Saudade passa?

Não, não passa, engana-se que crê que já a viu passar, algum dia, em algum lugar.

Saudade é para sempre, conforme-se.

Pelo menos as saudades das grandes. Estas são definitivas.

Acomodam-se, é verdade, ou melhor, arrancham-se, sem a menor cerimônia, e ficam ali, sem data de partida, despachadas, mas com um olhar insistente,  que a tudo observa.

Sentinelas atentas ao menor  movimento do coração.

Há dias em que parecem mais luminosas, mais leves, como manhãs de verão, e até as achamos belas.

Há dias em que são mais macias, como travesseiros de plumas, e nelas nos recostamos, em busca de algum aconchego, de algum descanso, mansidão.

Há dias, porém, que são como tempestade, vento forte, violenta inundação.

É fato: saudades são como seres mutantes, imprevisíveis.

Ora amigas serenas, ora impiedosas, brutalmente insensíveis,

ansioso turbilhão.

Convém, sim, acalmá-las.

O tempo, normalmente, é bom nisso.

Uma vez sossegadas, as saudades nos devolvem os momentos,

abraçam-nos com lembranças, enxugam-nos os olhos e nos sorriem.

Sim, saudades às vezes sorriem.

Um sorriso silencioso, complacente,

desses que só a Alma enxerga,

só a Alma compreende.

 

 

Alda Nilma de Miranda – Bela Urbana, publicitária, autora da coleção infantil “Tem planta que virou bicho!” e mais 03 livros saindo do forno. Gosta de tudo que envolve tinta e papel: ler, desenhar e escrever, mas o que gosta mesmo é de inventar motivos para reunir gente querida. Afinal, tem coisa melhor que usar o tempo para estar com os amigos?

 

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Agora

Eu encaro os fatos como se fosse tudo por acaso

Eu vou levando a vida como se eu não soubesse que ela acabará

E vou passando reto pelas linhas tortas de Deus, eu nunca vou chegar

Eu vou pegando atalhos que não só levam a nada como também tanto faz

Saber o que me espera por que eu também não conheço ninguém que esteve lá

Então também é vingança, um pouco de teatro e um pouco de esperança

De ver você voltar como consequência de tanta hipocrisia Então também é saudade, meio nunca mais Meio até um dia…

 

Eu

Fico cantando por horas como se eu não tivesse nada prá dizer Essa canção infinita, por que por mais que se diga, há sempre mais prá se esquecer Eu vou deixar a vida me viver como se eu não tivesse nada a ver com isso Mas não desisto de nada Porque eu também já não tenho Nada prá perder

 

Eu

Vou viajando por horas no teu sorriso perfeito até me embriagar No teu olhar infinito Porque por mais que eu descubra eu quero mais é procurar Eu vou deixar o beijo me levar como se eu só tivesse coração e boca A nossa vida é tão louca

A nossa roupa, pouca

E nada prá esperar

Agora.

12540724_1106108319421994_6148506354228361913_n (1) Foto Tico

Tico Vicente – Belo Urbano, diretor de filmes, ama gatos, leonino, se divide entre a mega metrópole São Paulo e sua chácara no interior. Festeiro, músico, vocalista da banda Ginger. Não se considera charmoso, mas sabemos que é sim 🙂

Link da canção INFINITA: 

https://www.reverbnation.com/play_now/26204595?utm_campaign=a_public_songs&utm_medium=facebook&utm_source=page_object_news_item

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Ela tem 12 anos… mudou-se há pouco para a cidade junto com a família, mãe, duas irmãs e uma agregada, nos idos dos anos 70. Era a mais nova delas, e entrando na adolescência, já tinha seus sonhos bem infantis de romances, mas brincar era mais legal! As irmãs já estavam na idade de trazer amigos, e sempre algum lhe despertava a infantil atenção.

Um belo dia, um deles rouba-lhe um selinho no portão. Aquelas brincadeiras bobas de virar a cara na hora do beijinho no rosto de despedida… ela surpresa, pergunta: ‘O que é isso?!” E ele responde: ‘Um beijo’, faz carinha de inocente e vai embora com o amigo dando-lhe uma bronca: ‘Ela é uma criança!!!’.

Ela se casa, tem dois filhos lindos, dos quais se orgulha. Eles crescem, ela decide sonhar novos sonhos, estudar, buscar uma profissão e nela se realizar. Estranhamente foi duramente cobrada por isso, e acabou por custar-lhe o casamento.

Ele tem 17 anos. É convidado por amigos a conhecer umas meninas novas na cidade. Uma delas lhe agrada, mas justamente essa namora seu amigo. Ela tem uma irmã mais nova bem bonitinha. Mas é muito nova, uma criança!

Um dia, ao despedir-se, rouba-lhe um beijo no portão. E ao ver a surpresa dela perguntando ‘O que é isso?’, ele marotamente responde: ‘Um beijo!’. E vai embora, levando bronca do seu amigo: ‘Ela é uma criança!’.

Ele aparece tempos depois com uma namorada. Terminam… ele some, a namorada fica na ‘família’ por um bom tempo. Ela aparece com outro namorado. Que fica na ‘família’ por um bom tempo também. Aquela roda-viva da adolescência! E o contato se perde entre estudos, trabalhos e casamentos…

Ele se muda para a praia para estudar, junto com um amigo, depois de um tempo volta, se casa, tem duas filhas lindas. A trabalho, muda-se para outras cidades, conhece outras culturas, faz muitos amigos. O que ele mais tem, são amigos! E amigos são o que valem naquele momento, anos depois, em que se descobre que o casamento não está mais funcionando… e que vale a pena tentar ser feliz!

Ela tem 48 anos. Um dia, recém saída de um relacionamento, ela está no facebook, e uma foto chama a atenção na página de uma amiga, aquela que era namorada daquele menino do beijo roubado… rsrs. Naquela época do ano em que todo mundo põe foto com carinha de criança, ela vê uma e pensa ‘conheço esse menino!’. Adicionam-se e começam a descobrir que tem muito em comum, além da lembrança de um beijo roubado no portão.

Mas moram longe! Mas o que é longe em tempos de internet banda-larga, celular e vôos baratos que podem ser comprados com milhas? Encontram-se um dia m que ele visitava parentes na cidade, apenas para lembrar dos bons tempos e contar que rumos haviam tomado. Incrível como é possível resumir a vida em poucas horas de conversa… falaram de seus pais e de seus filhos, de suas carreiras, suas viagens e suas vidas. E descobrem muitas afinidades.

A vida segue em conversas por chat, como foi o seu dia, como está a sua vida. Até que um dia, em função daquela carreira que ela teimou em perseguir, foi convidada a palestrar na empresa dele. Ele, muito gentil, a ciceroneou pela cidade, e riram muito lembrando de um beijo roubado no portão, entre outras coisas, como fotos comprometedoras, amigos eternamente zoados, etc.. Dali saíram com a sensação de que nunca é tarde! Pra ser feliz, pra se apaixonar, pra se dar uma chance!

Passam um bom tempo em namoro por chat, vídeo, e ponte aérea. Passam por cirurgias, doenças, e outras pequenas crises. Mas permanecem firmes, com a certeza que a vida lhes sorriu com algo especial, quando por volta dos 50 anos, nenhum dos dois esperava mais por isso.

Enfim, ele consegue uma transferência de volta à cidade natal, onde tudo começou. E a vida os tem brindado continuamente com novas oportunidades de serem felizes juntos! E a sensação boa de que estão só começando…

Quem disse que nostalgia e tecnologia não são aliadas?

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Tove Dahlström – Belas Urbana, é mãe, avó, namorada, ex-mulher, ex-namorada, sogra, e administradora de empresas que atua como coordenadora de marketing numa empresa de embalagens. Finlandesa, morando no Brasil desde criança, é uma menina Dahlström… o que dispensa maiores explicações. Na profissão, tem paixão pelo mundo das embalagens e dos cosméticos, e além da curiosidade sobre mercado, tendencias de consumo, etc., enfrenta os desafios mais clichês do mundo corporativo, mas só quem está passando entende.

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Quando você virou estrela

Pairava reticências no ar

A pergunta não respondida

A frase nunca dita

Uma conversa interrompida

 

Quando você virou estrela

Descia água dos céus

Um ser de luz é assim

Rega o solo sem fim

 

Estrela que brilha

Estrela que ofusca

Estrela sempre presente

Estrela temperamental

 

Quando você se foi

Na virada de um milênio

Seu neto me perguntou

O que acontece quando alguém vai

 

Vira estrela, meu filho

No céu sempre haverá um ponto

Eu ainda não sabia que você se fora

Mas respondi de pronto

 

Na virada de uma nova era

Um telefonema de ano novo

Uma conversa para continuar

De algo que nunca saberei

Da gargalhada gostosa

Sobraram reticências

Um até logo

 

E você mãe

Sempre tão forte e bela

Deixou a lembrança dessa voz

E virava estrela

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

 

 

 

 

 

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Como curar dores de amores mal vividos, não correspondidos ou incompreendidos? Será que é possível?

Pensando sobre amores, dores e comidas a primeira coisa que me veio à cabeça foram imagens das “mocinhas” da telona afogando suas mágoas num delicioso pote de sorvete…será?! Me lembro também, de quando era adolescente (faz só um tempinho, hein?! Rsrs) e que sempre pensava: “se algum dia eu tiver uma desilusão, resolvo com sorvete “… nunca tirei a prova.

Hoje, na idade adulta, já tendo passado por milhares de desilusões fui levada novamente a pensar sobre isso. Será que existe algum tipo de comida que preencha àquele vazio deixado pela pessoa amada? Que transforme desilusão em alegria? Que nos dê um conforto num momento de dor?

Realmente não tenho a resposta para isso. O que acho, é que uma comidinha gostosa, preparada com carinho, sempre vai trazer , se não alegria, pelo menos prazer. Um pote de pipocas, para quem gosta, pode ser um momento de esquecimento ou um encontro consigo.

O importante é se permitir desfrutar dos pequenos prazeres. E aí, pensando nas minhas próprias desilusões, me veio uma saudade imensa daquilo que não volta mais. O que eu faço com essa saudade? Tem dias que faço graça, tem dias que faço caipirinha…hoje, fiz brigadeiro! Gourmet! Rsrsrsrs

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Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante chama EnRaizAr e fica dentro de um espaço de yoga e terapias que se chama Manipura em São José do Campos – SP.

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Laura deixou uma carta dobrada em cima da mesa, debaixo das suas chaves de casa.

“Aos meus cuidados” e a quem mais poderia ser? Já que éramos apenas eu e ela a tanto tempo.

Seu cheiro ainda estava no ar, o pôr do sol se estendia e sobrevivia por entre as cortinas da sala e iluminava com luz fraca, quase morta, o ambiente limpo e sem vida que me cercava.

O vazio se fez presente dentro e fora de mim.

De alguma forma eu já sabia que ela se fora para nunca mais voltar, eu sabia que Laura havia se cansado do meu amor mal medido, dos longos dias de solidão acompanhada.

Eu sabia que Laura havia me abandonado. E que essa cena, já vinha se rascunhando há anos em nossos descasos cotidianos, em nossos lapsos corriqueiros.

O triste é que bem antes deste fim que prevíamos, me perdi num mar de orgulho ilusório, e pouco a pouco nessas navegações introspectivas, eu havia a abandonado em meu coração.

 

“Roberto,

Hoje vejo as fotos daquela nossa antiga união e que um dia talvez tenha sido lúcida (mesmo embriagados pelo nosso fascínio juvenil). E não me servem de nada, a não ser para relembrar e doer no peito a nossa velha e saudosa paixão.

É triste admitir que já não passamos de costumes matrimoniais, e nesses dias, todos tão iguais, eu não sinta nada além do cheiro doce do seu perfume.

Acredito que todo amor é verdade, desde que haja liberdade e infelizmente o nosso sufocado está. Saiba que o nosso amor se tornou uma linda e forte mentira, quando se perdeu na rotina, nos beijos sem amor, nas risadas forçadas, nos olhares desviados e nos segredos sem valor não mais compartilhados.

Ainda agora sinto nossas brigas antigas, pois sempre que as revivo lágrimas molham as cicatrizes, que por anos estiveram abertas, doeram, sofreram e perduraram.

As tantas noites que passamos juntos e felizes, meu amor. Hoje são só noites mal dormidas que não se acabam.

Sufocamos pouco a pouco um amor tão lindo por medo de perde-lo e agora não sabemos mais onde se escondeu, não quero acreditar, mas como você bem disse pode ser que já morreu.

Eu me reprimi por tantos carnavais de poucas fantasias, você não acreditava e minha esperança morria, todo dia, sangrando nos sonhos de um passado feliz que jamais voltaria. Me contentei com tão pouco, fiz de seus doces elogios, valsa de falsas alegrias. E pedi aos santos que aquecessem o seu coração.

O nosso amor foi de verdade, enquanto acreditávamos em nós, ironicamente, enquanto ainda tínhamos a liberdade, a tão esquecida sinceridade, o olho no olho, a saudade…

E aquela sensação de que o tempo passava tão rápido que parecia não querer a nossa felicidade.

O nosso amor, meu (grande) amor!

Se maquiou de intrigas, se vestiu de ciúme e partiu ao encontro das ilusões e da mentira e pouco a pouco foi engolido pela rotina.

Adeus

Laurinha

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Lucas Alberti Amaral – Belo urbanonascido em 08/11/87, vem há 28 anos distribuindo muito mau humor e tentando matar a fome. Formado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela METROCAMP, trabalha na área há 6 anos, tem uma página onde espalha pensamentos materializados em textos curtos e tentativas de poesias www.facebook.com/quaseinedito (curte lá!). Concilia a dura missão de morar em Campinas – SP (cidade onde nasceu) e trabalhar em Barueri-SP, não acredita em horóscopo, mas é de Escorpião, lua em Gêmeos com ascendente em Peixes e Netuno na casa 10. Por fim odeia falar de si mesmo na terceira pessoa.

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…” a tua saudade corta feito aço de navaia”…

Não sei de qual dos dois eu gosto, nem sei se gosto de alguém ou se gosto dos dois.

Será que vão ser sempre dois e o o meu destino é sempre me sentir no meio?

Uma parte de mim é pra você, a outra para tu, uma outra é só minha. Minhas partes são divididas e cada uma é para alguém especial e cada uma é para mim.

São para o mundo, são para ser.

Ser tudo, muito.

28 de março – Gisa Luiza – 20 anos

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa 🙂 . A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza.

 

 

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Que herança você vai deixar para os seus netos?  Essa pergunta sempre vinha à cabeça de Guilherme quando lembrava-se do seu avô. Ele não deixou dinheiro, propriedades ou qualquer coisa que possa ser transformada em valor absoluto, em moeda corrente, em conforto financeiro para a vida cotidiana. Ele deixou o desejo de conhecer o mundo em volta. A vontade de sair pelas ruas e encontrar o outro, o estranho que, sem motivo algum, faz você abrir um sorriso e dizer bom dia. A alegria de sair quase todas as tardes pra ver gente nova e simplesmente sentir a cidade pulsar em seu ritmo frenético. Não sei se ele tinha isso em mente quando vestia, mesmo aposentado, o seu terno impecável após o almoço, penteava o bigode e dizia:

– Tá pronto?

Guilherme respondia que sim com a cabeça enquanto tentava entender porque motivo ele penteava o bigode. Será que ele deveria fazer aquilo quando ficasse adulto? Ele abria um sorriso e continuava:

– Então vamos, vamos.

Aquelas saídas estimularam não só esse desejo de conhecer o jeito e a gente da cidade de São Paulo, elas o faziam ir além. Faziam-no tentar descobrir e imaginar a história de cada um e o lançaram definitivamente, sem que ele desse conta, no mundo da ficção. Naquele tempo não percebia isso claramente, apenas absorvia e desenvolvia a construção de um olhar crítico e apaixonado pelo outro, que como ele, era anônimo e tinha uma história perdida na imensidão do concreto. Histórias que fazia questão de imaginar e tornar verdade como brincadeira de criança.

Foi assim, durante boa parte da sua infância, que Guilherme aprendeu a ver o mundo pelo lado de dentro. Algumas coisas passaram despercebidas, outras incomodaram um pouco e poucas mexeram tanto com ele como o dia que o avô o levou pra conhecer o metrô, quase trinta anos atrás.

Chovia bastante aquela tarde, a mãe e a avó não queriam que os dois saíssem de casa. Ele, alheio à discussão, esticava-se na ponta dos pés para olhar pela janela a água da chuva que corria apressada ladeira abaixo. E, enquanto a sua respiração embaçava o vidro, de tão grudado que estava à janela, só queria tentar entender pra onde ia aquela água toda.

Abandonou logo aquele questionamento, tão importante pra ele naquele momento, assim que ouviu seu avô dizer.

– Hoje é um dia importante. Ele vai conhecer o metrô. Além do mais tenho que passar no Mappin e pagar a prestação do fogão.

Não ouviu nem quis ouvir mais nada. Correu até o banheiro, penteou o cabelo, colocou a sandália de couro, passou pela mãe e pela avó feito um furacão e foi direto pra porta. Finalmente tinha chegado o grande dia, o dia de conhecer o metrô.

Entraram no ônibus e sentaram-se no segundo banco do lado oposto ao do motorista. Era o lugar preferido de Guilherme. Dali podia ver em detalhes e admirar a habilidade do motorista. Estava tão ansioso pelo que o esperava no centro da cidade, que naquele dia nem deu tanta importância pelo que realmente o fascinava na viagem de ônibus: o fato de alguém conseguir dirigir um veículo daquele tamanho. Demorou a perceber também que tinha escolhido o calçado errado para aquela tarde. A sandália tinha se molhado completamente com a chuva e os dedos dos seus pés estavam gelados. Sentiu um pouco de frio mas não disse nada. Tinha medo que seu avô desistisse de levar adiante seus planos para aquela tarde.

Chegando à Praça do Patriarca. Era sempre lá que desciam nos seus passeios vespertinos. Sempre no ponto final. Com o coração quase saindo pela boca de emoção começou a andar no sentido do Viaduto do Chá. O avô o segurou pelo braço.

– Espera aí rapaz, nós vamos pro outro lado. Vamos começar a viagem pela Praça da Sé, a estação mais importante de todas.

No caminho foi contando para o neto um pouco sobre como era esse trem que andava debaixo da terra e que era um dos mais limpos do mundo – até hoje, diga-se de passagem.

Desceram as escadas da Sé. Como num filme ou num sonho, foram tragados por uma multidão de gente apressada andando de um lado pro outro.  Segurava firme na mão do seu avô enquanto seguiam em direção à bilheteria, desviando ora de um ora de outro pelo caminho. O avô entregou-lhe o bilhete.

– Coloque ali na catraca.

Com as mãos trêmulas de emoção e sentindo as batidas do seu coração misturar-se ao barulho ensurdecedor daquele mundo que acabara de se revelar pra ele embaixo da terra, colocou o bilhete na catraca.

As portas de uma nova cidade, submersa, descortinaram-se diante dos seus olhos. Tudo era real e ele estava ali. Entraram no penúltimo vagão. A primeira viagem foi no sentido Jabaquara. Cada estação era um novo começo. A composição emergia da escuridão e estacionava na plataforma. Alguns saiam, outros entravam e ele continuava com os olhos brilhando e divertindo-se toda vez que o condutor anunciava a próxima estação. Ele já tinha andado de trem antes, mas nunca embaixo da terra e nunca tinha ouvido aquela voz que saía de não sei onde pra dizer que estavam chegando à estação x ou a estação y. No Jabaquara desceram do trem, subiram e desceram escadas e por fim chegaram ao outro lado da plataforma. Pegaram o trem no sentido Santana. Naquela época só havia duas linhas de Metrô. Uma chamada Norte-Sul e a outra Leste-Oeste. Não era como é agora que as linhas têm números e cores diferentes. Nesse caminho de volta, a estação Sé chegou e ficou pra trás novamente. Depois veio a estação São Bento, Luz, Tiradentes e finalmente a maior revelação do dia, a estação Ponte Pequena, hoje conhecida como Armênia. Impossível descrever a sensação. Um trem inteiro abandonava a escuridão subterrânea e ganhava os céus da cidade. A euforia foi tanta que o avô, percebendo o deslumbramento do neto, abraçou-lhe e falou ao seu ouvido.

– Preste atenção. Logo ele vai voltar pra debaixo da terra.

Nem é preciso dizer que aquele foi um dos dias mais emocionantes dos quase 10 anos de vida de Guilherme. Fizeram o caminho inverso, desceram na Sé e pegaram a linha Leste-Oeste – as duas linhas só se cruzavam na Sé. Mais uma vez andaram de um lado ao outro, de ponta a ponta. Foi um passeio e tanto. Tanto que naquela noite ele quase não dormiu. Ficou repassando na cabeça estação por estação, tentando memorizar uma particularidade de cada uma. Todas eram tão iguais e todas eram tão diferentes. E de todas, uma ficou gravada na sua memória: a estação Ponte Pequena. Ela sim, era realmente diferente de todas, não ficava embaixo da terra. A estação Tietê, que hoje se chama Portuguesa-Tiete, também não ficava embaixo, mas a Ponte Pequena foi a primeira que viu. Tornou-se inesquecível, única em sua memória.

Anos mais tarde entendeu por que as estações não ficavam submersas. Elas ficavam às margens do rio Tietê.

O fato é que aquela estação tinha um sabor especial pra ele. Era a lembrança doce de um dia incrível que ainda estava vivo nas memórias da sua infância. Talvez por isso, sentia-se invadido por uma sensação agradável toda vez que a estação Armênia era anunciada pelo condutor da composição.

Foi assim durante um bom tempo. Dia sim, dia não pegava o metrô em direção a Santana para encontrar-se com Solange, sua namorada na época. Todas as vezes ele ouvia nos alto falantes:

– Estação Ponte pequena.

Um dia, para a total e inesperada surpresa de Guilherme, ao se aproximar da estação ouviu:

– Estação Armênia, antiga Ponte Pequena.

Aquela frase preencheu seus ouvidos com tristeza repentina. Como se lhe arrancassem um pedaço da sua vida, uma parte daquela tarde com seu avô.

No fundo sabia que aquilo era bobagem. Era adulto o suficiente para entender que as coisas mudam, algumas vezes sem nenhuma explicação. Além do mais, como usuário constante do metrô, já deveria saber que a estação iria mudar de nome. Isso havia sido informado com certa antecedência, mas ele fez questão de não prestar atenção aos avisos. O resultado? O dia da mudança foi um choque.

Agora, passados tantos anos da mudança, não se diz mais antiga Ponte Pequena, é só Estação Armênia e ponto. Mesmo assim, toda vez que passa por lá, fecha os olhos quando o trem se aproxima da estação para poder ouvir mentalmente o condutor anunciar a Estação Ponte Pequena. Um instante mágico que o faz voltar à infância e sentir novamente o calor do seu avô ao seu lado. O trem abandona a plataforma. Guilherme abre os olhos e deixa escapar um breve sorriso.

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Gil Guzzo – é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

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Volte sempre para casa quente

Volte quando quiser

Sempre

Volte nas noites frias

Volte das ruas vazias

Volte do caminho errado

Volte se desejar

Sem medo

Sempre quando precisar

Volte para eu te olhar

e para me ver

Volte aqui

Volte quando estiver por um “triz”

Volte sempre para devorar

Aquele prato

Tirar aquele retrato

Pra cuidar do gato

do cachorro

Volte sempre descalço

Coração desarmado

Cara lavada

Volte sempre e traga pão com manteiga

Pra acompanhar meu café

Volte sempre, pra você mesmo

Volte pra mim

Volte sempre para me contar

O que viu por ai.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde é a responsável pela autoria de todas os contos e poesias. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência  Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos.