Quando lançamos a série de textos sobre relacionamentos abusivos, não imaginava o quanto isso era muito mais comum do que eu pensava.

Essa discussão se estendeu por mais tempo do que o previsto inicialmente, mas foi necessário, porque muitas vozes precisavam falar. Vozes que me procuraram e que por sentir que eu estava disposta a ouvir confiaram em mim suas dores e superações.

Aprendi muito com cada um que escreveu, com cada pessoa que me procurou, com todos as conversas que tive nesse caminhar. E olhando esse trajeto de um pouco mais de um mês, olhei tanto para mim mesma.

Nas minhas conversas comigo mesma, nos meus diários, agendas, textos guardados e nas minhas memórias, fui me buscando, me olhando de fora de mim e tentando enxergar quem fui eu, quem sou eu, quem são e foram as pessoas do meu lado.

Posso afirmar que é muito difícil alguém nunca ter vivido alguma situação que o tenha exposto, humilhado, o deixado frágil…. Muitos se negam a enxergar, muitos não conseguem sair do papel imposto, mas muitos outros conseguem buscar caminhos melhores, não aceitam as dores.

Aprendi que ninguém tem o direito de julgar o outro, julgar não agrega valor nenhum e não ajuda nenhuma vítima a se sair desse papel. Acredito que cada um faz o melhor que consegue fazer com o recurso interno que tem. Como podemos ajudar? Incentivando a busca do autoconhecimento, isso fortalece.

Ainda vivemos uma sociedade com muitos traços machistas, mas muita, muita coisa mudou e melhorou da geração da minha avó para a da minha filha, que salto positivo! Mas ainda precisamos mais como sociedade. Qual a parte que lhe cabe em tudo isso?

Agradeço a todos os autores expostos aqui e os anônimos que corajosamente compartilharam suas vivências, pensamentos, poesias, contos, reflexões. Com toda certeza os textos irão ajudar pessoas que se encontram em situações abusivas e que não sabem o que fazer. Esses textos são luzes.

Belas Urbanas não aceitam abusos.

Obrigada.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Quando eu tinha uns 7, 8 anos, muito feliz nas férias, num dia de piscina com parentes… um deles muito querido e muito mais velho do que eu, começou no meio das brincadeiras passar as mãos em mim! Sem cerimônia, com naturalidade na frente de todos… me enganchava na cintura e forçava minha genital nele! Eu sem entender, mas me sentindo muito mal, fiquei confusa e no fim das contas, lembro de ter pensado ser coisa da minha cabeça! Já que ele era tão legal e tão amado!

Aos 10 fui estuprada por outro parente. Quando contei para um adulto, eu apanhei.

No mesmo ano teve uma feira de livros na minha escola! Eu era louca por livros! Todos os dias eu saia da aula correndo para ver e escolher os livros que eu compraria. Num desses dias, sentada folheando um livro, o “tio” que estava responsável pela feira, sentou ao meu lado e enfiou a mão por dentro do meu shorts. Eu paralisei, perdi o ar e saí correndo. Contei para uma amiga, que não entendeu nada! Óbvio!

Com meus 13, 14 anos aquele parente da piscina foi dormir em casa. Eu e minha irmã muito felizes pedimos para ele dormir no nosso quarto. Deitamos todos juntos, e quando minha irmã dormiu ele colocou as mãos dentro da minha calcinha. Eu saí correndo, me tranquei no banheiro e chorei por horas.

Tempos depois voltando pra casa, percebi que estava sendo seguida na rua, me enfiei dentro de um orelhão, e o cara tentou me agarrar. Comecei a gritar e ele saiu correndo. Eu quase desmaiei de tanto pavor.

Mais tarde já, fiz um curso de massagem ayurvédica, comecei a trabalhar num espaço e deixei claro que não atenderia homens. Um dia a dona do local praticamente me obrigou a atender um cliente. Fui extremamente profissional, fria. Pedi pra que ele ficasse de cueca e colocar o lençol por cima. Em certo momento ele tirou o lençol, estava sem a cueca e pediu para que eu massageasse o pau dele.

Levantei e saí! Eu tinha pesadelos com ele correndo atrás de mim. Procurei um psiquiatra porque já não conseguia mais dormir em paz. Ele queria me medicar, eu disse que não poderia pois tinha filho pequeno e precisava estar atenta. Então, ele propôs sessões de terapia. O psiquiatra devia ter uns 80 anos. A cada sessão eu deitava num tipo de divã e ele sentava numa poltrona atrás, onde eu não conseguia ver. Numa das sessões percebi algo estranho, mas teimava em não acreditar. Até que na próxima eu ouvi ele abrindo o cinto e fazendo barulhos estranhos. Dei um pulo, e quando vi ele estava com a calça aberta com o pau de fora, tentou me agarrar. Eu saí correndo desesperada! Ele ligou na minha casa algumas vezes, eu atendia fingindo não ser eu.

Depois fui morar com um namorado. Um dia não queria ter relações, ele me obrigou. Mesmo eu estando imóvel, ele fez o que queria, depois virou para o lado e dormiu, bem tranquilo.

Fui assediada inúmeras vezes no trabalho. Tive um chefe que me pedia para buscar coisas o dia todo para poder ver a minha bunda. Um dia falou isso rindo para mim. Trabalhei num restaurante como auxiliar de cozinha. Um dos profissionais me trancava na câmera fria vez ou outra para me agarrar. Eu entrava em pânico, tinha luta corporal e algumas vezes ele falava que não adiantava gritar, porque ninguém iria me ouvir. Me pressionava na porta e enfiava a língua na minha boca. Um outro auxiliar vivia passando a mão na minha bunda. Um dia com raiva peguei ele pela gola e quase dei um soco no nariz. Mas tive medo. Eu era a única mulher dentro da cozinha.

Aguentei anos o pai de uma colega do meu filho descaradamente me assediando. Me ligando, me chamando para sair. Um dia indo para um aniversário de uma criança da escola, quando cheguei ele estava no estacionamento, tentou me beijar à força na frente do meu filho, que obviamente estava sem entender nada. Fiquei anos querendo contar para um casal de amigos da mesma escola, mas tive medo e vergonha.

Minha filha nasceu e eu já estava separada do genitor, ao ir no médico para ver os pontos da cesárea, o médico nem olhou para minha cara, mas disse para o genitor que eu já estava boa para uso! Dias depois o genitor tentou me forçar ter relação com ele. Eu tive uma crise de pânico. E ele acabou comigo!

Amigos, homens do meu círculo social, já me encoxaram com a desculpa de estarem bêbados, homens do meu convívio que até hoje quando cumprimentam vem beijar no canto da boca! E muitas das vezes mesmo eu sendo quem sou hoje, não consigo falar, nem agir na hora. Fico tremula e paralisada.

Amigos do meu marido que se emputessem com meu posicionamento e me chamam de feminista escrota, idiota e por aí vai!

É a primeira vez que escrevi num relato só quase todos os abusos que sofri na vida!
Mesmo depois de tantos anos e mesmo num processo de cura constante, muitos deles eu não tinha coragem de contar! Agora eu tenho, eu preciso!

Passei anos da minha vida achando que o problema estava em mim. Hoje entendo que não!
Não conheço infelizmente NEMHUMA mulher que não tenha sofrido abusos! Umas mais outras menos!

Hoje eu vivo em alerta! QUALQUER homem é sinal de perigo! Quando estou dirigindo estou SEMPRE ATENTA às mulheres que estão a pé.

Ano passado quase bati meu carro, por ver um homem batendo na mulher no meio da rua, uns dez homens olhando sem fazer nada! Parei o carro e comecei a berrar enquanto chamava a polícia. Dias depois ao lado da portaria do meu prédio, vi um homem indo para cima de uma mulher, pressionando ela na porta de uma loja fechada, ela estava no ponto de ônibus. Fingi que conhecia ela, abracei e joguei pra dentro de prédio. Ela quase desmaiou e tivemos uma crise de choro!

Anos atrás, fui pedir ajuda para um conhecido para como proceder para auxiliar uma amiga que tinha sido estuprada. Primeira coisa que ele me perguntou, foi se ela era bonita! Ele me perguntou sorrindo!
Eu vomitei dias, não conseguia trabalhar, meu corpo doía.

Alguns anos atrás uma amiga foi jogar o lixo na lixeira da rua, e o vizinho idoso a agarrou! Eu lembro do desespero dela!

Passei por inúmeras sessões de terapia chorando copiosamente de desespero em pensar que tenho filhas, nesse mundo de homens tão escrotos e de uma sociedade tão machista! Que nos tratam como nada, como pedaço de carne a ser consumido!

Eu sei que dói ler tudo isso! E sei que muitos virão aqui solidários a toda essa dor!
Mas a dor é de todas nós.
Precisamos estar atentas sempre, dentro das escolas, nos parques, nas ruas, no ponto de ônibus, dentro das nossas casas e por aí vai!

Todos os minutos, todas as horas, todos os dias têm crianças, adolescentes, jovens, adultas sendo abusadas, estupradas!

Precisamos estar atentos!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Hoje me vejo me redescobrindo, como se tivesse me perdido por aí ( nem sei onde) e acabado de me achar. Me olho… não sei exatamente como funciono, como reajo, o que me falta, o que quero e o que tenho a oferecer.

Triste isso? Não é não… parece mas não é ! Na verdade estou encarando como uma conquista… uma libertação!

As pessoas falam de relacionamento abusivo como se resumisse em palavras grosseiras, agressão física ou algo muito escancarado que só a vítima não vê.

Pessoal, as agressões de todo tipo são horríveis e fazem parte da relação abusiva, mas vai muito além disso. Não é fácil se perceber sendo abusada ou abusado. Vamos abrir os olhos e principalmente nossa intuição.

Acabo de sair se um relacionamento abusivo de 10 anos.

Minha maior dificuldade é entender tudo que passei. Uma confusão mental horrível.

Me pego com culpa, saudade, raiva, medo… por anos fui tratada como inadequada, incapaz, dependente. A minha opinião não tinha muito valor porque eu era toda inadequada perto dele, um ser autosuficiente, autodidata, talentoso, que não precisava de médico, psicólogo, professor…nem de Deus. Qualquer coisa que eu precisasse eu podia consultá-lo que ele ia me dar as respostas corretas.

Uma pessoa extremamente inteligente e sedutora, que tinha o dom da palavra. Tanto tinha que não me deixava falar… quando ia expor minha opinião sobre qualquer coisa que não concordasse na relação, ele falava sem parar, me culpando, acusando, diminuindo meus sentimentos e raciocínio. E eu ficava perdida e irada com aquele jeito injusto de me tratar. Mas no fim acabava com dó dele… uma pessoa que tanto sofreu na vida e eu uma garota privilegiada, de classe média, com um passado totalmente inadequado… deveria sim procurá-lo para fazer as pazes. Eu não estava errada mas ele se perdia porque sentia muito ciúme de mim. Isso porque me amava muito, eu era única para ele. E isso me fazia sentir importante!

Somente ele me trataria de forma tão especial, mais ninguém no mundo.
Ganhei uma coleção de poemas, um mais lindo que o outro. Realmente muito bem escritos e que me faziam sentir uma espécie de deusa. Era como se eu tivesse achado meu príncipe encantado, uma pessoa que me via de forma única, me conhecia como ninguém, me realizava sexualmente, me protegia, me cuidava … e era só ele que fazia isso. Todas as outras pessoas, apesar de terem boas intenções, não sabiam o que eu precisava para ser feliz. Nem eu sabia. Só ele sabia. E este padrão se repetia com os filhos também. Todos nós éramos tratados com uma espécie de seguidores dele.

Era estranho as vezes, era doído outras, mas no final eu acabava fazendo as pazes, mesmo sem ter conseguido me fazer ouvir.

Começou rejeitando totalmente meu passado, eu fui desleixada, uma mulher que teve muitos namorados e não poderia ser valorizada por nenhum homem, a não ser ele, que topou ficar comigo e me mostrar uma vida diferente, mais respeitosa, mais contida, a vida de uma mulher de valor. Minhas amigas também era inadequadas, todas! Afinal fizeram parte de um passado meio fútil. Não teria como manter vínculos, pois teria que escolher entre elas ou ele. E ele estava me conduzindo para uma vida de família, mulher correta, mãe respeitável. Então, sumi da vida delas !

Minha família também era bem inadequada. Na verdade não era família. Eu mal convivia com alguns, então se era para ver só em festas e no Natal não eram pessoas que eu poderia contar. Quem estava do meu lado dia e noite era ele. Ele sim era minha família.

Minha mãe e minha tia, as pessoas mais próximas da minha vida, erraram muito comigo porque me superprotegiam e por isso não fiquei preparada para os sofrimentos da vida. Afinal, viver é sofrer, não é ? O sofrimento tem um valor muito grande porque viver sorrindo é coisa de gente vazia, fútil .

No trabalho eu era mediana, muito aquém dele. Deveria sim pedir dicas, conselhos para conseguir crescer e ter a visão dele. Ele, como gerente bem sucedido, era a única pessoa que ia poder me dar conselhos certeiros. Fui promovida algumas vezes e, por coincidência ou não, estávamos brigados e estive sozinha para comemorar comigo mesma as minhas conquistas.

Sozinha, engraçado como me sentia sozinha!

Nas brigas, que eram muitas, eu sempre estava muito errada, e no final, me sentia tão injustiça em não ser ouvida, em não ter meus sentimentos respeitados, que me enfurecia. E aí, além de errada eu era descontrolada.
Como posso falar em paz se eu não tenho paz? Como posso falar em Deus se sou tão desajustada ?

E assim fui me distanciando de Deus, de mim mesma, da minha família, dos meus amigos… me perdendo… e me achando inadequada pelas minhas escolhas.

Graças a Deus, algo dentro de mim pulsava e não me deixava entregar totalmente àquela situação. Não tinha consciência de tamanha manipulação, mas minha intuição me dizia para continuar com meus sonhos, com meus planos, com meu sorriso e com minha alegria nata.

Mesmo perdida eu continuava cultivando dentro de mim coisas muito boas e isso me salvou!

Hoje, recém separada, ainda me vejo muito frágil, por vezes me sentido inadequada ou errada, com pena dele, que tanto sofreu neste casamento… mas a lucidez tem me presenteado com momentos como este que consigo claramente enxergar a toxicidade da relação em que me encontrava.

Distante, vejo melhor. Como se me distanciasse da neblina.

Queria deixar um recado para as pessoas que se sentem confusas em uma relação tóxica. Esta confusão é a famosa manipulação e ela a responsável pela maior perda que se pode ter: a lucidez.

Não se deixe ficar confusa ou confuso. Medite! Respire! O amor é leve, não machuca, não vem cheio de exigências, não te diminui, não te cobra, não faz você ficar confusa e se sentir incapaz de nada. O amor também não te trata como deusa ou deus. Se sente algo de errado aí dentro, dê atenção a isso. Se escute! Se perceba!

A pior coisa que podem te roubar é a sua lucidez. Resgate-a.


MULHER – Bela urbana, 35 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Muitas pessoas tem a idéia equivocada de que em países desenvolvidos o abuso praticamente não existe; como se ele fosse fruto exclusivo da falta de acesso à educação e cultura.

Aproveitei o convite da Adriana Chebabi para escrever no Belas Urbanas e da minha experiência como brasileira que mora na Alemanha para ir atrás de dados e história, na tentativa de traçar o perfil da mulher alemã contemporânea e sua relação com o abuso.

De fato na Alemanha o abuso, seja ele psicológico, físico, moral, sexual acontece com menor frequência mas ainda assim ele acontece. Em 2019 uma mulher foi morta a cada 3 dias vítima de feminicídio na Alemanha (não considerando os abusos que antecedem à morte). No Brasil uma mulher é morta vítima de feminicidio a cada 2 horas.

Olhando para o passado descobri na mitologia referências às deusas germânicas, que lutavam lado a lado com homens e que eram associadas à valores guerreiros e de autossuficiência. Lenda ou não as mulheres guerreiras aparecem em diversos relatos encontrados sobre o Sacro Império Romano-Germânico na época da antiguidade.

Lembrando que os povos germânicos na época estavam espalhados pela atual Áustria, Suíça, França, Bélgica, Norte da Itália, Península Ibérica e Norte da África. As mulheres germânicas de fato influenciaram grande parte da cultura feminina européia.

É importante ressaltar que mais para frente, na Idade Média, a sociedade germânica era patriarcal, cabendo às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos,  alimentar a família, prover e utilizar os medicamentos.

Passados os séculos e chegando aos dias atuais sinto que a mulher alemã é altiva, forte e se orgulha disso, entretanto essa atitude sozinha não vem sendo suficiente para evitar os casos de abusos contra elas.

Uma realidade a ser considerada nesta análise, e que passa pela cabeça de muitos é o fato da Alemanha ter sempre recebido, em maior ou menor quantidade, um grande número de imigrantes, que trazem consigo diferentes costumes. Esse caldeirão de culturas obviamente traz choques que podem nos levar a pensar que a sociedade multicultural abre brechas para tal violência e que o abusador simplesmente é o outro,  o que veio de fora. Mas muito do que fui pesquisar sobre relações abusivas me fez acreditar que não é este o caso. Explico melhor a seguir.

A construção de uma personalidade abusiva, pelo que pude perceber, não depende apenas de fatores como, país de origem e classe social. Isso pode interferir quando o abusador vem de países em que a cultura do estrupro e da inferioridade feminina ainda existem, como a Somália, India, Afeganistão, Nigéria, para citar alguns; mas ainda assim seria simplista afirmar. O que venho constatando em minhas leituras sobre o tema é que a violência depende de algo maior e mais complexo, e que na grande maioria das vezes ela acontece em relacionamentos inicialmente consensuais, ou seja, sem barreiras, sem choques ou atritos.

Fica claro que existe um período de encantamento e que conforme a relação se desenrola os primeiros sinais aparecem. Desencorajamento, controle, tortura psicológica, agressão física, estupro entre outros. Neste período a vulnerabilidade entra em jogo e ela simplesmente desconhece área geográfica.

Claramente os tempos mudaram, os “gatilhos” mudaram e o sofrimento se mantém, no mundo todo.

Hoje em dia acredita-se que os abusos ligados à violência doméstica aumentaram, e de fato os dados mostram que sim.

A pandemia da Covid-19 vem expondo às pessoas à experiências de confinamento que não estão sendo saudáveis por diversas razões. Na Alemanha logo após o término do “lockdown” as denúncias de mulheres vítimas aumentaram em 30%,  somente na capital Berlim.

Contudo, o evento mais importante está acontecendo; as vítimas estão parando de se esconder e é exatamente por isso que os números de casos subiram.

O acesso à informação, os debates e o encorajamento de mulheres é um movimento sem volta e os casos emergem, o que nunca aconteceu com tamanha força.

E tanto você, que se interessou em ler este texto, quanto eu, que fui estudar sobre o tema, estamos colocando este assunto em pauta, debatendo, denunciando, reconhecendo e divulgando canais competentes de auxílio à mulher em situação de abuso.

Sim, o abuso é mundial, assim como a luta contra ele!

Vamos seguir lutando “miteinander”,  palavra alemã que eu adoro e que quer dizer “juntos”.

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. É responsável pela área de Marketing Digital
da Push Rio Activewear. www.pushrio.com

Entusiasta da Comunicação Não Violenta – CNV, fui convidada pela Adriana Chebabi, para trazer este tema para a pauta de agosto do blog que trata sobre relacionamentos abusivos.

O autor do livro Comunicação Não Violenta, Marshall Rosenberg, psicólogo que desenvolveu uma forma de comunicação pautada na educação para paz e potencialmente eficaz na resolução de conflitos, defendia que a raiz da forma violenta de nos comunicarmos está baseada na separação entre o certo ou errado que traz para nossos relacionamentos a necessidade de julgar e criticar o que for considerado errado.

Um relacionamento abusivo é caracterizado pelo sofrimento causado em uma pessoa e apresenta pelo menos um tipo de violência. A violência pode ser verbal, psicológica, emocional, física, sexual, financeira e até mesmo tecnológica, isso mesmo, há várias vítimas adultas deste tipo de violência caracterizada, por exemplo, por controle das conversas e amizades online.

Como podemos ajudar as vítimas de relacionamentos abusivos ou não nos tornarmos a própria vítima, com base na CNV – Comunicação Não Violenta?

Bem, honesta e eticamente sugiro que se alguma vítima de relacionamento abusivo te procurar para conversar, acolha de coração esta pessoa, ouça-a sem julgamentos, sem críticas, pois ela já está, muito provavelmente, culpando a si mesma por estar neste tipo de relacionamento e até mesmo com vergonha de pedir ajuda. Se possível, recomende então que ela continue essa conversa com terapeutas ou psicólogos que são certamente profissionais adequados para orientá-la. Praticando a CNV observamos que os seguintes comentários não ajudam: “Isso não é nada, já vai passar”; “você é muito tolo/tola, acho que puxou seu pai/sua mãe”; “ah, isso já aconteceu comigo”; “não fique triste”.

E para não nos tornarmos vítimas de relacionamentos abusivos a CNV certamente pode nos ajudar pois com ela aprendemos a valorizar conexões pautadas em amor, respeito, compreensão, gratidão e compaixão. Aprendemos a expressar nossas necessidades e também ajudar os outros a esclarecer as deles. Sim, temos muitas necessidades, e elas são diferentes em vários momentos de um mesmo dia, diferentes também para as várias fases da vida de cada um nós. Conhecer nossas necessidades é fundamental para praticar a comunicação compassiva, como também é conhecida a CNV em algumas comunidades, isso porque de acordo com o Dr. Marshall, toda mensagem é uma expressão de alguma necessidade, e praticar CNV nos ensina a ouvir empaticamente nossas necessidades mais profundas bem como as necessidades das pessoas com quem nos relacionamos, para juntos criarmos soluções satisfatórias para cada um.

E aí? Que tal parar um pouquinho em algum momento do dia e se perguntar: “Como estou me sentindo?”; “Que necessidades atendidas ou não estão me trazendo este sentimento?”; “Como posso pedir ajuda para atender esta necessidade?”.

Nossas necessidades vão desde as mais básicas à outras mais específicas, vejamos algumas: alimento, abrigo, aceitação, liberdade, espaço, reconhecimento, aprendizado, orientação, aventura, equilíbrio, inspiração, propósito e muitas outras.

O não julgamento, o aprendizado sobre nossas necessidades, e sabermos nomear corretamente nossas emoções, nos possibilita ter clareza, autoconhecimento, bem como compreender que está tudo bem se precisarmos de orientação e apoio.

Não é tarefa fácil e não é com uma única conversa que surgirá a melhor estratégia para colocar um ponto final em comportamentos típicos de relacionamentos abusivos, pois geralmente esses comportamentos não são observados em um único episódio. Por isso a necessidade de orientação profissional para essas situações.

Espero ter despertado em você o desejo de estar em relacionamentos com qualidade de conexão, com reciprocidade de valorização e respeito de necessidades e sentimentos.

Cristiane Pires Benevides Ribeiro – Bela Urbana. Administradora com especialização em Qualidade e Produtividade. Esposa, mãe, entusiasta da CNV e sócia da CrisB Consultoria e Treinamento. Adora praticar ioga e curte um treino bem puxado, Ama aprender, seja com livros, com pessoas, com a natureza e valoriza a qualidade de vida na conquista de produtividade!
@crisbconsultoria

O que é abuso?

No dicionário está dito que é o mau uso, excessivo ou injusto de algo.

Então, pensamos sobre o justo e a ausência de justiça. Precisamos de tempo para pensar nisto.

Para começar, alguém diz que pode ser relativo a uma transgressão de bons costumes. Mas, os costumes bons numa sociedade doente? Não sei se gosto dessa aproximação.

Entretanto, me concedo o direito de entender também como uma circunstância que causa aborrecimento e desgosto, deliberadamente, com infração de limites, com dolo.

Se formos para esse lado, tem abuso que é contra si mesmo, antes de ser contra alguém ou contra a lei. Os excessos de comida, bebida, drogas, o consumismo etc. Já me lembrei de uma lista interminável de mau uso e excessos que acumulamos no dia a dia (auto abusos): lícitos e ilícitos, conscientes e inconscientes, ingênuos e calculados. Uma boa reflexão para os que estiverem dispostos àquela reforma íntima.

Porém, não podemos negar que são as atitudes abusivas de uns contra outros, as responsáveis pelos maiores danos, que evoluem de humilhação para traumas, causa de uma variedade de reações e até crimes.

Nesse desfile de significados, as expressões mais contundentes recaem sobre os casos de abuso sexual. Infelizmente constantes, cruéis e com vítimas de todas as idades (eu disse todas). A necessidade dos parênteses determina o tom de adoecimento e nos obriga a questionar com incisão a classificação de humanos e racionais, totalmente incompatível com pessoas de instintos descontrolados e perversos.

Mais que isso, a sociedade muitas vezes acolhe o abusador mais do que as vítimas e faz isso com base na cultura do machismo, do sexismo e da distorção dos ensinamentos religiosos.

Você não precisa sofrer um estupro para entender o quão repugnante é sentir-se violada(o) nos domínios do que de mais seu você tem: seu corpo. Nossa visão de mundo não pode ser divina, nós não somos. No entanto, vamos falar pela milésima vez em empatia, compaixão, solidariedade, amor ao próximo – não são esses valores espirituais que nos ligam à semelhança de Deus? No meu entendimento, sim.

Adiante, os notórios casos de abusos de autoridade são prova cabal da miséria humana exibida de modo patético por quem acha que galgou uma posição superior na planície da existência. É dessa pequenez que estamos fartos!

Outro tipo de abuso, o parental, ocorre quando pais e mães narcisistas projetam suas frustrações nas crianças que crescem machucadas, moral e emocionalmente; além de indefesas e muito vulneráveis a outros sofrimentos ao longo da vida. Nesses casos, eu não vejo culpa, lamento por ambos.

Mas, há tantos outros, menos discutidos e muito nocivos aos nossos relacionamentos, como o abuso de confiança, o abuso de direito, o abuso funcional, o abuso afetivo…

O mais louco é que há casos em que a agressão está tão regulamentada, inclusive por nós mesmos, que existe o impedimento de enxergá-la. Quantas histórias relatadas anos depois de acontecerem em que só o tempo foi capaz de ilustrar que aquilo foi abusivo?

O envolvimento pode cegar, a vergonha pode emudecer, a humilhação pode vexar, a dor pode paralisar, a lucidez pode enlouquecer – a revelação pode ter consequências complexas.

Às vezes, esse abuso vem travestido de uma terminologia que agrava ou atenua o ato em si, como quando ouvimos que foi provocação, afronta, ataque, desfeita, injuria, insulto, ofensa, assédio, excesso, ultraje – injustiças.

Por essas e outras é que a definição de abuso fica sempre inconclusiva. Não é subjetiva, mas ultrapassa o repertório léxico, rompe as fronteiras da compreensão, interrompe o fluxo semântico.

O abuso é inconjugável, é insubordinável. O abuso é injustificável, só isso.

Dany Cais – Bela Urbana, fonoaudióloga por formação, comunicóloga por vocação e gentóloga por paixão. Colecionadora de histórias, experimenta a vida cultivando hábitos simples, flores e amigos. 

Novamente aqui me encontro para relatar uma situação que muitos indivíduos vivem, principalmente mulheres, e não sabem sequer o que fazer para se proteger e viver em paz!

Hoje escrevo como advogada, não especialista no assunto e na área, mas apaixonada por ler, estudar e sinceramente espero que este texto elucide e ajude aqueles que passam por alguma situação de violência doméstica.

Vamos lá;

Muito importante primeiro definir quais são os tipos de violência doméstica, ora, muitos acreditam que violência doméstica só ocorre quando existe alguma situação de agressão física, um tapa, um chute, um murro, ou até mesmo a agressão oriunda de um objeto: uma faca, uma arma, entre outras tantas coisas. Mas não, existe uma outra forma de agressão que muitas vezes pode ser pior e mais devastadora na vida de qualquer indivíduo e mais ainda na vida de uma mulher: a agressão verbal, os insultos verbais, os xingamentos, os maus tratos verbais muitas vezes podem causar transtornos incalculáveis na vida de um ser humano.

Vejamos, ao se deparar com qualquer destas situações muito importante termos ciência de que precisamos relatar as ocorrências e quanto mais cedo isso for feito sempre melhor! Ou seja, reagir imediatamente frente a qualquer caso de violência doméstica existente.

Para aquelas mulheres que tiverem condições de buscar a orientação de um advogado, uma advogada está é sempre a melhor opção para que proceda ao relato de suas ocorrências.

Para as que não tiverem condições de buscar orientação profissional existem muitos locais de apoio e orientação a elas.

Primeiro acredito ser muito importante nesta luta a questão da educação. Só através dela teremos uma possível solução, investir na educação dos jovens, meninos e meninas, será de fato a melhor maneira de combater este problema social ainda tão comum na sociedade que vivemos.

Depois, impossível falarmos deste assunto sem mencionar a Lei Maria da Penha, número 11.340/06, um marco na Luta pela igualdade e proteção dos direitos que visa coibir violência doméstica e familiar, independente da orientação sexual.

Imprescindível ainda buscarmos a origem e entender o contexto que a Lei Maria da Penha foi criada.

Criada aos 7 de agosto de 2006 a fim de combater com mais veemência a violência contra a mulher, foi inspirada em Maria da Penha Maia Fernandes, que se tornou paraplégica em razão de um tiro nas costas, levado durante o sono. O autor do disparo foi o marido, depois de já ter praticado por anos violência doméstica contra a mulher.[1]

A referida Lei se destina a proteger e respaldar mulheres de agressões e violências que acontecem no seio de seu lar. Neste ponto, cumpre observar que não necessariamente a violência contra a mulher precisa acontecer dentro de casa, o que mais importa para a lei criada em 2006 é a proximidade de vínculo afetivo com o agressor.

Hoje, a pena para agressores que se enquadram na Lei Maria da Penha é de três meses a três anos e aumentou a criação de delegacias especiais para mulheres.

Neste aspecto, a função da Delegacia da Mulher é a de prestar o melhor atendimento às vítimas de agressão moral ou física, aqui incluída a sexual, assegurando proteção à população vítima de violência doméstica.

A lei trouxe ainda diversas medidas protetivas para as vítimas que podem ser aplicadas antes mesmo do julgamento, ou seja, quanto antes toda esta situação for relatada e enfrentada melhor.

Importante destacar que as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher faz atendimento para qualquer pessoa e aceite ser encaminhada para os devidos procedimentos legais.

O que é e como funciona a medida protetiva:

1) Ao sofrer algum tipo de agressão do companheiro(a), a vítima deve registrar boletim de ocorrência e acionar a Lei Maria da Penha;

2) Atualmente por conta da pandemia, foi liberado o BO eletrônico também para casos de violência doméstica e isso facilita muito para as vítimas: o boletim eletrônico poder ser realizado através do https://www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp-de-cidadao/home;

3) Em 24 horas a juíza (juiz) emite decisão sobre a medida protetiva de urgência.

4) Entre as medidas constam: afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; proibição de determinadas condutas, entre as quais: aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; delimitação de perímetro a fim de preservar a integridade física e psicológica da vítima.

5) Em alguns casos o juiz (juíza) pode solicitar também o uso de tornozeleira eletrônica para o acusado e botão do pânico para a vítima.

A proteção pode ser solicitada em qualquer delegacia mais próxima, mas o ideal é que ela seja feita diretamente na Delegacia da Mulher.

A Central de Atendimento à Mulher – tel 180 – presta uma escuta e acolhida qualificada às mulheres em situação de violência.

O serviço registra e encaminha denúncias de violência contra a mulher aos órgão competentes, bem como reclamações, sugestões ou elogios sobre o funcionamento dos serviços de atendimento. O serviço também fornece informações sobre os direitos da mulher, como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso: Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referências, Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam), Defensorias Públicas, Núcleos Integrados de Atendimento às Mulheres, entre outros.

A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. São atendidas todas as pessoas que ligam relatando eventos de violência contra a mulher.

O Ligue 180 atende todo o território nacional e também pode ser acessado em outros 16 países.

Infelizmente, durante esta pandemia, no ano de 2020 situações relacionadas à violência doméstica aumentaram e toda e qualquer publicação e textos informativos são sempre importantes para que todos possam se orientar na tentativa de vencermos e não permitirmos tamanhos absurdos!

Ninguém merece sofrer violência doméstica, seja ela qual for!

Espero sinceramente ter ajudado, até qualquer outro texto!

[1]BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 07 de ago. 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>;

Ana Carolina Roge Ferreira Grieco – Bela Urbana, advogada formada pela Pucc Campinas em 2000, atualmente atua no corpo de advogados do escritório Izique Chebabi Advogados Associados, site: chebabi.com.
e-mail: atendimento@chebabi.com . Empresária. Virginiana que ama jogar tênis e ficar com a família!

Carnaval de rua dos anos 50, quase 60! Época do corso? Não, não sou tão velha assim…

Respeito é bom e eu Joana, gosto!

Uma história que em minha família ficou para um sempre. Apesar de ser uma história de vibração sexual.

Então, carnaval e estávamos vendo com a alegria carnavalesca, eu, minha amiga Neidinha que minha mãe costurava roupas iguaizinhas, parecíamos gêmeas… Pândego! E claro que onde eu ia, ela era convidada para acompanhar, num sempre gostoso, pois eu, filha única precisava de companhia.

Amava Neide Silva, vizinha e um ano mais velha que eu a Joaninha. Voltando à rua Barão de Jaguara/Campinas/SP anos 60/Carnaval de rua, chovia um pouco e minha mãe Zilda, levou sua inseparável SOMBRINHA, faça chuva ou faça sol ela estava sempre armada com ela.

E os blocos descendo a Barão de Jaguara, e nós defronte o Eden Bar, estávamos felizes e ficamos à frente de dona Zilda, minha mãe… Só que, de repente estávamos uns dois personagens adiante dela, com o brilho das fantasias dos blocos e a alegria, eu e Neidinha nos distanciamos do corpo, mas não d’alma de Mãe observadora!

E eis que, de repente ouvímos um gemido, dentro daquele aperto, olhamos para trás e vimos um homem gemendo, parecia de dor, e saiu correndo, e minha mãe gritando: O bloco passando, a música tocando, as pessoas cantando e o homem tentando se esfregar nas meninas que estavam na sua frente…

E foi sua infelicidade sobre o olhar de dona Zilda, minha mãe… Que na hora que viu a cena prazerosa, pegou a SOMBRINHA dela que estava fechada naquele momento, e desceu o sarrafo…

Entre aquele membro teso e sem vergonha e nós, duas meninas carnavalescas, com 10/11 aninhos. Virou uma história de família, e hoje quando tudo acontece, em que machos vivem à sombra e continuam se esfregando, minha mãe falecida diria: “Filhas levem alfinetes, para circular em veículos que transitam num leve e traz apertado”.

Pois, nem sempre usamos SOMBRINHAS de antigamente… Agora elas são tão curtas, algumas vezes do tamanho do membro teso!

Valeu…

SOS – 180…

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

Já ouviu falar na lei 8069 de 13 de julho de 1990?

Trata-se de uma lei que tem a função de proteger de forma integral à criança e ao adolescente.

Mas por que crianças e adolescentes precisam de uma lei para protegê-las?

Essa pergunta pode parecer um tanto óbvia, mas acompanhando as manifestações nas mídias sociais, em pleno 2020, frente ao acontecimento do estupro em uma criança de 10 anos, achei que seria interessante voltarmos a origem do porquê promulgamos uma lei em 1990 para proteger crianças e adolescentes.

Crianças e adolescentes estão em processo de desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social. A palavra processo nos remete a necessidade de facultar. Sim, nós adultos que vamos facultar esse processo de desenvolvimento.

Como?

Garantindo os direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Agora uma pequena reflexão: Quando uma criança passa por uma experiência de violência sexual, qual direito foi violado?

De imediato, você poderia falar que sua saúde, dignidade, respeito foram violados, mas eu entendo que não são estes apenas. Estes talvez sejam os primários e estejam relacionados ao abusador, mas há outros direitos que talvez tenham sido violados no percurso de todas as pessoas que fazem parte da vida dessa criança, inclusive da vida do abusador.

Pare e pensa… o que acontece quando:

  • Apoiamos iniciativas de políticas públicas que não ensinam educação sexual;
  • Julgamos pessoas e perpetuamos barreiras que propagam a cultura do silêncio;
  • Não cultuamos em nossa sociedade a parentalidade responsiva;
  • Disseminamos informações que favorecem a violência;
  • Não tratamos as psicopatias;
  • Não falamos dos nossos sentimentos;
  • Rimos ou diminuímos os homens que falam de seus sentimentos e fragilidades;
  • Não nos opomos a erotização na infância;
  • Educamos com violência física, verbal e moral;
  • Minimizamos que há uma cultura que trata o corpo da mulher como objeto;
  • Quando pais e mães pedem ajuda, o ato é tratado como fracasso;
  • Quando banalizamos a sexualidade;
  • Quando um pai não tem direito à licença paternidade estendida;
  • Quando acreditamos que as armas nos protegem da violência;
  • Quando a escola pública e os SUS não são prioridades na agenda pública e não é defendida por todos os cidadãos.

E tantos outros quandos…
 
Ao final, uma violência esconde tantas outras violências e eu me pergunto: Com qual delas eu contribuí ou contribuo de alguma forma?

Sim, somos todos responsáveis! Como diz o provérbio africano muito repetido na área social: “é necessário uma aldeia inteira para educar uma criança” e, infelizmente, uma aldeia inteira também pode ser omissa, negligente e violenta, se não tiver um projeto coletivo de proteção integral à criança e ao adolescente.

Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre 

Como em um conto de Charles Dickens, uma pequena órfã foi abusada por adultos. Na
Inglaterra Vitoriana, com leitores formados pela Revolução Industrial, as obras Dickensianas
causavam certa revolta por mostrar a exploração de vulneráveis por outros seres humanos.
Eram textos sombrios, mas que mesclavam uma dose de humor no estilo, mas não poupavam
o leitor, que sofria com a morte de personagens pelas quais se afeiçoavam. Um mundo cruel
esse dos livros de Charles Dickens.
Bom, estamos no Brasil de 2020. Enclausurados – ou não – de maneira surreal devido a uma
doença que faria sentido em outro século. E temos a história de um pequena órfã para contar.
A menina é órfã de mãe, o pai está preso. Mas é da periferia de algum lugar do país.
Essa pequena órfã, aos 10 anos, com dor de barriga, chega ao hospital. Está grávida! Agarrada
a um bichinho de pelúcia, ela grita, desesperada. Ela está amparada pela lei que, em caso de
estupro, determina que um procedimento de aborto seja realizado. Simples assim.
Mas a série de abusos está apenas começando. Abusos cometidos por adultos. Adultos que
deveriam protegê-la. Um tio que a estuprava desde os 6 anos. Uma família de tios e avós
adultos que nada percebia. Professores que nada viam de estranho no comportamento da
menina. Ainda assim, dá para dizer que o único adulto responsável pelo abuso era o tio. Até
aqui.
O hospital, constatada a gestação, lava suas mãos e, usando um subterfúgio qualquer, recusa-
se a cumprir a lei e interromper a gravidez, causada por estupro, em uma criança de 10 anos.
Uma criança que não tem corpo para gerir uma criança, um gravidez que coloca em claro risco
a sua vida.
O pedófilo estuprador, a essa altura, sumiu no mundo.
A menina precisa, então, ser levada para um hospital, bem longe, em outro estado, onde
médicos se propõem a cumprir o que a lei determina. E seguem-se outros abusos a essa
criança que só quer ser criança.
Os dados dessa menina, de alguma forma, são vazados e uma criminosa, cumprindo prisão
domiciliar de tornozeleira eletrônica, com acesso ao governo e a redes sociais, divulga nome
completo da criança, para onde foi levada, quem são os médicos que realizarão o aborto,
enfim, o inimaginável. Não se sabe como ela conseguiu essas informações, mas o que não se
sabe, é possível imaginar. São dados confidenciais.
Uma turba ensandecida, contra a ideia de aborto e dizendo-se cristã, irrompe na porta do
hospital, impede a passagem de médicos, que, só com a ajuda da polícia, consegue entrar no
hospital. Enquanto isso, a criança entra, escondida em um porta-malas, pelo estacionamento,
como se fosse ela a criminosa. Aos gritos de “assassina”, ela é internada. Aos gritos de
“assassinos”, os médicos se preparam para atendê-la.
Enquanto isso, o pedófilo está solto em algum lugar.
Nesse circo do absurdo, duas pessoas, não se sabe como, conseguem acesso à menina dentro
do hospital e, mais uma vez, ela é constrangida, cobrando-se dela que mantenha a gravidez.
Ela, agarrada ao seu brinquedo, mais uma vez recusa, chorando.

Por fim, a gestação é interrompida e os médicos dizem que a pequena passa bem. Como se
fosse possível alguém, que passou por tantos abusos e um aborto pudesse estar bem.
Com a identidade revelada, ela já não pode voltar para sua casa. Então, é lhe oferecido trocar
de identidade. Ela e familiares entrariam para o Programa de Proteção a Testemunhas.
Proteção é tudo o que ela, criança, precisa.
O pedófilo estuprador é, enfim, preso.
Comentários de gente doentia, em redes sociais, demonizam os médicos, a menina, o
procedimento. Onde se encontram esses “cristãos” quando o Brasil tem tantos meninos e
meninas em situação de rua? Mendigando, vivendo em abrigos, vivendo com sua famílias, mas
totalmente desassistidos pelos poderes? Em um país que não investe em suas crianças, um
país que tem como projeto acabar com a educação?
O assunto “aborto” é questão de saúde pública. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública de 2019, a cada hora, 4 meninas de até 13 anos, são estupradas no país. Segundo o
SUS, por dia, acontecem em média 6 abortos em meninas de 10 a 14 anos, sendo que 66%
dessas jovens são negras.
Será que, caso a menina vivesse em um país de leis medievais ou em uma era das trevas, ela
seria, além de considerada culpada pelo próprio abuso, condenada a levar a gravidez até o fim
e apedrejada depois do parto? Aqui, no Brasil de hoje, ela SÓ sofreu o apedrejamento moral.
A pequena, enfim, teve alta, tem uma nova identidade, espera-se que ninguém vaze a
informação de sua localização. Que ela possa ser protegida, acolhida e que tenha um futuro
livre de tantos pesadelos que tantas pessoas adultas infringiram a ela. Que o final dessa
história passe longe dos finais de Charles Dickens.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.