Excluindo relações tóxicas, violentas e outras que rasgam páginas e fogem ao que deveria se considerar saudável, os encontros humanos talvez possam ser comparados ao encontro entre dois cadernos com lápis nas mãos. Explico:

Eu sou um caderno com um lápis na mão indo ao encontro de outro caderno com seu respectivo lápis na mão. Irei escrever minha história no outro caderno, e ele irá escrever sua história em meu caderno. Simples assim.

Mas há cadernos que não gostam do que o outro escreve, mas gosta da caligrafia. Há os que não gostam das caligrafias, mas adoram o conteúdo. Há aqueles que reclama da força do Grafiti, mas encantam com as frases. Há os que, apesar da poesia, não suportam a cor da escrita.

Há aqueles que não conseguem virar a página e se abrir para um novo texto. Há aqueles que apenas querem escrever, não recebem nada. Há os que impõe que se receba sua escrita ou o digam receber a história, sem recíproca. Há quem goste apenas de frases e quem exija ilustrações hiperrealistas e fotos bonitas, mesmo sem história alguma.

Há até a crítica das histórias alheias. Os caga-regras de lápis sem ponta. Os engenheiros da planta pronta. Há de tudo.

É assim, qualquer relação é uma escrita. Um lápis que anota no caderno do outro a história de que é capaz, e reciprocamente a recebe. Se não combinam os lápis e cadernos a busca continua. Um novo emprego, uma nova amizade, um relacionamento amoroso, uma parceria qualquer. Segue a vida em busca de boas histórias.

Afinal o saldo é um best seller que, de poucas frases a milhares de páginas, precisa orgulhar o caderno. Ao final da vida, sobra um toquinho de lápis, feliz pelo que escreveu. Se isso não houver, ainda assim, restará um tempinho para arrematar um bom enredo sem uso de borracha. Um lápis novo ou um caderno vazio é, portanto, um desperdício e o arrependimento não cabe. A riqueza é o gasto!

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

 Para chegar lá, preciso situar um pouco a história.

 Sou filha de imigrantes portugueses e credito a isso, o meu pé fora de casa, da cidade, do país, nômade que continuo sendo.

 Assim criei os meus para que voassem tão logo pudessem.

 E eles foram saindo aos poucos, os três.

Quando ainda éramos os quatro, depois de casamentos desfeitos, ficamos fora apenas três anos.

Por fim, aluguei a casa e fui atrás de um deles, a filha do meio que se mudou pra Londres, fiquei pouco menos de um mês e senti o gosto da liberdade, num país estranho, outra língua, outra cultura. Pensava em voltar rápido, o problema era o meu inglês quase inexistente. Então a volta foi direto para uma aula particular de inglês e reaprender aquela língua já esquecida com o tempo. A coragem e a determinação eram bem maiores que esse pequeno obstáculo.

Agora a cena era, dois anos depois, a filha casada. Dinheiro juntado para alugar um quarto. Lembro bem da sensação ao chegar a cidade próxima a Londres e falar pra mim, é aqui que quero morar.

Uma semana era o meu prazo para estar junto a filha e arranjar um quarto para passar os próximos três meses, a esperança era conseguir trabalho que me mantivesse por mais tempo. Nunca deixo de sonhar.

Tudo muito caro e com a ajuda da filha, negociamos um quarto mínimo numa casa onde moravam dois Albanezes e uma Jamaicana com um filho de três anos.

Me esperavam, uma cama de solteiro com um colchão afundando, uma cômoda e uma cadeira. O quarto era colado ao banheiro que servia a todos. Sem problemas, na casa os banhos eram semanais para minha alegria, porque duravam horas, eu no meu tradicional banho diário feliz. Os quartos em cima, cozinha e sala vazia embaixo. Choquei. O dono era um Nigeriano que alugava a casa. E realugava os quartos, disse que ia trazer uma mesa e umas cadeiras. Nunca vi.

A cidade ficava duas paradas de trem da cidade da filha, o local era mais bonito que o da filha. A proposta era caminhar cedo, banho, trem para a casa da filha. Arrumar, fazer comida e quando ela voltasse, dar um oi e partir para casa dormir. Final de semana era pegar o trem e em vinte minutos estar no centro de Londres, andar a toa nas feiras, comer nas barracas, viver. Estava feliz. É preciso muito desprendimento e determinação para pisar nesse caminho, mas essa era eu, sou eu.

Assim que fui apresentada aos outros moradores da casa, um homem me chamou atenção nos seus 1.90m boa aparência. Dividia o quarto com o sobrinho de vinte e poucos anos. Expliquei que falava pouco inglês e estava estudando. Eles falavam um inglês sofrível e Albanes, que eu nunca iria aprender.

Na primeira manha após a mudança, eu na janela da cozinha, vi o Albanez velho de nome Fred, passar e fixar seu olhar nos meu. Nós mulheres, sabemos identificar olhares e esse foi bem significativo. Mas estranhei um pouco já que ele aparentava uns cinco anos mais novo que eu. Eu chegando na casa dos 60, cabelos naturalmente brancos e ele com seus 54 talvez. Hora, hora, hora, me senti uma gata….

Vida seguindo, num bom domingo, pós passeios, almoço e a volta pra casa. Ninguém na casa. Desci pra sala vazia, coloquei música no ipad e sentei no chão. Tinha um jardim abandonado por trás de belas portas de vidro me dando a sensação de amplidão após a saída do minúsculo quarto. Claro que já me imaginava limpando e cuidando daquele lugar acabado para pelo menos ter para onde olhar.

Ali sentei e me esqueci. Eis que surge o Fred com roupas nos braços e percebi no canto da sala um varal de pé onde ele foi calmamente pendurando as roupas. Do jeito estava, do jeito fiquei. Ele usava uma bermuda azul clara e uma camiseta branca suja. Iria vê-lo nesses trajes, todo tempo que passei ali.

Se aproximou, dei um leve sorriso e ele me perguntou de onde eu vinha e fui contando um pouco do que sabia me expressar em inglês. Por fim, resolvi mostrar fotos dos filhos e da praia de onde eu vinha. Senti que ele se aproximou demais, mais do que eu gostaria. Ao fundo um sambinha e ele me pega pelos bracos todo desajeitado, me chamando pra dancar….oi…..

Aonde foi que eu atropelei o enredo…

No no no just a moment…..sorry …..e por ai vai…

Nessa hora do chega pra lá e chega pra cá, senti o cheiro azedo de suor e pouco banho de sua camiseta branca suja. Bateu feio.

Subiu,  eu continuei ouvindo música, sentada no chão e tola, me dando conta que já tinha construído um castelo e colocado o Albanes num cercadinho. Qual nada, tolinha…

E segue o caminho. Rotina, trem, compras, lojas de caridade, descobertas no lugar, aprendizados. Pouco via o cheiroso, mas notei que nossas rotinas eram parecidas, ele saia muito cedo pra trabalhar, eu pra caminhar, mesmo no inverno, 3 graus e eu lá. Não conseguia parar. No retorno a casa por volta das seis horas da tarde, já o encontrava no seu shortinho azul preparando o jantar na pequena cozinha.

Cruzamos várias vezes a escada dias após aquele domingo e ele sequer me comprimentava. Não entendi nada. Mais uma semana e mais um domingo, só ele e eu na casa. Ele entrou na sala, eu no lugar escolhido, no meu pouco inglês, resolvi perguntar porque ele não me comprimentava. Não respondeu, envolvido numa mudança interminável para o andar de cima.

Nesse dia eu tinha almoçado com minha filha e genro e tomado umas duas taças de vinho, suficiente para me animar e aturar a camiseta suja e resolvi oferecer ajuda, até hoje duvido de tamanha estupidez. Um armário numa escada em caracol, essa a insanidade. Devo isso ao teor alcoólico. Por fim, armário no corredor, e ele veio buscar outras coisas, nos esbarramos nos últimos degraus da escada estreita. SUFICIENTE. Ai foi cena piegas de filme americano, tiramos as roupas e saímos derrubando tudo. O cenário foi minha cama molenga, tudo rápido, suado, fedido e muito doido. Contando com o detalhe do rapaz ser bem bem dotado para meu desespero e eu na seca há tempos, literalmente vi estrelas…

Durou, dois minutos ou menos. Sorte minha o banheiro colado ao quarto e eu banho imediato.

Banho tomado, quarto trancado e a realidade bateu forte porque o álcool já tinha saído do sangue. Que merda é essa?! Acabei de chegar, vou embora em dois meses, esse Albanez ou vai me matar transando ou vai me matar, matando.

Aos poucos fui sabendo que morava há dez anos em Londres era motorista de ônibus.

Nunca casou, suficiente para mim. Claro que eu já achava que ia ficar ali e viver um romance, carinho, fazer comida, lavar a roupa, bem necessário, passear sair pra beber, tudo o que a gente vive sonhando. Mas não foi bem por aí, o cara era estranho e estranho ficou. Depois desse atropelamento inicial na escada o cara voltou a não me cumprimentar aí fiquei muito puta e resolvi nem olhar para a cara dele e evitar passar por ele. Mas ele era MAIS esquisito ainda e esperava eu sair do quarto e ficava me olhando. Claro que eu achei que ele ia me matar.

Ele era meio responsável por coisas da casa e a praga do roteador caquético dava ruim volta e meia e claro que a Lady aqui, tinha que pedir ajuda do estranho. Numa dessas ajudas foi o aquecedor do quarto, ele entrou, porta aberta, mexeu, tenho certeza que não fez nada, fingiu. Frio ,gelado. Lá fui eu bater na porta do quarto dele e pedir ajuda de novo, aí ele consertou de verdade. Só que a proximidade da cama nos tirou qualquer dúvida e lá fomos nós para mais um round, claro que eu perdia sempre, nenhum beijo, nenhum nada, só põe tira e tchau. Porra caí de novo, mas já estava até gostando da histórinha na minha cabeça. Odiava, queria matar, depois ria e fugia dele. Num outro domingo, era único dia de folga dele,  não o vi em momento algum, saí voltei, fiz a vida e fui dormir, lá pelas tantas escuto batidas na porta, acordei assustada e abri devagar e aquele 1m90 de um homem bêbado veio caindo por cima de mim. Imagina o esforço que fiz para colocar esse idiota sentado na cama e tentar expulsá-lo do quarto…. out out out, tanto gritei empurrei que coloquei o idiota para fora .

Pensava comigo FUDEU, dois meses ainda aqui com esse encosto. Claro que continuou tudo como antes. Perdi aos poucos ILUSÕES e o pouco tesão. Resolvi ir vivendo, realmente não consegui trabalho e comecei a preparar a saída. Mas resolvi dar uma sacaneada no Abanês. Malas prontas, viajaria na manhã seguinte. Desci e fui à cozinha e resolvi chamá-lo para me despedir, ele subiu ao quarto. Fred I’m going to Brazil tomorrow Morning. What… ele achando que aquilo era tudo. Claro que demos a última péssima rápida suada  e eu senti um gostinho bom de Vai se Fuder Fred…

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

 

Uma simples letra muda tudo e traz o trocadilho com a palavra “relacionamento” que se trocar o N pelo L vira “relacioLAMENTO”.

Comecei a pensar nessa palavra há uns 15 anos. Ela vinha na minha mente por uma questão de trabalho. Trabalhava com algumas células de equipes para um grande cliente, mas essas células reclamavam muito umas das outras e eu tinha que ouvir, resolver, enfim, era algo chato e cansativo demais, mas como a responsável pela conta, o problema final era meu… percebia que muitos dos problemas eram criados por coisas insignificantes que não eram problemas reais, ou por egos inflamados, e poderiam muito ser resolvidos se os envolvidos tivessem boa vontade para tanto. Porém, reclamar era mais fácil e conveniente.

Cheguei a escrever em um jornal interno, que tínhamos na agência, sobre esses “relacioLamentos“. Me lembro de muitos comentários das pessoas que não tinham entendido. Será que a maioria das pessoas entende somente o que lhe convém? Será que é muito difícil refletir, olhar o todo e achar soluções?

Acredito que vivemos muita superficialidade, muitas relações líquidas, muitos “eu te amo” vazio, muitos egos inflados e inflamados e por isso o que deveria ser positivo vira um poço de lamentos em busca do culpado, onde existe um “coitadismo” exacerbado e mãos repletas de estilingues.

Nas relações de trabalho, fica bem claro dois perfis bem distintos de profissionais. A primeira é a turma da mão na massa. Aquela que faz, que busca saídas, que entrega soluções, que realiza ações, que mesmo quando erra, tenta novamente consertar o que deu errado. A outra turma é a que fala, aponta problemas, mas não sabe resolvê-los. Muitos falam bem e até se vendem melhor do que a turma do que faz. Apontar o que pode ser melhorado é muito fácil, difícil é ir lá e criar processos, quebrar paradigmas, mudar posturas, achar novos caminhos e caminhar.

Então, hoje em dia, seja na vida pessoal ou na vida profissional, eu tenho muito respeito por quem, que quando aponta algo errado ou que pode ser melhorado, tem a humildade de se colocar no problema e buscar a solução em conjunto e realmente trabalhar para isso colocando a mão na massa e não só a voz no trombone.

RelacioLamentos não levam a nada positivo e ficam nessa esfera da lamentação. Lugar chato e sem saída. Já relacioNamentos são o caminho escolhido pela a turma que além de apontar os problemas, vão lá e fazem algo. Aliás, são os que fazem a diferença para melhor nesse mundão.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa.

Era 1979, logo após a anistia. A menina, com seus 20 anos, estava cansada daquilo tudo, daquela cidade de pedra. Junto da sua amiga, resolveram partir para viver uma vida livre e cheia de sonhos. Foram para o sul do país, num estado cheio de praias e natureza.

Lá trabalharam de tudo um pouco. Comércio, serviços gerais, indústria. O que desse algum dinheiro e tempo para viver era suficiente. A menina estudava bastante, principalmente a natureza. Estudava, lia, cantava e vivia livre, sem ter que se preocupar com todo o caos social em que o país vivia, em meio a uma ditadura irresponsável.

Nesse meio tempo, conheceu um homem trabalhando em uma editora. Ele era mais velho, maduro e estruturado. Vinha toda segunda de sua cidade natal e sexta ao final do dia para lá retornava. Ele também sonhava e queria viver de forma livre o mundo e a natureza. Era um par perfeito, se amavam e se completavam. A menina estava plena: tinha um par romântico perfeito, uma amiga inseparável, estava no local que sempre sonhou viver… o que esperar mais da vida?

Foram meses de muita alegria e completude. Conheceram toda região, frequentaram shows, liam e cantavam juntos. Era um sonho. Mas o sonho tinha prazo de validade e ele expirou quando a menina soube que ele era casado. A decepção juvenil não permitiu que as possibilidades fossem pensadas e a coragem necessária tivesse espaço. O rompimento dramático, bem típico daquela juventude veio e ela decidiu voltar a sua cidade de pedra com sua amiga fiel. Abandonaram o sonho para viver a realidade dura.

Logo conheceu um garoto e, para esquecer do homem que a machucou, decidiu seguir com ele a vida morna. Logo se casaram para provar que eram capazes, logo vieram os filhos para provar que são capazes, logo vieram as responsabilidades e dificuldades que provaram sua capacidade de deixar de ser menina e passar a ser mulher. E sendo mulher, não arredou pé de arcar com as agruras e usufruir das poucas alegrias que vinham. 

Mas o garoto não virou homem e logo vieram as traições, a violência psicológica, os abusos. Ela, mulher firme, aguentou tudo pelos filhos. Não era totalmente infeliz. Além dos filhos, tinha uma família maravilhosa e sempre que podia (e que o garoto não estava por perto), vivia essas alegrias plenamente, nunca sem esquecer do que poderia ter sido se aquela decisão precipitada de abandonar o paraíso no Sul e seu amor proibido tivesse dado certo.

Em meio a tudo isso, fez uma promessa a si mesma: assim que os filhos saíssem de casa, largaria tudo e faria como aos 20 anos. Partiria para o paraíso que conhecera e retomaria a vida de onde parou, de preferência, encontrando aquele amor pelo e impossível. A pergunta que não calava: será que consigo?

A filha se casou, o filho casou e lhe deu uma neta. Era hora de criar coragem e, mais uma vez, correr ao encontro da felicidade. Pela internet iniciou uma busca por aquele homem de outrora. Agarrou sua amiga inseparável e, escondido daquele garoto (que, apesar das rugas, mantinha a postura infantil e insegura de um menino), iniciou sua vida novamente.

Enfim, encontrou o homem do passado, que agora era um senhor. Juntou coragem e entrou em contato com ele. Surpresos, reviveram ao telefone os sonhos de outrora. Juntos, planejaram esse reencontro e a mudança daquela senhora-menina para o lugar em que a história avia abruptamente parado. Ela pediu divórcio, juntou as poucas coisas e partiu. Ele não poderia fazer o mesmo. Cuidava de uma esposa doente. Mas isso não seria impeditivo para viverem novamente uma história impossível.

Ela foi viver dos mesmos trabalhos que lhe dessem o sustento e o tempo necessário para ser feliz. Trabalhava com a natureza que havia estudado e voltou a ler e ouvir tudo que o garoto não permitia. E agora, nos poucos momentos possíveis, ao lado de seu grande amor. Mas também, a vida não seria um morango. Ela adoeceria e, pouco mais de três anos após sua libertação, viria a falecer devido a complicações de uma doença que surgira nos anos de estresse e infelicidade viveu na selva de pedras.

Poderia encerrar aqui a história de forma pessimista, já que todo leitor que se prese, espera um final feliz. O Senhor ficou triste com a partida da menina, os filhos dela também. Sua amiga inseparável também ficou inconsolável. Eu mesmo que escrevo essas linhas, no pouco tempo que a conheci, fiquei indignado com a vida ao saber de sua passagem.

Mas paremos para refletir: seria uma vida digna se ela tivesse fincado sua vida junto a moral e bons costumes, mantido um casamento infeliz, sofrente ao lado daquele velho garoto até a morte? Ou seria feliz uma vida pela metade, sustentando uma relação paralela desde a juventude com o homem que amava, mas que já tinha esposa e filhos?

Nunca saberemos. O que sabemos mesmo é que a maturidade trouxe a coragem necessária para que a vida possível fosse vivida e a sabedoria necessária para conviver com as incompletudes e impossibilidades. E tudo que foi possível viver em cada momento foi vivido de forma plena, porque a postura que aquela menina, que virou mulher e que se tornou uma sabia senhora nunca deixou de acreditar que a felicidade era possível, que os relacionamentos não são coisa perfeitas e imaculadas como nos romances hollyudeanos, e que a moral, a expectativa alheia ou mesmo as inseguranças e medos de dentro não são capazes de barrar uma alma livre, cheia de vontade de viver um amor possível, porém verdadeiro.

Esse conto é uma homenagem a uma vida que viveu e amou da forma que, não o que eu desejava escrever e nem o que desejávamos ler. Se você se identifica com a menina, com o homem, com o garoto, com a amiga inseparável, com os filhos da mulher ou mesmo com esse que vos escreve, se pergunte: que coragem me falta para viver a vida e o amor que mereço, mesmo com suas imperfeições? O que me falta fazer para ser feliz? O que preciso ser, independente da expectativa de quem lê minha vida de fora? O que me falta para ser livre?

Pense nisso.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Eu vi claramente o que você queria me dizer, rosto serio, frio, eu já devia saber.
Não tinha como você me perdoar, era impossível você entender, arrumando suas coisas sequer olhou para mim.
Procurou por um par de brincos, que estava na comoda ao lado da cama e você não viu.
Perguntou, séria e brava, aonde estava, e eu não quis dizer, como se aquele par de brincos conseguissem te deter.

Saiu silenciosa até o carro, com uma sacola na mão e os sonhos, todos eles, derramados pelo chão.
Retornou para pegar o restante das coisas, abriu a carteira, onde repousava uma fota minha e sua, colocou na mesa e saiu.
Eu, silencioso, sentado no sofá não pude acreditar no que estava acontecendo, a ficha ainda não caiu. De repente meu mundo escureceu, as fotos nas paredes não tinha mais sentidos, você simplesmente desapareceu.

Pensei no que falamos, sei que foi erro meu, mas não fui inconsequente, não sai, perdi você, mas você também perdeu.
Poderia ter questionado, entendido, mas preferiu ir e eu fiquei, um apartamento vazio, sem você, não havia mais ninguém.

Ainda calado, busquei a toalha e fui tomar um banho, para ver se conseguiria entender.
Liguei o chuveiro, no silencio, no escuro, burro!, me julguei. Vá atrás dela! comigo falei. Não Adianta. Respondi. Ela se foi, eu perdi.
Sequei-me lentamente, coloquei uma roupa e sai, não tinha como ficar ali, teria que vender o apartamento, as coisas, eu não queria mais existir.
Parei no mercado, comprei um vinho, que sempre gostei de tomar, abrir na rua mesmo, em copo plástico, algo que repudio veementemente, menti para mim mesmo, vai ficar tudo bem, ela se foi, mas vou ainda encontrar alguém.

Dentro do carro, com copo na mão, som desligado, ouvi uma mensagem no celular: “Burro, eu sempre te amei, tudo que eu queria era o seu amor, nunca existiu mais ninguém”.
Ali, naquele momento, pude perceber, meu ciúmes me fez perder você, nó na garganta e amargurado, não pude entender, porque não vi isso antes, porque tinha tanto ciúmes de você.
Sai do carro lentamente, calado, inconsequente, sem pensar em nada que iria acontecer, peguei um cigarro, ascendi, fechei meus olhos e só via você.
Olhei o viaduto, abaixo a rodovia, que viva, grunhia, seus caminhões e carros sem parar, subi no parapeito, cigarro na mão, garrafa no peito, dei um gole no vinho e consegui entender, o que tinha que fazer para nunca mais sofrer.

Adeus

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração e com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo

No início deste texto, pensei em colocar as mudanças que fazemos no decorrer das nossas carreiras, sejam profissionais ou pessoais. Sim, o fato de darmos conta dos nossos lares é sim uma profissão, talvez a mais digna delas.

Quando escolhemos nossas profissões, muitas vezes ainda jovens, vamos na intuição e no impulso das nossas paixões. Muitos prevalecem nelas, outros percebem que adequações ou até mesmo mudanças radicais redirecionam nosso olhar sobre o que queremos de fato, o que podemos fazer por nós mesmos, para os outros e para a sociedade em geral.

Por muitos anos me dediquei à carreira de Relações Públicas. Era muito feliz fazendo o que fazia. Entendia, me destacava, ganhava espaço, promoções e dinheiro. Foram anos de longas jornadas diárias e um certo dia, minha filha fez 15 anos e aquilo me assustou:

_ Caramba, não vi a minha filha crescer!

Nesse momento, comecei a pensar em como poderia mudar esse contexto. Trabalhava numa boa agência em São Paulo. Um certo dia, me chamaram para uma viagem ao Nordeste para conhecer o espaço onde seria construído um enorme empreendimento imobiliário de luxo. Lindo!!! Conhecendo locais, percebi que estavam inseguros, que aquela natureza exuberante seria derrubada, que muitas pessoas teriam suas casas “compradas” e começariam uma vida distante e sem a estrutura que passaram a vida toda construindo. Ali era uma comunidade rica de pessoas, de trabalhadores, de talentos natos e pouca coisa seria aproveitada. Minha função era fazer o Planejamento Estratégico de Comunicação e orientação criativa para que a propaganda de lançamento resultasse em muitos compradores, principalmente, europeus. Sinceramente, passei dias sem escrever. Não conseguia colocar no papel como aquilo poderia ser benéfico.

Foi então que, aproveitando um frágil momento financeiro da agência, resolvi voltar ao Rio de Janeiro, onde morava antes de me separar.

O objetivo era diminuir meu tempo, me dedicar a casa, à família, a minha filha… e à reconciliação do casamento.

Mas a questão humana daquele trabalho não saia da minha cabeça, até que fui apresentada para uma fundação sem fins lucrativos no Rio de Janeiro. BrazilFoundation. Pensei:

_ É isso! Terceiro Setor! Sustentabilidade! Responsabilidade Social!!

Sempre fui muito engajada no social, mas trabalhar diretamente seria maravilhoso. E lá fui eu, como voluntária, três vezes por semana, como parte da Comunicação. Aos poucos, fui fazendo meu trabalho e acabei sendo contratada. Foram 5 anos. Dois diretos na Fundação e outros três dando capacitações para gestores de organizações pelo Brasil afora. Experiência maravilhosa. Em outros textos, virão histórias que terei muito prazer em contar.

Só sei que escolher o Terceiro Setor e o engajamento em questões sociais foi a coisa mais rica que pude fazer na minha vida.

Porém, aquela questão da família acabou ficando pra trás, porque eram tantos trabalhos, horas de dedicação que mal via a família também.

Tive problemas pessoais, pois gostava mesmo era de subir morro: Vidigal, Rocinha, Maré, Cantagalo, Macaco, entre tantos outros em vários Estados diferentes e até eventos internacionais. Claro que isso tudo teve um impacto financeiro muito grande, pois aquela que ganhava bem, passou a ganhar pouco, bem pouco. Mas a realização era enorme. Mas não bastava. Aí surgiram os problemas no relacionamento, as cobranças, todo aquele trabalho lindo que tinha prazer em fazer era diminuído pelo contraste financeiro. Me tornei uma mulher dependente. E a dependência traz correntes, amarrações, conversas cruéis e discussões que enfraquecem qualquer relacionamento. Foi aí que me vi numa completa depressão e fui me afundando cada vez mais. A verdade é que essa depressão já existia, mas estava escondida, preparando o momento certo de aflorar. Isso também contarei num outro momento.

A crise de 2018 veio forte e com ela a ajuda financeira aos projetos diminuíram, assim como a violência nas comunidades cariocas aumentaram e acabei me afastando. Mas a depressão ainda estava ali, forte, corroendo. Me via trancada num lindo castelo, cercada de tudo que uma “rainha” poderia ter. Porém, nada daquilo era suficiente. Tudo estava a beira do caos. Bebidas, remédios e um bom quarto escuro era o que segurava a minha onda. Certo dia, numa séria discussão com meu marido, tomei a decisão de me afastar, separar, tentar recomeçar. Saí vazia, com muito menos do que deveria. Fiz a escolha e, acredite, acertei.

Não recomecei. Comecei do zero, pois fui para um lugar menor, sozinha, três cachorros, com dinheiro que teria que fazer escolhas do que comprar para sustentar a casa, os animais, minha saúde etc. Troquei novamente a profissão. Reencontrei a antiga dona de casa, lavando, passando, cozinhando, fazendo faxina, cuidando dos cães e de suas enormes “montanhas” espalhadas pelo jardim.

Descobri uma força enorme dentro de mim e sim, a “Força Enorme de Ser Duas”, ser três, quatro…

Hoje, estou na linha de frente da minha vida. Com tantas experiências vividas nesses últimos 20 anos, desde meu casamento até seu término, me sinto mais completa, mais feliz. A liberdade de escolha sem críticas, sem opressões, me fez uma mulher mais forte, mais segura, mais bonita e muito mais profissional. Carrego o meu dia a dia no colo, cuido de tudo do jeito que posso, que quero, que sou. Comecei a escrever um livro, estou roteirizando um documentário. Fiz muitas amizades, acordo cedo e faço meus esportes. Não tenho que justificar cada passo. Me responsabilizo por eles. E, acredite, sou feliz assim. Claro que tem horas que quero entrar num quarto escuro novamente, choro, me sinto frágil. Mas isso é a vida. Como tem que ser. A outra opção seria uma vida sem problemas, sem medo, sem angustia. Completa ilusão. Nada real.

O cuidado e o carinho com si mesma te levam de um lugar para o outro. Tudo bem, dá pra aguentar!

A minha compreensão hoje é que minhas antigas atitudes foram substituídas por pontos de vista novos, renovados acerca de quase tudo. E pela primeira vez na minha vida, tive a chance de parar de me chocar com muros que eu mesma criei e, em vez disse, aprender a atravessá-los.

Tudo isso não quer dizer que estar sozinha é ter força, é poder. Temos força quando nos juntamos a outras pessoas. Quando estamos juntos, não podemos ser quebrados, divididos, não estaremos cansados!

Junte-se àqueles que dão ferramentas para te construir emocionalmente, pessoalmente, profissionalmente. Junte-se àqueles que se deparam perante a vida com humor. Porque sem humor, a vida não tem graça e é preciso sorrir de dentro pra fora, sempre!

A Força está em sermos muitos e sermos inteiros!

Dani Fantini -Bela Urbana, mãe de uma menina moça, que a acompanhou em toda a sua jornada, que não viu crescer, mas acompanha seu presente e seu futuro. É dona de casa, escritora, que trabalha com gente, que ama animais, a vida e que venceu a morte no auge de uma depressão. Podemos dizer que sim, é completa, mesmo faltando algumas peças desse enorme quebra-cabeça que é a vida!
 

Foto: @camilasvenson

Você, mulher de quarenta, contemporânea, mas muito à frente do seu tempo, chegou muito mais longe do que a sociedade previa. Saiu das sombras dos homens para um lugar de protagonismo na história, sem perder a sua doçura.

Você chegou exatamente aonde deveria estar. Linda, exuberante e independente, ainda um pouco frágil, pelo grande coração que tem, mas perfeita!

Um modelo para uma nova geração, ideais muito bem definidos, consciência política e visão. Nossa, você foi muito mais longe do que a maioria das mulheres de quarenta! É claro que a sociedade em si monta um modelo mentiroso, de mulher da propaganda de margarina, mas eu nem gosto de margarina mesmo, prefiro manteiga.

Pode ser que dentre todos esses moldes, você olhando as pessoas ao redor, venha sentir, eventualmente, que lhe falta algo. Mas, minha cara, pare e pense: você estagnada, esperando que homem a sustente? Ah, isso não! Risos… Você vai muito mais além.

Agora, não concordo que o príncipe encantado não exista. Ele existe e teve que se reinventar também, para poder acompanhar a mulher de quarenta. Esse príncipe de hoje faz comida e lava roupa, não depende da mulher. Até mesmo por que você, de quarenta, não iria querer. E pode até ser que esse príncipe encantado da mulher de quarenta seja também uma bela mulher… Mas tem que ser forte, você não aceitaria nada abaixo disso.

Esse príncipe de hoje, moldado para você, está menos interessado em futebol. Ele prefere entender o que você pensa e por que você pensa, compartilhar com você ideais. Você nunca iria caminhar atrás dele, no mínimo ao lado, e muitas vezes na frente dele.

Mas aí você irá me perguntar: Amigo, onde está este par perfeito? E minha resposta simples e óbvia será: Se preparando para poder encontrá-la! E quando encontrá-la, ele, este par, se tornará ‘um’ com você e seus mundos estarão completos.

Então, minha cara, parabéns por ser este exemplo de mulher de quarenta, parabéns por ser esta força a ser seguida, parabéns por mostrar para nós, estes homens ainda em construção, o tanto que falta para chegarmos aos seus pés.

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Os relacionamentos por whatsapp são muito comuns nos dias de hoje. Se por um lado o aplicativo une e agiliza a comunicação, por outro pode tornar até um casamento sem a relação “face to face”.

Me lembro de uma amiga cujo marido falava tudo por mensagens. Mas quando chegava em casa, não dava nem um beijo sequer. Boa noite então, seria gentileza demais. Ele ia direto para o banheiro e se dirigia de costas para a esposa apenas para perguntar: – O que tem de janta?

Celular no criado mudo não parava de “apitar”. Cunhada, irmãos… mesmo tendo passado o dia todo juntos, invadiam a privacidade do casal.

Acontecia sempre naquele mesmo horário. Então jantavam separados, pois ele sempre estava ocupado respondendo mensagens de whatsapp ou falando ao celular.

Na hora de dormir, ele queria sexo. Mas não havia troca. O sexo para ela era a continuidade de uma relação, caso contrário, se tornava obrigação. Pra que fingir? Melhor fugir.

Relação afundando, mas o whatsapp continuava lá. Ativo, funcionando.

Ele nunca lhe pediu desculpas por nada, afinal, tinham jurado ao pé do altar que o casamento seria pra sempre.

Triste contradição: ela terminou o casamento e o mandou embora de casa por mensagem… de whatsapp.

Ele não pediu para ela reconsiderar. Não tentou dialogar. Sua única tentativa foi mandar uma mensagem a ela agendando terapia de casais…por whatsapp.

Tarde demais.

Angela Carolina Pace – Bela Urbana, publicitária, mãe, apaixonada por Direito. Tem como hobby e necessidade estudar as Leis. Sonha que um dia as Leis realmente sejam iguais para todos.

Fui sua inquilina durante 6 meses. Aluguei um quarto em sua casa. Excelente casa, confortável, clara e muito bem localizada. Falávamos pouco. Desde o começo falei que era ruim o meu inglês. Isso não nos impediu de trocarmos mensagens. Com o meu jeito de transformar os lugares onde moro, arrumei o jardim, recuperei o tampo de duas belas mesas. Ele ficou muito admirado e agradecido.

Pega de surpresa quando me comunicou a venda da casa, fiquei sem saber o que fazer e como tinha uma passagem já comprada para Portugal, resolvi mudar os planos, já que tentar alugar outro quarto na cidade onde estava era muito difícil.

Resolvi ajudar a desmontar algumas coisas na casa e ele mais uma vez se mostrou feliz com a parceria. O tempo que passamos na casa organizando a mudança, nos aproximou. Fiquei sabendo ser divorciado, dois filhos, dois netos. Vegetariano o que foi uma grata surpresa. Nos despedimos com um forte abraço.

Chegando a Portugal mantivemos contato e a cada cidade nova, mandava fotos e pequenas mensagens. Prometi que quando retornasse a Girvan faria um quiche para ele, depois de ter mandado uma foto de um projeto que não vingou.

O tempo me trouxe uma nova mudança de planos. Resolvi adiantar o meu retorno a Girvan para ficar mais tempo com os netos já que não queria turistar mais. Pouco dinheiro, saudades, solidão.

Quinze dias depois de estar ao lado da família, o que me recuperou as energias cem por cento, resolvi faZer o quiche e mandar mensagem a ele para cumprir a promessa. Não sabia se tinha alguém. Só o via sozinho. Fiquei na expectativa e joguei para o universo.

Ele pronto respondeu e disse que passaria a tarde para me rever e receber o presente.

Batidas na porta, sabia ser ele, nos abraçamos, senti que estava feliz em me rever. Fui pegar o quiche perguntei se queria entrar e ele diz que estava voltando do trabalho, outra hora entraria. Me perguntou se eu queria ir conhecer a casa nova. Como eu já tinha essa expectativa, tinha até me arrumado, aceitei o convite.

Fomos conversando o caminho de vinte minutos de estrada, chegamos a sua nova casa. Lindo lugar de frente ao mar, fazia frio como sempre, mas hoje sem chuva. Entramos, me mostrou toda a casa e pediu licença para tomar um banho. Fiquei observando tudo e excitada como uma adolescente.

Chegou mais confortável, me ofereceu um vinho e foi acender a lareira. O clima na Escócia e bem propício ao romance: frio, lareira, vinho e por último um jazz para ouvir. Montado o cenário. Resolvi contar histórias da viagem e mostrar fotos. Rimos do meu inglês precário e bem perto um do outro nos esbarrávamos, meio na brincadeira e por fim o olho a olho. O calor transbordou nossos corpos e nos beijamos com calma e deliciosamente. Gosto de vinho. Sua barba macia me aquecia ao toque das mãos. Ali ficamos meio sem jeito. Eu percebi o quanto era tímido.

Fomos comer o tão esperado quiche e bebemos mais um pouco. Lembro que há tempos falamos a respeito de bebidas e éramos iguais; uma ou duas taças de vinho, não mais. E assim foi.

Sentamos no chão no tapete em frente a lareira. Ele pegou a manta do sofá e nos envolvemos. Deitamos e fomos nos descobrindo no nosso tempo. Mas velhos como somos, já não rasgamos roupa ou as tiramos em desespero. Carinho, movimentos mais apreciados e ali realizamos nossa primeira noite juntos.

Na verdade não podia dormir naquela noite ali e mais tarde pedi que me levasse a casa. Já não sabia muito como agir. Pedir que ligasse, convidá-lo a jantar?

Nos despedimos com um carinho imenso. Me sentia enebreada de desejo, amor. Tudo junto e claro ansiedade.

No dia seguinte envie mensagem, logo cedo, agradecendo a noite e manifestando a vontade de estar com ele de novo. Não perdi tempo tentando achar o certo e o errado.

Novo encontro se deu num jantar preparado pela filha e o genro. Noite memorável, muitas histórias que ele nos contou por ser um eterno viajante. Nos despedimos de forma rápida e calorosa. Não iria para casa dele naquela noite.

Combinamos de fazer umas caminhadas no final de semana e assim foi. filha, genro e netos. Levamos um grande lanche e fomos por longos caminhos pelas matas da linda Escócia. Paramos por várias vezes por conta das crianças, mas dessa vez o inusitado do passeio era que eu tinha um companheiro, visto que sempre estava só.

Já tarde, retornamos e dessa vez os filhos foram e eu fiquei em sua casa. Banho tomado e cansados demais, apenas dormimos lado a lado. Eu vivia um sonho, agora acordada. Café da manhã, preguiça no corpo e um dia pela frente para relaxar e brincar de casal.

Nos identificávamos em muitas coisas e aprendíamos com nossas diferenças. Comecei a ficar mais tempo em sua casa. Os dias em que trabalhava a noite eu dormia na casa da filha.

O tempo passou rápido. Logo voltará ao Brasil para rever a filha, família e amigos. O que não esperava era sentir a saudade que me tomou por inteiro. Falávamos todos os dias e quando podia nos víamos por vídeo.

Já fazia planos de logo voltar quando fui surpreendida por um pedido! Depois de frases em um inglês escocês quase inaudível, entendi por fim que me pedia em casamento. Não acreditei e fiquei rindo, rindo e rindo. E disse yes, yes, yes!

Era Real? Jamais tinha imaginado isso, claro que o coração de uma eterna sonhadora, nunca descansa. Mas era sempre nos sonhos acordada que inventava belas histórias com finais felizes.

Agora era real. Eu já imaginava tudo; a festa, família, comidas, música e alegria. Mas o mais importante era pensar na cumplicidade de nos dois, já com uma estrada menor para percorrer, agora não mais sozinhos!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Muitas pessoas tem a idéia equivocada de que em países desenvolvidos o abuso praticamente não existe; como se ele fosse fruto exclusivo da falta de acesso à educação e cultura.

Aproveitei o convite da Adriana Chebabi para escrever no Belas Urbanas e da minha experiência como brasileira que mora na Alemanha para ir atrás de dados e história, na tentativa de traçar o perfil da mulher alemã contemporânea e sua relação com o abuso.

De fato na Alemanha o abuso, seja ele psicológico, físico, moral, sexual acontece com menor frequência mas ainda assim ele acontece. Em 2019 uma mulher foi morta a cada 3 dias vítima de feminicídio na Alemanha (não considerando os abusos que antecedem à morte). No Brasil uma mulher é morta vítima de feminicidio a cada 2 horas.

Olhando para o passado descobri na mitologia referências às deusas germânicas, que lutavam lado a lado com homens e que eram associadas à valores guerreiros e de autossuficiência. Lenda ou não as mulheres guerreiras aparecem em diversos relatos encontrados sobre o Sacro Império Romano-Germânico na época da antiguidade.

Lembrando que os povos germânicos na época estavam espalhados pela atual Áustria, Suíça, França, Bélgica, Norte da Itália, Península Ibérica e Norte da África. As mulheres germânicas de fato influenciaram grande parte da cultura feminina européia.

É importante ressaltar que mais para frente, na Idade Média, a sociedade germânica era patriarcal, cabendo às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos,  alimentar a família, prover e utilizar os medicamentos.

Passados os séculos e chegando aos dias atuais sinto que a mulher alemã é altiva, forte e se orgulha disso, entretanto essa atitude sozinha não vem sendo suficiente para evitar os casos de abusos contra elas.

Uma realidade a ser considerada nesta análise, e que passa pela cabeça de muitos é o fato da Alemanha ter sempre recebido, em maior ou menor quantidade, um grande número de imigrantes, que trazem consigo diferentes costumes. Esse caldeirão de culturas obviamente traz choques que podem nos levar a pensar que a sociedade multicultural abre brechas para tal violência e que o abusador simplesmente é o outro,  o que veio de fora. Mas muito do que fui pesquisar sobre relações abusivas me fez acreditar que não é este o caso. Explico melhor a seguir.

A construção de uma personalidade abusiva, pelo que pude perceber, não depende apenas de fatores como, país de origem e classe social. Isso pode interferir quando o abusador vem de países em que a cultura do estrupro e da inferioridade feminina ainda existem, como a Somália, India, Afeganistão, Nigéria, para citar alguns; mas ainda assim seria simplista afirmar. O que venho constatando em minhas leituras sobre o tema é que a violência depende de algo maior e mais complexo, e que na grande maioria das vezes ela acontece em relacionamentos inicialmente consensuais, ou seja, sem barreiras, sem choques ou atritos.

Fica claro que existe um período de encantamento e que conforme a relação se desenrola os primeiros sinais aparecem. Desencorajamento, controle, tortura psicológica, agressão física, estupro entre outros. Neste período a vulnerabilidade entra em jogo e ela simplesmente desconhece área geográfica.

Claramente os tempos mudaram, os “gatilhos” mudaram e o sofrimento se mantém, no mundo todo.

Hoje em dia acredita-se que os abusos ligados à violência doméstica aumentaram, e de fato os dados mostram que sim.

A pandemia da Covid-19 vem expondo às pessoas à experiências de confinamento que não estão sendo saudáveis por diversas razões. Na Alemanha logo após o término do “lockdown” as denúncias de mulheres vítimas aumentaram em 30%,  somente na capital Berlim.

Contudo, o evento mais importante está acontecendo; as vítimas estão parando de se esconder e é exatamente por isso que os números de casos subiram.

O acesso à informação, os debates e o encorajamento de mulheres é um movimento sem volta e os casos emergem, o que nunca aconteceu com tamanha força.

E tanto você, que se interessou em ler este texto, quanto eu, que fui estudar sobre o tema, estamos colocando este assunto em pauta, debatendo, denunciando, reconhecendo e divulgando canais competentes de auxílio à mulher em situação de abuso.

Sim, o abuso é mundial, assim como a luta contra ele!

Vamos seguir lutando “miteinander”,  palavra alemã que eu adoro e que quer dizer “juntos”.

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. É responsável pela área de Marketing Digital
da Push Rio Activewear. www.pushrio.com