Viajei pela Nova Zelândia por aproximadamente 20 dias no final de 2017. Era meu período de férias de final de intercâmbio na Austrália.

Não fui sozinha. Fui com um namorado que tinha conhecido na Austrália. Ele era alemão.

Não sei se você sabe, mas alemão (ou pelo menos a maioria) ama uma trilha. Não qualquer uma, não uma curtinha de uma ou duas horinhas, as longas são as preferidas.

Uma brasileira tinha me contado que esse passeio, o Tongariro, era imperdível e de boas para quem nunca tinha feito trilha longa que nem eu. Esse monte fica na ilha norte da Nova Zelândia e possui três vulcões ainda ativos, sendo que a última erupção foi em 2012. Um desses vulcões interpretou Mordor e Emyn Muil na trilogia do Senhor dos Anéis, e como leitora do livro e fã dos filmes, claro que eu queria visitar né?

20 quilômetros me pareciam ok, afinal, estava acostumada a andar mais ou menos isso por dia enquanto viajava.

Preparamos várias marmitas e lanchinhos um dia antes, afinal chegaríamos as 6 da manhã e terminaríamos lá pelas 3 ou 4 da tarde a nossa “caminhada”.

Chegamos animados, conversando, e tirando fotos de toda aquela belezura, uma paisagem tão distinta de tudo que já tinha visto. Acontece que eu nunca tinha passado mais de duas horas fazendo trilha na vida, e veja bem, isso não era bem uma trilha de boas como me contaram, e sim a escalada de um vulcão até o topo, lembrando que eu tinha que descer tudo de volta também. Eram então dez quilômetros subindo e dez quilômetros descendo. Esse era o chamado Tongariro Alpine Crossing.

Eu era lerda, muito lerda. E meu namorado, bom, mais fit e acostumado a tudo isso era bem mais rápido do que eu. Em vários momentos falei que ele podia ir na frente sem mim, eu o alcançaria. Ele estava com meu celular e eu com minha câmera.

Parecia que o topo nunca chegava. Caminhei, caminhei, caminhei. Vi restos de neve ao longe (pela primeira vez na vida), subi algumas partes me agarrando a correntes. Sentei em pedras, tirei meus tênis e derramei de dentro deles aquela areia vulcânica como se tivesse enterrado meus pés por lá. Mas aquela monocromia cinza já estava me cansando um pouco, afinal, onde estava todo aquele glamour do Senhor dos Anéis?

Eu e meu namorado não combinamos de ele me esperar em lugares específicos. No começo, ele me esperava mais, perguntava se estava bem e seguia só depois de eu pedir para ele ir em frente. Depois de perceber que eu sempre estava bem, quando chegava perto, ele já desandava a avançar de novo. Acontece que eu tinha certeza que era mais do que óbvio que ele me esperaria no topo né? Só que ele não esperou. Esse abominável ser chegou no topo já descendo a bendita da montanha. Não deu nem tempo de gritar. Fiquei em choque, lá em cima, só observando ele praticamente correr ladeira abaixo, indo embora com meu celular e com meu possível sonho de qualquer selfie.

A vista dava para um lago de águas verdes lindo demais, e eu queria fotos com ele do meu lado e essa vista. Queria selfies com meu celular. E o sonho se foi, perdido, se tornando uma utopia da escalada do Tongariro.

Pelo menos eu tinha minha câmera, e ainda aturdida, pedi para um estranho tirar fotos minhas com ela. Ainda bem que ficaram boas, pois seria minha única recordação e prova de que cheguei ao cume.

Fumegando de raiva, tentei respirar fundo e aproveitar a paisagem. Depois de tentar me acalmar o suficiente, segui caminho. Fui descendo, e nossa, como era difícil. Aquela areia cinza vulcânica era muito fofa, a descida muito íngreme e a impressão que eu tinha era que eu poderia sair rolando a qualquer minuto. Uma alma caridosa percebeu a minha dificuldade e me avisou para eu descer andando de lado, tipo um caranguejo. Foi muito melhor assim. De qualquer maneira, meu pé afundava cada vez mais, e meu tênis antes amarelo virou cinza carbono.

Já ao longe comecei a ver aquele pontinho amarelo neon: meu namorado.

Me concentrei em terminar a descida sem passar vergonha, e fui direto a ele perguntar o porquê não tinha me esperado lá em cima, pois queria ter tirado fotos com ele e com meu celular. Foi um ataque digno de um mini cão raivoso. Não dei tempo para respostas. Estava fula da vida. Continuei minha caminhada andando cada vez mais rápido e deixando ele pra trás. Não queria papo.

Só que ele tinha a mochila da comida. E mais cedo ou mais tarde eu teria que parar e esperá-lo, pois meu estômago já estava começando a reclamar.

Parei em umas pedras e aguardei. Lá vinha ele, novamente. Parecia assustado, afinal até então ele nunca tinha presenciado meu ataque de mini Pinscher. Exigi minha refeição e sentei para comer. Depois me senti mais calma para conversar sobre o que tinha acontecido e o que eu não tinha gostado.

Tudo bem que não fui a pessoa mais bem humorada na descida. Aquele caminho parecia infinito e não havia tempo para descanso, se não perigava de ficarmos sem ônibus.

Finalmente, chegamos. E a melhor sensação foi ter sentado naquele ônibus para voltar e escutar ele dizendo: “Pronto, acabou. Está tudo bem agora.”

No hostel, a alegria de um banho quente, uma cama grande e uma pizza me trouxeram de volta à feliz normalidade.

Ariela Maier – Bela urbana. Uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier