Quem matou Toninho? Quem matou Celso Daniel? Quem matou Marielle? Odete Roitman?

Essa última quase todos os brasileiros com mais de 40 anos sabem. Causou comoção, curiosidade e dedicação nacional, até que seu assassino, ou melhor assassina, foi desvendada na novela Vale Tudo em janeiro de 1989.

Talvez a mesma maioria não saiba que a atriz Beatriz Segall que interpretou Odete Roitman tenha falecido no último dia 05 do mês passado, com 92 anos. Ela foi uma grande atriz. Rejeitava cultuar a personagem de Vale Tudo porque isso a reduzia. Em 2008 participou de uma audiência publica e uma de suas falas foi “Vim aqui defender e falar sobre teatro para muitos que nunca pisaram em uma sala de espetáculos. Isso reflete a nossa cultura. Deputados não têm a mais vaga ideia de quem foram Ibsen, Shakespeare e Nelson Rodrigues“.

Infelizmente só sabemos quem matou a personagem de uma novela de 30 anos atrás. Novela que fez história no Brasil, que escancarava a cultura do “levar vantagem em tudo”, “do jeitinho esperto brasileiro”, “da ostentação” e que a música de abertura do falecido Cazuza, Brasil, era o retrato fiel do nosso País. Era?

Nossa cultura perde sua história, porque não a valoriza. Quem queimou o Museu Nacional no Rio de Janeiro? E o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo? E o Memorial da América Latina?

Somos todos nós os culpados?

Se nós não nos aprofundamos em questões, mas gritamos para todos nossa rasa opinião, sim. Se nós estamos tão ocupados com o nosso dia a dia, ocupadíssimos por sinal, não nos sobra tempo para além dos nossos afazeres, sim. Se nós queremos tudo de bom que a vida pode dar, mas não estamos dispostos a repartir, seja o que for, sim.

Fácil é xingar, apontar o dedo, colocar a culpa nos outros, inclusive nos políticos. Fácil é se fazer “de” e não ser. É fácil colocar Botox e por um tempo congelar as rugas e a expressão. Fácil, todo mundo igual sem expressão. com Botox aplicado na alma que ficou atrofiada.

Saber requer estudar, ler, se informar por mais de um único canal de informação e isso gera trabalho, exige tempo e é claro que hoje ninguém tem tempo. Então, continuaremos gritando que a culpa é dos políticos, que outros tempos foram melhores e que com certeza agora vem um salvador da Pátria, para salvar toda esse gente de bem, que tem medo de perder o que tem.

Quem matou?

Matamos e morremos no dia a dia, no meio de tanta estupidez, de tanta maldade, de tanta intolerância. Estamos na primavera e as flores estão sendo abortadas nas almas.  A arte salva, mas ela não nasce se não existe educação.

Não vivemos sozinhos, precisamos um dos outros, isso é uma sociedade. Não tem como viver bem se o outro não está bem, uma hora esse “não bem” do outro te atinge, ou entendemos que todos estamos juntos ou continuaremos a matar e morrer.

Eu não sei quem matou Toninho, Celso Daniel e Marielle e não sei também quem matou José, João, Amanda, Vera, Sonia, Antonio, Maria, Marcelo, Cristina, Ana, André e tantos outros brasileiros da vida real.

Você sabe me dizer?

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

 

Este ano, vou eleger o pé de umbu como minha árvore de natal. Não que não goste do pinheiro, mas frente às suas histórias, o pé de umbu me cativa.

No sul do Brasil, reza a lenda que quando Deus criou o mundo, havia uma fila de árvores rogando, cada qual um fruto mais frondoso que a outra. A amoreira, pedia o fruto mais doce e saboroso. A laranjeira um fruto grande, belo e suculento. A parreira uma fruta inebriante e mística.

Enquanto isso o umbuzeiro, sábio e humildemente, pedia apenas folhas largas para uma confortável sombra e um tronco frágil, para que nunca sua madeira fosse usada como arma ou madeira de Cruz. Ganhou sim um tronco seco, porém caudaloso de água para os que passam com sede e frutos redondos e adocicados. Tornou-se refúgio dos que mais precisam de alimento para a jornada.

No nordeste não é lenda, é fato: Euclides da Cunha, em Os Sertões registrou, admirado com a resistência do sertanejo diante da adversidades, que o pé de umbu era “Árvore Sagrada do Sertão”, pois no inverno, é desfolhada e seca, fica praticamente morta, ressurgindo logo na primavera, altiva, cheia de flores, mostrando sua força e grandeza.

Por essas e outras o pinheiro, esse ano, abre espaço ao umbuzeiro. E sabendo que não consigo trazer um exemplar para minha sala, farei do país o meu quintal, com firme desejo de que esse natal traga a mesma força, resistência, altivez, sabedoria e humildade do pé de umbu, e que tais valores se estendam não apenas ao novo ano, mas sempre em nossas vidas!

Segue um poema que fiz anos atrás sobre nosso protagonista.

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O imenso pé de umbu nos mostra, ensina
Como ser e agir, ter perseverança
Pois mesmo com a ação do tempo
Do desastre, do mal ou da vingança
Mesmo preta de queimada, alagada
Cortada assim, renasce fé, amor, esperança
Sem mesmo mostrar um mero verde
Sem ter chance enfim, viravolta, criança
Frondosa lição de vida, superação, pujança

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.