Parece loucura mas já parou para pensar que a festa mais importante de fevereiro só é um reflexo do que acontece nos tantos outros dias do ano?

Todos os dias acordamos, nos espreguiçamos, meia volta no quarto, dente escovado e a máscara na cara que é para manter o humor escolhido para o dia. 

Ao longo do tempo troca-se as personagens e no descanso do lar é onde as fantasias perdem formas. 

Todos os anos a mesma rotina, as promessas quase que impossíveis desejadas no novo ano que se inicia e lá estamos nós aguardando ansiosamente pelos novos enredos, novas histórias.

Seria cômico se não fosse trágico a semelhança gritante com que a nossa vida se parece com um verdadeiro carnaval invertido e basta observar.

Todos os dias são dias de carnaval. 

Da alegoria ao passista, na pista a rainha de bateria dá um verdadeiro show. A máscara de riso esconde o choro de luta de quem sabe que não pode fraquejar. 

Aqui fora da avenida os fanfarrões não sabem brincar. O confete é bala e a púrpurina é dor.

Aqui fora da avenida todos os dias são  dias de carnaval, e nem de longe lembra a alegria das crianças.

Aqui é selvageria, carnaval na raça, só sobrevive quem dança conforme o dança. 

E por isso não dá para desafinar, é preciso ter samba no pé e gingado.

É preciso ter molejo e sacudir a poeira.

Na avenida da vida saber passar e chegar sem perder o ritmo.

Ir para avenida, desfilar, carnavalizar. Pois todos os dias são dias de carnaval.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Ah, fevereiro! O mês mais esperado do ano na áurea época da minha juventude! As cinco noites com bailes de Carnaval nos clubes sociais da minha cidade, no interior de São Paulo, são algumas das minhas melhores lembranças daqueles tempos.

Atualmente, depois de quase 20 anos morando na Dinamarca, já quase nem me lembro que fevereiro é mês de Carnaval. Primeiro, porque aqui não existe a tradição carnavalesca como no Brasil – a comemoração dos dinamarqueses, chamada Fastelavn, é só para crianças, e consiste basicamente em fantasiar-se e bater num barril de madeira até quebrá-lo para pegar as guloseimas escondidas dentro dele. Segundo, porque não há clima para Carnaval aqui em fevereiro, nem literal nem metaforicamente. Os dias são frios e escuros, não combinam com o Carnaval que conhecemos e apreciamos. E terceiro, neste ano de pandemia, Carnaval parece coisa de um passado muito distante.

Em tempos normais, pode-se, sim, participar de uma folia carnavalesca ao estilo brasileiro por essas latitudes, mas em outra época do ano. Existem organizações que promovem festas em algumas cidades da Dinamarca no mês de maio, quando o clima está mais apropriado. Trata-se de festivais que incluem música, dança, desfiles de escolas de samba e outras atividades. Participei várias vezes desse Carnaval fora de temporada em Copenhague para sentir-me um pouco mais perto de casa.

O que me parece mais interessante desses eventos é que geralmente são organizados por dinamarqueses que se identificam e abraçam esse aspecto da cultura brasileira, às vezes até com mais paixão que os próprios brasileiros.

O Carnaval celebrado no Brasil sempre foi muito promovido internacionalmente e, de fato, fascina muitos estrangeiros. É algo que quase qualquer pessoa no mundo pensa quando se fala do Brasil, além do futebol, é claro! Isso é muito bacana, mas eu gostaria que o Brasil se destacasse por outras capacidades também; que outras ideias viessem à mente das pessoas quando pensassem sobre o nosso país.

Em várias ocasiões, ouvi o comentário: Você é brasileira? Sabe sambar? Samba um pouquinho para a gente ver… Eu nunca fiquei ofendida com isso, porque achava legal que as pessoas tinham interesse pela nossa cultura. Mas hoje, pensando bem, acho que é muito pouco. O Brasil tem tanto mais para mostrar, mas ainda insiste em promover apenas uma pequena fração de suas muitas facetas.

É certo que crise política, escândalos de corrupção e outros problemas socioeconômicos que nos assolam há bastante tempo não favorecem a imagem do Brasil no exterior, mas acho que, mesmo assim, ainda temos muitas coisas boas de que nos orgulharmos.

A tradição carnavalesca, a música e os aspectos culturais do Brasil devem ser preservados e difundidos, mas precisamos mostrar para o mundo que podemos oferecer mais do que isso. Gostaria que o país do futebol e do Carnaval também fosse reconhecido por seus avanços científicos e tecnológicos, por seus valores democráticos, por sua criatividade, seu respeito à vida e ao meio ambiente e por encontrar soluções sustentáveis para o desenvolvimento do nosso país.

Como já dizia um velho samba-enredo da Mocidade: “Sonhar não custa nada…”

Miriam Moraes Bengtsson – Bela Urbana, formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCCAMP e possui mestrado em Comunicação e Inglês pela Universidade de Roskilde, na Dinamarca. Desde 92, atua nas áreas de mkt e comunicação. Natural de Garca, SP, vive atualmente em Copenhague, Dinamarca, com marido e dois filhos. Trabalha com comunicação digital e branding em empresa da área farmacêutica. Em seu tempo livre, gosta de praticar esportes, viajar e estar com família e amigos.