Carnaval de 1997. Era uma viagem de uma turma de amigos recém-formados. Éramos em doze no total, enfiados em um apartamento de um quarto em Caraguatatuba. Havia gente dormindo até na cozinha.

Na terceira noite eu fiquei com um dos colegas. Romance improvável, não fosse o clima de carnaval. Graças a Deus na manhã seguinte já era dia de eu ir embora. Precisava voltar mais cedo pois havia levado uma prima minha, que não era da turma da faculdade e já trabalhava e tinha que retornar a São Paulo. Hoje em dia ninguém se importa mais. Mas na época era estranho ficar com colega de faculdade, depois de tantos anos sendo apenas colega de faculdade.

Algumas semanas depois, como de costume, a turma se reencontrou em mais uma baladinha. O constrangimento inicial não durou muito. Ficamos novamente. Nesse dia, já fomos embora de mãos dadas.

Depois da nossa segunda “ficada”, combinamos de sair para jantar e pela primeira vez após tantos anos, estaríamos somente nós dois. E nesse dia, ele me disse que precisava falar algo muito importante, que seria melhor falar antes que eu soubesse por terceiros. Diga-se terceiros, todos os demais colegas da turma.

Pois ele me revelou que no carnaval ficou comigo porque havia feito uma aposta com os amigos. O choque foi tão grande que francamente eu não sabia se ria ou chorava. Ele se desculpou, disse que não queria que tivesse começado dessa forma e eu meio desconcertada dei um sorriso amarelo e fingi ter achado engraçado.

Isso passou. Às vezes durante algumas brigas eu ainda escavava essa história, mas com o tempo isso deixou de ser importante. Após cinco anos esse romance gerou um casamento, que após mais dois anos gerou uma filha e um ano depois, gerou a nossa empresa. Foi um relacionamento de 17 anos. Hoje já estamos separados há 6 anos.      

O casamento acabou, mas a filha ficou, a empresa ficou e a amizade ficou.

O que teríamos feito das nossas vidas se não fosse o carnaval de 1997?

Impossível saber.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Mudar é um coringa. O da carta, não o do cinema.

Mudar é, ao mesmo tempo, assustador e empolgante, um peso e um alívio, uma dor e um prazer… Mudar pode ser ruim quando as coisas estão boas, mas é a melhor saída quando as coisas estão ruins.

Nossa sociedade está sempre em movimento e sempre em busca de algo melhor, ainda que se torne temporariamente pior nesse processo. E nossa sociedade começou a mudar, algum tempo atrás. Uma leve melhora que provocou os egos mais conservadores que, na ânsia de proteger sua “zona de conforto”, lutaram contra essa melhora, o que fez de todos nós um pouco piores.

Mas isso é bom! Porque só quando nos sentimos desconfortáveis ou ameaçados é que resolvemos nos mexer. E nós crescemos somente quando existe um obstáculo à nossa frente. A piora é só o efeito colateral dos primeiros passos para a melhora.

Eu gosto de mudanças. De todas as mudanças! As que trazem dor e as que trazem prazer. Sim, ambas! A mudança, para mim, remete a desconforto, como para todos, mas desse desconforto surgem a excitação das novas informações e, com elas, novas possibilidades. Nossa sociedade, nossa cultura, principalmente nossos valores estão muito doentes e a cura só vem com a mudança.

Nestas eleições, eu busquei muitas mudanças e torci para que elas fossem as mais radicais possíveis. Agi até onde pude, mas fui limitado a dois míseros votos. Queria ver a maior diversidade possível nas casas executivas e legislativas deste imenso País, mas, com coerência e conhecimento, só consegui apoiar duas mulheres: uma para a Prefeitura e outra para a Câmara dos Vereadores.

Ao final, minha cidade querida terá 3 mulheres e 2 transgêneros* no seu conselho legislativo. Satisfação! No executivo, contudo, as opções sobreviventes são mais do enferrujado e hipócrita mesmo. Frustração.

Eu entendo que o momento é das mulheres e precisamos delas. Elas estão melhor preparadas para o cenário atual, pois elas não têm os vícios do poder patriarcal, têm a sensibilidade de quem é orientada para a congruência, para a união, e elas têm a virtude de dar voz a todos, coisa que anda em falta na cultura tupiniquim dos últimos tempos. O momento é também de quem não se vê lá, nem cá, ou, estando lá, sabe que seu lugar é aqui e vice-versa. Ser LGBTQI+ é ser disruptivo em essência. E a ruptura com o sistema é a mudança que nós mais precisamos!

Estamos longe ainda da diversidade que eu considero ideal, mas os resultados desta eleição, ao menos em São Paulo, trazem um avanço sem a menor sombra de dúvidas!

Parabéns a quem chegou lá e a quem contribuiu para esse princípio de mudança! Aos que tentam conter essa mesma mudança, sugiro que olhem para os dois lados, antes de atravessar a rua.

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* Fico, aqui, imaginando como cada um leu o número “2”.

REFERÊNCIAS:

RODRIGUES, Artur. Trans na política são resposta ao bolsonarismo, diz Erika Hilton, 6ª vereadora mais votada em SP. São Paulo: Folha de São Paulo, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

UOL Eleições 2020 – Apurações. São Paulo: UOL, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

Cássio C. Nogueira – Belo Urbano, psicanalista, coaching, marqueteiro, curioso, maluco com CRP, apaixonado pela vida e na potência máxima, sempre!

QUINTO CAPÍTULO

Que respeito tinha essa senhora pelo mundo ao seu redor! Porque será que os seus filhos a tratavam tão severamente, e tão desrespeitosamente? Ela possuía um olhar escuro, mas muito doce, as mãos senis, mas a sua gesticulação atrevidamente italiana, as pernas finas com a doença Erisipela, mas estava com suaves meias finas, de nylon! Ela tinha classe! Como ter diante de mim, uma senhora que apesar de chorosa, era muito direta e franca. Em nenhum momento ela se aquietou, e a cada pedágio ou cidade transposta era para ela um delírio! Ah! E quando chegamos a Campinas/SP/Brasil, a cidade em que viveu e teve que vender a casa construída a duras penas com o marido, já falecido e depois de sua partida, e é claro que foi o alcoolismo também, que deixou de herança na família, ela teve que dividir a casa com os filhos briguentos e insanos. Que dor em suas palavras, mas que CORAGEM ao contar o seu RESPEITO pela vida! E após tudo isso ela foi morar em Indaiatuba/SP/Brasil, cidade pequena vizinha de Campinas, onde a bicicleta contou-me ela é ainda o transporte que mais a favorece em seu crescimento. A senhora viúva ao meu lado ainda teria que pegar um outro ônibus, para chegar em sua casa.

SEXTO CAPÍTULO

Perguntei então: Quem iria apanhá-la na Estação Rodoviária quando chegarmos lá? Ela respondeu: Será o meu filho, o mais novinho, ele também bebe bastante, também é alcoólatra, dele o que é bom é mesmo a sua mulher, um amor de pessoa e ela nem é minha parente!Eu gosto muito dela, ela me respeita e me defende, nela eu posso confiar, sempre! Em seguida disso, lá estava CAMPINAS estampada em nossos olhos, nos dizendo… Sejam bem vindos! Para mim comentei: O IMPORTANTE É CHEGAR!

E ela rindo completou: CHEGAR E BEM VIVOS!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

foto: Adriana Chebabi

Uma São Paulo apaixonada é ainda mais surreal.

Dia desses, na Av. Paulista, tava despedindo do gatinho carioca – ali na entrada do metrô Consolação. Um dia de sol bem gostoso. Com sorvete e calorzinho favorável. A despedida já tinha virado um amasso-espetacular-de-dar-inveja e eu já tinha perdido um pouco da noção do tempo e do bom senso.

Mas eis que, então, somos interrompidos:

– Ei, oi…

De primeira, de segunda, de terceira, ignoramos – um monte de gente ali, oai. Pense na força de um sonho corinthiano e na sinceridade de um desejo flamenguista de que – PORFAVORDEUS – não fosse com a gente. Afinal, naquele dia já tinha parado pra ouvir ONG pedindo o dinheiro que não tenho e descolado uma moeda pra um artesão que queria me vender um chaveiro gigante de fita cassete. Mas o “eioioi” foi chegando perto e ficando insistente. Virou “EI, VOCÊS”. Então, só sobrava nóis memo.

Aí já era. Abre o olho, desmancha o abraço, enxuga a boca, volta pra Terra – contrariada – e tenta achar da onde vem. Ao nosso lado, uma jovem senhora, toda desconsertada, diz:

– Então, sabe, é… será que cêis podiam descer e falar com o funcionário do metrô pra ele inverter o sentido da escada rolante? Porque eu preciso. Porque eu não consigo, sabe? Porque eles fazem, se pedir. Porque o elevador tá com cheiro de xixi.

Ainda sob efeito daqueles beijo que minha nossa, faço pausa de dois segundos só pra entender a situação, sem deixar de pensar MANO, SÉRIÃO? Já o boy, aposto ter sentido algo como um PORRÃ inconsolável.

Claro que a gente foi. Se pegar bonito, em público, não isenta ninguém de ser prestativo e solidário. Pedimos. E ouvimos do funcionário que tinha elevador. E explicamos que ela não queria pegar o elevador porque tava fedido. E contamos pra ela que o funcionário não quis inverter, mas que na outra entrada – logo à frente -, a escada tava descendo. E ficamos observando até ter certeza de que ela achou e entrou. E rimos tentando entender POR QUE CARALEOS – naquele lugar mega movimentado, de uma das maiores avenidas de sp -, ela foi pedir justo pra gente.

A senhorinha deve ter sacado que, em terra de autômatos, ser humano que beija na boca pode ser um bicho um pouco mais generoso.

– Mas bom, agora deixa pra lá. Acho que ajudamos alguém. Onde a gente tava mesmo?

Segue o amasso.

Camila Santos – Bela Urbana, formada em Psicologia, já foi cantora e professora de inglês. Já morou por três meses na Inglaterra e por três anos em Ilhabela. Entre uma ilha e outra, também passou um tempo como tripulante de um navio. De volta a São Paulo, escreve e dança forró para viver.

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Ela havia chegado há pouco a São Paulo. Pelo menos foi isso que o porteiro do prédio me disse. Apaixonei-me por ela logo no primeiro dia em que a vi. Sou um homem sensível e tenho uma vocação danada por me apaixonar subitamente por boa parte das mulheres que cruzam o meu caminho. Da mesma forma, e sem explicação aparente, todas essas paixões se dissolvem no ar em poucos dias. Vou da felicidade à desilusão amorosa num curto espaço de alguns dias. Mas o fato é que com Nandinha foi diferente. Era assim que eu carinhosamente a chamava depois que a conheci de verdade naquele fatídico dia. Fernanda, a minha Nandinha, era atriz, tinha vinte e três anos e um corpo trabalhado pela dança. Seu rosto tinha a graça e a delicadeza de uma menina e seu olhar a força de uma mulher. Seu cabelo preto e comprido repousava suavemente pelo seu dorso de um lado e se perdia pelas costas do outro. Sua roupa moderninha, numa mistura de atriz e bailarina, era o toque final. Foi o golpe que faltava. Era como se todas as qualidades de mulher se resumissem ali diante dos meus olhos. Não me contive. Me precipitei no corredor e abri a porta do elevador. Ela me sorriu meio sem jeito e entrou. Entrei atrás dela e num impulso fui logo me apresentando. Bom dia, eu sou o João. Ela só me disse: “Eu sou a Fernanda”. Percebi, nesse momento, um certo ar de nervosismo em seu olhar. Logo imaginei: “Claro, ela também se apaixonou por mim. Ai meu deus…encontrei a mulher dos meus sonhos”. Ao chegar no térreo, ela saiu do elevador sem dizer nenhuma palavra. E eu fui direto no porteiro que me deu a informação que a Nandinha, por enquanto Fernanda pra mim, era nova na cidade. Nem precisa dizer que daquele instante pra frente, resolvi investir naquela nova paixão. Todos os dias, pela manhã, planejava cuidadosamente para que o acaso me fizesse encontrá-la na porta do elevador. Eu repetia o mesmo ritual de sempre. Abria a porta, lhe dava bom dia e ela me respondia com aquele sorriso enigmático e algo de tensão estava sempre presente em seu olhar. Passaram-se dias e aquela cena se repetia. Tempo suficiente para que eu, na minha santa inocência, achasse que aquele algo mais, aquela tensão em seu olhar e a pressa latente em seu jeito, eram indicadores fortíssimos de que alguma coisa existia entre nós. De fato existia, mas ainda não era entre nós.

Lembro-me bem daquele dia. O dia em que decidi ser mais incisivo com ela. Aquela manhã no elevador meu coração batia tão forte que tive medo que ela ouvisse ele pulando dentro do peito. Chegamos ao térreo e eu não tive coragem de fazer nada. Resolvi então segui-la. Nós morávamos em um prédio que ficava em cima da estação Vila Madalena. Ela saiu pelo portão da frente e logo desceu as escadas do metrô. Fui atrás dela. Eu sentia que tinha que ser naquele dia. Iria me declarar no vagão lotado se sentisse que seria o momento. Ela percebeu que eu a seguia. Olhou pra trás num momento e sorriu. Entramos no mesmo vagão, mas cuidei pra não ficar excessivamente próximo. Apenas o suficiente para que nossos olhares se alcançassem. Percebia a cada instante que seu olhar se transformando. Mas comecei a achar que aquilo tudo não era fruto de uma paixão que ela supostamente sentia por mim. Tinha algo de pavor em seu olhar. Na estação Sumaré, com a luz do dia, vi que ela estava um tanto quanto pálida. Deve ser alguma coisa que ela comeu no café da manhã, eu pensei. Não demorou muito. Na verdade nem um minuto para eu descobrir o que estava por trás daquela palidez e nervosismo. Saímos da estação Sumaré e mergulhamos na escuridão dos túneis. Um pouco antes de chegar a estação Clínicas, o trem parou. Imediatamente nos olhamos e o seu semblante era de pânico total. Sem entender nada comecei a caminhar em sua direção. Nesse exato momento, o sistema de auto-falantes do metrô nos informou que havia ocorrido uma pane elétrica e que ficaríamos parados ali por, pelo menos, 10 minutos. Nem bem havíamos recebido a notícia e, já sentindo calor pelo ar condicionado insuficiente, as luzes se apagaram. Continuei caminhando. Eu sabia a quantos passos estava dela. De repente sinto o seu corpo encontrando o meu. Senti o seu abraço. Retribui imediatamente. Só ouvia o meu coração bater e o coração dela vibrar junto ao meu peito. Ela começou a tremer e a chorar baixinho. Sem entender nada, continuei firme no meu abraço acolhedor. Ela chegou com a boca próxima ao meu ouvido e baixinho me disse: “Não me deixe só”. Voltou a me abraçar apertado e não disse mais nada daquele momento em diante. Minha cabeça começou a rodar. Sentia que era a pessoa mais importante do mundo pra ela naquele momento. Mas isso não tinha nada a ver com as histórias e fantasias de amor e paixão que viviam invadindo meus pensamentos até aquele dia. Resolvi também não dizer nada. Meu sexto sentido – eu sou um homem que tem sexto sentido – me disse pra ficar quietinho. Foi o que fiz. Quando a luz acendeu e o trem voltou a andar, nos afastamos e nos olhamos profundamente em silêncio. O trem parou na estação Consolação. Ela soltou dos meus braços e desceu. Fui para o trabalho em silêncio. Naquele dia fiquei muito calado. Algo tinha de muito importante tinha se passado comigo e eu não entendia o que. Na volta pra casa, ao abrir a porta do apartamento, encontrei um bilhete no chão. “Tem algo a meu respeito que você precisa saber. Venha até meu apartamento. Te espero hoje”. Tremi de nervoso e ansiedade. Não sabia se era mais a paixão que em movia. Talvez fosse esse mistério. Tomei banho, passei meu melhor perfume e fui até o apartamento dela, que era o 210. Toquei a campainha. Ela abriu a porta. Seu cabelo molhado revelava que ela também havia saído do banho há pouco. E seu vestido descompromissado e pés no chão eram sinais claros de que ela estava á vontade comigo. Seu apartamento tinha poucos móveis, mas tudo o que havia era muito colorido. Muitas fotos de teatro espalhadas pela parede e um forte cheiro de incenso no ar. Ela abriu uma garrafa de vinho, colocou Ella Fitzgerald pra tocar. Tomamos o vinho em silêncio, apenas nos olhando. O seu olhar, agora, era diferente do olhar de todos os dias. O meu sentimento, agora, era o mais confuso de todos os tempos. Nem bem acabamos a primeira taça, ela se aproximou de mim e me deu um longo beijo. Mais tarde ela me disse que aquele beijo era só um agradecimento por eu tê-la salvado naquela manhã. A verdade é que pouco me importou se o beijo era ou não um ato de gratidão. Sua boca era macia e doce como nenhuma outra. Em silêncio nos amamos. Quanto mais o tempo passava, mais confuso eu ficava. No jantar, ainda naquela noite, foi tudo esclarecido. Ela me contou sorrindo, depois de eu dizer todos os sinais de estar apaixonada que ela havia me dado nos dias anteriores, que na verdade tudo aquilo que eu via era claustrofobia. Sim, ela tinha um trauma de infância por ter ficada trancada dois dias no porão da sua casa. Por isso, o seu olhar tenso no elevador e o desespero quando o metrô parou. Meio passado, perguntei então porque ela não descia de escada e andava de ônibus. Ela riu mais uma vez e explicou que descia de escada sim, mas que ficou sem jeito quando eu corri e abri a porta do elevador para ela entrar. E que como eu fazia todo dia a mesma coisa e ela não queria ser indelicada, ela pegava o elevador todos os dias. Desconsertado perguntei: “E o metrô?” “O metrô”, disse ela. “É mais rápido que o ônibus. Não vou ficar perdendo tempo só porque tenho medo”. Depois daquela noite continuei descobrindo coisas preciosas da Nandinha. Pela manhã, descíamos juntos escada abaixo e vez por outra combinávamos um ou outro jantar. Um dia eu preparava a comida. No outro ela fazia dança do ventre. Eu lia um poema, ela fazia cafuné. Eu mordia o seu pescoço, ela dormia abraçada ao meu peito. Éramos felizes de verdade. O meu relacionamento mais longo e o único que eu não entendia, apenas sentia. Freqüentamos todos os cinemas e exposições da cidade. Fui ver muitas de suas peças. Namoramos durante dois anos. Ela no apartamento dela e eu no meu. Mas por mais intimidade que tínhamos um com o outro, jamais chegamos ao sublime daquele dia no metrô. Talvez ela não consiga isso com nenhum outro e comigo a mesma coisa. Tive certeza disso numa noite fria de julho. Cheguei em casa com duas garrafas de vinho e a esperança de uma grande noite entre nós. No entanto, por debaixo da porta um bilhete. Gelei. Algo me dizia que a notícia não deveria ser boa. Abri o papel e estava escrito. “Tive que fazer uma viagem às pressas pro exterior. Eu volto. Não me deixe só”. Bebi todo o vinho aquela noite. Fiquei em silêncio. Nada de perguntas. Foi assim que começou e é assim que deve ser agora. Sabia que a nossa história havia sido única. Nunca a esqueceria. Ela nunca voltaria e eu nunca a deixaria só. Mas como disse, sou um homem sensível. Saí de casa sem rumo na manhã seguinte. Logo na primeira esquina, uma nova paixão. A bunda mais perfeita que eu já vi. Mas essa é outra história.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

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Antenor entrou decidido na sala assim que a recepcionista abriu a porta e foi logo disparando, antes mesmo de dar bom dia: “Doutor, eu gostaria de solicitar a vossa senhoria o obséquio de pleitear junto ao metrô uma indenização por perdas e danos à minha pessoa”. Cláudio, um jovem advogado e de carreira brilhante apesar dos poucos anos de profissão, era experiente e perspicaz o suficiente para saber que aquele homem simples ali parado na sua frente, deveria ter elaborado minuciosamente a frase proferida. E pelo certo embaraço e rapidez com que foi dita, deixava claro que aquelas eram palavras emprestadas de um outro vocabulário. Nesse caso era necessário quebrar o gelo para se aproximar do seu talvez futuro cliente e tentar entender afinal do que se tratava tal pedido. Não teve tempo de dizer nada antes que Antenor, que estava ansioso e sentia o calor úmido e frio de suas mãos, perguntasse: “Então doutor, o senhor pode me ajudar?”. “Claro que sim. Por favor, sente-se”. Antenor puxou a cadeira de um jeito tão tímido que parecia estar pedindo desculpa por se sentar numa cadeira tão imponente e cujo revestimento do assento e do encosto deveria custar mais do que todo seu guarda-roupa. Olhou ao redor e começou a se dar conta que nunca havia visto um lugar como aquele. Era tudo muito moderno, diferente da imagem que fazia de um escritório de advocacia, com suas salas escuras, carpete verde musgo e madeira por todos os lados. Ali era tudo branco, iluminado, com uma enorme parede de vidro que revelava uma São Paulo gigantesca, do tamanho de um mundo. Um mundo ao qual fazia parte como um ser minúsculo perdido no meio da multidão. Antes que entrasse em transe nesse universo desconhecido, foi acordado pela voz cortante de Cláudio: “O senhor?”. “Antenor, esse é meu nome. Antenor da Luz e Silva. Luz por parte de mãe e Silva por parte de pai”. “O senhor Antenor aceita um café, uma água?”. “Água sem gelo e café com adoçante por favor”. Nunca tinha tomado água sem gelo nem café com adoçante, mas havia ouvido essa frase num filme, achou chique e resolveu que ali era o lugar exato para usá-la. Cláudio o olhou com um certo sorriso enigmático enquanto fazia o pedido a sua recepcionista. “Mas vamos lá seu Antenor da Luz e Silva, me explique o motivo pelo qual o senhor quer ser indenizado por perdas e danos”. “É por causa do trem da madrugada”. “Seja mais claro”. Antes de continuar, foram interrompidos pelas batidas na porta da recepcionista que trazia a água e o café. A água veio num copo triangular e o café numa xícara quarada. Ficou olhando sem entender essa geometria das coisas simples num mundo sofisticado. Para ele, copo e xícara são redondos. Bebeu a água de uma vez e deixou o café pra depois. “É assim doutor, o senhor sabe que sábado é dia de namorar. Não sabe? Tem gente que namora com dia marcado. Uns na segunda, quarta e sábado. Outros na terça, quinta e sábado. O senhor vê, sempre tem sábado. Até pra quem não tem dia certo, sábado é dia de namorar. É dia de tomar sorvete, ir ao cinema, beber uma cerveja. É dia de passear com a namorada. Sábado sem namoro não dá. O senhor me entende, doutor?”. Antes de ouvir a resposta de Cláudio, atento e incrédulo, continuou. “E como sou um sujeito que respeita a tradição das coisas, não abro mão de namorar no sábado. Chova ou faça sol, todo sábado eu saio com a Ritinha e com a Alessandra”. Cláudio o interrompe. “Um momento, por favor. Marcela, uma água com gás bem gelada”. Colocou o telefone no gancho, afrouxou um pouco a gravata, recostou-se na sua cadeira e com ironia interessada voltou à conversa. “Me diga, Antenor, se eu entendi bem até aqui, você afirma que sábado é dia de namorar e que você tem duas namoradas.Certo?”. “Sim senhor”. “Mesmo?”. “Certamente doutor”. “Duas namoradas?”. “É..sim…tem algum problema?”. “Não..quero dizer..sim…bem, eu não atuo na vara de família..”. “Peraí doutor, que história é essa de vara de família?”. “Calma, eu só estou dizendo que a minha área de atuação é outra. O senhor me entende?”. “Mais ou menos”. “Mas vamos continuar a sua história, por que eu ainda não entendi o que o metrô tem a ver com o senhor e suas duas namoradas, e também o que eu tenho a ver som isso tudo”. “Ué, o senhor não é advogado?”. “Parece que sim, não é?”. “Então, preciso que mexa as coisas pra processar o metrô”. Cláudio, um pouco irritado, toma um gole na sua água com gás que sua recepcionista havia colocado na mesa, respira fundo e pede que Antenor seja mais claro e objetivo porque ele não tem o dia todo. Antenor toma o café, que já está gelado e vai direto ao ponto. “Doutor, esse tal de trem da madrugada que o metrô acabou de inventar, me acarretou sérios problemas na administração interna dos meus relacionamentos afetivos. O senhor já teve duas namoradas? O senhor já teve que sair com as duas no sábado? Pois bem, antes do pessoal do metrô inventar de prorrogar os horários de funcionamento aos sábados até a uma da manhã, tudo era perfeito. Vou explicar: No sábado de tarde eu ia pra casa da Ritinha e ficava na casa dela ou em algum lugar por perto até umas onze da noite. Depois me despedia e pegava o metrô na estação Jardim São Paulo. Descia na Sé e pegava outro até Arthur Alvim. Pra ela, a Ritinha, eu trabalha numa distribuidora de jornal lá na Zona Leste e entrava às 4 da manhã pra entregar o jornal de domingo. E como o metrô parava meia noite e eu não podia bobear, era preciso sair mais cedo para garantir meu transporte até o trabalho. O senhor tá me acompanhando?”. Cláudio empurrou a cadeira para trás, levantou-se, foi até a parede de vidro, olhou a cidade lá embaixo. “Essa cidade é gigante não acha? Como o senhor chegou até mim?”. “Lista telefônica doutor”. Desolado, voltou a cadeira sem dizer palavra. “Veja só doutor, aí é que tava a jogada. Não existia trabalho de entregador de jornal pra ganhar grana extra. Na zona leste estava a minha Alessandra me esperando. Pra ela, eu dizia que trabalhava numa padaria da Zona Norte até as onze da noite. E como o senhor já sabe, sábado é sagrado pra mim. Eu chegava na casa dela às onze e quarenta e três da noite, ou seja ainda era sábado. A minha pimentinha, a Alessandra, também pensa como eu. Sábado é dia de namoro e ela valorizava meu esforço em chegar a tempo. Doutor, tudo funcionava como um relógio até sábado retrasado”. “Seu Antenor, seja mais rápido”. “Resumindo: no sábado retrasado cheguei na casa da Ritinha e ela estava radiante. Estava com um jornal na mão me mostrando que o horário do metrô havia sido estendido até a uma da manhã, o tal do trem da madrugada. E que como comemoração a isso, ela me daria um presente especial naquela uma hora a mais. Não tive como fugir, ela usou de artimanhas que só as mulheres têm…o senhor sabe, né? Com isso, em vez de sair as onze saí meia noite. Em vez de chegar onze e quarenta e três, cheguei meia noite e quarenta e três. A Alessandra já tava doida de preocupação. Me deu um abraço apertado logo no portão e antes de perguntar o que tinha acontecido, sentiu um cheiro forte de perfume de mulher. Doutor, eu tomo sempre o maior cuidado pra não sair cheirando perfume da casa da Ritinha. Sempre tomo um banho na casa dela antes de sair, com a desculpa de ir pro trabalho. Mas naquele sábado, ela queria me dar o tal presente na uma hora a mais que havíamos ganhado. E que presente doutor…mas não deu tempo de tirar o perfume dela e a Alessandra matou de cara. Eu falei que ela era pimentinha. Me encheu de tapas, arranhou meu braço e me puxou pra dentro de casa. Aos prantos, exigiu explicações. Congelei. Por favor, olha só a minha situação: O que eu iria falar pra ela? Que meu chefe tinha aumentado meu horário de trabalho e que caiu um vidro de perfume que tava na última prateleira do balcão do caixa e que era da mulher do dono da padaria. Sem essa. Mulher nenhuma acreditaria nisso, por mais apaixonada que fosse. Paralizado, olhei nos olhos dela e comecei a chorar. Doutor, como eu amo a minha pimentinha. O ataque de fúria começou de novo, ela pegou a bolsa, me agarrou pelo colarinho e disse: vamos conhecer essa vagabunda. Eu ainda tentei dizer que não dava tempo. Ela disse que dava sim, que o metrô tava ficando aberto até a uma da manhã e enquanto tivesse gente dentro, tinha trem. Olha, eita serviço bom, mas que desgraça. Como quem caminha pra forca, pegamos o trem rumo a estação Jardim São Paulo. O metrô estava praticamente vazio, e sentamos em bancos separados. Um em frente ao outro. Ela me fuzilava com os olhos, eu olhava pra baixo. Bom, nem precisa dizer o que aconteceu na casa da Ritinha. Elas descobriram tudo e veio abaixo uma linda história de oito anos. A Ritinha eu comecei a namorar no carnaval de 1999 e a Alessandra na Páscoa do mesmo ano. Eu a conheci no supermercado. Eu comprando ovo de Páscoa pra filha da Ritinha e ela pro seu afilhado. De lá pra cá não consigo nem dormir direito. To arrasado. Eu amo aquelas duas mulheres. Parece loucura, mas não vivo sem as duas. O que eu faço agora? Um amigo meu me chamou de banana, que não deveria ter levado a Alessandra na casa da Ritinha. Disse que fui bobo, que perdi as duas porque marquei bobeira. Mas veja, não tinha como dizer não a Alessandra. Eu nunca disse um não a ela, nem ela a mim. Éramos felizes, os três. Agora não sou nada, sozinho. Senhor doutor Cláudio, por isso o metrô me deve uma indenização. Estou na rua da amargura graças a eles. Eu sei que eles não quiseram fazer mal a mim, mas é possível prejudicar alguém mesmo sem ter intenção, não é mesmo? E aí, como é que eu fico? Alguém tem que pagar por isso? O trem da madrugada passou em cima da minha cabeça. Me ajude por favor”. A sala estava completamente em silêncio. Antenor imaginava que Cláudio estava preparando alguma resposta pro seu caso. Cláudio só imaginava o que poderia dizer a Antenor. Por mais que não fizesse sentido mover uma ação dessas, que a motivação era absurda e baseada num adultério, aquele homem tinha sido prejudicado por um terceiro. Isso era um fato. Além disso, Claudio não estava ali pra julgar a ética e a moral daquele sujeito. Ele poderia ou não aceitar o caso. Mas que caso. Por um instante pensou que estivesse enlouqeucendo. Tirou os óculos, esfregou demoradamente os dois olhos ao mesmo tempo, levantou-se e andou sem rumo pela sala. Antenor o acompanhava quieto com os olhos. O caso dele era complicado e o doutor deveria estar pensando numa estratégia. Sentou-se no sofá atrás de Antenor, que virou-se imediatamente em sua direção. “Meu caro Antenor, o seu caso é realmente complicado. Eu realmente nunca vi uma situação assim. Sinceramente eu vejo sinceridade no senhor. É possível imaginar o amor que sente por essas duas mulheres. Sendo assim, por que não tenta reconquistar o amor delas em vez de tentar ser ressarcido de um suposto prejuízo?”. Enquanto falava, Cláudio se revirava por dentro. Não acreditava que estava ali dando conselhos sentimentais a um completo desconhecido, mas preferia isso a aceitar o caso e conquistar um vexame profissional. “Não tem mais jeito doutor. O encanto quebrou. Agora o que me resta é dor e sofrimento. Tudo por culpa do metrô”. Cláudio levantou-se, foi até sua mesa, apoiou os dois braços em cima do tampo de vidro e olhando bem no fundo dos olhos de Antenor disse: “O senhor cometeu adultério e o metrô não pode ser responsabilizado pelo término de um ato ilegal aos olhos da lei. Juiz nenhum do mundo vai aceitar uma coisa dessas e ainda é capaz do senhor ser processado pelo estado. Apesar disso concordo que o senhor está no prejuízo, mas não posso fazer nada”. Pensou que foi duro demais com aquele homem, mas disse o que deveria ser dito sem nenhum julgamento. “Aceita mais uma água ou um café?”. Antenor percebeu que sua consulta tinha chegado ao fim. Levantou-se e foi em direção a porta. Antes de sair, abriu um sorriso que era um misto de dor e esperança. Voltou alguns passos e estendeu a mão ao jovem advogado. “Obrigado por ter me ouvido”. Saiu sem fechar a porta. A história daquele homem ficou martelando na sua cabeça a semana toda. Não teve coragem nem de contar para os amigos. Fez o certo, mas aquele homem tinha sido prejudicado sim e tinha, como cidadão, o direito de reclamar. Na sexta-feira deu de cara com aquele homem na recepção do seu escritório. Sentiu um frio na barriga, mas foi logo perguntando se poderia ajudá-lo. Ele disse que não, mas que me seria eternamente grato e que de alguma forma tinha sido muito bem indenizado. Sem entender nada, Cláudio entrou na sala. Invadido por uma curiosidade que não lhe é costumeira, não fechou a porta. Mais do que isso, esforçou-se pra ouvir o que se passava do outro lado. Não demorou muito para saber o que de fato Antenor da Luz e Silva estava fazendo ali se não queria nada com ele. “Então fica assim: como eu não gosto de sair cedo no sábado, te encontro lá pela meia noite e meia na estação Saúde. O metrô funciona até a uma e depois só volta a operar lá pelas cinco da manhã. Tempo suficiente pra gente aproveitar a noite antes de voltar pra casa. No domingo, tenho que ir a missa cedo e almoçar com minha família, mas quem sabe a gente não toma um sorvete de tarde”. Cláudio, aliviado e inconformado com o que ouvia, simplesmente fechou a porta. Antenor não era mais problema dele. Dali pra frente seria da sua secretária.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

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Há frases que me ocorrem diariamente.
Uma delas está merecendo quase o posto de clichê de tanto que me frequenta os pensamentos:
No mundo dos adultos, fazemos opções e pagamos por elas.
Hoje, por exemplo, estava relatando um pouco da minha (louca) rotina para uma professora e ela, sem cerimônias, manifestou – até com simplicidade – a sua inveja da minha agenda. Dizem que inveja confessada é menos perniciosa. Eu espero que seja. No entanto, eu lhe disse exatamente isso: Professora, hoje eu estou aqui, amanhã, ali. Num dia, tenho uma atuação com um grupo, dou uma palestra sobre storytelling numa empresa, por exemplo. Noutro, faço uma reunião com um grupo diferente sobre atividades extracurriculares. Na segunda, tenho lançamentos de viagens para o sudeste do país. À tarde, vou conversar com alunos de outra cidade sobre meus livros. Parece atraente, e talvez até seja realmente. Não estou reclamando. Mas que tem preço, tem.
Nestes dois últimos anos, fiz escolhas e paguei por todas elas. Sou feliz? Não. Felicidade é um lugar para o qual sempre estou a caminho. Sou infeliz? Também não. Infelicidade é outro lugar. Um logradouro que visito, às vezes de noite quando procuro o riso dos meus filhos (e não encontro), outras vezes quando penso na maldade humana (ou a sinto queimando na pele). Mas, não é terreno aprazível que se erga morada.
Faz dois anos que revolucionei a minha vida. Mudei as regras. Atirei fora as velhas roupas, antigos hábitos e aquela forma sempre igual de viver, de agir, de pensar. Eu olhei para a sala de aula do meu futuro e cabulei aula. Faltei ao serviço do meu destino. Subverti o esperado. Alguém fez a chamada e eu não estava presente. Vieram falando de telha e eu pedi melancia.
Tudo parecia tão simples. Parecia. Previsível é a palavra. Considerei a previsibilidade uma maldição e corri dela como o diabo foge da cruz.
Eu fugi?
Decerto.
Fugi da apatia dos dias ordinários, comuns, burocraticamente cotidianos. Dos dias diários demais para meu gosto.
Glamouroso? Nem tanto. Calce os meus sapatos e você vai ver que nada (nadinha mesmo!) foi ou é tranquilo e fácil.
Mas, pagando as minhas promissórias, aprendi muita coisa nova e aprendi minha coisa que já sabia. Tanto que hoje sei que devia – antes – ter sabido. E me arrependo da ignorância do que sei e do que nunca nem sequer desconfiei. Queria ter sabido mais. Isso teria evitado tanta dor. Tanta dor minha e de tanta gente que me importa. Hoje sei destes saberes e eles me doem todos os dias.
Sei das misérias alheias e do alcance das suas maleficências. Mas sei também que nenhuma me machucou tanto quantos as próprias.
Sei que há momentos limítrofes, sentimentos limítrofes e pessoas mais limítrofes ainda.
Sei que também me orgulho pelos obstáculos que saltei, por nunca ter cedido à tentação dos bajuladores, por jogar o jogo limpo, pelos amigos que fiz, pela gente que amo, pelos filhos que fiz, pelo trabalho bem feito, pelas pessoas que – de alguma forma e sei lá como – inspirei e, muito, pelos atos de mais pura coragem. Quanta coragem já tive! Até de ser covarde, aqui e ali.
Sei hoje que a descoberta da sua essência é realizada todos os dias, mas – principalmente – nos momentos extremos. Quando tudo está bem demais ou inexoravelmente mal. Raramente, o sujeito se comporta com dignidade nesses instantes.
Sei menos que deveria. Porém, mais que poderia.
Sei com um saber, às vezes jocoso, às vezes raivoso, um tanto cansado.
Sei com aquela sapiência dos desavisados, dos loucos e lunáticos, mas sem a certeza benfazeja dos muito jovens. É que só os garotos têm certezas absolutas.
Nós,adultos, as trocamos anos atrás por medos e dúvidas. E as certezas ficaram todas espalhadas pelo chão do quarto, algumas extraviadas, perdidas para sempre. Perto dos sonhos.
Sei disso tudo e de tanto nada.
Assim foram estes últimos anos: descobertas de mundo, de mundos. Principalmente do meu.

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Max Franco – É formado em Letras, é professor de Lingue Portuguesa, Lingue Italiana, Literatura e Redação, além de guia de turismo. É especialista em História da Cultura e em Inovação em educação. Atualmente, atua como Diretor do Grupo ATMO Educacional em Campinas e Coordenador de eventos e viagens do Colégio Santa Cecília de Fortaleza. Professor convidado da USP e do IBFE – Instituto Brasileiro de Formação de Educadores. Consultor de Turismo. Consultor Sênior da AYR Consulting Worldwide. Tem seis livros publicados; Na corda bamba, No fio da navalha, O confessor, Palavras aladas, Palavras amargas.

A dica da estação é o Parque Ibirapuera, que além de ser um dos locais mais agradáveis da capital paulista, reúne um bom exemplo das opções culturais em artes visuais na cidade de São Paulo. Criado como um presente para a capital paulista no seu quarto centenário em 1954, o conjunto de prédios e marquise projetados por Oscar Niemeyer, e os jardins projetados por Roberto Burle Marx, trazem dentro deste espaço ótimas opções de contato com as artes.
Até 06 de dezembro a 31ª Bienal Internacional de artes de São Paulo, apresenta uma seleção de artistas de várias nacionalidades, e só pela sua importância se torna um programa obrigatório, mas cuidado vá com calma, porque não dá para ver tudo de uma vez só.

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MAC no Parque Ibirapuera

Já o novo MAC Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, que ocupa o edifício do antigo DETRAN, está repleto de mostras, e uma instalação imperdível do artista Henrique de Oliveira. Além disso, é obrigatória a visita ao terraço, que se torna atualmente uma das mais belas vistas da cidade.

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Instalação Henrique de Oliveira

A OCA apresenta por sua vez uma bela exposição em comemoração aos 60 anos de criação do próprio parque Ibirapuera, e outras mostras, que valem o passeio por este edifício tão singular e característico.
Na outra extremidade da marquise o museu Afro abre suas portas para uma infinidade de referencias fundamental para formação do nosso povo.

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A OCA no Parque Ibirapuera

Por fim, um simples passeio, ou sentar na grama numa bela sombra já valem o passeio pelo parque, que pode ter seu momento de contemplação absoluta numa visita ao jardim do pavilhão japonês.
Depois de um a tarde cheia de opções, sentar a beira do lago e ver a dança da fonte luminosa do lago do parque vale para fechar o dia com um cenário perfeito e no mínimo romântico.

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Jeff Keese é arquiteto, produtor de exposições de arte, e durante 7 anos foi consultor do mapa das artes de São Paulo.