O amor por cachorros me acompanha desde sempre. SÓ NÃO SEI se foi por influência paterna ou por minha própria natureza.

Inesquecível a história do cão que após ser levado para morar em uma chácara, voltou sozinho após dias andando e raspou a porta do apartamento de meu pai para reencontrá-lo.

Quanto desafio para um ser que costumamos chamar de irracional.

Mas o que será que é ser racional? Sinto na irracionalidade de um cão uma profunda razão.

SÓ SEI que na racionalidade do ser humano, muitas vezes existe uma falta de noção.

Cachorro gosta de amor e carinho. Não entende nada essas coisas de tendência em tentar humanizá-lo com nomes de gente e produtos similares aos dos seres racionais. A linha é imensa pois cada dia o mercado pet lança um produto diferente: cerveja, gelatina, bolo de caneca, brownie, sorvete, bolos e velas de aniversário, fantasias…e por aí vai.

NÃO SEI se essa crítica mais filosófica do que construtiva nos leva a algum lugar, mas SEI que para o cão, o que interessa é a troca de carinho. No mais ele não entende nada de toda essa humanização.

Parando para refletir sobre os relaciomentos de… não tão antigamente… e toda essa modernidade tecnológica como app’s para tudo com direito aos relacionamentos virtuais e imaginários, é fácil dizer o que SEI:

Todo esse mercado pet, que também sou consumista, é simplesmente o espelho da carência da humanidade por calor humano e contato presencial, sincero, simples e puro.

É na tentativa de humanização de seus novos “filhos” que muitos afagam sua carência por afeto e liberam a ocitocina*, que traz bem estar e aconchego.

Somos racionais e os pets irracionais? Há quem hoje em dia já discorde dessa afirmação. NÃO SEI se isso pode ser considerado agora liberdade de expressão. Talvez, contudo, entretanto…

“SÓ SEI QUE NADA SEI” **

  • Algumas formas de aumentar a ocitocina naturalmente:
    Contato físico. O contato físico na forma de abraços, massagem, cafuné e carinhos estimulam a produção de ocitocina, e é uma das causas do bem estar quando é realizado.
    Adotar um animal de estimação.

** Frase que Sócrates nunca disse segundo a História da Filosofia.

Angela Carolina Pace – Bela Urbana, publicitária, mãe, apaixonada por Direito. Tem como hobby e necessidade estudar as Leis. Sonha que um dia as Leis realmente sejam iguais para todos.

57 anos de vida !
20 anos de estudos !
37 anos de trabalho !
20 anos que sou pai !
30 anos fui casado !

Vivi todos estes dias como se fossem os últimos.
Amei a primeira vez como se fosse o único.
Aprendi todos estes dias como se fossem os últimos.
Compartilhei todos estes dias como se fossem os últimos.
Me Relacionei todos estes dias como se fossem eternos.

O que faz o tempo passar e você acreditar na vida são os relacionamentos que você construiu e a intensidade com que você viveu tudo.

Através deles você tem as alegrias, as tristezas, o crescimento e, principalmente, o seu tempo dedicado às pessoas.

Relacionar-se e viver intensamente é sentir que a sua vida valeu cada minuto.

Antônio Pompílio Junior – Belo Urbano. Graduado em Análise de sistemas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas . Pós-graduado em Gestão de Empresas pela UNICAMP e MBA Gerenciamento de Projetos E-Business pela FGV-RJ . Adora esportes, viagens e luta pela liberdade da vida e pelo amor das pessoas.

Hoje o número de amigos da minha idade que usam as redes sociais é
quase absoluto, raro é conhecer alguém que não possua nem que seja apenas uma delas. Nos dias atuais tudo é muito virtual e as vezes me pergunto até que ponto isso é bom ou até saudável para nós, já que ao mesmo tempo que une amizades e familiares de diversos cantos a qualquer momento mas também afasta pessoas que estão na mesma mesa de um restaurante, cada um em seu celular vendo vidas alheias. A mídia que eu mais utilizo acho que é o Instagram, uma rede social que é cheia de conteúdos como vídeos, fotos e os “stories” que são publicações que ficam disponíveis por apenas 24 horas, possui chat pra conversar com seus
seguidores, porém, é um aplicativo que apesar de gostar muito tenho que estar me policiando sempre sobre alguns tópicos.

O primeiro deles é a questão do tempo que eu fico nesse App. Diversas
vezes eu estava fazendo algo e peguei o celular apenas pra espairecer um pouco, mas entrava no Instagram, começava a ver as fotos que tinham postado, via o feed de alguma celebridade, acabava conhecendo outra através desse perfil e passando a seguir também, depois começava a assistir o stories só das pessoas que eu mais conhecia, e logo, percebia que a rápida espairecida na mente tinha se tornado uma longo uso de 3 horas, e falando assim parece absurdo,eu sei!”. Como assim ela ficava 3 horas? Isso é muito tempo”, mas ao contar aos meus amigos e amigas sobre isso e como eu não percebia o tempo que gastava, vi que vários deles disseram que passam pela mesma coisa, o que se formos observar é um gasto absurdo de tempo se comparado ao tanto de coisas que podem ser feitas nesse tanto de horas.

A segunda questão é a comparação que eu fazia em relação a vida dos
outros. Nessas tantas horas rolando o feed eu só via vidas extremamente felizes e animadas, amigos inseparáveis, pessoas que pareciam viajar o ano todo, ”corpos do verão” e relacionamentos perfeitos, e vendo vidas resumidas a isso eu acabava me sentindo mal por não ter aquele corpo, aquele dinheiro, aqueles amigos ou aquele relacionamento, e a realidade é que ninguém vive ou é só aquilo que posta, não há corpo totalmente sarado, é ângulo, todo mundo tem seus desentendimentos em relacionamentos, não são só flores e ninguém é todo tempo feliz, as pessoas possuem seus problemas, inseguranças e questões, no entanto elas só querem mostrar suas melhores versões e uma vida perfeita, onde só é mostrado bom e o que lhe convém.

Com isso, eu percebi que os meus momentos para relaxar usando o celular
não estavam sendo nada relaxantes, e então, hoje eu tento diminuir o tempo de uso do Instagram e sempre que começo a me comparar ou ficar chateada procuro pensar que a vida de ninguém é só o que ela posta para não se tornar algo tóxico, e sim, relaxante e bom.

Martina Lobos – Bela Urbana, estudante do terceiro ano do Ensino Médio,sonho em cursar Relações Internacionais e trabalhar com comércio exterior,gosto de estar em contato com a natureza,amo fazer trilhas e me aventurar,não vivo sem uma sobremesa após o almoço,odeio injustiça e apoio a causa do meio ambiente e da sustentabilidade.

Eles se conheciam desde a adolescência. Amigos inseparáveis, confidentes muitas vezes, um certo interesse no ar, mas sempre deixado de lado em prol da amizade. Ambos tinham namorados, ambos com interesses em comum, era muito bom poder se apoiarem.

Naquela época já se percebiam alguns traços de arrogância, mas chegava a ser até divertido, afinal, a arrogância era meio inerente à juventude da nossa época e vinha como uma forma de força de determinação.

O tempo passou, a vida levou cada um para seu lado. Ela mudou de cidade, casou, construiu uma família, viajou, se conectou com várias culturas… ele foi para a cidade grande, ou assim o disse, virou um “grande” empresário, estudou línguas, morou fora do País.

Vinte e cinco anos se passaram até que, por um acaso do destino se cruzaram. Que felicidade! A conversa fluiu como se não tivesse se passado um dia desde a última vez. Já maduros, ou assim se pensava na ocasião, se envolveram rapidamente.

O primeiro sinal veio logo no começo quando ele caiu em contradição e ela descobriu que a vida que ele disse que tinha era apenas uma projeção. Nunca saiu da cidadezinha que eles moravam na adolescência, tinha um negócio quase falido e ainda morava com os pais.

Esse era o momento de sair correndo, mas ela via um grande potencial nele, um homem inteligente, bem articulado e que tinha se perdido… porque nós mulheres temos o maldito hábito de achar que conseguimos “consertar” o outro?

Ele foi morar com ela e faziam mil planos. Os filhos dela o adoravam, sempre disposto a tudo, bem educado e disponível… O segundo alerta veio três meses depois, quando uma amiga precisou dela. A amiga, Ana, começou a mandar mensagens de que estava mal e pensando em se suicidar e ela passou a noite toda no celular conversando, acalmando, dissuadindo Ana de seu propósito com ele resmungando ao lado porque ela não estava dando atenção à ele.

No dia seguinte eles iam viajar e, mesmo insone, ela arrumou as coisas e lá foram eles. Quando chegaram ao destino, ela estava morrendo de dor de cabeça e pediu para ele ir comprar um remédio. Ele trouxe já de cara feia. Assim que ele chegou com o tal remédio, Ana volta a mandar mensagem e isso foi o estopim. Ele voou pra cima dela (não chegou a fazer nada) e começou a berrar que ela só tinha tempo para as amigas, que ela só estava fingindo estar com dor etc e tal… nesse momento, ela chegou a pensar que ele iria agredí-la fisicamente, mas ele fincou a parede e saiu.

Ela arrumou as coisas e tentou voltar para casa, mas claro que não rolou… mil desculpas, o pedido para não “estragar” o passeio e o ser meigo voltou a tona. E assim foi por muito tempo. Eles foram construindo algo, as vezes juntos, as vezes individualmente e os anos foram passando. O negócio dela foi prosperando e ele sempre no mesmo lugar, com as mesmas reclamações e, quanto mais sucesso ela fazia, mais demandas ele tinha. Roubou sua alegria, roubou sua fala (usava as ideias, as falas e os saberes dela como se fossem seus), se apropriou de seu espaço, mas ela não cedia tanto quanto ele gostaria. Não bastasse, invadiu sua privacidade. Clonou todos seus dispositivos e passou a criar uma vida baseada no que ele lia em seus e mails, whatsapp, Messenger. Ela desconfiava, mas ele negava a cada vez que era confrontado. A gota d’água veio quando ela descobriu uma traição.

Ela nunca olhou no celular dele, acreditava e ainda acredita que dois adultos escolhem estar juntos e que confiança é o pilar que sustenta uma relação, mas ele parece que queria ser pego. Ficou mexendo no celular ao lado dela e, toda vez que ela virava para falar com ele aparecia o mesmo nome: Marcela. Confrontado ele, como sempre, negou.

Não bastasse, voltou a gritar com ela, como se a mesma fosse louca e delirante. Saiu batendo portas, cantando o pneu do carro, um verdadeiro adolescente mimado e contrariado. Ela esperou para terem uma conversa adulta, mas não rolou.

Ela cansou…

Ele viu nas mensagens dela…

Ele queria ter a última palavra…

Vagabunda, filha da puta, você não vai pedir para eu ficar?

NÃO!

Ela se libertou.

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

“A criança cala por medo. A criança cala por vergonha. A criança cala por não ter voz…”

Difícil pensar em tudo que uma menina de dez anos, submetida a estupros desde os seis pelas pessoas que deveriam cuidar dela, grávida e julgada pela hipocrisia da sociedade sofreu e ainda vai sofrer como consequência disso tudo. Mas uma questão que foi levantada por muitos “cidadãos de bem” tem me incomodado: Por que a criança não falou para ninguém?

Aos 10 anos de idade mais ou menos eu era uma menina muito curiosa. Os meninos da escola estavam naquela fase de começar a descobrir a sexualidade, sabe? Viviam desenhando “pintos” para tudo que é lado e eu achava aquilo bem engraçado, mas não entendia muito o que era aquele desenho feito a exaustão e sempre seguido de um risonho pelos amigos do sexo oposto. Dito isso, saibam que eu era a artista da turma.

Bom, para contextualizar deixa eu contar um pouquinho da minha minha infância. Meu pai (meu herói e ídolo) morreu quando eu tinha cinco anos e meio de idade. Minha mãe nunca mais se casou, mas eu bem que gostaria. Tinha sede por uma figura masculina na minha vida. Embora ela não tenha casado, tinha amigos de infância que frequentavam nossa casa e que também frequentávamos.

Um deles, que vou chamar de João, era tapeceiro de mão cheia e eu, a artistinha da casa tinha verdadeiro fascínio por tudo que tinha a ver com trabalhos manuais. Nem preciso dizer que ele era meu ser humano, do sexo oposto, de preferência! Ele era casado com a Rosa, uma moça aparentemente mais velha e muito doce que eu amava de paixão também.

Não nos víamos muito, porque a oficina ficava num bairro mais afastado, mas sempre que possível estávamos um na casa dos outros para um café, para mim era um Nescau mesmo, um bolo… os adultos conversavam e eu ficava maravilhada por orbitar esse universo. O João sempre me encantou mais porque era o que me dava atenção, me tratava quase como uma igual.

Pois bem, a oficina mudou para perto da minha casa. Na verdade no caminho entre minha casa e a escola e imagine minha felicidade porque agora eu podia parar para “tomar um café” sempre que estivesse passando por lá.

João estava prosperando e tinha uns três funcionários no seu pequeno paraíso (paraíso é por minha conta, porque era assim que eu enxergava aquela portinha cheia de tecidos, móveis desmontados e fedendo a curtume… coisas de criança) e todos eles me tratavam como uma mascote.

Um dia, eu passei por lá e João estava só. Entrei para nosso café com bolo usual e nossas conversas que até então era pra que serve essas taxinhas?, o que é um capitonê?, etc e tal...mas como eu disse, ele estava sozinho e, como eu disse lá em cima, eu andava sendo bombardeada pelos desenhos de “pinto” sem saber muito bem o que eram. A gente sentou nas banquetas em frente a bancada de trabalho. Eles tinham o hábito de rabiscar os projetos nas grandes pranchas de madeira e sempre tinha um lápis por ali. Eu, curiosa, perguntei por que aquele lápis tinha um formato diferente dos meus da escola (ele era quadrado, bem maior e escuro), João explicou e me deu o lápis na mão apontando a prancha de madeira e dizendo que eu podia testar. Lógico que desenhei um “pinto”! Na verdade algo bem rudimentar como duas bolinhas e um palito. Ele olhou e perguntou se eu sabia o que era aquilo. Eu balancei a cabeça e disse que achava que sim, mas não tinha certeza… foi nesse momento que meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ele pegou minha mão, uma mãozinha de uma menina mirrada de 10 anos de idade (vocês não imaginam o quanto eu era miúda nessa época, magrinha mesmo, uma varinha, nada que pudesse ter um apelo sexual) e colocou no pau dele. Um membro totalmente rígido. Puxei minha mão na hora num misto de medo, vergonha e sei lá o que. Ele ainda insistiu que eu poderia tocá- lo para saber como era um homem de verdade? Homem de verdade? Oi? Eu queria desaparecer dali, virar pó, ser engolida pelo chão, mas não consegui simplesmente sair correndo. Lembro de agradecer polidamente e dar uma desculpa para ir embora.

Cheguei em casa me sentindo suja, mal, nas não conseguia elaborar o que tinha acontecido. Eu sabia que era errado, mas eu tinha provocado aquilo! Não podia contar para minha mãe, porque, na minha cabeça, ela ia se zangar comigo, afinal, fui eu que fiz o desenho que levou aquela situação. Não podia contar pra Rosa, porque ela ia ficar triste e eu não queria que ela ficasse triste por algo que eu tinha causado.

A partir daquele dia, sempre que era para ir na casa deles eu inventa uma desculpa e sempre que eles iam em casa eu não mais queria participar ou, se participava, era grudada na minha mãe ou na Rosa. Minha mãe chegou a me perguntar por que eu não ia mais na tapeçaria, algo que ela só sabia porque o João tinha falado para ela que eu andava sumida. Eu não me lembro o que respondi, mas sei que a partir daí não fui mais questionada. Só sei que nunca contei e eles seguiram amigos até o fim da vida… se viam menos, eu, cheguei num momento que nunca mais os vi, mas essa história ficou pra mim. E para o abusador do João.

Por que eu não contei? Porque eu tinha vergonha… Porque eu achava que a culpa era minha… Porque eu não queria magoar os adultos… Porque eu queria proteger a Rosa… Porque eu só tinha 10 anos…

Porque não se falava dessas coisas…

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr em São José do Campos – SP.

Fotos Taine Cardoso Fotografia

Quando se conheceram ele era encantador, chegara a instituição a procura de apoio para sair da dependência química. Ela era trabalhadora do lugar. Moça bonita, esforçada, nunca havia fumado ou bebido, não era dada a saídas ou baladas, vaidosa, tivera muitas perdas recentes: não conseguira terminar sua faculdade de odontologia devido à situação financeira, seu animalzinho de estimação morrera, seu ex-noivo do nada, havia terminado e tudo desencadeou em depressão.

Ele devido aos problemas não só de dependência, mas de bipolaridade foi acolhido por ela e não demorou muito para que começassem a namorar. Ele muito envolvente, dizia que queria mudar e constituir uma família. Ela tinha um desejo de ter filhos pois segundo ela estava com 35 anos e não poderia esperar. Ficou grávida e decidiram morar juntos, com 6 meses de gravidez ele quis terminar o relacionamento, ela chorou e ele arrependido convenceu a voltar.

Entre a gestação e nascimento do bebê muitas turbulências, continuaram juntos ele sempre ofendendo, depreciando-a perto dos outros, em virtude de ser adicto por vezes ele recaia no uso de drogas e bebidas, sempre se desculpando dizendo que ia mudar e continuavam aos trancos e barrancos. A criança nasceu, já no hospital era rude com a inexperiente mãe. Ele aparentava o pai zeloso e fazia dela a mãe relapsa, ignorando sua depressão e agravando a situação, pois dessa forma o pânico se instalou.

E ela vive uma situação abusiva. Como é difícil para nós que estamos de fora vendo um familiar passando por essa situação e não conseguimos ajudá-la a sair, principalmente quando a própria pessoa identificou que está vivendo a situação abusiva, mas não tem forças para sair, se encontra refém da situação. Acredita que o agressor poderá mudar.

Na tentativa de ajudar essa pessoa que vive essa situação de abuso, nos desgastamos de uma forma tão intensa que ficamos adoecidos, sentimo-nos invasores e após muitas insistências de nossa parte, vem o sentimento de impotência, pois a pessoa parece não querer sair.

Quero acreditar que é uma situação muito mais complexa do que imagino, principalmente quando se tem filhos envolvidos.

Sempre me perguntei: como querer que seu filho conviva com essa situação? Como submeter os pequenos a assistirem eles se destruindo?

Quando vai ter forças pra sair? 
Lhe dizia: Estou aqui! Conte comigo! Minha casa é sua! 
Não adiantava.

Na primeira vez que saiu devido as fortes discussões, estava magoada, ele manipulador pedia desculpas, alegava arrependimento, ela voltava. 

Na segunda vez, além de magoa, decepção, mais uma vez pede perdão demonstra arrependimento, assume que foi responsável, diz que ela também teve culpa, pois é teimosa e ela lhe impondo culpa, pois acaba por acreditar que deveria ter sido tolerante (ele a faz se sentir culpada por tudo), ela volta.

Na terceira vez: mágoa, decepção, medo e uma filha.

De agressões verbais a psicológicas e a quase agressão física, sai de novo pela quarta vez, a levo até a delegacia mas não registra queixa, pois segundo ela teme por ele, pela filha, pela família dele. Isso me deixou possessa! Ficou 5 meses longe dele.

Arrumei escola para a criança, quando ele viu que ela estava relutante em voltar, começou a torturá-la, alegando que pelo fato dela estar depressiva e com síndrome do pânico diagnosticada, não iria conseguir a guarda da criança. (Que poder eles tem? pois mesmo a advogada dizendo a ela que ele não conseguiria).

Organizei toda minha casa em função e por amor a elas… ele ligava todos os dias, ia até a porta de casa, a família dele também a pressionava por causa da criança e mais uma vez ela decide voltar.

Segundo minha irmã, a filha é a razão pela qual permanece, muitas vezes briguei, dizendo que a filha era só pretexto para que ela continuasse com ele, fui dura! 

Nessas Idas e Vindas, os abusos aumentaram, agora ele a isola, não aceita visitas, tem todo o controle da situação.

Ele me odeia! Me ameaçou! Diz que sou corajosa de ir até lá! 
Mas vou! Não entro na casa dela, faço visitas semanais para ver como elas estão.  Quero com meus olhos. 

Nunca deixo de visitar e percebo nela nem sombra daquela pessoa que ela foi! Há em seus lábios um sorriso triste, os olhos falam mais que a boca e me contam de sua dor, evita me falar tudo o que tem passado.

Mora num lugar muito difícil, sem luxo e muitas vezes passa necessidades. Ele a humilha e debocha dizendo que ela agora mora na favela e que acabou a frescura! 

Os vizinhos cuidavam dela no começo, até me ligavam quando sabiam que ela estava sofrendo, hoje não mais, pois devido as suas idas e voltas deixaram de se envolver acreditando no “briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.

Por vezes tive medo que ela tirasse sua vida ou ele o fizesse isso me consumia. A fraqueza e o medo a visitam todos os dias. 

Ele vive mais desempregado que trabalhando, todos os dias bebe.

Ela zelosa e amorosa com a filha caprichosa no cuidado do lar e ele só se queixa. Nada está bom!

Contratei uma psicóloga que atualmente atende online, o faz escondido do sujeito. 

Torço para que com essa ajuda ela se cure tenha forças e saia fortalecida. Se por enquanto não sair, que não sinta que esta só.

Todos os dias mando mensagens de vídeo e reafirmo meu apoio.

Durante as visitas, mesmo agora em virtude da pandemia, não deixo de ir, garantimos o protocolo de segurança e nos vemos. Na despedida  me coloco  pronta e digo:

Precisando estou aqui! Quando estiver pronta e decidida me chama que te tiro daqui. Ela balança a cabeça afirmativamente e me dá um sorriso.

Ah, como eu gostaria de arrancá-las de lá!

Mas como eu disse acima, ela deverá estar realmente decidida senão  acabará voltando.  

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Quando decidi trazer o tema Relacionamentos Abusivos para o Belas Urbanas, não tinha noção real da complexidade do tema.

Nesse período de seleção dos textos, conversei com muitas mulheres, mas quero deixar claro que não são só mulheres que são vítimas, assim como não são só relacionamentos “amorosos” héteros que são abusivos, está também nos relacionamentos homoafetivos e em todos os tipos de relações, entre amigos, no trabalho, entre pais e filhos.

As histórias dos casais héteros se destacam porque muitas vezes terminam em feminicídio. Palavra que se tornou recorrente nos últimos anos e mais ainda, nesse período de isolamento que a pandemia nos trouxe.

Toda relação que inferioriza, destruindo a autoestima e a autoconfiança é abusiva.

Palavras podem destruir. Não podemos aceitar violências veladas que estão estruturadas na nossa sociedade e disfarçadas de piadas que rebaixem o outro. Não é mimimi, é respeito. São vidas.

Pode ser a sua, a minha, a de quem amamos.

Ser consciente é o primeiro passo para uma transformação individual e coletiva.

Acreditamos que palavras também salvam e, por isso, iremos começar aqui no Belas Urbanas a publicar uma série de textos com depoimentos pessoais, dados, poesias, contos, tudo relacionado a esse assunto, para que mais e mais pessoas tenham consciência da gravidade e de como podem se salvar e ajudar outras pessoas.

Te convido a acompanhar, ler, dar sua opinião e compartilhar.

Se tiver alguma história que queira compartilhar, nos encaminhe um e-mail: comercial@belasurbanas.com.br

Juntas somos mais fortes. Somos Belas Urbanas!

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

No trabalho as relações são as mais bem definidas. As funções, obrigações e interesses de cada um estão pré-estabelecidos e essa simbiose de interesses precisa ser saudável. Nem empregados nem empregadores estão prestando favores uns aos outros. É necessário que essa interdependência seja óbvia. Abusos e excessos de qualquer uma das partes prejudicam direta e instantaneamente a saúde da empresa. Empresa esta, que provê todos interesses de cada parte. Sejam eles financeiros, profissionais, ou qualquer tipo de crescimento esperado.

Na família o laço é eterno. Talvez seja o plano onde se cometam alguns abusos, por haver um vínculo compulsório e indestrutível. Às vezes não há simbiose, às vezes nem existem interesses em comum. De toda forma, acredito eu, que por algum motivo fomos inseridos em nossos contextos familiares. E na maior parte das vezes é na relação entre pais e filhos que a criança tem o primeiro contato com a construção de um relacionamento. Portanto as promessas feitas nunca deveriam ser descumpridas. Sejam elas de gratificações, sejam elas de punições. Pois é nessa fase da vida que se aprende o valor do respeito e da palavra.

A amizade é a mais singela de todas as relações, pois é onde não há uma simbiose. É onde não existem interesses. É onde se desenvolve a capacidade do bem querer por alguém que você não tem vínculos nem obrigações. São pessoas que se divertem juntas, compartilham bons momentos, trocam experiências e conhecimentos, dividem alegrias e tristezas. O sentimento genuíno da amizade é altruísta pois é absolutamente desinteressado. É, portanto, um vínculo extremamente raro.

O amor romântico? Sim ele existe. Existe entre pessoas que antes do “I love you”, são capazes de dizer “I see you”. O I love you é egoísta. Refere-se aos próprios sentimentos.  O I see you demonstra a capacidade de enxergar as necessidades do outro. Esse tipo de relacionamento não é desinteressado. As trocas são necessárias. A espiritualidade e os objetivos de vida precisam ser compatíveis. Deve haver sintonia na maneira de enxergar o mundo e os relacionamentos. E quais são os interesses? Ah… são os mais carnais e mundanos que existem. 

Mas seja qual for o tipo de relacionamento, eles são sagrados. E podem se quebrar.

Uma vez quebrados, partem-se em muitos pedaços que podem até ser colados, podem até voltar às suas formas. Mas as marcas serão eternas.  

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

TERCEIRO CAPÍTULO

Entre minutos e outros a senhora pequena ao meu lado falava sem parar e eu sabia que aquele discurso iria nos acompanhar. Então me livrei de meus argumentos filosóficos sobre Respeito e Coragem, e dei atenção única para ela, que falou sobre sua vida sem constrangimento. Falou de sua doença, dos filhos e de sua trajetória pela vida. O seu filho mais velho bêbado em potencial, alcoólatra, e pasmem era aquele que eu mesma havia observado colocando-a no ônibus. A senhora tinha alguns hematomas nos braços e pasmem eles foram providenciados pelo espancamento deste filho de apenas 58 aninhos! Quase um idoso? Penso eu! Difícil de acreditar que aquele senhor que a colocou dentro do ônibus com tanto carinho, dando conotações ao motorista, para que ele cuidasse de sua mamãe durante a viagem! Por favor, não a perca de vista de forma alguma! Sabem que eu não percebi nenhuma rudeza nesse comportamento! Mas… seriam devaneios? Devaneios Maternos?

QUARTO CAPÍTULO

Ah! E a filha mais velha que gritou com ela e muito alto os seus berros que ela ficou tão rouca, e sem voz! Ao que a senhora profetizou: Tomara que seja para sempre! OPA! Praga de mãe pega?? Ah! Continuando, ela precisou vender o sítio, lá no PARANÁ, um lindo Estado Brasileiro, isto porque nenhum dos filhos quis semear e plantar, produzir após o falecimento do bêbado marido! (Via-se que o alcoolismo era característica de família.) Conversa vai… conversa vem… Estávamos na Rodovia dos Bandeirantes, o sol maravilhoso após muitíssimos dias de chuva, temporais, acidentes e isso estava acontecendo com horários prescritos pela NATUREZA, nos mostrando com esse forte barulho, a sua CORAGEM em defender os seus direitos adquiridos. Observação: A NATUREZA É BELA! E a senhora encantada com a mata ao redor, ela comentava dos bichos, das flores que deveriam ser encontrados bem ali ao lado da estrada, que beleza que era a natureza, a senhora vibrava! Ela me confessou que nunca havia viajado por aquela Rodovia, a estrada realmente era muito boa, agora ela poderia dizer aos amigos eu viajei pela BANDEIRANTES!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

Ela era dessas pessoas confusas. Confusas e centradas. Coisas dúbias em uma só pessoa e talvez isso fosse o que a tornava mais interessante.

André era apaixonado por ela, dizia isso. Ela gostava dele, já foi também apaixonada, mas hoje já não mais. A paixão secou, como a água da torneira da sua cozinha por culpa do encanamento do vizinho. A pia ficou com as coisas para lavar, sujas, mas não tem o que fazer, até a água voltar.

Jantou o macarrão de ontem, frio, nunca gostou de comer comida requentada. Hoje só queria ficar só, e estava… André, estava por aí e ela nem aí, não ligou, apesar do dia merecer uma comemoração especial.  Dia dos namorados. Ela hoje não liga para datas, na adolescência sim, mas hoje, tantos anos depois da adolescência não mais.

Depois do jantar, mais um prato, copo, garfo e faca para a pia suja, ela olhou tudo aquilo com desgosto e sem ao certo saber o que fazer para resolver. Terá que resolver com o tal vizinho.

E por falar em vizinho se não fosse tão esquisito seria interessante. Era interessante, mas era esquisito. Quantos anos tinha? Acho que era um pouco mais novo que ela e sempre a olhava quando estavam no elevador.

Resolveu tomar banho, colocar seu perfume favorito. Usava seu perfume até para dormir sozinha. Era para ela. Amava aquele cheiro. Tentou dormir cedo, mas seu relógio biológico não ajudava para isso. Foi para a sala, ligou a TV, a TV sempre dava sono, mas nada. Foi para internet e ali despertou de vez, com ele, aquele que agora fazia ela sorrir, gargalhar. Ela só observava o que ele postava e quantas eram as que respondiam para ele. Muitas…

Ele era história antiga. História dela com ele. Dele com ela. Cada um pelo seu olhar. Seguiam suas vidas separadamente. Ela lembrou da música da adolescência “no balanço das horas tudo pode mudar”, cantava com a amiga da escola em um dia 12 de junho de muitos anos atrás. Ela lembrou e confusa que era pediu para o “Papai do Céu”, sim, ela ainda se referia a ELE como “Papai do céu”, pediu com fervor, pedir com amor e com um certa dose de dor.

Pediu que tudo fosse para o lugar certo. Que a água voltasse. Que a comida nunca faltasse. E que a alma dela encontrasse a dele frente a frente. Cara a cara. Corpo a corpo. Olhos nos olhos. Que pudesse ser seu nAMORado. Que esse tempo, esse das horas da música,  que enfim, chegasse para eles. Coragem.

Pegou no sono. Sonhou com merda. Sim, merda. Não estranhem, isso é um sonho que traz sorte. Presságio bom. É o que dizem…

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.