se façam válidos.

Vários fatores devem ser levados em conta.

A disparidade entre genêros, consequentemente acarretando uma desigualdade social, muitas vezes  torna a mulher vulnerável ao seu parceiro, onde a dependência financeira aprisiona e a impede de sair da relação abusiva.

Outro fator é o machismo estrutural, que reforça que o homem é quem manda e a mulher deve ser submissa às suas vontades.

Através da educação essa ideia deve ser mudada.

Políticas públicas devem lançar campanhas que reforcem a denúncia, assim como a fiscalização para que as leis sejam cumpridas.

Medidas de apoio devem estar à disposição das vítimas, abrigos para acolhê-las (e aos seus filhos), tratamento pscicológico para amparo emocional, médicos no caso de abuso físico, a justiça para que o abusador cumpra sua pena, enfim, uma equipe multidisciplinar prestando todo atendimento necessário.

As ações devem começar desde cedo, fazendo com que meninos e meninas entendam que as relações devem ser permeadas de respeito. Saber identificar um comportamento abusivo também é um passo importante, capaz de salvar vidas.

O olhar para a vítima de abuso deve ser empático e altruísta. Não condene, não julgue.

A luta deve ser de todos!

Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

Que castelo mais lindo! Coisas dos sonhos! Do sonho de qualquer uma… ou qualquer um. Viver ali era amor. Ela vivia tudo que queria. Nunca representou personagem algum na vida real. Ela era o que era, sem máscaras, e amava seu castelo.

Mas as coisas começaram a não caber ali, um pouco estranho, meio misterioso isso… algo não se encaixava. Tinha muito mistério nesse castelo, lugares e portas emperradas que não abriam. Muitas trancas… mas no começo ela não via.

Com muita força, um dia, abriu uma porta e o castelo começou a ruir. Era feito de areia.

Rapidamente o castelo de areia desmoronou com ela ali dentro. Quase foi engolida, mas ela ainda tinha muita história para contar e muita vontade de viver. A sorte é que a areia não era movediça.

Levantou, engoliu um pouco, tossiu. As lágrimas não paravam de cair. Castelo desmoronado, no chão. Não se sustentou.

Chacoalhou o cabelo, bateu com suas mãos no corpo tirando o grosso da areia da roupa. Esfregou o rosto. Respirou fundo três vezes bem devagar para se acalmar. Com esforço conseguiu sair do monte de areia.

Por dois infinitos minutos olhou para aquele monte que um dia foi um castelo, seu castelo. Não tinha vocação para ser infeliz. Apesar de toda dor do tombo, se consolava porque sabia que tudo que colocou ali dentro foi concreto. Agradeceu ter sobrevivido.

Foi embora sem olhar para trás, mas ainda chorando.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Eles se conheciam desde a adolescência. Amigos inseparáveis, confidentes muitas vezes, um certo interesse no ar, mas sempre deixado de lado em prol da amizade. Ambos tinham namorados, ambos com interesses em comum, era muito bom poder se apoiarem.

Naquela época já se percebiam alguns traços de arrogância, mas chegava a ser até divertido, afinal, a arrogância era meio inerente à juventude da nossa época e vinha como uma forma de força de determinação.

O tempo passou, a vida levou cada um para seu lado. Ela mudou de cidade, casou, construiu uma família, viajou, se conectou com várias culturas… ele foi para a cidade grande, ou assim o disse, virou um “grande” empresário, estudou línguas, morou fora do País.

Vinte e cinco anos se passaram até que, por um acaso do destino se cruzaram. Que felicidade! A conversa fluiu como se não tivesse se passado um dia desde a última vez. Já maduros, ou assim se pensava na ocasião, se envolveram rapidamente.

O primeiro sinal veio logo no começo quando ele caiu em contradição e ela descobriu que a vida que ele disse que tinha era apenas uma projeção. Nunca saiu da cidadezinha que eles moravam na adolescência, tinha um negócio quase falido e ainda morava com os pais.

Esse era o momento de sair correndo, mas ela via um grande potencial nele, um homem inteligente, bem articulado e que tinha se perdido… porque nós mulheres temos o maldito hábito de achar que conseguimos “consertar” o outro?

Ele foi morar com ela e faziam mil planos. Os filhos dela o adoravam, sempre disposto a tudo, bem educado e disponível… O segundo alerta veio três meses depois, quando uma amiga precisou dela. A amiga, Ana, começou a mandar mensagens de que estava mal e pensando em se suicidar e ela passou a noite toda no celular conversando, acalmando, dissuadindo Ana de seu propósito com ele resmungando ao lado porque ela não estava dando atenção à ele.

No dia seguinte eles iam viajar e, mesmo insone, ela arrumou as coisas e lá foram eles. Quando chegaram ao destino, ela estava morrendo de dor de cabeça e pediu para ele ir comprar um remédio. Ele trouxe já de cara feia. Assim que ele chegou com o tal remédio, Ana volta a mandar mensagem e isso foi o estopim. Ele voou pra cima dela (não chegou a fazer nada) e começou a berrar que ela só tinha tempo para as amigas, que ela só estava fingindo estar com dor etc e tal… nesse momento, ela chegou a pensar que ele iria agredí-la fisicamente, mas ele fincou a parede e saiu.

Ela arrumou as coisas e tentou voltar para casa, mas claro que não rolou… mil desculpas, o pedido para não “estragar” o passeio e o ser meigo voltou a tona. E assim foi por muito tempo. Eles foram construindo algo, as vezes juntos, as vezes individualmente e os anos foram passando. O negócio dela foi prosperando e ele sempre no mesmo lugar, com as mesmas reclamações e, quanto mais sucesso ela fazia, mais demandas ele tinha. Roubou sua alegria, roubou sua fala (usava as ideias, as falas e os saberes dela como se fossem seus), se apropriou de seu espaço, mas ela não cedia tanto quanto ele gostaria. Não bastasse, invadiu sua privacidade. Clonou todos seus dispositivos e passou a criar uma vida baseada no que ele lia em seus e mails, whatsapp, Messenger. Ela desconfiava, mas ele negava a cada vez que era confrontado. A gota d’água veio quando ela descobriu uma traição.

Ela nunca olhou no celular dele, acreditava e ainda acredita que dois adultos escolhem estar juntos e que confiança é o pilar que sustenta uma relação, mas ele parece que queria ser pego. Ficou mexendo no celular ao lado dela e, toda vez que ela virava para falar com ele aparecia o mesmo nome: Marcela. Confrontado ele, como sempre, negou.

Não bastasse, voltou a gritar com ela, como se a mesma fosse louca e delirante. Saiu batendo portas, cantando o pneu do carro, um verdadeiro adolescente mimado e contrariado. Ela esperou para terem uma conversa adulta, mas não rolou.

Ela cansou…

Ele viu nas mensagens dela…

Ele queria ter a última palavra…

Vagabunda, filha da puta, você não vai pedir para eu ficar?

NÃO!

Ela se libertou.

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

1º namorado da filha.
Ela tinha 17 anos. Linda, alegre, cheia de vida, no auge da juventude, aguardando ansiosamente seus 18 anos e a liberdade de ir e vir que viria a conquistar.
Ele tinha 25 anos. Moço lindo, forte, saudável! Soube conquistá-la. Ela se apaixonou!
No início, a diferença de idade me assustou. Meu receio seria de que ela deixasse de viver boas experiências de vida que a maioridade lhe permitiria. Não queria que ela pulasse etapas da vida. Ainda teria uma faculdade pela frente e muitas aventuras por viver.
Meu coração desejava vê-la feliz e sendo assim acabei apoiando a sua escolha e, de verdade, me senti feliz por ela ter alguém com quem compartilhar bons momentos. Ele foi muito bem recebido e acolhido pela nossa família. Ela idem pela família dele. Harmonia!
No início tudo ia bem, ele a tratava como uma princesa, e ela orgulhosa por tê-lo como namorado. Ela já tinha tido outros paqueras, ficantes, como os jovens dizem, mas namoro mesmo, esse era o primeiro. Os passeios eram sempre pra jantar, visitar os avós, cinema, tudo em paz.
E aí, chegou a faculdade. Com tudo o que pertence a esse universo.
Nova fase, novos amigos, encontros em bares, trabalhos em grupo, festas, jogos universitários. Chegaram também muitos conflitos regados com uma boa dose de ciúme. Foi aí que tudo começou a ficar estranho. De repente, os encontros terminavam em choro ou com ela se culpando por algo que NÃO fez. Isso mesmo, ela passou a ser a culpada por tudo, a responsável pelas brigas e discussões. Senti que ele a estava manipulando, dizendo como deveria ser e agir. Passou a escolher quem eram os amigos legais que ela deveria manter e quais não eram e ela deveria se afastar. Vieram as discussões, as festas terminadas em briga, o mal estar na família e o principal que eu via no olhar dela: a alegria dando lugar à tristeza! Seu riso solto foi ficando mais raro, seu olhar entristecido parecia quase sempre querer dizer algo.

Suas amigas mais próximas, viam o mesmo que eu. Com a ajuda delas, enviamos textos com o tema relacionamento abusivo para tentar alertá-la. Nada parecia surtir efeito.
Conversei muitas vezes com ela, e estive muito próxima, porém discutimos algumas vezes e tive medo dela se distanciar de mim. Era tudo o que ele queria, nos afastar para poder exercer sua total influência sobre ela sem ninguém para atrapalhar.
A alertei e esperei que o tempo lhe mostrasse a verdade e entreguei a Deus! Mas… monitorando! Sempre atenta.
A gota d’água para mim, foi numa noite em que estávamos jantando em uma pizzaria pouco antes de embarcarem para uma viagem juntos e ele protagonizou uma cena machista. Após uma provocação da parte dele, começaram uma discussão, ele tentou desmoralizá-la na frente de seu pai e em determinado momento ele lhe apontou seu dedo em riste, intimidando-a. Aquilo me doeu! Como mãe e como mulher, pois isso também me machucaria se fosse com uma desconhecida na mesa ao lado. Enfrentei-o e aí a discussão foi comigo.
Embarcaram e voltei pra casa! Triste, arrasada e com medo.
Chorei, chorei, chorei até não poder mais e me perguntei mil vezes como que ela não via isso? Uma menina criada e educada para ser dona de si.
Estava sendo completamente manipulada por ele. Que poder é esse que os manipuladores tem!
Passaram um mês viajando, foi o período mais tenso que eu já tinha vivido. E se ele fizesse algo a ela, tão distante de mim? Rezava o tempo todo, pedindo para que tudo corresse bem.
Meu coração não estava apertado a toa, ela me contou um tempo depois que, durante a viagem, tiveram outras discussões e algumas atitudes que ele teve que fizeram soar o alerta dela.

Dois meses após o retorno da viagem, o tempo veio trazendo a verdade e ela acabou o namoro.
Na última discussão que tiveram, ele a retirou, contra a vontade, do ambiente em que ela estava com sua turma, e saiu dirigindo com ela de passageiro em alta velocidade, totalmente descontrolado, falando, segundo ela, coisas horrorosas.
Ela teve medo! Discretamente pegou seu celular, chamou o último número discado e deixou que alguém ouvisse os absurdos que estavam sendo ditos, acho que querendo uma testemunha caso algo acontecesse com ela. Mas, graças a Deus e seu anjo da guarda, a única agressão física foi um puxão de cabelo.
Ele a deixou na porta de minha casa. Ela abriu a porta chorando, gritando que ele era um louco, um doente e ele saiu novamente descontrolado com o carro em alta velocidade.
Nesse dia ela deu um basta.
Não parou por aí, porque ele ainda insistiu em voltar por um bom tempo. E ela chorava porque se achava a pior pessoa do mundo, achava que nunca ficaria livre dele e o pior, pensava que só era uma pessoa melhor quando estava com ele. Perdeu sua identidade, sua autoestima, perdeu a confiança nos homens e levou um bom tempo até dar nova chance ao Amor.
Nesses dois últimos anos, com muito amor da família e algumas boas sessões de terapia ela está se recuperando, porque leva um tempo ainda para deixar esse episódio no passado. Sim, porque ela vai levar essa experiência pela vida toda. Toda ferida cicatriza, porém deixa marcas.
Hoje ela conseguiu vencer o medo de novamente se relacionar com alguém e está vivendo uma história bem diferente.
O mais importante é que está tendo a oportunidade de ser quem deseja ser e está feliz e confortável, dentro de si mesma. Está fazendo as pazes consigo mesma.

Mães, fica aqui meu recado: é nossa missão zelarmos pelo bem estar de nossos filhos, estarmos atentas. As vezes pode parecer que estamos exagerando, mas sigam o coração, ele nunca nos engana. Observem as relações de seus filhos e não se calem!


MULHER – Bela urbana, 50 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180


Carnaval de rua dos anos 50, quase 60! Época do corso? Não, não sou tão velha assim…

Respeito é bom e eu Joana, gosto!

Uma história que em minha família ficou para um sempre. Apesar de ser uma história de vibração sexual.

Então, carnaval e estávamos vendo com a alegria carnavalesca, eu, minha amiga Neidinha que minha mãe costurava roupas iguaizinhas, parecíamos gêmeas… Pândego! E claro que onde eu ia, ela era convidada para acompanhar, num sempre gostoso, pois eu, filha única precisava de companhia.

Amava Neide Silva, vizinha e um ano mais velha que eu a Joaninha. Voltando à rua Barão de Jaguara/Campinas/SP anos 60/Carnaval de rua, chovia um pouco e minha mãe Zilda, levou sua inseparável SOMBRINHA, faça chuva ou faça sol ela estava sempre armada com ela.

E os blocos descendo a Barão de Jaguara, e nós defronte o Eden Bar, estávamos felizes e ficamos à frente de dona Zilda, minha mãe… Só que, de repente estávamos uns dois personagens adiante dela, com o brilho das fantasias dos blocos e a alegria, eu e Neidinha nos distanciamos do corpo, mas não d’alma de Mãe observadora!

E eis que, de repente ouvímos um gemido, dentro daquele aperto, olhamos para trás e vimos um homem gemendo, parecia de dor, e saiu correndo, e minha mãe gritando: O bloco passando, a música tocando, as pessoas cantando e o homem tentando se esfregar nas meninas que estavam na sua frente…

E foi sua infelicidade sobre o olhar de dona Zilda, minha mãe… Que na hora que viu a cena prazerosa, pegou a SOMBRINHA dela que estava fechada naquele momento, e desceu o sarrafo…

Entre aquele membro teso e sem vergonha e nós, duas meninas carnavalescas, com 10/11 aninhos. Virou uma história de família, e hoje quando tudo acontece, em que machos vivem à sombra e continuam se esfregando, minha mãe falecida diria: “Filhas levem alfinetes, para circular em veículos que transitam num leve e traz apertado”.

Pois, nem sempre usamos SOMBRINHAS de antigamente… Agora elas são tão curtas, algumas vezes do tamanho do membro teso!

Valeu…

SOS – 180…

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

E aquela menina com menos de 5 anos, morava na roça, cidade pequena, numa casinha de pau a pique, morava com os pais, uma irmã mais velha e a caçulinha.

Era uma família simples, trabalhadora.
A casa dentro de uma fazenda, afastada da casa dos patrões, o pai trabalhava na lida no curral, tirando leite, a mãe, cuidava das crianças e da casa.

Raramente recebiam visitas de parentes. Mas quando vinham, deixavam os pequenos felizes, pois, embora tivessem crianças na casa, não eram de muita interação, pelo menos a menina não se lembra. As conversas eram só nas horas de visita. Conversa não, pois ficavam só escutando as prosas e contos na beira do fogão a lenha. Criança não se entromete nas conversas de adulto, ouviam dos pais!
Tinha uma visita que era constante, ia filar uma boia ou um café com bolo da comadre Maria e do compadre Beto, como ele chamava os pais da menina (mas não era padrinho de ninguém).
Sujeito bonachão, solteirão, não tinha parentes era amigo da família e estava sempre presente e solícito. Trazia balas, doces e mimos para os pequeninos da casa.

Os pais tinham muito apreço pelo Vitão (sim, esse era o nome dele).
A pequena se lembra que sempre estava perto dele. Quando ele chegava, se sentava num banquinho de madeiras e chamava a pequena para sentar no seu colo ou ficar perto dele. Se iam na missa ele aparecia e fazia questão de carregar a menina nos ombros até a entrada da fazenda, afinal era uma caminhada longa. Todos diziam que gracinha: ela gosta tanto dele! Que carinho ele tem por ela! Que xodó! Termo muito usado pela mãe.
Nunca nem imaginavam o que acontecia ali. Nem a menina.
Não demorou muito a família mudou de cidade em busca de trabalho e melhores condições de vida. A menina cresceu e um belo dia quando falavam de abuso sexual contra crianças, veio em sua memória um desses momentos vividos por ela. Foram flashes reveladores que acenderam sua memória!

A menina mulher estava brigando com a família, que conversavam sobre um caso de tentativa de abuso contra a filha da vizinha, diziam inclusive que a criança houvera provocado e que estava muito saidinha, blábláblá…

Nesse momento a menina mulher em prantos grita e conta sua triste experiência:

Começou dizendo:

– Não existe essa de se provocar o abusador! São canalhas! Parem de defender o bandido!

Lembra daquele Vitão que vocês gostavam tanto?
Nunca disse nada porque não lembrava, mas me lembrei agora!

Ele se sentava no banquinho, na cozinha da casa, na beira do fogão a lenha e enquanto vocês conversavam, alheios ao que se passava, ele me punha de cócoras entre as pernas dele e seus dedos me invadiam… ninguém via, ninguém desconfiava.

Então, eu o estava provocando?

A mãe da menina mulher, emudeceu por cinco eternos minutos e lhe disse com tristeza:
Meu Deus! Você vivia grudada com ele, como eu ia imaginar? Ele sempre foi muito respeitador! Jamais desconfiei!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, divorciada, mãe de duas filhas moças, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.