Quando lançamos a série de textos sobre relacionamentos abusivos, não imaginava o quanto isso era muito mais comum do que eu pensava.

Essa discussão se estendeu por mais tempo do que o previsto inicialmente, mas foi necessário, porque muitas vozes precisavam falar. Vozes que me procuraram e que por sentir que eu estava disposta a ouvir confiaram em mim suas dores e superações.

Aprendi muito com cada um que escreveu, com cada pessoa que me procurou, com todos as conversas que tive nesse caminhar. E olhando esse trajeto de um pouco mais de um mês, olhei tanto para mim mesma.

Nas minhas conversas comigo mesma, nos meus diários, agendas, textos guardados e nas minhas memórias, fui me buscando, me olhando de fora de mim e tentando enxergar quem fui eu, quem sou eu, quem são e foram as pessoas do meu lado.

Posso afirmar que é muito difícil alguém nunca ter vivido alguma situação que o tenha exposto, humilhado, o deixado frágil…. Muitos se negam a enxergar, muitos não conseguem sair do papel imposto, mas muitos outros conseguem buscar caminhos melhores, não aceitam as dores.

Aprendi que ninguém tem o direito de julgar o outro, julgar não agrega valor nenhum e não ajuda nenhuma vítima a se sair desse papel. Acredito que cada um faz o melhor que consegue fazer com o recurso interno que tem. Como podemos ajudar? Incentivando a busca do autoconhecimento, isso fortalece.

Ainda vivemos uma sociedade com muitos traços machistas, mas muita, muita coisa mudou e melhorou da geração da minha avó para a da minha filha, que salto positivo! Mas ainda precisamos mais como sociedade. Qual a parte que lhe cabe em tudo isso?

Agradeço a todos os autores expostos aqui e os anônimos que corajosamente compartilharam suas vivências, pensamentos, poesias, contos, reflexões. Com toda certeza os textos irão ajudar pessoas que se encontram em situações abusivas e que não sabem o que fazer. Esses textos são luzes.

Belas Urbanas não aceitam abusos.

Obrigada.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Quando eu tinha uns 7, 8 anos, muito feliz nas férias, num dia de piscina com parentes… um deles muito querido e muito mais velho do que eu, começou no meio das brincadeiras passar as mãos em mim! Sem cerimônia, com naturalidade na frente de todos… me enganchava na cintura e forçava minha genital nele! Eu sem entender, mas me sentindo muito mal, fiquei confusa e no fim das contas, lembro de ter pensado ser coisa da minha cabeça! Já que ele era tão legal e tão amado!

Aos 10 fui estuprada por outro parente. Quando contei para um adulto, eu apanhei.

No mesmo ano teve uma feira de livros na minha escola! Eu era louca por livros! Todos os dias eu saia da aula correndo para ver e escolher os livros que eu compraria. Num desses dias, sentada folheando um livro, o “tio” que estava responsável pela feira, sentou ao meu lado e enfiou a mão por dentro do meu shorts. Eu paralisei, perdi o ar e saí correndo. Contei para uma amiga, que não entendeu nada! Óbvio!

Com meus 13, 14 anos aquele parente da piscina foi dormir em casa. Eu e minha irmã muito felizes pedimos para ele dormir no nosso quarto. Deitamos todos juntos, e quando minha irmã dormiu ele colocou as mãos dentro da minha calcinha. Eu saí correndo, me tranquei no banheiro e chorei por horas.

Tempos depois voltando pra casa, percebi que estava sendo seguida na rua, me enfiei dentro de um orelhão, e o cara tentou me agarrar. Comecei a gritar e ele saiu correndo. Eu quase desmaiei de tanto pavor.

Mais tarde já, fiz um curso de massagem ayurvédica, comecei a trabalhar num espaço e deixei claro que não atenderia homens. Um dia a dona do local praticamente me obrigou a atender um cliente. Fui extremamente profissional, fria. Pedi pra que ele ficasse de cueca e colocar o lençol por cima. Em certo momento ele tirou o lençol, estava sem a cueca e pediu para que eu massageasse o pau dele.

Levantei e saí! Eu tinha pesadelos com ele correndo atrás de mim. Procurei um psiquiatra porque já não conseguia mais dormir em paz. Ele queria me medicar, eu disse que não poderia pois tinha filho pequeno e precisava estar atenta. Então, ele propôs sessões de terapia. O psiquiatra devia ter uns 80 anos. A cada sessão eu deitava num tipo de divã e ele sentava numa poltrona atrás, onde eu não conseguia ver. Numa das sessões percebi algo estranho, mas teimava em não acreditar. Até que na próxima eu ouvi ele abrindo o cinto e fazendo barulhos estranhos. Dei um pulo, e quando vi ele estava com a calça aberta com o pau de fora, tentou me agarrar. Eu saí correndo desesperada! Ele ligou na minha casa algumas vezes, eu atendia fingindo não ser eu.

Depois fui morar com um namorado. Um dia não queria ter relações, ele me obrigou. Mesmo eu estando imóvel, ele fez o que queria, depois virou para o lado e dormiu, bem tranquilo.

Fui assediada inúmeras vezes no trabalho. Tive um chefe que me pedia para buscar coisas o dia todo para poder ver a minha bunda. Um dia falou isso rindo para mim. Trabalhei num restaurante como auxiliar de cozinha. Um dos profissionais me trancava na câmera fria vez ou outra para me agarrar. Eu entrava em pânico, tinha luta corporal e algumas vezes ele falava que não adiantava gritar, porque ninguém iria me ouvir. Me pressionava na porta e enfiava a língua na minha boca. Um outro auxiliar vivia passando a mão na minha bunda. Um dia com raiva peguei ele pela gola e quase dei um soco no nariz. Mas tive medo. Eu era a única mulher dentro da cozinha.

Aguentei anos o pai de uma colega do meu filho descaradamente me assediando. Me ligando, me chamando para sair. Um dia indo para um aniversário de uma criança da escola, quando cheguei ele estava no estacionamento, tentou me beijar à força na frente do meu filho, que obviamente estava sem entender nada. Fiquei anos querendo contar para um casal de amigos da mesma escola, mas tive medo e vergonha.

Minha filha nasceu e eu já estava separada do genitor, ao ir no médico para ver os pontos da cesárea, o médico nem olhou para minha cara, mas disse para o genitor que eu já estava boa para uso! Dias depois o genitor tentou me forçar ter relação com ele. Eu tive uma crise de pânico. E ele acabou comigo!

Amigos, homens do meu círculo social, já me encoxaram com a desculpa de estarem bêbados, homens do meu convívio que até hoje quando cumprimentam vem beijar no canto da boca! E muitas das vezes mesmo eu sendo quem sou hoje, não consigo falar, nem agir na hora. Fico tremula e paralisada.

Amigos do meu marido que se emputessem com meu posicionamento e me chamam de feminista escrota, idiota e por aí vai!

É a primeira vez que escrevi num relato só quase todos os abusos que sofri na vida!
Mesmo depois de tantos anos e mesmo num processo de cura constante, muitos deles eu não tinha coragem de contar! Agora eu tenho, eu preciso!

Passei anos da minha vida achando que o problema estava em mim. Hoje entendo que não!
Não conheço infelizmente NEMHUMA mulher que não tenha sofrido abusos! Umas mais outras menos!

Hoje eu vivo em alerta! QUALQUER homem é sinal de perigo! Quando estou dirigindo estou SEMPRE ATENTA às mulheres que estão a pé.

Ano passado quase bati meu carro, por ver um homem batendo na mulher no meio da rua, uns dez homens olhando sem fazer nada! Parei o carro e comecei a berrar enquanto chamava a polícia. Dias depois ao lado da portaria do meu prédio, vi um homem indo para cima de uma mulher, pressionando ela na porta de uma loja fechada, ela estava no ponto de ônibus. Fingi que conhecia ela, abracei e joguei pra dentro de prédio. Ela quase desmaiou e tivemos uma crise de choro!

Anos atrás, fui pedir ajuda para um conhecido para como proceder para auxiliar uma amiga que tinha sido estuprada. Primeira coisa que ele me perguntou, foi se ela era bonita! Ele me perguntou sorrindo!
Eu vomitei dias, não conseguia trabalhar, meu corpo doía.

Alguns anos atrás uma amiga foi jogar o lixo na lixeira da rua, e o vizinho idoso a agarrou! Eu lembro do desespero dela!

Passei por inúmeras sessões de terapia chorando copiosamente de desespero em pensar que tenho filhas, nesse mundo de homens tão escrotos e de uma sociedade tão machista! Que nos tratam como nada, como pedaço de carne a ser consumido!

Eu sei que dói ler tudo isso! E sei que muitos virão aqui solidários a toda essa dor!
Mas a dor é de todas nós.
Precisamos estar atentas sempre, dentro das escolas, nos parques, nas ruas, no ponto de ônibus, dentro das nossas casas e por aí vai!

Todos os minutos, todas as horas, todos os dias têm crianças, adolescentes, jovens, adultas sendo abusadas, estupradas!

Precisamos estar atentos!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Todos nós possivelmente conhecemos ou tivemos contato com uma mulher que já vivenciou violência doméstica ou viveu um relacionamento abusivo.

Esse tema que tem sido cada dia mais evidenciado em nossa sociedade é realidade há muitos anos e felizmente tem despertado uma voz para o combate contra esse tipo de experiência vivido dentro de muitos de nossos lares.

Um relacionamento abusivo é capaz de deixar marcas irreversíveis não só para a vítima, mas também nos filhos e familiares que muitas vezes convivem com este cenário.

Mas e quando a vítima está no nosso ambiente de trabalho?

Quando a vítima é a nossa colega de trabalho que todos os dias se senta ao nosso lado e compartilha as tarefas da empresa?
Quando a vítima é o seu liderado e você precisa que ele produza e dê resultados?
Qual o papel da empresa diante desse problema?

Ainda ouvimos muito “Que os problemas de casa ficam do lado de fora quando se chega na empresa e os da empresa não se levam para casa”.

Esse famoso jargão utilizado muitas vezes por chefes e profissionais é uma realidade totalmente ilusória quando falamos de pessoas.

É impossível deixar nossos pensamentos e esquecer nossos problemas num simples passo de mágico ao bater o nosso ponto e voltarmos a vida quando encerramos o nosso expediente.

Quando se vive um relacionamento abusivo, nenhuma mulher simplesmente deixará de lembrar da violência que sofreu e passar todo o período de sua carga horária sem pensar no que a espera ao retornar para casa no final do seu expediente.

Uma organização é feita de pessoas, pessoas que possuem seu gênero, classe social, crenças. Pessoas que tem sentimentos, que sofrem, que possuem seus problemas pessoais fora do ambiente de trabalho.

É extremamente importante que as empresas despertem um olhar humanizado para cada um de seus colaboradores e se conscientizem que investir e olhar para seu capital humano (pessoas) é essencial e possibilita inúmeros retornos positivos para a organização.

Ainda são poucas as empresas que olham para o que acontece fora do ambiente de trabalho com seus colaboradores, principalmente quando o assunto se refere-se à violência contra as mulheres.

Uma pesquisa realizada pela Talenses Group, em parceria com a Rota VCM e o Movimento Mulher 360 (MM360), identificou que 68% das companhias acreditam que esse é um problema que deve ser encaminhado internamente, entretanto, a mesma porcentagem não possui políticas e ações para apoiar funcionárias vítimas de violência doméstica.

Tanto o RH, quanto os gestores precisam estar preparados e saber como agir nessas situações e o apoio é fundamental na ajuda ao colaborador.

É preciso iniciar um processo de mudança de cultura na empresa.

O primeiro passo é conscientizar gestores e líderes a se preocupar e olhar para cada colaborador com cuidado e verificar a possibilidade de sinais de abuso que suas colaboradoras possam estar sofrendo.
Nem sempre a queda na produtividade estará relacionada a desmotivação profissional e é possível que esse comportamento indique que o colaborador possa estar passando por problemas pessoais que tem interferido na sua vida profissional.

As empresas precisam iniciar um processo de sensibilização e treinamento das lideranças e equipe sobre o tema para que as vítimas se sintam seguras e possam buscar apoio e auxílio na própria empresa sem críticas ou julgamentos.

Não apenas o RH, mas as lideranças precisam estar preparadas e dispostas a olhar para o seu colaborador como um ser humano e transmitir a eles que podem encontrar na empresa e na sua liderança apoio e compreensão em relação as questões que não ocorrem apenas no ambiente de trabalho.

O colaborador precisa encontrar na liderança não só apenas um orientador em relação as atividades desempenhadas e saber que além da espera de resultados ele também pode encontrar na empresa um ambiente de apoio e compreensão nas suas questões humanas.

No caso do assédio além dos conflitos internos que a colaboradora enfrenta como o medo do agressor, existe a vergonha que muitas vezes a impede de falar sobre o assunto.
Em muitos casos pode até ocorrer que a vítima deixe o trabalho por medo do julgamento ou vergonha o que pode piorar ainda mais a sua situação.

É preciso muito cuidado ao tratar desse tema e a empresa tem que estar preparada para dar apoio psicológico para sua colaboradora, além de orientações ao que ela pode e deve fazer orientando sobre leis e criando políticas internas para acompanhamento dessa colaboradora.

É extremamente importante que a colaboradora se sinta segura e amparada pela empresa de forma a entender que embora a situação que ela vive não esteja ligada ao profissional e sim sua vida pessoal a empresa se preocupa e ela pode contar com o seu apoio.

Precisamos desmitificar a ideia de que “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, principalmente quando falamos de violência e abuso contra a mulher.

Em uma sociedade que cada dia mais busca sua igualdade e direitos, onde falamos de empatia e olhar para o próximo é impossível não se ter uma visão cada vez mais humanizada dentro do ambiente corporativo.

Precisamos entender que cada colaborador é um bem extremamente valioso que deve ser cuidado e valorizado e que todo investimento pessoal é fundamental para o sucesso de toda organização.

Aline Pestana – Bela Urbana. Gerente Administrativa, com atuação na área financeira e Recursos Humanos. Mãe, esposa, cristã, de um coração enorme e sempre aberta a ouvir e ajudar o próximo. Tem como paixão decorar festas e organizar eventos. Não desperdiça uma oportunidade de viajar com a família e acredita que exemplo, momentos e lembranças é o que de mais valioso podemos deixar aos nossos filhos.

Hoje me vejo me redescobrindo, como se tivesse me perdido por aí ( nem sei onde) e acabado de me achar. Me olho… não sei exatamente como funciono, como reajo, o que me falta, o que quero e o que tenho a oferecer.

Triste isso? Não é não… parece mas não é ! Na verdade estou encarando como uma conquista… uma libertação!

As pessoas falam de relacionamento abusivo como se resumisse em palavras grosseiras, agressão física ou algo muito escancarado que só a vítima não vê.

Pessoal, as agressões de todo tipo são horríveis e fazem parte da relação abusiva, mas vai muito além disso. Não é fácil se perceber sendo abusada ou abusado. Vamos abrir os olhos e principalmente nossa intuição.

Acabo de sair se um relacionamento abusivo de 10 anos.

Minha maior dificuldade é entender tudo que passei. Uma confusão mental horrível.

Me pego com culpa, saudade, raiva, medo… por anos fui tratada como inadequada, incapaz, dependente. A minha opinião não tinha muito valor porque eu era toda inadequada perto dele, um ser autosuficiente, autodidata, talentoso, que não precisava de médico, psicólogo, professor…nem de Deus. Qualquer coisa que eu precisasse eu podia consultá-lo que ele ia me dar as respostas corretas.

Uma pessoa extremamente inteligente e sedutora, que tinha o dom da palavra. Tanto tinha que não me deixava falar… quando ia expor minha opinião sobre qualquer coisa que não concordasse na relação, ele falava sem parar, me culpando, acusando, diminuindo meus sentimentos e raciocínio. E eu ficava perdida e irada com aquele jeito injusto de me tratar. Mas no fim acabava com dó dele… uma pessoa que tanto sofreu na vida e eu uma garota privilegiada, de classe média, com um passado totalmente inadequado… deveria sim procurá-lo para fazer as pazes. Eu não estava errada mas ele se perdia porque sentia muito ciúme de mim. Isso porque me amava muito, eu era única para ele. E isso me fazia sentir importante!

Somente ele me trataria de forma tão especial, mais ninguém no mundo.
Ganhei uma coleção de poemas, um mais lindo que o outro. Realmente muito bem escritos e que me faziam sentir uma espécie de deusa. Era como se eu tivesse achado meu príncipe encantado, uma pessoa que me via de forma única, me conhecia como ninguém, me realizava sexualmente, me protegia, me cuidava … e era só ele que fazia isso. Todas as outras pessoas, apesar de terem boas intenções, não sabiam o que eu precisava para ser feliz. Nem eu sabia. Só ele sabia. E este padrão se repetia com os filhos também. Todos nós éramos tratados com uma espécie de seguidores dele.

Era estranho as vezes, era doído outras, mas no final eu acabava fazendo as pazes, mesmo sem ter conseguido me fazer ouvir.

Começou rejeitando totalmente meu passado, eu fui desleixada, uma mulher que teve muitos namorados e não poderia ser valorizada por nenhum homem, a não ser ele, que topou ficar comigo e me mostrar uma vida diferente, mais respeitosa, mais contida, a vida de uma mulher de valor. Minhas amigas também era inadequadas, todas! Afinal fizeram parte de um passado meio fútil. Não teria como manter vínculos, pois teria que escolher entre elas ou ele. E ele estava me conduzindo para uma vida de família, mulher correta, mãe respeitável. Então, sumi da vida delas !

Minha família também era bem inadequada. Na verdade não era família. Eu mal convivia com alguns, então se era para ver só em festas e no Natal não eram pessoas que eu poderia contar. Quem estava do meu lado dia e noite era ele. Ele sim era minha família.

Minha mãe e minha tia, as pessoas mais próximas da minha vida, erraram muito comigo porque me superprotegiam e por isso não fiquei preparada para os sofrimentos da vida. Afinal, viver é sofrer, não é ? O sofrimento tem um valor muito grande porque viver sorrindo é coisa de gente vazia, fútil .

No trabalho eu era mediana, muito aquém dele. Deveria sim pedir dicas, conselhos para conseguir crescer e ter a visão dele. Ele, como gerente bem sucedido, era a única pessoa que ia poder me dar conselhos certeiros. Fui promovida algumas vezes e, por coincidência ou não, estávamos brigados e estive sozinha para comemorar comigo mesma as minhas conquistas.

Sozinha, engraçado como me sentia sozinha!

Nas brigas, que eram muitas, eu sempre estava muito errada, e no final, me sentia tão injustiça em não ser ouvida, em não ter meus sentimentos respeitados, que me enfurecia. E aí, além de errada eu era descontrolada.
Como posso falar em paz se eu não tenho paz? Como posso falar em Deus se sou tão desajustada ?

E assim fui me distanciando de Deus, de mim mesma, da minha família, dos meus amigos… me perdendo… e me achando inadequada pelas minhas escolhas.

Graças a Deus, algo dentro de mim pulsava e não me deixava entregar totalmente àquela situação. Não tinha consciência de tamanha manipulação, mas minha intuição me dizia para continuar com meus sonhos, com meus planos, com meu sorriso e com minha alegria nata.

Mesmo perdida eu continuava cultivando dentro de mim coisas muito boas e isso me salvou!

Hoje, recém separada, ainda me vejo muito frágil, por vezes me sentido inadequada ou errada, com pena dele, que tanto sofreu neste casamento… mas a lucidez tem me presenteado com momentos como este que consigo claramente enxergar a toxicidade da relação em que me encontrava.

Distante, vejo melhor. Como se me distanciasse da neblina.

Queria deixar um recado para as pessoas que se sentem confusas em uma relação tóxica. Esta confusão é a famosa manipulação e ela a responsável pela maior perda que se pode ter: a lucidez.

Não se deixe ficar confusa ou confuso. Medite! Respire! O amor é leve, não machuca, não vem cheio de exigências, não te diminui, não te cobra, não faz você ficar confusa e se sentir incapaz de nada. O amor também não te trata como deusa ou deus. Se sente algo de errado aí dentro, dê atenção a isso. Se escute! Se perceba!

A pior coisa que podem te roubar é a sua lucidez. Resgate-a.


MULHER – Bela urbana, 35 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

“Empreender é uma forma de amadurecer. ”

Isso foi o que eu ouvi de um terapeuta com quem na época fazia sessões de acupuntura, há 15 anos atrás, quando decidi largar o emprego e iniciar essa nova fase na vida.

Acredito que vários são os caminhos que podem nos trazer crescimento e conquistas. Mas certamente iniciar um empreendimento é um deles.

Temos que aprender a estipular metas.

Aprender a avaliar riscos. E ter a coragem de arriscar.

Chorar desesperadamente nos momentos em que o mundo parece conspirar contra você.

E se reinventar a cada dia.

Entrar em conflito com seus valores, princípios de vida. Até onde eu posso? Isso tá certo?

Saber dividir seu tempo, reavaliar prioridades.

E principalmente, SABER O QUE QUER, SABER ONDE QUER CHEGAR.

Algo em comum com o que temos que fazer com as nossas vidas?

Sim, empreender é uma forma clara de amadurecer.

Uma forma quase bruta de ter que conquistar a auto estima.

Porque entre erros e acertos, tropeços e recomeços, a vida se mostra plena e o universo coloca aos nossos pés todas as oportunidades que necessitamos para crescer, amadurecer e se auto conhecer.

Para aqueles que pensam em começar a empreender, o SEBRAE é uma ótima opção para encontrar orientações sobre abertura empresas, em qualquer ramo de negócio.

Aos que pensam em iniciar empresas de base tecnológica, sugiro procurar também, as incubadoras de empresas. Além do suporte administrativo, empresarial e jurídico, a interação com os demais empreendedores é sempre muito enriquecedora.

Relações abusivas podem acontecer em todos os âmbitos da nossa vida. Seja pessoal, familiar ou profissional.

Portanto, vamos nos fortalecer, encontrar nossos valores e nossa identidade.

Sejamos nós, os autores da nossa própria história.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Que castelo mais lindo! Coisas dos sonhos! Do sonho de qualquer uma… ou qualquer um. Viver ali era amor. Ela vivia tudo que queria. Nunca representou personagem algum na vida real. Ela era o que era, sem máscaras, e amava seu castelo.

Mas as coisas começaram a não caber ali, um pouco estranho, meio misterioso isso… algo não se encaixava. Tinha muito mistério nesse castelo, lugares e portas emperradas que não abriam. Muitas trancas… mas no começo ela não via.

Com muita força, um dia, abriu uma porta e o castelo começou a ruir. Era feito de areia.

Rapidamente o castelo de areia desmoronou com ela ali dentro. Quase foi engolida, mas ela ainda tinha muita história para contar e muita vontade de viver. A sorte é que a areia não era movediça.

Levantou, engoliu um pouco, tossiu. As lágrimas não paravam de cair. Castelo desmoronado, no chão. Não se sustentou.

Chacoalhou o cabelo, bateu com suas mãos no corpo tirando o grosso da areia da roupa. Esfregou o rosto. Respirou fundo três vezes bem devagar para se acalmar. Com esforço conseguiu sair do monte de areia.

Por dois infinitos minutos olhou para aquele monte que um dia foi um castelo, seu castelo. Não tinha vocação para ser infeliz. Apesar de toda dor do tombo, se consolava porque sabia que tudo que colocou ali dentro foi concreto. Agradeceu ter sobrevivido.

Foi embora sem olhar para trás, mas ainda chorando.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Entusiasta da Comunicação Não Violenta – CNV, fui convidada pela Adriana Chebabi, para trazer este tema para a pauta de agosto do blog que trata sobre relacionamentos abusivos.

O autor do livro Comunicação Não Violenta, Marshall Rosenberg, psicólogo que desenvolveu uma forma de comunicação pautada na educação para paz e potencialmente eficaz na resolução de conflitos, defendia que a raiz da forma violenta de nos comunicarmos está baseada na separação entre o certo ou errado que traz para nossos relacionamentos a necessidade de julgar e criticar o que for considerado errado.

Um relacionamento abusivo é caracterizado pelo sofrimento causado em uma pessoa e apresenta pelo menos um tipo de violência. A violência pode ser verbal, psicológica, emocional, física, sexual, financeira e até mesmo tecnológica, isso mesmo, há várias vítimas adultas deste tipo de violência caracterizada, por exemplo, por controle das conversas e amizades online.

Como podemos ajudar as vítimas de relacionamentos abusivos ou não nos tornarmos a própria vítima, com base na CNV – Comunicação Não Violenta?

Bem, honesta e eticamente sugiro que se alguma vítima de relacionamento abusivo te procurar para conversar, acolha de coração esta pessoa, ouça-a sem julgamentos, sem críticas, pois ela já está, muito provavelmente, culpando a si mesma por estar neste tipo de relacionamento e até mesmo com vergonha de pedir ajuda. Se possível, recomende então que ela continue essa conversa com terapeutas ou psicólogos que são certamente profissionais adequados para orientá-la. Praticando a CNV observamos que os seguintes comentários não ajudam: “Isso não é nada, já vai passar”; “você é muito tolo/tola, acho que puxou seu pai/sua mãe”; “ah, isso já aconteceu comigo”; “não fique triste”.

E para não nos tornarmos vítimas de relacionamentos abusivos a CNV certamente pode nos ajudar pois com ela aprendemos a valorizar conexões pautadas em amor, respeito, compreensão, gratidão e compaixão. Aprendemos a expressar nossas necessidades e também ajudar os outros a esclarecer as deles. Sim, temos muitas necessidades, e elas são diferentes em vários momentos de um mesmo dia, diferentes também para as várias fases da vida de cada um nós. Conhecer nossas necessidades é fundamental para praticar a comunicação compassiva, como também é conhecida a CNV em algumas comunidades, isso porque de acordo com o Dr. Marshall, toda mensagem é uma expressão de alguma necessidade, e praticar CNV nos ensina a ouvir empaticamente nossas necessidades mais profundas bem como as necessidades das pessoas com quem nos relacionamos, para juntos criarmos soluções satisfatórias para cada um.

E aí? Que tal parar um pouquinho em algum momento do dia e se perguntar: “Como estou me sentindo?”; “Que necessidades atendidas ou não estão me trazendo este sentimento?”; “Como posso pedir ajuda para atender esta necessidade?”.

Nossas necessidades vão desde as mais básicas à outras mais específicas, vejamos algumas: alimento, abrigo, aceitação, liberdade, espaço, reconhecimento, aprendizado, orientação, aventura, equilíbrio, inspiração, propósito e muitas outras.

O não julgamento, o aprendizado sobre nossas necessidades, e sabermos nomear corretamente nossas emoções, nos possibilita ter clareza, autoconhecimento, bem como compreender que está tudo bem se precisarmos de orientação e apoio.

Não é tarefa fácil e não é com uma única conversa que surgirá a melhor estratégia para colocar um ponto final em comportamentos típicos de relacionamentos abusivos, pois geralmente esses comportamentos não são observados em um único episódio. Por isso a necessidade de orientação profissional para essas situações.

Espero ter despertado em você o desejo de estar em relacionamentos com qualidade de conexão, com reciprocidade de valorização e respeito de necessidades e sentimentos.

Cristiane Pires Benevides Ribeiro – Bela Urbana. Administradora com especialização em Qualidade e Produtividade. Esposa, mãe, entusiasta da CNV e sócia da CrisB Consultoria e Treinamento. Adora praticar ioga e curte um treino bem puxado, Ama aprender, seja com livros, com pessoas, com a natureza e valoriza a qualidade de vida na conquista de produtividade!
@crisbconsultoria

O que é abuso?

No dicionário está dito que é o mau uso, excessivo ou injusto de algo.

Então, pensamos sobre o justo e a ausência de justiça. Precisamos de tempo para pensar nisto.

Para começar, alguém diz que pode ser relativo a uma transgressão de bons costumes. Mas, os costumes bons numa sociedade doente? Não sei se gosto dessa aproximação.

Entretanto, me concedo o direito de entender também como uma circunstância que causa aborrecimento e desgosto, deliberadamente, com infração de limites, com dolo.

Se formos para esse lado, tem abuso que é contra si mesmo, antes de ser contra alguém ou contra a lei. Os excessos de comida, bebida, drogas, o consumismo etc. Já me lembrei de uma lista interminável de mau uso e excessos que acumulamos no dia a dia (auto abusos): lícitos e ilícitos, conscientes e inconscientes, ingênuos e calculados. Uma boa reflexão para os que estiverem dispostos àquela reforma íntima.

Porém, não podemos negar que são as atitudes abusivas de uns contra outros, as responsáveis pelos maiores danos, que evoluem de humilhação para traumas, causa de uma variedade de reações e até crimes.

Nesse desfile de significados, as expressões mais contundentes recaem sobre os casos de abuso sexual. Infelizmente constantes, cruéis e com vítimas de todas as idades (eu disse todas). A necessidade dos parênteses determina o tom de adoecimento e nos obriga a questionar com incisão a classificação de humanos e racionais, totalmente incompatível com pessoas de instintos descontrolados e perversos.

Mais que isso, a sociedade muitas vezes acolhe o abusador mais do que as vítimas e faz isso com base na cultura do machismo, do sexismo e da distorção dos ensinamentos religiosos.

Você não precisa sofrer um estupro para entender o quão repugnante é sentir-se violada(o) nos domínios do que de mais seu você tem: seu corpo. Nossa visão de mundo não pode ser divina, nós não somos. No entanto, vamos falar pela milésima vez em empatia, compaixão, solidariedade, amor ao próximo – não são esses valores espirituais que nos ligam à semelhança de Deus? No meu entendimento, sim.

Adiante, os notórios casos de abusos de autoridade são prova cabal da miséria humana exibida de modo patético por quem acha que galgou uma posição superior na planície da existência. É dessa pequenez que estamos fartos!

Outro tipo de abuso, o parental, ocorre quando pais e mães narcisistas projetam suas frustrações nas crianças que crescem machucadas, moral e emocionalmente; além de indefesas e muito vulneráveis a outros sofrimentos ao longo da vida. Nesses casos, eu não vejo culpa, lamento por ambos.

Mas, há tantos outros, menos discutidos e muito nocivos aos nossos relacionamentos, como o abuso de confiança, o abuso de direito, o abuso funcional, o abuso afetivo…

O mais louco é que há casos em que a agressão está tão regulamentada, inclusive por nós mesmos, que existe o impedimento de enxergá-la. Quantas histórias relatadas anos depois de acontecerem em que só o tempo foi capaz de ilustrar que aquilo foi abusivo?

O envolvimento pode cegar, a vergonha pode emudecer, a humilhação pode vexar, a dor pode paralisar, a lucidez pode enlouquecer – a revelação pode ter consequências complexas.

Às vezes, esse abuso vem travestido de uma terminologia que agrava ou atenua o ato em si, como quando ouvimos que foi provocação, afronta, ataque, desfeita, injuria, insulto, ofensa, assédio, excesso, ultraje – injustiças.

Por essas e outras é que a definição de abuso fica sempre inconclusiva. Não é subjetiva, mas ultrapassa o repertório léxico, rompe as fronteiras da compreensão, interrompe o fluxo semântico.

O abuso é inconjugável, é insubordinável. O abuso é injustificável, só isso.

Dany Cais – Bela Urbana, fonoaudióloga por formação, comunicóloga por vocação e gentóloga por paixão. Colecionadora de histórias, experimenta a vida cultivando hábitos simples, flores e amigos. 

Não entendia o que estava errado, mas sentia que algo em alguns momentos não ia bem.

Digo alguns momentos, porque em outros tudo ia muito bem. Começou a debochar de amigos meus que não conhecia. Comecei a me afastar sem eu mesma perceber.

Certa vez, uma grande amiga minha que não mora na minha cidade, combinou que queria me ver. Marcamos um almoço, ela foi com seu marido e eu com ele. Depois que nos despedimos começou a dizer que já a conhecia de outros tempos, dando a entender que rolou algo com ela no passado. Nitidamente querendo me deixar insegura, mas eu não caí na armadilha, porque conhecia muito essa amiga e seus namorados desde a adolescencia.

Porém, caí em outras ciladas que me desestabilizavam, com outras histórias de mulheres, comecei a desejar até mal para essas pessoas que fizeram parte da vida dele no passado que eu nem conhecia. Uma loucura? Totalmente.

Um dia estava na recepção de um consultório e peguei uma revista, comecei a ler uma matéria sobre Relacionamentos Tóxicos, eram cinco depoimentos de pessoas que viveram isso em situações diferentes, lembro de um caso de uma mãe e filha que achei muito triste, mas todos traziam situações e sensações parecidas com o que eu estava vivendo.

Como a revista era um pouco antiga…. levei a revista embora… não sou de fazer isso, mas eu precisava ficar com aquilo perto de mim, para reler e pensar sobre tudo aquilo. Consegui fazer tudo mudar, mas não foi imediato. Nem sempre conseguimos ser tão racionais e rápidos quanto deveríamos.

Coloquei limites. Seguimos…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Eles se conheciam desde a adolescência. Amigos inseparáveis, confidentes muitas vezes, um certo interesse no ar, mas sempre deixado de lado em prol da amizade. Ambos tinham namorados, ambos com interesses em comum, era muito bom poder se apoiarem.

Naquela época já se percebiam alguns traços de arrogância, mas chegava a ser até divertido, afinal, a arrogância era meio inerente à juventude da nossa época e vinha como uma forma de força de determinação.

O tempo passou, a vida levou cada um para seu lado. Ela mudou de cidade, casou, construiu uma família, viajou, se conectou com várias culturas… ele foi para a cidade grande, ou assim o disse, virou um “grande” empresário, estudou línguas, morou fora do País.

Vinte e cinco anos se passaram até que, por um acaso do destino se cruzaram. Que felicidade! A conversa fluiu como se não tivesse se passado um dia desde a última vez. Já maduros, ou assim se pensava na ocasião, se envolveram rapidamente.

O primeiro sinal veio logo no começo quando ele caiu em contradição e ela descobriu que a vida que ele disse que tinha era apenas uma projeção. Nunca saiu da cidadezinha que eles moravam na adolescência, tinha um negócio quase falido e ainda morava com os pais.

Esse era o momento de sair correndo, mas ela via um grande potencial nele, um homem inteligente, bem articulado e que tinha se perdido… porque nós mulheres temos o maldito hábito de achar que conseguimos “consertar” o outro?

Ele foi morar com ela e faziam mil planos. Os filhos dela o adoravam, sempre disposto a tudo, bem educado e disponível… O segundo alerta veio três meses depois, quando uma amiga precisou dela. A amiga, Ana, começou a mandar mensagens de que estava mal e pensando em se suicidar e ela passou a noite toda no celular conversando, acalmando, dissuadindo Ana de seu propósito com ele resmungando ao lado porque ela não estava dando atenção à ele.

No dia seguinte eles iam viajar e, mesmo insone, ela arrumou as coisas e lá foram eles. Quando chegaram ao destino, ela estava morrendo de dor de cabeça e pediu para ele ir comprar um remédio. Ele trouxe já de cara feia. Assim que ele chegou com o tal remédio, Ana volta a mandar mensagem e isso foi o estopim. Ele voou pra cima dela (não chegou a fazer nada) e começou a berrar que ela só tinha tempo para as amigas, que ela só estava fingindo estar com dor etc e tal… nesse momento, ela chegou a pensar que ele iria agredí-la fisicamente, mas ele fincou a parede e saiu.

Ela arrumou as coisas e tentou voltar para casa, mas claro que não rolou… mil desculpas, o pedido para não “estragar” o passeio e o ser meigo voltou a tona. E assim foi por muito tempo. Eles foram construindo algo, as vezes juntos, as vezes individualmente e os anos foram passando. O negócio dela foi prosperando e ele sempre no mesmo lugar, com as mesmas reclamações e, quanto mais sucesso ela fazia, mais demandas ele tinha. Roubou sua alegria, roubou sua fala (usava as ideias, as falas e os saberes dela como se fossem seus), se apropriou de seu espaço, mas ela não cedia tanto quanto ele gostaria. Não bastasse, invadiu sua privacidade. Clonou todos seus dispositivos e passou a criar uma vida baseada no que ele lia em seus e mails, whatsapp, Messenger. Ela desconfiava, mas ele negava a cada vez que era confrontado. A gota d’água veio quando ela descobriu uma traição.

Ela nunca olhou no celular dele, acreditava e ainda acredita que dois adultos escolhem estar juntos e que confiança é o pilar que sustenta uma relação, mas ele parece que queria ser pego. Ficou mexendo no celular ao lado dela e, toda vez que ela virava para falar com ele aparecia o mesmo nome: Marcela. Confrontado ele, como sempre, negou.

Não bastasse, voltou a gritar com ela, como se a mesma fosse louca e delirante. Saiu batendo portas, cantando o pneu do carro, um verdadeiro adolescente mimado e contrariado. Ela esperou para terem uma conversa adulta, mas não rolou.

Ela cansou…

Ele viu nas mensagens dela…

Ele queria ter a última palavra…

Vagabunda, filha da puta, você não vai pedir para eu ficar?

NÃO!

Ela se libertou.

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180