Dou voz à uma amiga querida que quis se manter anônima.

Aos seus vinte e cinco anos, nos anos 90 passava por um período de grandes decisões, se preocupava com a mãe que beirava o divórcio, queria sumir, queria viajar para a Europa, se tratava de uma depressão, chorava todos os dias no trabalho, vivia uma vida dupla: trabalhava, chorava, estudava, se fazia de forte para que a mãe não percebesse seu real estado “fundo do poço” e saía com as amigas, bebia (muito) e buscava alguém para suavizar suas carências, nessa época seu amor próprio estava escondido em algum lugar impossível de ser encontrado, aliás era tão escondido que ela não conhecia essa palavra, não existia em seu vocabulário, sentia tanta angústia, tristeza e sentimentos de vazio, de desconexão que não conseguia traduzir nada disso, não conseguia elaborar, era o caos que a habitava.

O sexo era uma forma de buscar afeto, esse que sempre faltou na figura do pai, afeto que não conseguiu sentir do pai para a mãe, do pai para ela, afeto esse que a mãe desesperadamente buscava em seu marido e que também não sobrou para ela, ela se misturava com a mãe, ela sofria pela mãe, em
alguns momentos não sabia quem era ela, se filha da mãe ou ela mesma a mãe da mãe, queria proteger, tinha pena de si e da mãe. Assim nesse emaranhado ela se entregava a relações vazias e buscava com tanta ênfase o amor que era nítida a carência e tudo que conseguia era só sexo mesmo, como se os homens farejassem a falta, o buraco, o vazio que ela carregava consigo e tivessem medo de tal violência do sentir, era muita pressão emocional, como suprir isso em alguém? Como compartilhar uma relação,
como amar alguém assim tão carente, tão pela metade? Ela se envolveu sexualmente com vários rapazes da mesma turma, não namorou nenhum, uma noite pegou carona com um amigo da turma, esse ela nunca nem tinha beijado, não tinha nenhuma atração por ele, no portão de sua casa ao se
despedir ele tentou beijá-la e ela disse não, ele se ofendeu e retribuiu: “Se com os outros sim porque comigo não?” “Vai ter que ficar comigo também” e tentou forçá-la puxando-a com violência para si, ela saiu do carro rapidamente, nunca tinha sido tão humilhada e se sentido uma mercadoria, um corpo sem vontade assim na vida e nesse momento enxergou muitas coisas e como doeu, no entanto valeu por anos de terapia. Começou a se dar conta do machismo estrutural e seus efeitos, se fosse com um homem isso não teria acontecido, seria normal ficar com várias mulheres mas para uma mulher ter relações sexuais com vários homens não era, a desvalorizaram como ser humano, os chamados “amigos” falavam dela entre si e a “indicavam” para sexo fácil e quando ela não aceitou, um simples “não” se transformou em uma ofensa.

Aprendeu com esse evento, viu que se magoou demais também por estar vivendo uma fase difícil, estava fragilizada, entendeu que não era através de vários parceiros sexuais que iria resolver seus problemas emocionais, suas carências, compreendeu que de uma certa maneira não se respeitava
quando buscava afeto fora de si mas não se amava, entendeu que sofreu abuso primeiro de si mesma. A mulher por viver em uma sociedade machista, além de ter que passar por seus próprios conflitos internos inerentes ao existir, ainda tem que lidar com os homens que acreditam que elas são sua propriedade e isso não é justo. Vinte e cinco anos depois ela percebe mudanças, hoje em dia as mulheres são mais livres para viverem sua vida sexual plenamente, sem justificativas, não precisam mais buscar amor e sexo, podem buscar apenas sexo se assim o desejarem, sem sofrer por isso, esse conflito interno diminuiu, atribuo isso ao feminismo ter ampliado a visão das mulheres nos novos tempos. Por isso hoje ela acredita que uma das maneiras de evitar, interromper e se retirar de um abuso emocional de qualquer forma é amar-se, conhecer-se, respeitar a si e ao outro, saber dizer “não” essa é a blindagem contra qualquer abuso. Alguém disse: quando digo sim para alguém estou dizendo não para mim. Frase que ela leva para a vida. Hoje presta atenção ao que aceita, quando se aceita algo que não deveria é aí que o abuso é semeado.

Eliane Ibrahim – Bela Urbana, administradora, professora de Inglês, mãe de duas, esposa, feminista, ama cozinhar, ler, viajar e conversar longamente e profundamente sobre a vida com os amigos do peito, apaixonada pela “Disciplina Positiva” na educação das crianças, praticante e entusiasta da Comunicação não-violenta (CNV) e do perdão.

Era uma noite fria. Ela estava a pé, caminhando naquele gelo pelas ruas. Só. Estava só. Precisava estar para chorar… de medo, de saudade de algo que já foi e não volta mais. O frio até que acalmava, eram duas dores que competiam e ela nem conseguia saber qual doía mais, se era o frio na pele ou o quente da alma que ardia e expulsava lágrimas incessantes de seus olhos.

Paixão cruel, já cantaram isso. Que paixão era aquela? Invenção? Carência? Demência? Definitivamente era ela em mais uma de suas crises de “mulheres que amam demais”, mas desta vez era DEMAIS mesmo.

Não ouvia a irmã, não ouvia a prima, a amiga. Fugiu da terapia porque não queria saber porquê era assim. Queria as rosas roubadas da músicas, queria a paixão do filme, queria o amor do príncipe dos contos da infância.

Não queria duvidar do que sentia. Não queria pensar que de novo, dessa vez, era só sua ilusão. Queria ter mesmo alguém para amar. Amar o bafo, o peido, a dor na perna, o momento da diarreia, o chulé. Sabia que se amasse isso, de fato, o amor era verdadeiro, vindo das entranhas.

O gelo no rosto, a rua escura, o meio da noite, o choro que foi secando ao pensar nessas entranhas que as pessoas produzem. Seu semblante foi mudando, o choro secou, o frio a fez tremer, mas de dentro o calor que antes a amedrontava como se tudo fosse o FIM, a fez forte, a fez rir, fez cara de nojo pensando na diarreia do outro, no vomito no chão da última bebedeira. Não queria limpar nada daquilo, nem ontem e nem nunca. O medo virou nojo e o nojo a fez  ver que o real nem sempre cheira bem.

Paixão nenhuma resiste a um peido bem fedido, a um bafo sem cura. Ela respirou fundo, gargalhou e foi para casa dormir quentinha no seu edredom.

A paixão? Ficou para a próxima… ou melhor para o próximo.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 
Foto: @gilguzzo @ofotografico

É preciso se cuidar, mas é preciso ir ao supermercado, é preciso fazer o almoço, é preciso fazer o jantar, é preciso trabalhar. Trabalhar na demanda um, na demanda dois e na demanda três, a demanda quatro pode esperar um pouco.

É preciso se cuidar, mas é preciso cuidar dos filhos, acompanhar no dentista, no médico, nos exames, na reunião da escola, na escolha da roupa para a festa. É preciso se cuidar, mas é preciso pagar o INSS, mesmo sabendo que se um dia se aposentar a aposentadoria não deixará você tranquilo financeiramente.

É preciso se cuidar, mas também é preciso pagar o plano de saúde, o plano odontológico, ir na consulta, fazer exames e quanto mais velhos ficamos, mais exames fazemos, aliás é preciso agendar os exames.

Também é preciso pagar a vacina do cachorro, a consulta no veterinário, a conta de luz, condomínio, água, seguros, é preciso lavar a louça, lavar a roupa, guardar a roupa e as vezes passar, é preciso limpar a casa, molhar as plantas, tirar os lixos, separar o reciclável. É preciso levar o cachorro passear, mas é preciso se cuidar.

É preciso pagar o transporte escolar, a escola particular, a faculdade particular. É preciso arrumar as fechaduras que quebram, é preciso chamar o técnico para ver o que quebrou, é preciso cobrar quem não te entrega o serviço combinado, é preciso ligar no banco quando te cobram indevidamente alguma tarifa. É preciso resolver burocracia diárias de um sistema que te manda o tempo todo se cuidar, como se a culpa de tudo isso se resumisse a não se cuidar.

É preciso ser criativo e “antenado”, e é preciso inovar para ter espaço de trabalho, para ser ouvido, é preciso fazer cursos, palestras e ouvir muitas bobagens para em algum momento salvar alguma coisa que de fato tenha valor e não a certeza da perda inútil de tempo.

É preciso estar elegante, ter roupas que te vistam bem, sapatos em bom estado, se possível confortáveis, sapato apertado é para pagar penitência e depois haja tempo para cuidar e recuperar os pés. Ah, é preciso cuidar dos pés de galinha com os “mega” tratamentos estéticos revolucionários, e é claro, é preciso pagar os “mega” tratamentos.

É preciso cortar os cabelos, de vez em quando fazer as unhas, talvez isso seja entendido como se cuidar… não sei se concordo, é chato ficar um tempão no salão de beleza. Também é preciso pagar o que se faz por lá.

É preciso se cuidar, mas é preciso dar atenção a quem você ama, ligar, conversar, se encontrar pessoalmente. Isso eu entendo, que além de cuidar do outro é se cuidar também.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 
Foto: @gilguzzo @ofotografico

Toda vez que essa palavra vem à tona a maioria das pessoas pensa em uma pessoa vazia, sem expressão, deitada na cama. Não que não seja assim. É, também.

Há dias que o cansaço consome de uma maneira tão cruel que levantar da cama para escovar os dentes é uma batalha contra você mesmo. O Brasil é o quinto país com mais pessoas depressivas no mundo.

Todo dia esbarramos em alguém que sofre dessa tristeza profunda, medo, angústia e ansiedade. E o mais assustador é que normalmente todos esses sentimentos aparecem camuflados.

As pessoas riem, abraçam, tiram selfie e no primeiro momento de solidão se sentem vazias, a vontade de chorar sem saber o porquê é inevitável.

Aquela vontade de comer descontroladamente e logo depois o sentimento de culpa por estar engordando demais. Em seguida a falta de paciência.

Não há vontade de explicar, não há vontade de fazer ninguém entender.

A depressão está tão presente em sua vida que acham impossível ninguém notar.

Gritam por socorro em silêncio. Eles não querem sermão do tipo que “Você só esta assim porque não vai na igreja”, “Se procurasse um serviço ou um curso ia ocupar a mente”, “Depressão não é doença”.

Gente por favor, parem!

Todos os dias alguém acorda com uma vontade imensa de tirar a própria vida a fim de não sentir mais dor. Por vezes até as palavras clichês enfatizam ainda mais a dor “Boa Sorte”, “Uma hora vai dar certo”, “Acredita que você consegue”.

Parece frases de apoio e são, porém para um depressivo soam como uma facada no peito, uma sensação de que a felicidade depende só dele, a sensação de estar sozinho e para trás. Só fazem causar dor.

Por favor peço que não desistam de alguém que tem sido rude nos últimos tempos, alguém que está sem paciência, alguém que sofre de ansiedade. Não é frescura. Depressão é o último estágio de dor humana.

Sejamos mais maleáveis na hora de lidar com outro que sofre em silêncio e usa o sorriso como escudo mas está pensando em suicídio.

Ame, mime, cuide. Sem esperar retorno. Salve uma vida hoje com uma visita surpresa, uma comidinha preferida, um livro de superação, uma carta, um abraço longo, um carinho.

Estamos rodeados de pessoas adoecidas pela tristeza esbanjando alegria. Paciência e fraternidade com aqueles que estão chorando e sorrindo sentados na beira do precipício.

Analgésicos não aliviam a dor da alma.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor.