Quando a Adriana perguntou sobre escrever um relato da minha história aqui no Belas Urbanas, sabia que seria um desafio e tanto, pois senti um frio na barriga em tornar público o que vivi e que pouquíssimas pessoas conhecem.

Para mim a palavra “abuso” estava associada somente ao sexual, mas hoje sei que há muitos e muitos tipos de abuso.

Hoje, com 53 anos me lembro de quando criança com uns dois anos em um canto da casa, amedrontado e fechado em meu mundo.

Meu pai, dedicado ao trabalho, provedor, tinha uma gráfica.  Minha mãe era trabalhadora também, da casa. Dedicada em viver em função da família.

Meu pai quando em casa, mostrava sua austeridade. De pouco sorriso no rosto, e quando tinha era de sarcasmo ou ironia, gostava de beber uma cerveja para relaxar, o clima pesava e a agressividade verbal e física corria solta. O nível de tensão era sempre alto. Não apanhei muito, mas minha mãe sim.

Meu pai em sua ausência, se fazia presente determinando e controlando a minha vida (imagino que dos meus irmãos também, somos em 04, todos homens). Ainda menino,  com mais coordenação motora, comecei a trabalhar na gráfica, independendo da vontade ou não. Já nasci com um trabalho e futuro determinado…..pelo meu pai.

Conforme fui crescendo, as coisas foram complicando. Fazia judô, não gostava, queria jogar basquete. Pedi para mudar de esporte, mas como meu pai era meu pai e diretor de judô no clube, fui obrigado a continuar no judô. Mas um belo dia, não aguentei e fui conversar com o professor de basquete, fiz o teste e passei, mudei de esporte. Joguei por quase 10 anos e ele nunca assistiu um jogo se quer.

Nunca levei um amigo para casa, não podia, tinha vergonha. Além do meu pai extremamente bravo e meus amigos terem medo dele (um amigo relatou isso mês passado), minha mãe vivia a realidade dela, via e escutava o que ninguém via e escutava. Ela tinha esquizofrenia.

Meu pai era bom para lidar com máquina, não com gente. Autoridade e autoritarismo são coisas distintas, um vai pelo respeito e outro pelo medo. E pelo medo abafei minhas emoções, me preservei me tornando submisso, fazia de tudo para pertencer e agradá-lo, mas a ferida emocional da rejeição e desvalorização já estavam abertas. Vesti a armadura do guerreiro solitário e fui pra vida.

O que trago aqui é somente alguns pontos macros, mas no dia a dia o negócio era punk, em qualquer momento do dia poderia acontecer algo de ruim e tinha que dormir com a porta do quarto trancada para não ter surpresas. A ameaça, a tensão era uma constante e convivi com o sentimento de medo e tensão no corpo até poucos anos atrás. Tive momentos de um frio congelante que me paralisava, o racional se desligava, perdia o chão ficando sem rumo, sensação de não existir, era desesperador. Tive vários dentes quebrados por bruxismo e muitas fronhas de travesseiro amareladas devido ao suor exalado pelos traumas vividos em forma de pesadelos.

Isso refletiu em todas as minhas relações na vida, não tem como. Mas com elas aprendi.

Aprendi que não nasci na família errada, aliás, acredito que ninguém nasça na família errada. Aprendi que os meus pais fizeram o que estava dentro de suas possibilidades, das suas suficiências. Aprendi que por pior que tenha sido uma situação, muito falava de mim e que poderia me melhorar como ser humano. Aprendi a perdoar e aceitar a vida, a me amar, respeitando mais os meus limites, capacidades e valores maiores e que eu sou o responsável pela minha vida e evolução e que ninguém pode tomar uma decisão por mim. Aprendi que a vida é mais como respondemos a ela do que acontece com a gente. 

Sou um buscador e através da observação de mim mesmo, dos meus pensamentos, das minhas atitudes, emoções, dos sonhos, praticando meditação e pedindo ajuda para terapeutas integrativos competentes, venho me transformando, evoluindo, vivendo mais a minha coerência e mais em paz, leve, mais disposto, com criatividade e propósito.  

A vida não tem chegada e fim, só ida e nessa ida, respeitando e honrando de onde vim, faço um caminho de escolhas mais conscientes, resgatando a minha inteireza no amor e respeito com a minha esposa, minhas duas filhas, as cachorrinhas e  todas as pessoas que me relaciono, que juntos, geramos o mundo que vivemos.   

Wlamir Stervid ou Boy, para aqueles que o conhecem pelo apelido. – Belo urbano, apaixonado pela sua família, por gente e natureza. Sua chácara é seu recanto. Devido ao seu processo de transformação, trabalha com desenvolvimento humano, é Coach Ontológico e idealizador do Homens de Propósito, um movimento entre homens para o autodesenvolvimento e transformação do masculino.





Tínhamos planejado a nossa viagem,  aqui pertinho mesmo, não iamos demorar, afinal de contas ele tem tantos compromissos na segunda. Temos pouco tempo para nós dois, vida corrida, filhos e ainda as suas viagens.

Sexta já estava sonhando com a viagem, já fomos umas duas vezes, nesses seis anos de casamento. Seria a nossa terceira vez de irmos para as montanhas. Quarentena, vontade imensa de sair um pouco de casa, e desse turbilhão. Claro, já apreensiva que talvez algo daria errado, um compromisso de última hora…

Na própria sexta, ele recebe um telefonema, e só escuto: tudo bem, combinado, vamos almoçar e falar de negócios. Bom, ele tinha chegado de viagem depois de 20 dias fora e precisava fazer contatos de trabalho, o mercado não estava dos melhores e sabe como é, ele precisava fazer dinheiro. Desligou o telefone e nem se deu conta que tínhamos combinado a tão sonhada viagem. Perguntei depois de algum tempo, ensaiando antes como eu falaria sobre o ocorrido. Tomei coragem e perguntei: mas e a nossa viagem? Ele respondeu que a tarde de sábado ele estaria livre e iríamos viajar. Pensei… é… ele precisa trabalhar. Logo depois ligou a irmã, pedindo que a ajudasse na obra que ela estava fazendo em sua casa pela parte da manhã de sábado. Meu coração apertou, uma agonia familiar se instalou, um frio na barriga e uma tristeza velada no meu olhar. Me segurei para não chorar, não explodir, não começar tudo de novo. O controle tinha que estar em mim de uma vez por todas. Ele estava do meu lado, não percebeu nada, ainda bem… sentimentos apenas meus.

Depois de algumas horas, não segurei, uma raiva sem controle explodiu e falei, falei, gritei com ódio, e aquela raiva de mim mesmo de não ter falado Não! O sábado já estava perdido e eu me vi assim, desolada, frágil, sem força… perdida em mim. Enfim o sábado passou, não queria saber mais desse dia, acordamos no domingo e demos uma volta de moto, percorremos a Lagoa, fomos ao Rio. Lugar que eu nunca deveria ter saído, sensação de pertencimento finalmente. Foi bom, em paz… esqueci de dizer que ele já tinha marcado no domingo com seu sócio de ver as finanças, mas no meio dessa paz, vinha aqueles pensamentos, ele vai me deixar em pleno domingo, nem me perguntou nada. Mas domingo não é dia de família, de estar em casa, pelo menos é o de praxe, mas nem sei porque me apego a isso, na minha família, meu pai sempre foi ausente, viajava muito e era compulsivo por trabalho, assim como vivo hoje, ao lado de alguém que não tem hora, nem data…

Voltamos do Rio, fomos para casa, cheguei a pedir para ele desmarcar essa reunião, mas ele me disse que era importante que fosse hoje. Nesse momento, uma dor, aquela dor mais que familiar veio no meu corpo, na minha alma. Eu queria muito que eu ficasse bem, tranquila, que ele fosse para o seu compromisso e eu poderia ficar estudando, adiantando algum trabalho, poderia ler um livro, meditar, descansar, ouvir música, ver um filme… não fiz nada disso. Ele me chamou para ir com ele, fui… e ali fiquei esperando, olhando o tempo passar e lá se foram duas horas, cansada, pensando que eu poderia ter feito algo por mim… paralisei total. O que estou fazendo aqui? Nem alívio senti, senti um arrependimento, uma vergonha de não ter tido coragem de fazer por mim. Ele, tão seguro, tão autosuficiente, tão dono da sua vida. Ali fiquei esperando o tempo dele passar…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Há dez anos…

Num sábado, perto das 22h eu estava no sofá da minha casa com minha filha mais nova deitada no meu colo, estávamos assistindo um filme, desses infantis que criança adora…

Eu já havia soltado os cachorros no quintal e trancado a casa, porque teoricamente ninguém mais chegaria, pois minha filha mais velha tinha ido ao parque de diversões com a turma de amigos e dormiria na casa de uma amiga. E o até então marido na época, estava viajando a trabalho e me avisou que chegaria apenas no dia seguinte. Então estava pronta para descansar assim que o filme terminasse.

Como estávamos apenas nós duas nesse dia, decidi ir ao mercado pela manhã, comprei alguns frios para fazer pães recheados, para quando a fome aparecesse mais tarde… E assim lanchamos. Decretei pra mim mesma: “Hoje estou livre do fogão”. E decididamente não queria fazer jantar, pois eu e minha pequena não fazíamos questão, e além do mais, no dia seguinte iríamos almoçar na casa de um amigo com toda a família reunida. De verdade? Não vi a menor necessidade de me preocupar em fazer comida…

Mas meu companheiro na época chegou sem avisar, procurando por comida e não tinha… Então, disse a ele onde estava o pão e continuei assistindo ao filme.

Estávamos casados há dez anos, dos quais os últimos cinco, foram de declínio da relação por conta das violências frequentes. Portanto, não houve uma recepção calorosa, de ambas as partes.

Ele foi até o banheiro, gritou de lá que queria jantar, e eu pedi a ele que comesse o que tinha, até porque era o mesmo que havia nos alimentado…
“NÃO” foi a resposta! Ele então saiu do banheiro e veio em minha direção, me arrancou do sofá pelo braço, me empurrou até a cozinha e disse que iria tomar banho, e assim que saísse do banho, ele queria ao menos um prato de arroz para comer com ovos fritos.

Parece um pedido simples de ser atendido, não é? Mas não sob essas condições de imposição e agressividade. Então, segui com meu decreto em vigor, e disse-lhe que não iria fazer e ponto.

Voltei para o sofá, onde minha filha estava já assustada nesse momento… Assim que eu me acomodei, ele voltou do quarto com uma cinta na mão e me bateu no ombro esquerdo… Pude ouvir o zunido do couro no ar, logo senti a minha pele arder, o vergão subir e meu sangue ferver.

Pulei do sofá em direção a ele, já com minhas duas mãos fechadas em punho, e iniciei uma sequência de golpes contra seu peito. Ele ficou sem reação e apenas tentava me conter, pois eu nunca havia reagido daquela forma a qualquer uma de suas ações violentas…

Não vi o final do filme e nem me recordo qual era, porque minha noite acabou numa delegacia, e o casamento terminou junto. Pois naquele dia fiz uma promessa de frente ao espelho, que ninguém mais levantaria a mão pra mim de novo.

Cheguei a conclusão que todo e qualquer relacionamento depende, quase que exclusivamente do respeito mútuo para ser estabelecida.

Luana Carla – Bela Urbana, analista corporal e comportamental. Minha paixão é poder contribuir para evolução da nossa espécie através do meu trabalho, sendo facilitadora do processo evolutivo interno, auxiliando pessoas a encontrarem soluções para seus conflitos de forma mais harmoniosa possível, respeitando seu funcionamento natural. E assim viverem em paz consigo e com o ambiente a sua volta.

Ficamos cientes das atrocidades que um ser, dito humano, é capaz de cometer através de um caso mais chocante ou mais divulgado pela mídia do que muitos outros. Ao lado da divulgação, muitos números, percentuais, gráficos, implorando por leis que protejam seres que estejam submetidos, por diferentes razões, à tais violências e atrocidades. A alma ainda não compreendeu, então precisamos de Leis para ter boa conduta como a Lei dos Direitos Humanos e a Lei Maria da Penha. “Detalhe” facilmente esquecido por trás dos números, cada caso ou morte refere-se à um ser humano.

Feminicídio, violência doméstica, violência conjugal, temas que emergem novamente com o confinamento e com a aparição das fotos em preto e branco de mulheres nas redes sociais em solidariedade às mulheres assassinadas, à manutenção da “Convenção de Istambul”, tratado internacional do Conselho da Europa pela eliminação de toda forma de violência contra as mulheres, conjugal ou familiar.

Ultimamente, me perguntei várias vezes se estamos vivendo no ano de 2020 d.C. , sem esquecer que também houve um tempo a.C. O ser, dito humano, já não é tão jovem… Somos considerados os seres mais evoluídos do planeta Terra, e que decepção! A evolução da alma ficou esquecida. Já passou da hora de agir com menos instinto e mais humanidade, de responder mais com o cérebro frontal e menos com o reptiliano.

Esqueceram que o único modo de entrar neste planeta é através de uma mulher, que nutre, protege, acompanha, ensina, perdoa. Esqueceram que sua descendência se faz através de uma mulher. Parece tão difícil para ele ver a mulher como um ser humano, pois ele não o encontrou dentro de si mesmo.

Tudo na natureza toma forma à partir de polaridades, de seres que direi complementares e não opostos, da união do masculino com o feminino. Sendo assim, não deveria haver espaço para a ilusão de propriedade, superioridade ou mesmo a submissão, que geram a violência, seja ela física, verbal ou psicológica. A energia feminina é naturalmente diferente e assim é a natureza, isso não significa qualquer motivo para menosprezo ou violência de algum tipo.

Para os leitores curiosos em números, relembrando que cada caso se trata de um ser humano, uma vida, uma alma, pessoas envolvidas, sonhos e emoções: Na Suiça, 0,4 assassinatos por 100.000 mulheres, esta proporção é de 0,13 na Grécia, 0,27 na Espanha, 0,31 na Itália e 0,35 no Reino Unido. Mais feminicídios são registrados na França 0,50 e na Alemanha, 0,55. (“Le Matin”, 25/08/2019).

Se observarmos os outros planetas do nosso sistema solar, podemos dizer sim que aqui é o Paraíso, e vamos nutrindo a esperança de que “Adão e Eva” não sejam expulsos, sendo a espécie “mais evoluída” do planeta. Yin e Yang, Shiva e Shakti, Masculino e Feminino em harmonia complementar, gerando vidas ao invés de eliminar vidas.

Viviane Hilkner – Bela Urbana publicitária (PUCC) e Profissional de Marketing (INPG). Atuou na área, no Brasil, em agencias de publicidade e meios de comunicação, e, na Itália, em multinacionais no Trade Marketing e Brand Development & Licensing. Morando na Suiça, mudou seu estilo de vida e apaixonou-se pela prática de Hatha Yoga. Ansiando compartilhar esta prática e sabedoria milenares, forrnou-se professora.Atualmente, ensina no Centre Kaizen e no Club de Yoga da Associação de Esportes e Lazer da Nestlé.Organiza Workshops e Retiros de Yoga na Suíça e no exterior, principalmente, na Grécia.Sua profissão tornou-se hobby e seu hobby, sua profissão.

Eu cansada de tantas manipulações, humilhações dele e da família! Pedi para ele ir embora! Ele prontamente atendeu! Sumiu!

Aparecia quando bem entendia, e para me culpabilizar e infernizar a vida!

Dias antes da minha filha nascer, eu já com 9 meses de gestação, ele apareceu em casa e das 23 da noite as 2 da manhã ele gritou, me fez ajoelhar aos seus pés e pedir desculpas!

Eu implorava perdão sem nem saber o motivo, e de maneira cruel ele olhava pra mim e gritava cobrando justificativa! Gritava para que eu falasse o motivo do perdão! Eu chorei por horas! Por dias! Eu não dormia, não descansava! Eu passava todos os minutos pedindo desculpas aos meus filhos!

Dias depois ele me enviou uma carta linda, dizendo que os problemas de um casal era responsabilidade dos dois! Que se ele fazia o que fazia, também era responsabilidade minha! ( E NÃO! ERA A PSICOPATIA DELE MESMO).

No hospital foi um show de horror! Ele carregava aquele teatro de pai maravilhado, a mãe atuando como a vó sensível que não se sentia a vontade em pegar a PRIMEIRA neta por minha causa! É mesmo eu passando por um trabalho de parto de quase 40 horas que resultou em uma cesárea, mesmo eu pedindo para não receber visitas! Mas estava o circo todo armado! A família dele toda! Levando comida para dentro do quarto, para eles, chamaram vizinhos, enquanto eu nem forças tinha para me levantar! Eu implorei para que não usassem perfumes fortes, pois eu ainda estava enjoando muito e por causa do meu bebê! Não adiantou! Chegavam banhados a perfumes e com marmitas de peixe!

E quando eu resolvi falar! Caos! Ele me pegou com o bebê no colo e me deixou na porta de casa como um saco de roupa suja!

Vez ou outra voltava, dizia que me amava e a nossa filha! Dizia que queria uma vida com a gente! Mas quando via que mesmo vulnerável, eu não mais aceitaria viver da maneira dele, a conversa mudava!

Dias depois da cesárea, eu ainda com físico e emocional tão sensível, ele forçou a barra para termos relações, eu tive uma crise de choro no meio! Ele teve raiva, vomitou o ódio dele por horas! Eu, puérpera, depois de meses de humilhação e ainda passando por isso!

Luciana me deu as mãos, juntou ao meu redor algumas amigas mulheres! Elas iam até mim toda semana! Me deixavam fortalecidas! Era uma corrente de proteção!

A dona do imóvel que eu morava, foi em casa cobrar o aluguel! Se deparou com uma mulher destruída e uma bebê no colo! Contei a história e ela ficou chocada! Atordoada foi atrás dele no intuito de responsabilizar ele pelo aluguel, era o mínimo!

Flávia chegou na casa deles e se deparou com ele e a mãe! Já com um documento pronto de autorização de despejo!
Ela voltou com os olhos marejados!

Luciana percebeu relutante, mas sem saída! Que precisava ser minha proteção! Então, não me deixava mais sozinha, as poucas vezes que ele ia até lá, tirar foto dos 15 minutos que passava com a filha no mês!

Inventou para meio mundo que eu não deixava ter contato!

Meu filho, mulheres ao meu redor e Luciana me tiraram do fundo do poço!

Eu pedi ajuda desde a gestação! Mas a sociedade está acostumada a passar pano pra macho escroto e psicopata! A sociedade está acostumada a culpabilizar a mulher por tudo! E assim foi comigo! Os amigos e amigas dele fingiram não ver! Apenas um amigo dele se aproximou de mim e me acolheu! Me ouvia em tantas noites insones de muito choro, me fortalecia só de estar ali comigo! Tentava desesperadamente me fazer entender toda a força que eu carregava e que nem eu mesma acreditava!

Eu tive a sorte de ter Luciana e Iuri ao meu lado! Eu tive a sorte dela ter me levado até a Amanda, uma psicóloga competente e sensível!

Lembro de quando eu estava certa de que não tinha motivos pra eu viver já que nem boa mãe eu era! E Amanda virou pra mim e disse: não faça de uma vírgula, a sua história de vida inteira!

E eu fixamente comecei a enxergar essa pessoa como uma vírgula!
E fixamente coloquei como meta me reerguer e fazer o mesmo com outras e para outras mulheres!

Quando já estava no meu atual casamento, grávida da minha terceira filha! Ele me procurou! Para novamente me humilhar! Me atacou falando que eu faço das minhas relações uma futura aposentadoria! Me acusando de estar engravidando para pegar dinheiro de cada pai! Ele, que nem pensão paga! Ele que se esforça para ligar uma vez no ano para a filha!

Ali, eu passei horas chorando, não por mim, mas por perceber que a atual mulher dele, já com uma filha deles, é mais uma vítima, mesmo que ela ainda não saiba! Pedi as deusas que mantenha elas em proteção!

Eu poderia passar semanas aqui escrevendo sobre todo o terror que passei!
Essa série de texto não representa nem 10% dos absurdos que eu vivi e que muitas mulheres estão vivendo!

Escrever sobre isso e cutucar essa ferida! Por mais cicatrizada que esteja, me fez tremer, me fez faltar o ar!

Esses homens abusivos e psicopatas deixam marcas eternas na gente!

Precisamos sempre que for possível gritas nossas histórias!

E eu mulher que carrega essa bagagem estendo minhas mãos pra você mulher que está passando por isso!

Você não está errada, você não é ruim, não é louca! Você é uma mulher incrível! E com certeza vai se reerguer! Você é uma mulher incrivelmente FODA!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Eu, grávida, com outro filho já! Tentando com que isso não afetasse meu primeiro filho de maneira que já estava afetando! Tentando seguir com a gravidez minimamente em paz! Em vão! Chorei e me desesperei todos os dias da minha gravidez! Comecei a planejar o parto humanizado, e participava das rodas! Ele ia comigo, era lindo, ele era perfeito… na frente dos outros! Eu comecei a ter pânico das segundas-feiras, porque sabia que logo após o céu que ele me levava por querer mostrar para os outros o quão bom ele era pra mim, inclusive “assumindo” o meu filho mais velho… ele
me empurraria para o inferno! Era um terror sem fim!

Eu me sentia cada vez mais fraca, e estava! Tive dengue durante a gravidez, mal levantava da cama! Ele chegava, perguntava se não teria almoço, e com a minha negativa aos prantos, ele saía tranquilamente para comer fora!

Sem se preocupar em me alimentar! Lembro que em um desses dias o máximo que eu consegui foi me arrastar até a cozinha e fazer um macarrão instantâneo! Ele quando chegou e viu a embalagem, me chamou de irresponsável, de imbecil pra baixo por estar comendo algo tão sem nutrientes estando grávida! Mas jamais fez algo para eu comer, mesmo estando com dengue! Em um desses dias, aos gritos, me falou que sentia pena da criança que estava sendo gerada dentro de mim!

Eu chorava! Muito!

Coloquei meu filho em horários especiais na escola, para que ele presenciasse cada vez menos todas essas atrocidades! E para que pelo menos ele tivesse sua alimentação com qualidade e completa!

Muitas vezes quando ia levar ele para a escola, eu passava horas no pátio! Com medo de voltar pra casa!

Durante a gravidez ele muitas vezes sumia durante a noite! E lógico não tinha celular porque não queria fazer parte desse sistema! Eu, grávida, numa cidade que não era minha, sem família e quase sem amigos! E ele não tinha celular e sumia! Quando chegava pela manhã, me fazia sentir a pessoa mais alucinada por estar em desespero com a situação!

No meio dessa merda toda, um dia eu mergulhada em tristeza, meu filho na época com 9 anos, olhou pra mim e disse! Mãe… tenha coragem, eu to do seu lado e essa pessoa não merece ser pai desse bebê e nem meu! Aquilo foi como se ele estivesse me salvando de um afogamento!

Ali comecei a ver como se estivesse de fora! No meio desse processo todo conheci minha vizinha Luciana, que mal sabia, ela e eu, que me salvaria e me traria a força tão intensa do feminismo!

Era ela que me levava para o hospital no meio da noite quando eu passava mal por tanto stress! Era ela que muitas vezes levou comida pra mim! Já que ele comia até o que eu comprava para meu filho, e quando eu questionava, era chamada de mesquinha e egoísta!

Muito esgotada com tudo isso e já grávida de 7 meses, muito magra! A médica constatou que meu bebê estava abaixo do peso e que eu precisaria me alimentar melhor!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Segui tentando ser boa o suficiente pra ele! Perdi o emprego, neguei outra proposta! Nesse momento eu acreditava fixamente que o que eu conquistei até ali, não prestava! Ele tinha planos incríveis de vida! Falava em vivermos com menos, com bem menos! Mesmo ele usando do meu dinheiro para ter do bom e do melhor! Mas o tempo inteiro me fazia acreditar que não percebia suas próprias ações! Afinal ele um ser de luz, não tinha apego ao dinheiro! Não tinha conta em banco!

Finalmente me chamou para estar entre os amigos dele, um chá de panela! Fomos juntos comprar o presente! Chegando na loja ele escolheu o presente e inclusive alguns itens para minha casa! E adivinha quem pagou a conta? Eu! Aquilo me deixava péssima, porém não foram poucas as vezes que eu lutei comigo mesma e com o coração dilacerado o questionei! E obviamente o fim era sempre eu implorando desculpa por pensar qualquer coisa ruim dele! Um homem tão iluminado, espiritualizado! Sim! Ele se dizia médium, espiritualizado! E muitas das vezes que eu confrontava as ações dele comigo, ele dizia ter uma mulher em espírito, de outras vidas, que por relações mal resolvidas, atrapalhava as relações dele!

Parece mentira! Parece loucura!
Mas era ele manipulando mesmo! Com maestria! Fazia cenas e cenas, me induzindo a acreditar que atos dela(?) o deixava mal! E que era ela que agia para que nossa relação fosse do céu ao inferno!

Falava de suas ex namoradas, tentando de todas as formas me deixar insegura em relação a elas! Provocava situações onde ele entrava em contato com elas, e ao obter resposta, agia como se elas estivessem atrás dele!

Nesse momento eu já estava tão absurdamente vulnerável, e me sentindo tão absurdamente pequena, que não conseguir lidar com as minhas dúvidas! A única certeza que eu tinha é que ele era muito bom, e eu muito péssima!

Comecei a acreditar que a minha vida não valia praticamente nada!
Então, por várias vezes pensei em dar um fim! Ele quando percebeu toda essa minha vulnerabilidade teve a incrível ideia de colocar um documentário para eu assistir, sobre suicídios! Sim, ele sabia o que estava fazendo!
Fiquei mal por dias!

Nesse meio tempo por vezes ele terminava, e quando percebia que eu estava conseguindo seguir em frente, vinha e puxava o tapete novamente!

Era um ciclo sem fim! E quando numa dessas vezes eu estava quase aceitando uma proposta de emprego na minha cidade, então ele veio com muito amor e muitos planos! Me pediu em casamento! Emocionado me disse que queria seguir juntos e construir uma vida! Eu não consegui recusar! Quando poucas pessoas me falavam que era melhor não, ele fazia coisas e me deixava contra todos que davam essa negativa!

Então fui e embarquei nesse pesadelo!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Dificilmente uma relação abusiva começa com cenas de terror! E muito menos as pessoas carregam plaquinhas escritas “oi eu sou um desgraçado!”.
Muito pelo contrário! E no meu caso foi exatamente assim!
Quando conheci o abusador, e vi nele a alegria e leveza em pessoa… mal eu sabia o que estaria por vir!

Começamos a nos relacionar e foi lindo, ele escreveu uma música sobre mim no dia seguinte do nosso encontro! E que encontro! Passamos a noite conversando! Parecia um encontro de almas!

Ele foi sutilmente me mostrando que minha vida toda estava errada! Que o que ele propunha era o certo!
Começou aos poucos me fazendo enxergar que meu trabalho era péssimo! E que eu mãe solo há 8 anos, estava o tempo todo falhando como mãe! Aliás eu estava falhando em todas as áreas da minha vida!

E ele sendo um ser de luz, grandioso em toda a sua bondade me aceitava!
Não só me aceitava! Estava disposto a ficar ao meu lado, construir uma família comigo, e me mostrar novos horizontes! Mesmo eu sendo bem péssima em todas as áreas da minha vida!

Me colocou em dúvida em todas as minhas questões! Inclusive eu que corria, que surfava, que estava com a autoestima lá no céu…. aos poucos ele me fez acreditar que tinha algo errado comigo!

Não foi aos gritos, não foi me batendo! Não!
Foi com carinho! Foi sendo fofo!

Chegou a me falar que tudo bem minha vagina ser feia, que provavelmente um cirurgião plástico arrumaria! E quando eu indignada questionei… não… ele não gritou! Ele chorou copiosamente me pedindo perdão! E chorou por horas! Me fazendo sentir o gosto amargo da manipulação!

Era sempre assim! No fim eu acabava sempre colocando em dúvida o meu próprio caráter! Porque como assim eu era capaz de magoar uma pessoa tão incrível?

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Pensei muito antes de escrever aqui… mas preciso por pra fora… pra eu ficar em paz.

Esses dias fiquei sabendo por um amigo em comum, que o pai dos meus filhos irá se casar de novo. Até aí tudo bem, que seja feliz nessa nova etapa de vida… é um direito dele, como é meu também…

Desejo do fundo do meu coração, que ele não faça com a sua nova esposa e família o que que fez com a antiga família.

Só estou escrevendo, porque tive essa conversa com um dos meus filhos, que tem o mesmo desejo que eu… mas que lembra com tristeza do pai que teve… um pai ausente de amor, de carinho de amizade… um pai que pisou em seu primeiro vídeo game por puro prazer, um pai que só porque ele e seu irmão mais velho estavam rindo ao ver um programa na TV, foi motivo dos dois apanharem… um pai onde um filho pede um sorvete e isso vira motivo para levar bronca, um pai onde foi ver seu filho jogar futebol (e para quem conhece esse meu filho, sabe como ele ama futebol), fala que ele jogou mal, sendo que nesse dia ele foi o melhor em campo, (palavras do treinador)…. do pai que não levava seus filhos para passear porque o mesmo, chamava seus filhos de rabo… e se não fosse esse meu filho, me salvar…hoje não estaria aqui escrevendo, pois, ele viu o pai traiçoeiramente me dar um murro na nuca.

Tenho o filho mais velho, que nunca teve um pai… pois me lembro como fosse hoje, quando liguei para esse cidadão, dando a notícia que estava grávida ele me xingou e quando chegou em casa me bateu. Apanhei outras vezes durante a gravidez… esse filho, ficou sem conversar mais de dez anos com esse pai… o pai sempre falava que ele seria um vagabundo… não seria ninguém na vida… graças a Deus, a praga não pegou.

Com meu filho do meio, ele quase não falava nada, pois o mesmo batia de frente…

Vivi com essa pessoa por vinte e sete anos, e de verdade, eu me pergunto o porquê de tanto tempo.

Vivi aprisionada, pois não podia ter minha opinião própria, não podia trabalhar, depois de muitos anos de casa, consegui um emprego onde eu morava, gostava e muito… só que aí, ele falou para eu ficar em casa que ele me pagava.

Quando estava grávida do meu filho mais novo, ele saiu do apartamento onde morávamos, para agarrar uma vizinha…todo mundo sabia da história, menos eu… até o marido da mulher me chamar pra conversar.

Passear? (risos irônicos), passeávamos muito aos domingos… me colocava no carro, e me levava para dar volta no castelo. Detalhe, sem descer do carro e porquê os filhos eram rabos.

Sempre colocava seu órgão genital pra fora e me obrigava ficar segurando…

Ir em almoço de família? Não podia pois, falava que minha família não gostava de mim…me aturavam por obrigação…

Me obrigou a andar de carro com ele, sem blusa…

Bem… sei que muitos, não tem nada com a minha vida e minha história… mas precisava por pra fora…pois hoje, o cidadão, viaja, come fora, hoje ele não tem os rabos…. a vida ficou mais fácil… fazem seis anos que sou divorciada, e desde então, ele nunca mais teve contato com os filhos.

Na conversa que eu tive com meu filho mais novo, chegamos a conclusão que, por mais que doa pra eles, filhos, (me dói por ver o lado dos meninos, porque fui eu que não quis mais o casamento ). Vamos seguir em frente, porque o estrago emocional, psicológico que ele nos causou é grande sim,.(por mais que eu seja uma pessoa alegre, só eu sei os FANTASMAS que eu carrego ainda), decidimos não sofrer mais com isso, porque enquanto a gente sofre, ele não tá nem aí…

Desculpem pelo texto, pelos erros de português… mas precisava vomitar…

LIGAÇÃO #180 – URGENT’EDECENT’ECOERENTE

Paula Roberta Caparoz – Bela Urbana, escorpiana irrequieta, nada a comove mais do que atitudes. Amante de qualquer arma que desafie seus próprios desejos. Aprendendo a discernir o fato e o relato interno, independente da avalanche externa.

Quando eu decidi dar um BASTA num relacionamento abusivo, busquei compreensão das situações onde eu me considerada culpada ou ainda merecedora de tais abusos ou violência, me questionando: “O que tenho que fazer para não acontecer de novo?”, “Será que estou sendo muito permissiva?”, “Por que a pessoa que deveria ser parceria de todas as horas, me agride? Onde tenho errado, será minha roupa, algo que falei ou fiz?”, “Será que sou eu que sempre faço algo que desencadeia essa reação na pessoa?”, “Qual será meu defeito?”…

Eu tinha tantas perguntas sem respostas, querendo justificar o injustificável, que fui procurar ajuda de uma psicóloga, e com suas orientações fui instruída a ser eu mesma, testando com as demais relações que eu mantinha: amigos, filhas, parentes, colegas de trabalho, enfim… Sem justificar o porquê das coisas e das minhas escolhas, apenas experimentar ser eu mesma.

Confesso que num primeiro momento, me senti totalmente perdida, porque há muitos anos eu abria mão das minhas preferências, as quais se perderam no tempo, eu passei a me contentar com o que era possível ou restava das preferências alheias. Mas aos poucos fui me encontrando, consegui resgatar a autoestima e a autoconfiança, cada vez que eu mergulhava mais fundo e pra dentro.

Nessa jornada na busca pela autoestima, resgatei valores e princípios que são fundamentais para sustentar qualquer relação: Respeito, Comunicação, Desapego, Reciprocidade e Aceitação. A prática desses princípios trouxe à luz da consciência a forma como tornando minhas relações mais construtivas a medida em que os laços se estreitam.

Praticar o autoamor foi e continua sendo fundamental para que minhas relações não sejam tóxicas, abusivas ou violentas.

Luana Carla – Bela urbana, analista corporal e comportamental. Sua paixão é poder contribuir para evolução da nossa espécie através do seu trabalho, sendo facilitadora do processo evolutivo interno, auxiliando pessoas a encontrarem soluções para seus conflitos de forma mais harmoniosa possível, respeitando seu funcionamento natural. E assim viverem em paz consigo e com o ambiente a sua volta.