Hoje me vejo me redescobrindo, como se tivesse me perdido por aí ( nem sei onde) e acabado de me achar. Me olho… não sei exatamente como funciono, como reajo, o que me falta, o que quero e o que tenho a oferecer.

Triste isso? Não é não… parece mas não é ! Na verdade estou encarando como uma conquista… uma libertação!

As pessoas falam de relacionamento abusivo como se resumisse em palavras grosseiras, agressão física ou algo muito escancarado que só a vítima não vê.

Pessoal, as agressões de todo tipo são horríveis e fazem parte da relação abusiva, mas vai muito além disso. Não é fácil se perceber sendo abusada ou abusado. Vamos abrir os olhos e principalmente nossa intuição.

Acabo de sair se um relacionamento abusivo de 10 anos.

Minha maior dificuldade é entender tudo que passei. Uma confusão mental horrível.

Me pego com culpa, saudade, raiva, medo… por anos fui tratada como inadequada, incapaz, dependente. A minha opinião não tinha muito valor porque eu era toda inadequada perto dele, um ser autosuficiente, autodidata, talentoso, que não precisava de médico, psicólogo, professor…nem de Deus. Qualquer coisa que eu precisasse eu podia consultá-lo que ele ia me dar as respostas corretas.

Uma pessoa extremamente inteligente e sedutora, que tinha o dom da palavra. Tanto tinha que não me deixava falar… quando ia expor minha opinião sobre qualquer coisa que não concordasse na relação, ele falava sem parar, me culpando, acusando, diminuindo meus sentimentos e raciocínio. E eu ficava perdida e irada com aquele jeito injusto de me tratar. Mas no fim acabava com dó dele… uma pessoa que tanto sofreu na vida e eu uma garota privilegiada, de classe média, com um passado totalmente inadequado… deveria sim procurá-lo para fazer as pazes. Eu não estava errada mas ele se perdia porque sentia muito ciúme de mim. Isso porque me amava muito, eu era única para ele. E isso me fazia sentir importante!

Somente ele me trataria de forma tão especial, mais ninguém no mundo.
Ganhei uma coleção de poemas, um mais lindo que o outro. Realmente muito bem escritos e que me faziam sentir uma espécie de deusa. Era como se eu tivesse achado meu príncipe encantado, uma pessoa que me via de forma única, me conhecia como ninguém, me realizava sexualmente, me protegia, me cuidava … e era só ele que fazia isso. Todas as outras pessoas, apesar de terem boas intenções, não sabiam o que eu precisava para ser feliz. Nem eu sabia. Só ele sabia. E este padrão se repetia com os filhos também. Todos nós éramos tratados com uma espécie de seguidores dele.

Era estranho as vezes, era doído outras, mas no final eu acabava fazendo as pazes, mesmo sem ter conseguido me fazer ouvir.

Começou rejeitando totalmente meu passado, eu fui desleixada, uma mulher que teve muitos namorados e não poderia ser valorizada por nenhum homem, a não ser ele, que topou ficar comigo e me mostrar uma vida diferente, mais respeitosa, mais contida, a vida de uma mulher de valor. Minhas amigas também era inadequadas, todas! Afinal fizeram parte de um passado meio fútil. Não teria como manter vínculos, pois teria que escolher entre elas ou ele. E ele estava me conduzindo para uma vida de família, mulher correta, mãe respeitável. Então, sumi da vida delas !

Minha família também era bem inadequada. Na verdade não era família. Eu mal convivia com alguns, então se era para ver só em festas e no Natal não eram pessoas que eu poderia contar. Quem estava do meu lado dia e noite era ele. Ele sim era minha família.

Minha mãe e minha tia, as pessoas mais próximas da minha vida, erraram muito comigo porque me superprotegiam e por isso não fiquei preparada para os sofrimentos da vida. Afinal, viver é sofrer, não é ? O sofrimento tem um valor muito grande porque viver sorrindo é coisa de gente vazia, fútil .

No trabalho eu era mediana, muito aquém dele. Deveria sim pedir dicas, conselhos para conseguir crescer e ter a visão dele. Ele, como gerente bem sucedido, era a única pessoa que ia poder me dar conselhos certeiros. Fui promovida algumas vezes e, por coincidência ou não, estávamos brigados e estive sozinha para comemorar comigo mesma as minhas conquistas.

Sozinha, engraçado como me sentia sozinha!

Nas brigas, que eram muitas, eu sempre estava muito errada, e no final, me sentia tão injustiça em não ser ouvida, em não ter meus sentimentos respeitados, que me enfurecia. E aí, além de errada eu era descontrolada.
Como posso falar em paz se eu não tenho paz? Como posso falar em Deus se sou tão desajustada ?

E assim fui me distanciando de Deus, de mim mesma, da minha família, dos meus amigos… me perdendo… e me achando inadequada pelas minhas escolhas.

Graças a Deus, algo dentro de mim pulsava e não me deixava entregar totalmente àquela situação. Não tinha consciência de tamanha manipulação, mas minha intuição me dizia para continuar com meus sonhos, com meus planos, com meu sorriso e com minha alegria nata.

Mesmo perdida eu continuava cultivando dentro de mim coisas muito boas e isso me salvou!

Hoje, recém separada, ainda me vejo muito frágil, por vezes me sentido inadequada ou errada, com pena dele, que tanto sofreu neste casamento… mas a lucidez tem me presenteado com momentos como este que consigo claramente enxergar a toxicidade da relação em que me encontrava.

Distante, vejo melhor. Como se me distanciasse da neblina.

Queria deixar um recado para as pessoas que se sentem confusas em uma relação tóxica. Esta confusão é a famosa manipulação e ela a responsável pela maior perda que se pode ter: a lucidez.

Não se deixe ficar confusa ou confuso. Medite! Respire! O amor é leve, não machuca, não vem cheio de exigências, não te diminui, não te cobra, não faz você ficar confusa e se sentir incapaz de nada. O amor também não te trata como deusa ou deus. Se sente algo de errado aí dentro, dê atenção a isso. Se escute! Se perceba!

A pior coisa que podem te roubar é a sua lucidez. Resgate-a.


MULHER – Bela urbana, 35 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Não entendia o que estava errado, mas sentia que algo em alguns momentos não ia bem.

Digo alguns momentos, porque em outros tudo ia muito bem. Começou a debochar de amigos meus que não conhecia. Comecei a me afastar sem eu mesma perceber.

Certa vez, uma grande amiga minha que não mora na minha cidade, combinou que queria me ver. Marcamos um almoço, ela foi com seu marido e eu com ele. Depois que nos despedimos começou a dizer que já a conhecia de outros tempos, dando a entender que rolou algo com ela no passado. Nitidamente querendo me deixar insegura, mas eu não caí na armadilha, porque conhecia muito essa amiga e seus namorados desde a adolescencia.

Porém, caí em outras ciladas que me desestabilizavam, com outras histórias de mulheres, comecei a desejar até mal para essas pessoas que fizeram parte da vida dele no passado que eu nem conhecia. Uma loucura? Totalmente.

Um dia estava na recepção de um consultório e peguei uma revista, comecei a ler uma matéria sobre Relacionamentos Tóxicos, eram cinco depoimentos de pessoas que viveram isso em situações diferentes, lembro de um caso de uma mãe e filha que achei muito triste, mas todos traziam situações e sensações parecidas com o que eu estava vivendo.

Como a revista era um pouco antiga…. levei a revista embora… não sou de fazer isso, mas eu precisava ficar com aquilo perto de mim, para reler e pensar sobre tudo aquilo. Consegui fazer tudo mudar, mas não foi imediato. Nem sempre conseguimos ser tão racionais e rápidos quanto deveríamos.

Coloquei limites. Seguimos…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

1º namorado da filha.
Ela tinha 17 anos. Linda, alegre, cheia de vida, no auge da juventude, aguardando ansiosamente seus 18 anos e a liberdade de ir e vir que viria a conquistar.
Ele tinha 25 anos. Moço lindo, forte, saudável! Soube conquistá-la. Ela se apaixonou!
No início, a diferença de idade me assustou. Meu receio seria de que ela deixasse de viver boas experiências de vida que a maioridade lhe permitiria. Não queria que ela pulasse etapas da vida. Ainda teria uma faculdade pela frente e muitas aventuras por viver.
Meu coração desejava vê-la feliz e sendo assim acabei apoiando a sua escolha e, de verdade, me senti feliz por ela ter alguém com quem compartilhar bons momentos. Ele foi muito bem recebido e acolhido pela nossa família. Ela idem pela família dele. Harmonia!
No início tudo ia bem, ele a tratava como uma princesa, e ela orgulhosa por tê-lo como namorado. Ela já tinha tido outros paqueras, ficantes, como os jovens dizem, mas namoro mesmo, esse era o primeiro. Os passeios eram sempre pra jantar, visitar os avós, cinema, tudo em paz.
E aí, chegou a faculdade. Com tudo o que pertence a esse universo.
Nova fase, novos amigos, encontros em bares, trabalhos em grupo, festas, jogos universitários. Chegaram também muitos conflitos regados com uma boa dose de ciúme. Foi aí que tudo começou a ficar estranho. De repente, os encontros terminavam em choro ou com ela se culpando por algo que NÃO fez. Isso mesmo, ela passou a ser a culpada por tudo, a responsável pelas brigas e discussões. Senti que ele a estava manipulando, dizendo como deveria ser e agir. Passou a escolher quem eram os amigos legais que ela deveria manter e quais não eram e ela deveria se afastar. Vieram as discussões, as festas terminadas em briga, o mal estar na família e o principal que eu via no olhar dela: a alegria dando lugar à tristeza! Seu riso solto foi ficando mais raro, seu olhar entristecido parecia quase sempre querer dizer algo.

Suas amigas mais próximas, viam o mesmo que eu. Com a ajuda delas, enviamos textos com o tema relacionamento abusivo para tentar alertá-la. Nada parecia surtir efeito.
Conversei muitas vezes com ela, e estive muito próxima, porém discutimos algumas vezes e tive medo dela se distanciar de mim. Era tudo o que ele queria, nos afastar para poder exercer sua total influência sobre ela sem ninguém para atrapalhar.
A alertei e esperei que o tempo lhe mostrasse a verdade e entreguei a Deus! Mas… monitorando! Sempre atenta.
A gota d’água para mim, foi numa noite em que estávamos jantando em uma pizzaria pouco antes de embarcarem para uma viagem juntos e ele protagonizou uma cena machista. Após uma provocação da parte dele, começaram uma discussão, ele tentou desmoralizá-la na frente de seu pai e em determinado momento ele lhe apontou seu dedo em riste, intimidando-a. Aquilo me doeu! Como mãe e como mulher, pois isso também me machucaria se fosse com uma desconhecida na mesa ao lado. Enfrentei-o e aí a discussão foi comigo.
Embarcaram e voltei pra casa! Triste, arrasada e com medo.
Chorei, chorei, chorei até não poder mais e me perguntei mil vezes como que ela não via isso? Uma menina criada e educada para ser dona de si.
Estava sendo completamente manipulada por ele. Que poder é esse que os manipuladores tem!
Passaram um mês viajando, foi o período mais tenso que eu já tinha vivido. E se ele fizesse algo a ela, tão distante de mim? Rezava o tempo todo, pedindo para que tudo corresse bem.
Meu coração não estava apertado a toa, ela me contou um tempo depois que, durante a viagem, tiveram outras discussões e algumas atitudes que ele teve que fizeram soar o alerta dela.

Dois meses após o retorno da viagem, o tempo veio trazendo a verdade e ela acabou o namoro.
Na última discussão que tiveram, ele a retirou, contra a vontade, do ambiente em que ela estava com sua turma, e saiu dirigindo com ela de passageiro em alta velocidade, totalmente descontrolado, falando, segundo ela, coisas horrorosas.
Ela teve medo! Discretamente pegou seu celular, chamou o último número discado e deixou que alguém ouvisse os absurdos que estavam sendo ditos, acho que querendo uma testemunha caso algo acontecesse com ela. Mas, graças a Deus e seu anjo da guarda, a única agressão física foi um puxão de cabelo.
Ele a deixou na porta de minha casa. Ela abriu a porta chorando, gritando que ele era um louco, um doente e ele saiu novamente descontrolado com o carro em alta velocidade.
Nesse dia ela deu um basta.
Não parou por aí, porque ele ainda insistiu em voltar por um bom tempo. E ela chorava porque se achava a pior pessoa do mundo, achava que nunca ficaria livre dele e o pior, pensava que só era uma pessoa melhor quando estava com ele. Perdeu sua identidade, sua autoestima, perdeu a confiança nos homens e levou um bom tempo até dar nova chance ao Amor.
Nesses dois últimos anos, com muito amor da família e algumas boas sessões de terapia ela está se recuperando, porque leva um tempo ainda para deixar esse episódio no passado. Sim, porque ela vai levar essa experiência pela vida toda. Toda ferida cicatriza, porém deixa marcas.
Hoje ela conseguiu vencer o medo de novamente se relacionar com alguém e está vivendo uma história bem diferente.
O mais importante é que está tendo a oportunidade de ser quem deseja ser e está feliz e confortável, dentro de si mesma. Está fazendo as pazes consigo mesma.

Mães, fica aqui meu recado: é nossa missão zelarmos pelo bem estar de nossos filhos, estarmos atentas. As vezes pode parecer que estamos exagerando, mas sigam o coração, ele nunca nos engana. Observem as relações de seus filhos e não se calem!


MULHER – Bela urbana, 50 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180


Um dos grandes desafios da vida é conseguir identificar se o que estamos vivendo nos faz bem, ou se estamos simplesmente acostumados com o que estamos vivendo.

Relacionar-se é uma manifestação constante de sentimentos, sonhos, admiração e respeito.

Por sua vez, quando começamos a pensar:

  • Que a relação irá melhorar;
  • Que a promessa um dia irá acontecer;
  • Que a esperança é um sentimento que sustenta “o nada”; e
  • Que nos apaixonamos por uma expectativa.

Temos que nos conscientizar se isso é saudável ou se é somente uma expectação (relacionamento abusivo).

A seguir, irei enumerar alguns sintomas sobre relacionamento abusivo e gostaria de que seja feita uma simples reflexão:

  • A pessoa costuma a humilhar e desvalorizar?;
  • Costuma deixar confusa(o) em relação ao ocorrido, justamente para não chegar a nenhuma conclusão e com o intuito de manipular a percepção da vítima?;
  • A crítica passa ser usual e quando a vítima propõe alguma conversa, a pessoa se recusa a falar do relacionamento?;
  • O controle passa a ser uma condição para continuar o relacionamento (comportamento de dominância)?;
  • O afeto não existe e o único sentimento que a vítima vivencia é a culpa?;
  • A pessoa, intencionalmente, isola a vítima de seus familiares?;
  • O dinheiro é um fator de controle?;
  • Sempre são ditas frases do tipo: “Eu te amo, mas…”?;
  • Há mal humor extremo?;
  • A pessoa faz piadas constantes sobre as suas características?;
  • Enfrenta relações extraconjugais?;
  • Controla vestimentas, postagens nas redes sociais?;
  • Exige senhas de e-mails, redes sociais e celular alegando amor?;
  • Há um sentimento de impotência, sem esperança?;
  • Sofre ameaças para fazer algo que não queira fazer?;
  • A pessoa convence a vítima de que ela nunca encontraria nenhum relacionamento bom como esse?;
  • A vítima tem o outro como alguém superior a ela?;
  • Investe muito tempo pensando e se dedicando à vida do outro?

Se a reflexão é afirmativa para alguns desses pontos, cuidado, pois são alguns sintomas clássicos de quem está em um relacionamento abusivo.

Há 6 (seis) tipos de violência, de acordo com a Cartilha “Mulher, valorize-se: conscientize-se de seus direitos”, publicada pelo Núcleo de Gênero Pró-Mulher da Coordenação dos Núcleos de Direitos Humanos (2012, Ministério Público do Distrito Federal e Territórios – MPDFT, 6ª edição, Dezembro/2015), a saber:

  • Psicológica: Qualquer ação ou omissão destinada a controlar ações, comportamentos, crenças e decisões de uma pessoa por meio de intimidação, manipulação, ameaça, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique em prejuízo à saúde psicológica. Vale lembrar da vítima que é proibida de trabalhar, estudar, sair de casa ou viajar, falar com amigos e familiares;
  • Física: Qualquer ação ou omissão que ofenda a integridade física, por exemplo, quando o corpo é agredido, beliscões, tapas, socos ou qualquer outro golpe dado com um objeto;
  • Patrimonial: Qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;
  • Moral: Qualquer ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a honra ou a reputação da mulher;
  • Sexual: Qualquer ação que obrigue uma pessoa a manter contato sexual físico ou verbal com uso da força, intimidação, coerção, chantagem, suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro meio que anule ou limite a vontade pessoal. Pode ser praticada por conhecido ou desconhecido; e
  • Simbólica: Que se expressa por meio da força da ordem masculina já instalada na cultura e convenções sociais.

A vítima exposta à situação aversiva, por um período considerado longo, apresenta um senso de realidade afetado e com isso se mantém nessa relação, pensando que todos os comportamentos ruins da relação são causados pela má compreensão da vítima para com o(a) agressor(a), sendo que o sentimento de culpa se instala de forma constante, recorrente e que se engrandece mais e mais.

Neste ciclo de violência instalado somente com a conscientização é que se poderá haver a discriminação dos aspectos do comportamento do(a) agressor(a).

Ainda, de acordo com a Cartilha “Mulher, valorize-se: conscientize-se de seus direitos”, citada anteriormente, 3 (três) fases do comportamento do podem ser identificadas:

  • Fase 1: Tensão – Nessa fase acontecem incidentes menores, como agressões verbais, ameaças e destruição de objetos. A vítima geralmente acredita que pode contornar o problema e que a situação está sob controle;
  • Fase 2: Explosão – A tensão acumulada na fase anterior evolui para agressões físicas de variadas intensidades. A constatação da violência pela vítima pode levá-la(o) a denunciar o(a) agressor(a) e a procurar ajuda;
  • Fase 3: Lua de Mel – Nessa fase ocorre a manifestação de arrependimento do(a) agressor(a), que geralmente se dispõe a mudar e justificar as agressões em diversos fatos, tais como: ciúme, desequilíbrio emocional, estresse, alcoolismo, dentre outros;

Infelizmente, a vítima acredita que o episódio foi um incidente e acaba se reconciliando com o(a) agressor(a), o que reforça ainda mais o relacionamento abusivo.

As consequências da violência doméstica/relacionamento abusivo são delicadas e podem permanecer durante muito tempo. Além das marcas físicas, ainda poderá haver influência na vida sexual da vítima, baixo autoestima e dificuldade em criar laços com outras pessoas.

Alguns sintomas como insônia, falta de concentração e memória, irritabilidade, falta ou aumento do apetite, aparecimento de depressão, ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático, comportamentos autodestrutivos, como o uso de álcool e drogas, ou mesmo tentativas de suicídio tendem a aparecer, com frequência.

Por certo, para que possa ser obtida a conscientização sobre o problema da violência doméstica, bem como para o empoderamento da vítima, torna-se primordial o auxílio especializado, psicoterapia, a qual é um pilar fundamental do processo de desvinculação do relacionamento abusivo, sendo que a ausência de referida ajuda acaba por atrasar, sobremaneira, a libertação da vítima.

Com a psicoterapia, a vítima passa a encontrar um objetivo de vida e começa a traçar metas para alcançá-las, dedicando o seu tempo a isso; passa a frequentar outros lugares sem o(a) agressor(a), com o intuito de aumentar o seu círculo social e não ter apenas uma pessoa como pilar de “alegrias”.

Ainda, no âmbito da psicoterapia, é trabalhada a “rigidez” da vítima, a autoestima e o autoconhecimento, sendo que a vítima é levada a refletir sobre os pensamentos, aprendendo a avaliar os seus sentimentos, a motivação de suas escolhas, o resgate de seus desejos e vontades, os quais ficaram escondidos por conta do relacionamento abusivo.

Nesses aspectos de revisita a si mesma, de reflexão sobre o ocorrido e aprendizagem na busca da variação/mudança do comportamento, imprescindível que a vítima de violência, fruto do relacionamento abusivo, seja auxiliada por um(a) profissional da psicologia, que é quem possui diversas “ferramentas”, técnicas científicas e métodos corretos para auxiliar na desvinculação do relacionamento abusivo, inclusive podendo a psicoterapia ser complementada por outros tipos de ajuda especializada.

Clarissa Saito Lopes – Bela urbana. Psicóloga Comportamental, Terapeuta clínica há 17 anos. Especialista em Terapia Comportamental pela USP. Formada pela PUC-Campinas. Casda,mãe do Heitor. Gosta de estar com sua família, viajar e ama o mar e o sol.
Contato: e-mail: clarissafyds@gmail.com
Celular: 19 991120055

Dou voz à uma amiga querida que quis se manter anônima.

Aos seus vinte e cinco anos, nos anos 90 passava por um período de grandes decisões, se preocupava com a mãe que beirava o divórcio, queria sumir, queria viajar para a Europa, se tratava de uma depressão, chorava todos os dias no trabalho, vivia uma vida dupla: trabalhava, chorava, estudava, se fazia de forte para que a mãe não percebesse seu real estado “fundo do poço” e saía com as amigas, bebia (muito) e buscava alguém para suavizar suas carências, nessa época seu amor próprio estava escondido em algum lugar impossível de ser encontrado, aliás era tão escondido que ela não conhecia essa palavra, não existia em seu vocabulário, sentia tanta angústia, tristeza e sentimentos de vazio, de desconexão que não conseguia traduzir nada disso, não conseguia elaborar, era o caos que a habitava.

O sexo era uma forma de buscar afeto, esse que sempre faltou na figura do pai, afeto que não conseguiu sentir do pai para a mãe, do pai para ela, afeto esse que a mãe desesperadamente buscava em seu marido e que também não sobrou para ela, ela se misturava com a mãe, ela sofria pela mãe, em
alguns momentos não sabia quem era ela, se filha da mãe ou ela mesma a mãe da mãe, queria proteger, tinha pena de si e da mãe. Assim nesse emaranhado ela se entregava a relações vazias e buscava com tanta ênfase o amor que era nítida a carência e tudo que conseguia era só sexo mesmo, como se os homens farejassem a falta, o buraco, o vazio que ela carregava consigo e tivessem medo de tal violência do sentir, era muita pressão emocional, como suprir isso em alguém? Como compartilhar uma relação,
como amar alguém assim tão carente, tão pela metade? Ela se envolveu sexualmente com vários rapazes da mesma turma, não namorou nenhum, uma noite pegou carona com um amigo da turma, esse ela nunca nem tinha beijado, não tinha nenhuma atração por ele, no portão de sua casa ao se
despedir ele tentou beijá-la e ela disse não, ele se ofendeu e retribuiu: “Se com os outros sim porque comigo não?” “Vai ter que ficar comigo também” e tentou forçá-la puxando-a com violência para si, ela saiu do carro rapidamente, nunca tinha sido tão humilhada e se sentido uma mercadoria, um corpo sem vontade assim na vida e nesse momento enxergou muitas coisas e como doeu, no entanto valeu por anos de terapia. Começou a se dar conta do machismo estrutural e seus efeitos, se fosse com um homem isso não teria acontecido, seria normal ficar com várias mulheres mas para uma mulher ter relações sexuais com vários homens não era, a desvalorizaram como ser humano, os chamados “amigos” falavam dela entre si e a “indicavam” para sexo fácil e quando ela não aceitou, um simples “não” se transformou em uma ofensa.

Aprendeu com esse evento, viu que se magoou demais também por estar vivendo uma fase difícil, estava fragilizada, entendeu que não era através de vários parceiros sexuais que iria resolver seus problemas emocionais, suas carências, compreendeu que de uma certa maneira não se respeitava
quando buscava afeto fora de si mas não se amava, entendeu que sofreu abuso primeiro de si mesma. A mulher por viver em uma sociedade machista, além de ter que passar por seus próprios conflitos internos inerentes ao existir, ainda tem que lidar com os homens que acreditam que elas são sua propriedade e isso não é justo. Vinte e cinco anos depois ela percebe mudanças, hoje em dia as mulheres são mais livres para viverem sua vida sexual plenamente, sem justificativas, não precisam mais buscar amor e sexo, podem buscar apenas sexo se assim o desejarem, sem sofrer por isso, esse conflito interno diminuiu, atribuo isso ao feminismo ter ampliado a visão das mulheres nos novos tempos. Por isso hoje ela acredita que uma das maneiras de evitar, interromper e se retirar de um abuso emocional de qualquer forma é amar-se, conhecer-se, respeitar a si e ao outro, saber dizer “não” essa é a blindagem contra qualquer abuso. Alguém disse: quando digo sim para alguém estou dizendo não para mim. Frase que ela leva para a vida. Hoje presta atenção ao que aceita, quando se aceita algo que não deveria é aí que o abuso é semeado.

Eliane Ibrahim – Bela Urbana, administradora, professora de Inglês, mãe de duas, esposa, feminista, ama cozinhar, ler, viajar e conversar longamente e profundamente sobre a vida com os amigos do peito, apaixonada pela “Disciplina Positiva” na educação das crianças, praticante e entusiasta da Comunicação não-violenta (CNV) e do perdão.

Belas Urbanas me pediu para escrever algo sobre violência doméstica (ou sobre o abuso físico ou psicológico que parte de uma pessoa contra outra). É notório que sempre me envolvo com temas relacionados às artes e pelo fato de ter publicado, constantemente, álbuns famosos que fazem aniversário… Vou falar, um pouco, de um disco feito por um casal intoxicado por uma relação afetiva.

Uma convivência extremamente difícil! Malgrado abusiva e violenta a intimidade, o trabalho em conjunto da dupla foi responsável pela criação de fundamentais discos da história da música popular!

Vou aqui indicar um álbum que está fazendo 50 anos em 2020… E feito pelo casal de artistas virtuosos: Ike Turner e Tina Turner.

O guitarrista e a cantora viveram juntos por 16 anos. A vida de Tina Turner foi um inferno (expressão usada por ela na autobiografia – I, Tina lançada em 1986).

O comportamento de Ike Turner é cruel e por todos reprovado.

O envolvimento triste do casal pode ser assistido no filme Tina – A Verdadeira História (Tina – What’s Love Got to Do with It).

Ike & Tina Turner Come Together (uma obra prima da música popular).

Fernando Farah – Belo Urbano, graduado em Direito e Antropologia. Advogado apaixonado por todas as artes!


Quando eu era menina, em torno dos meus 9 anos, tinha uma senhora que trabalhava como faxineira na casa de uma tia. Não me lembro o nome dela. A imagem que fazia da mesma, era de alguém com idade próxima a da minha avó, mas não sei se de fato ela tinha essa idade ou uma aparência muito judiada.

Certa vez, estávamos brincando na rua, ela apareceu caminhando em nossa direção, provavelmente voltando de alguma casa que limpava. Os adultos comentavam que ela apanhava do marido. Eu me lembro de olhar para ela e pensar indignada em várias perguntas que nunca tiveram respostas: Como assim ela apanha do marido? Ela é uma adulta (quando eu era criança era normal as crianças apanharem) por que deixa? Por que ela não bate nele, corre, foge?

Há uns anos, minha filha veio me contar que a mãe de uma amiga que morou no nosso condomínio apanhava do marido. Fiquei passada e perguntei como ela soube e por que não tinha me contado na época. Contou-me que um dia que caminhavam juntas na trilha do condomínio, quando a amiga disse que a mãe apanhava do pai, minha filha perguntou sem resposta: Como assim? Disse então: não pode. Na época do ocorrido ela devia ter os mesmos 9 anos que eu tinha no caso que contei acima.

Essa família ficou pouco tempo no condomínio. O pai era muito simpático e a mãe muito reservada, sempre usava roupas de mangas compridas, muito pálida e nunca descia para as áreas em comum. Eu desconfiava que ela tinha algum problema de saúde, mas como sempre foi muito fechada, não abria espaço para conversa. Uma vez fui buscar minha filha no apartamento de sua amiga e achei estranho a forma como a mãe se comportou, me senti incomodando e pedi para a minha filha acelerar para irmos embora rápido.

Hoje, sabendo que ela apanhava, consigo entender seu comportamento, suas roupas e sinto não ter percebido que isso acontecia e ter de alguma forma ajudado. Difícil pensar que essas coisas acontecem tão próximas a nós.

Os tempos mudaram, mas a violência doméstica ainda se faz presente em qualquer classe social. Precisamos romper esse ciclo. Estender a mão para a vítima, ligar para o 180, denunciar. Não ter medo.

Não quero ouvir daqui alguns anos, uma neta contar que soube de mais um caso de violência doméstica. Chega desse tipo de história.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Pessoas assim praticamente nunca agem sozinhos! Na grande maioria das vezes sua família apoia e reforça todos esses atos cruéis!
E comigo foi assim!

Uma família que achava que eu tinha dinheiro para sustentar os devaneios do filho! Uma família que apoiava, omitia graves fatos do passado! Uma família que finge o tempo inteiro uma bondade que jamais existiu! Uma família hipócrita! Encenam uma doçura que faz com que qualquer um queira fazer parte da vida deles!

E assim seguimos! Fomos morar juntos! Fizemos um casamento, que só após eu ter negado a proposta de emprego eu soube que seria somente encenação! Não seria no papel! Porque logicamente ele não se compromete com nada! E com toda sua postura esquerdomacho que se preze, me convenceu que papéis serviam apenas para provar algo para a sociedade e que nada disso importava para nós!

Eu vivia numa gangorra de emoções, num abismo prestes a despencar!

Fomos morar juntos e logo no começo eu conversei sobre o fato de não querer ter mais filhos antes de ter o “casamento” estruturado! Obviamente não fui respeitada, ele me invadiu sem permissão e eu engravidei!
Mas logicamente dizia que era por amor!

Já grávida fomos contar para a família dele, todos comemoraram! A mãe dele se emocionou, disse estar muito feliz com a chegada da primeira neta, quando todos saíram do ambiente que estávamos, ela olhou pra mim e friamente me questionou e disse que não era para eu ter engravidado antes da filha dela! Ali eu vi que seria só ladeira abaixo! Me vi numa novela, daquelas que nos deixam fixados na tela com tanta maldade!

E assim foi! Todo mês na data que comemoraríamos “aniversário “ de casamento, ela o chamava para almoçar! E ele ia, e se eu falasse algo… eu era louca e ressentida!

Logo no início da gravidez, me senti desesperada com toda a situação! Ele um vagabundo, não levantava antes das 14h para trabalhar! Eu super enjoada, tinha dias que nem água conseguia tomar…

A família dele falando que era mentira minha os enjoos! Certa vez o pai dele passou horas me ofendendo, eu chorando e tentando me defender! Dia seguinte fui parar no hospital!

Logo no início da gravidez, quando tentei questionar ele de algo que eu não concordava… ele pulou em mim e começou a me enforcar!

Quando eu consegui empurrar e correr, ele chorou muito! Implorando perdão e logicamente pedindo para que eu não fizesse ele chegar aquele ponto!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima