Um poema de amor

É algo pelo qual não se da mais valor

Pois nele não há mais a emoção e a surpresa

Há apenas um amor sem calor

Os poemas não tem mais esse ardor

Não existe alegria ou emoção

Sumiu a felicidade e da vida o tesão

Coisas ditas são esquecidas em um instante

Coisas paradas e vazias

Que se esquecem

 

Essa é a morte da poesia…

 

A morte da vida e de sua alegria

Instantes que se passam e se esquecem

Pois ninguém mais deles quer lembrar

Emoções e decepções não são mais vividas

Onde esta a alegria e o amor?

Onde foi parar?

Em meio a essa escuridão e terror?

Não se pode mais acreditar em nada que se lê

Pois não existe força ou poder pelo qual se escrever

Nada mais durou

Nada mais o é

I

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

O amor não morreu

Só não se aguenta mais em pé

Que Deus cuide e proteja os pais. Todos. Sem exceção.

Proteja os pais que ajudam as mães a cuidar dos filhos uma ou duas vezes por semana, porque estes não entendem nada do papel de um pai.

Cuide daqueles que colocam os filhos no mundo e que às vezes aparecem anos depois sem nenhuma explicação, porque estes não podem reconhecer a si mesmos como homens, o que dirá como pais.

Cuide e proteja os pais separados que dão uma força pra mãe de vez em quando desde, que não atrapalhe o futebol ou a cerveja com os amigos. Que pagam a pensão de um salário mínimo em dia, mesmo que isso não dê conta das despesas dos filhos. Afinal, já estão fazendo mais do que a mãe das crianças merece. Estes meu Deus, não conseguem enxergar muito além ao redor dos seus umbigos. Logo, não sabem o que é ser homem, nem tão pouco o que é ser um pai de verdade.

Cuide e proteja todos esses pais e tantos outros que abandonam seus filhos de infinitas maneiras, estando perto ou longe.

Mas Deus, observa com cuidado aqueles outros pais que levantam antes das seis da manhã para preparar o lanche, acordar as crianças e deixar todos na escola antes do trabalho. Que levam os filhos ao médico, que preparam o almoço, o jantar, que fazem festa no banho, que jogam cinco ou seis partidas de futebol por dia com seu filho, mesmo que já não tenha mais idade pra isso. Que brinca de boneca com sua filha depois de um dia exaustivo de trabalho. Que anda de bicicleta num domingo de tarde, que arruma um cachorro grande pra seus filhos mesmo morando num apartamento pequeno. Que sai mais cedo do trabalho nos dias quentes só pra poder brincar com os filhos antes de escurecer. Que inventa histórias antes de dormir. Que orienta as tarefas da escola, que dá bronca, que repreende, que educa. Que viaja sozinho com os filhos e se diverte com isso. Que se emociona ao ver os filhos dormirem abraçados a ele. Que é capaz de olhar nos olhos da sua companheira ou companheiro e ver que são pais e mães, mães e mães, pais e pais, sabendo que as alegrias e as dores fazem parte da vida e que a construção de uma vida é mais leve quando se faz junta aparando um ao outro. Que é capaz de construir a mesma vida junta, mesmo quando são separados.  Pais e mães são para sempre. Esse pai sabe disso meu Deus. Esse pai sabe disso e de tantas coisas. Esse pai tem um sexto sentido, igual ao da mãe.

Ah Deus! Estes pais não precisam de cuidado nem proteção. Com eles você não precisa se preocupar. Sim, eu sei. Eles são incríveis. São homens. São pais de verdade. São pais felizes de ser pai. Mas Deus, eles não fazem nada além da sua obrigação.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é ator e fotógrafo. É um flaneur que faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO (Coletivo de arte contemporânea que desenvolve projetos autorais e documentais de fotografia). E o melhor de tudo: é pai da Bia e do Antônio.  

O mês de agosto chegou anunciando mudanças. Trouxe para mim, além do vento, uma carga de energia pulsante sobre minha cabeça e meu corpo. Tudo era muito denso e ao mesmo tempo ecos de pedidos de socorro soavam em meus ouvidos. Logo eu, que me vejo assim em fragmentos e tantas vezes recorro ao escudo da coragem, sou agora destinatária de alguém que pede a mim um alívio, um refúgio.

Uma missão.

Pois bem, como nada é por acaso nesta vida, estava agora diante do apelo de alguém especial. Sabe o que é não ter e ter que ter pra dar? Eu achava que não tinha nada e quando vi, eu era um tudo que faria um bem. Eu era colo, eu era escuta, eu era um leito suave e cheiroso.

O que posso fazer? Por que eu? Não cabe respostas, apenas gratidão por esse momento ímpar que vivi naquele dia. Difícil explicar a sensação mágica que tomou conta de mim.

Mas minha missão não terminaria ali. Outros alguéns, cada um ocupando um lugar na minha régua de afetos, cruzaram meu caminho. Mais uma vez eu pude entregar e receber sem nada pedir.

Quando imaginei que tivesse terminado, doado de mim todo o esperado e  desprendido minha energia mais pura, eis que aparece Pedro (nome fictício), trazido pelo vento de uma fria noite de agosto. Um cuidador de carros com uma história nada simples.

Pedro, um cara jovem, negro, trinta e poucos anos se aproxima e pede 10 reais como recompensa por ter olhado o carro, enquanto eu me divertia tentando me livrar da carga de uma pesada semana. Como não tinha um centavo, começamos a bater um papo. E foi ali que novamente aquela energia retornou e me vi diante de um novo apelo.

Pedro começou sua história, nada simples, dizendo ter 5 filhos. – Todos homens! (falou isso com um certo orgulho!) e de três mulheres diferentes! Com um ar de indignação ele logo soltou: – Duas dessas mulheres estão na justiça brigando por pensão. Como eu faço? Você precisa ver como o mais novo é “parrudinho”!, disse Pedro com um sorriso entre os dentes.

Pedro não tinha emprego. Pedro não terminou o segundo grau. Pedro, além de pai de 5 filhos ficou 15 anos preso na Penitenciária de Presidente Venceslau. Motivo: tráfico e assalto a banco. Não posso negar que nesse momento me bateu uma vontade louca de sair correndo. Medo! Estava conversando com alguém que oferecia riscos?

Mas Pedro tinha uma necessidade enorme em contar sua vida e esperava desesperadamente por conselhos positivos. Dava pra sentir em seus olhos. Ele ouvia cada palavra minha com atenção… respirava, pensava, concordava, às vezes desistia logo em seguida dizendo que não daria certo e que seu fim era voltar pra aquele lugar obscuro e sem perspectiva de vida.

Pedro dizia: – Sabe esse negócio de celular com whatsApp? Eu não sei o que é isso!!! Eu usava o celular para arrumar mulher quando tava trancado! Por isso tenho 5 filhos hoje!

A conversa com Pedro durou uns 15 minutos. Um tempo incompreensível.

E quando terminou, sem me cobrar os 10 reais, Pedro, o cara jovem, negro, de trinta e poucos anos, que passou 15 anos trancado, olha nos meus olhos e diz:

– Olha aí, obrigado pela conversa viu! Eu nunca tive um papo assim com ninguém. Nem com meus “parças” lá do bairro.

E foi assim que os 15 anos trancados de Pedro me soaram como 15 longos minutos de gratidão.

E gratidão pelo quê?

Pelo encontro com alguém que o vento frio de Agosto me trouxe.

Cris Saad – Bela Urbana, professora universitária, publicitária, fã do vento, da lua e do acaso. Apaixonada por música e dança, enfim apaixonada pela liberdade, pela loucura do movimento e o gozo do encontro.

 

A morte dói. Dói para quem fica. Dói quando vem inesperada. Dói quando é esperada também. Dói em qualquer idade.

A morte é um soco na alma de quem fica. É ruína. É um presta atenção, uma reflexão de quem fica sobre quem vai. Não importa mais para quem vai quando já foi.

O tal do “nunca mais” é tempo demais. A certeza da eternidade da alma que vai, não temos. Podemos ter fé, crença, certeza não.

Certeza temos do que fica por aqui. A alma que vai, deixa. Deixa sua história, seus pensamentos, legados. Deixa saudades, alegrias, tristezas, ensinamentos, lamentos, raiva, amor, amizade. Continua viva na lembrança de quem a conheceu.

Quando pensamos na morte, pensamos na vida, na nossa vida e aí vem todos esses questionamentos. Quem é você para cada vida que convive? Para algumas vidas está entre os personagens principais. Para outros pode ser um personagem menor. Em outros casos pode ainda ter aquela participação especial. Para bilhões de vidas, um nada.

Vem a tona a questão: Será que exerço o meu melhor papel em cada vida que convivo? Não importa o tamanho, a questão é: exerço esse papel com a minha coerência ou sou um blefe de mim mesmo?

Não escolhemos o papel, mas escolhemos como vivê-lo. Como aqui estamos falando da vida de verdade, estamos falando de nós mesmos. Vivo como quero? Faço o que acredito?

Muitas pessoas passam pela nossa vida das mais diversas formas. Nunca seremos iguais para todos, e acredite, tem que ser assim.

Alguns vão te amar, te admirar, vão querer ser como você, alguns vão gostar da sua companhia, outros vão estar loucos para te ver longe, te chamarão de pedante, te acharão engraçado, falso, depressivo, coração mole, firme, trabalhador, sonhador, chato, alegre.

A única coisa que importa é ser quem se quer ser. A tal da coerência com você mesmo. Se o outro vai entender não é certeza, mas as chances para isso são muito maiores e consequentemente as relações são verdadeiras e intensas.

Pessoas blefe não vivem bem e não sobrevivem por muito tempo na memória de ninguém.

Já que a vida é finita, como você escolhe viver os seus papéis?

Eu escolho as ruínas da minha memória. Eu escolho ser de verdade.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

FOTO – @gilguzzo do arcervo do O FOTOGRAFICO  www.ofotografico.com.br © Gil Guzzo – Proibida qualquer tipo de reprodução das imagens sem autorização. Imagens protegidas pela Lei do Direito Autoral Nº 9.610 de 19/02/19

 

 

Tem dias que não queremos que acabem. Dias que sorrimos à toa, a tudo. Dias assim são especiais.  Ah, se as pessoas soubessem o que torna um dia especial estariam mais abertas para as pequenas coisas que nos atropelam na rotina. No bom senso da razão achariam piegas, mas querem saber? Que se dane, é piegas, sim, e ela, a moça chamada Juli, sabia e adorou.

O dia já começou com alterações, ela não gostava, metódica, qualquer mudança na agenda a incomodava. É óbvio que se irritou primeiro, ficou mal-humorada, mas foi só abrir seu e-mail que foi atropelada por uma surpresa, lá estava o motivo do seu sorriso do dia inteiro.

Sabe aquela sensação de flutuar, em que os olhos brilham muito? Sabe aquela vontade de continuar a conversa, mas com calma, sem pressa, saboreando? Então… mas ali, naquele momento, não dava, então preferiu só curtir aquela sensação de quero mais, bem devagarinho, como aquele doce que você tanto deseja, como o mais gostoso dos pastéis – aquele que vende na feira.

Juli perdeu a hora do almoço, não sentiu fome, aquela sensação a libertava e preenchia. Lidou com os afazeres do trabalho, como sempre fazia. Não foi definitivamente o dia mais produtivo, não foi rápida, nem queria. Guardou só para ela aquela sensação de uma forma pensadamente egoísta, apesar de nada ser egoísta, ela era de dividir tudo, comida, dinheiro, roupas, joias, bolsas, sapatos, palavras, mas nesse dia não, guardou aquilo só para si, a sete chaves no seu coração.

Coração que pulava e pulsava cheio de vida e de vontades. Aquela sensação era só dela, não queria compartilhar e ser julgada, talvez condenada. Chega, a vida já é dura na rotina, nas asperezas das dificuldades e problemas. Receber e sentir aquilo àquela altura era um presente maravilhoso.

Mesmo sabendo que ia passar porque é efêmera essa sensação, naquele momento, fazia a vida ser claramente entendida, aquilo era o verdadeiro sentido de tudo e estava ali, naquele sentimento, sem palavras para explicar.

Piegas? Não importa, ela estava feliz.

Comeu bem mais tarde, um lanchinho no jantar, ouviu sua música do momento preferida, mandou – sem culpa e “numa boa” – um que se dane para um cliente chato do seu trabalho e no mais desejou amor para todos, até para os desafetos.

Com todo seu coração, desejou só amor para todos, porque nesse dia de sorrisos ela amava, a sensação, apesar de conhecida, era novamente nova e era tão grande e boa que podia acolher e abraçar o mundo.

Foi dormir com esse sorriso e pensou: “Ainda sou uma garotinha”, como diz a música, mesmo faltando só um mês para sua aposentadoria.

Não fez planos, dormiu feliz, dormiu bem.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

Quão poderoso é o amor… que transborda o ser.

Permite o inexplicável, aprova sem preconceito.

Como é bom viver o amor… em seu completo tesouro, guardado a sete chaves, dentro do oceano das ilusões.

Amor sem juízo, sem gênero ou cor.

Amor que rouba sentido, tira o fôlego, faz com que sejamos imaturos, ou sensatos ao extremo.

Momentos completos, outros nem tanto.

Viramos poetas, atores representando nossos melhores papéis, sem vergonha ou culpa.

Às vezes judia, mas também acalma e faz a vida fluir…

Quão intenso é o amor, que, provocando sensações, não desiste, luta, guerreia, aposta sempre na vitória.

E é nesse jogo inconstante, no vai e vem de emoções, que vale a pena seguir, e saber…

Quão vida é o amor!

Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

 

Arquitetura + decor + moda = comportamento < ou > ao estado de espírito.

Chego a conclusão de que realmente a matemática faz o mundo girar. Gire no seu  mundo!

Use e habite nesse universo matemático carregado de poesia e emoção!

Some, subtraia, divida e multiplique sua vida com arquitetura e a a moda!

Katia El Badouy -Bela Urbana, formada em arquitetura e urbanista na Pucc. MBA em gestão de negócios. Atua na área de arquitetura, urbanismo, decoração e utiliza a moda como referência para os seus projetos.

 

Pastor Conceição era uma daquelas figuras que possuem um magnetismo pessoal impressionante. Bastava entrar no vagão e imediatamente os olhares de todos se voltavam em sua direção. Sempre subia no último carro e sempre na estação Conceição do metrô – motivo pelo qual todos assim o chamavam, já que ninguém o conhecia pessoalmente e não se fazia idéia do seu nome verdadeiro. Não me lembro ao certo quando o conheci. Na verdade nunca me apresentei, nem tão pouco troquei mais do uma ou duas palavras com ele. O fato é que esse homem mudou a minha vida desde a primeira vez. Prefiro não revelar minha identidade por motivos que vocês poderão saber mais adiante.

Hoje, no meu retorno a cidade após três anos, oito meses e dezenove dias, entrei num ônibus no Guarujá rumo a São Paulo. No terminal Jabaquara, peguei o metrô em direção ao centro e a todas as minhas memórias que brotaram pelo caminho. A primeira delas, e a mais marcante de todas, chegou com a estação Conceição. Nem me dei conta que estava no último vagão. Só me dei conta quando chegamos ma plataforma. Eu podia vê-lo nitidamente entrando triunfal pela porta, com seu terno alinhado, o cabelo todo penteado para trás, cuidadosamente empastado com um gel fortíssimo e brilhante, que alguns antigos chamavam de glostora. E claro, com a sua infalível bíblia negra na mão direita, mãe de todos os seus discursos apaixonados e da minha conseqüente glória. Essa lembrança tão límpida distorceu meus lábios num velho sorriso maroto ao qual já estava desacostumado. Bons tempos aqueles em que havia sido iluminado pela palavra daquele homem. Enquanto ele falava trechos e mais trechos do Apocalipse – Parece que sentia um prazer mórbido ao ler esses trechos – Eu o ficava olhando e tentava adivinhar o que havia de especial em seu jeito. Todos prestavam atenção em suas palavras, mesmo àqueles que já o conheciam de muitas e muitas viagens. Era um troço impressionante. Tão impressionante que recebi uma luz divina. Eu não tinha que procurar nada nele que pudesse copiar e reproduzir. A mudança estava em mim. E estava. Agradecia todos os dias antes de sair de casa, com uma ave maria e um pai nosso a graça alcançada: a possibilidade de que eu poderia aproveitar aquele momento de entorpecimento coletivo para promover alguns pequenos furtos em bolsas e carteiras tão distraídas quanto seus proprietários.

Que fique claro que sempre fui honesto. Nunca roubei nada de ninguém, nem pão de queijo frio em balcão de padaria. Trabalhava feito um burro de carga como ajudante de cozinha numa lanchonete no calçadão da rua XV de novembro. Mas aquilo era diferente. Era como se tivesse recebido uma benção divina e a proteção dos quatro cavaleiros do Apocalipse, personificados na figura do Pastor Conceição. Continuei com meu emprego, mas pode se dizer que melhorei minhas condições. Botei roupa nova, passeava com minha namorada pelo shopping, comprei uma televisão de tela grande para minha santa mãezinha ver a novela, não perdia um jogo do tricolor no estádio e vez por outra alugava uma casinha na praia grande pra passar um fim de semana. Aniversário, carnaval, páscoa, dia das mães, dia dos pais, natal, nada mais passava em branco. É como dizem aqueles executivos da bolsa que freqüentavam a lanchonete: “O fulano de tal tá bem. Teve um ganho em qualidade de vida”. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Virei orgulho da família, xodó das tias e um partidão lá no meu bairro.

Apesar das especulações e das más línguas, ninguém fazia idéia de onde vinha o meu dinheiro. Do salário minguado do meu emprego é que não poderia ser, mas não entrava muito em detalhes. Desconversava toda vez que alguém vinha me perguntar de onde vinha o dinheiro, se eu tinha mudado de emprego, essas coisas. Teve até um travesti que morava nos fundos da lanchonete que uma vez me disse: “Tô sacando tudo bofe. Tu anda saindo com um velho, viado e rico”. “Ora, faça me um favor. Eu tenho cara de quem come bicha velha”. Respondi logo de imediato.

Tudo andava bem na minha vida. Tinha uma rotina que em nada me deixava triste. Saía de casa as cinco e trinta, pegava um ônibus até o metrô, esperava o pastor chegar, entrava no vagão com ele, assaltava de oito a dez passageiros por viagem – Um dia passei dos limites, assaltei dezenove de uma vez – descia na sé, colocava na caixa de achados e perdidos as carteiras que não conseguia devolver e ia contente pro meu dia de trabalho. Foi assim, sem interrupção, durante um ano e meio. Algumas noites, antes de dormir, sentia um frio na espinha. Principalmente quando lembrava de uma frase do pastor que disse um dia e que tive a impressão de que era dita diretamente pra mim.

A frase era mais ou menos assim: “As portas do paraíso sempre estão abertas para os bons e os justos”. Eu era bom e justo, mas era ladrão também. E ele nunca disse nada sobre os ladrões. Se teriam perdão ou algo parecido. Eu fazia tudo certo. Era bom moço, funcionário, filho, amigo e tudo o mais. Meu único desvio eram esses pequenos roubos. Mesmo assim era extremamente cuidadoso. Só roubava dinheiro vivo e quando tinha certeza que a pessoa não ia perceber. Assim ela nem se assustava. Eu pretendia parar com aquilo em algum momento. Não sabia ainda quando. Mas o roubo era a minha cachaça. Um vício que eu adorava. Além do mais eu tinha um grande projeto para aquele ano: comprar minha casa própria. Foi por causa disso que eu coloquei tudo a perder.

Fiz as contas. Faturava com essa atividade extra em torno de R$ 200,00 por dia. No final do mês, em 22 dias úteis, contabilizava R$ 4.400,00. Metade desse dinheiro ia direto pra poupança. A outra metade gastava com as coisas que vocês já sabem. Em um ano e meio, já tinha R$ 36.0000,00, fora os juros e correções. Nesse ritmo, precisaria de pelo menos mais 3 anos para poder juntar em torno de R$ 120.000,00. Dinheiro suficiente para comprar dois apartamentos de dois dormitórios ao lado da estação Bresser do metrô. Um pra mim e outro pra minha mãe. Ou então usaria todo esse dinheiro e compraria um apartamento maior e mais bem localizado e colocaria todo mundo junto. Um amigo meu disse que ali na Vila Mariana, pertinho da estação Santa Cruz, tinha um três dormitórios por uns R$ 110.000,00. Talvez valesse a pena.

O fato é não queria esperar os três anos arrumar esse dinheiro. O jeito era trabalhar mais para antecipar a entrada do capital. Em vez de faturar R$ 200,00 por dia, me esforçava para garantir pelo menos uns R$ 500,00. Foi aí que entrei pelo cano. Enquanto ficava apenas em pequenos furtos, eu era um número quase nulo na estatística de roubos ao metrô. No fundo, quase não davam conta por mim. Contudo, quando expandi meus negócios engrossei os números. Virei notícia. Mas ninguém sabia quem eu era. Ainda.

Saiu numa manchete do Metro News: Roubos ao metrô aumentam vertiginosamente no último mês. O problema foi essa palavra “vertiginosamente”. A partir daquele dia a polícia estava atrás de alguém. Precisava achar um culpado. E esse culpado era eu.

Não levou muito tempo para o metrô ficar infestado de policiais à paisana. Não demorou muito para colocarem as mãos em mim. E pasmem, com a ajuda do Pastor Conceição. Ele havia dito aos policiais que sabia quem praticava os roubos e que me entregaria imediatamente.

Naquele dia chovia muito. Saí de casa com um certo aperto no peito. Não dei muita bola. Achei que era o dia cinzento que me provocara aquela sensação. No fundo fiquei com uma pulga atrás da orelha. Tudo corria normalmente, mesmo eu sabendo que estavam atrás de mim, resolvi que não deveria parar. Queria cumprir minha meta. Depois disso poderia parar. Antes não.

Durante a viagem fiz o que tinha que fazer enquanto o pastor falava. Só que dessa vez, quase no fim das suas habituais palavras, ele colocou os olhos em mim e caminhou na minha direção. Parou frente a frente comigo, olhou bem nos meus olhos, colocou a mão na minha cabeça e disse: “O diabo é um mestre com muitas faces. Com uma mão ele dá, com a outra ele tira”. Esse foi o código combinado com os policias. Fui preso em flagrante, com os bolsos cheios de dinheiro. Justo no dia em que eu tinha tido um faturamento recorde: R$ 639,00. O que se passou daí em diante vocês podem imaginar, inclusive o que estava fazendo no Guarujá nos últimos três anos, oito meses e dezenove dias. Muitas vezes, na cadeia, cheguei a pensar que se tivesse dividido a grana com o pastor, talvez ele não me entregasse. Logo abandonava esses pensamentos. Não faziam sentido naquela altura dos acontecimentos.

O trem já estava chegando à estação Tiradentes quando acordei dessa memória que me trouxe muito prazer, me fez sonhar, ter planos, e que também me deu o gosto amargo da falta de liberdade. Desci e andei meio sem rumo até parar no parque da Luz. Fiquei sentado num banco por horas. Vi casais de namorados, pais com filhos, idosos e suas enfermeiras a tira colo. Vi a vida seguir seu curso no parque perdido na imensidão rude de concreto.

Até hoje não tive o perdão da família ou dos amigos. Isso me preocupou um tempo, hoje não mais. A gente aprende a conviver com tudo, até com a culpa.

Comprei um algodão doce e pensei no futuro. Tenho uma vida pela frente e perto de R$ 45.000,00 no banco. Acho que vou abrir uma lanchonete na Vila Esperança. Tenho experiência no ramo. Alguns amigos que moram lá dizem que logo o metrô chega por aquelas bandas e vai se chamar Guilhermina-Esperança.. Se eu der sorte consigo abrir bem ao lado da futura estação e aí o faturamento será bem maior.

Levantei-me e fui em direção a saída. No caminho, tentei acertar o lixo com o palito do algodão doce. Errei. Dei mais dois passos e parei. Voltei e coloquei o palito dentro do cesto de lixo. Pode parecer bobagem, mas senti uma enorme satisfação nesse ato. Tinha decidido. Não faria mais nada errado. Pelo menos até a vida me provar o contrário.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é um flaneur que escreve e fotografa tudo por aí.  A rua, as pessoas e a vida nas grandes cidades tem sido sua maior inspiração. Em 2015 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. No cinema, foi vencedor de melhor roteiro por dois anos consecutivos (2011 e 2012) no edital da Cinemateca Catarinense. Atualmente trabalha com fotografia de arte, fotojornalismo e fotografia documental.  É fundador do [O]FOTOGRÁFICO (Coletivo de arte contemporânea que desenvolve projetos autorais e documentais de fotografia). E o melhor de tudo: é pai da Bia e do Antônio.  

Sempre dirigia, dirigia para cima e para baixo, cada hora era uma coisa. Levava os filhos, supermercado, trabalho, médicos, banco. Dirigia e dirigia, o carro era bom ainda, não era tão cansativo dirigir. Herança dos tempos gordos.

Hoje os tempos são magros, magrinhos, ela envelheceu dez anos em um. Estava quase irreconhecível por fora e por dentro, mais por fora que por dentro. A dureza do dia a dia, tiraram sua alegria.

Sempre no trânsito, parada nesses congestionamentos das grandes cidades, e sua cidade era muito grande. Pensava no que ia comprar, pensava na sequencia da agenda e pensava que se pudesse voltar no tempo, voltar, voltar, ela encontraria de novo com ele. Ela teria seguido com ele. Ela teria dito o que sentia.

Ela e ele estariam juntos hoje e provavelmente felizes fazendo compras no supermercado ou cozinhando juntos ou mesmo em uma dessas festas de família, juntos. Os filhos não seriam os dela e os dele. Seriam os nossos. Teríamos sobrevivido juntos ao tempo? Essa pergunta ficava na sua cabeça assim, mas tinha certeza da resposta, sim teriam sobrevivido juntos e felizes. Ele que não saia da sua cabeça. Cabeça branca, cabeça quente, cabeça rodando.

Rodou, rodou e rodou tanto que foi parar lá atrás de onde nunca tinha saído. Estava na casa de amigos, risadas altas, comes e bebes, conversas engraçadas, alguém sem noção e ele. Ele ali. Ela também. Mas como? Ela pensava, como assim? Como estou aqui? Não conseguia se ver, só sentir. Um fantasma dela mesma.

Preciso dizer. Ele precisa saber. Mas…. eu não sei o que dizer. O que eu não sei dizer? O quê? O quê?

Existe uma teoria que tudo acontece ao mesmo tempo em todos os tempos, que existem universos paralelos de nós mesmos. Ela conseguiu atravessar isso, sabe lá como fez isso. Estava tendo uma nova chance.

– Uau, esse roteiro é fantástico, é disso que preciso. Pensava Carla, a atriz, empolgada. Ela precisava de um bom papel urgente para dar um “up” na sua carreira.

Pensava Carla, no meio do trânsito, assim como a personagem. Pensava: “o que eu não sei dizer?”

Ela tinha clara a resposta, mas ainda não tinha coragem. A coragem ela deixava para dar vida a personagem, que literalmente seria a sua salvação. Coincidência ou não, olhou para o lado e viu alguém que não via há muito tempo e teve aquela sensação de já ter vivido aquilo.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

Velho é aquele que tem o privilégio de viver uma longa vida. Idoso é aquele que perdeu a jovialidade. Os velhos ainda sonham, criam, inventam, se divertem, fazem bagunça, curtem as traquinagens da criançada (muitas vezes até as incentivam a fazê-las). O idoso em geral dorme muito; diria até que dorme mais do que “vive”. O idoso gosta de ensinar; já sabe tudo não precisa aprender mais nada. O velho quer ainda aprender, de fazer planos, de pensar pra frente. O idoso tem mesmo é saudades, só pensa no passado: “ah! No meu tempo… “ Eu sou velho. Gosto de aprender (vivendo e aprendendo…). Tenho planos (de viajar, de expor minhas pinturas, de redecorar minha sala, de fazer outro curso de culinária e vai por aí vai…). Para o velho a vida se renova a cada dia. Bem, pensando melhor, a cada semana já que as coisas correm um pouco mais lentamente agora do que quando era-se mais jovem. Para um idoso, coitado, a vida termina a cada noite. Ele é mais lento, mais pachorrento, gosta de dizer “nos meus tempos não tinha essas coisa não; era tudo bem diferente e melhor”. E passa as suas horas como se fossem as últimas de sua existência. Já o velho procura passar suas horas como se fossem as primeiras de sua vida. O Idoso tem locais específicos, demarcados e definidos e já não dá conta de pegar um carro e fazer uma longa viagem dirigindo. Tem fala mansa, bebe pouco e come cheio de cuidados. O velho pega a estrada e vai longe dirigindo; sobe escadas pra cima e pra baixo; bebe seu bom vinho e algumas birras. E ainda aprecia um bom e bem preparado prato. Aos 78 anos não sou um idoso. Sou um velho. Com muito orgulho e satisfação. O velho pai, o velho avó, o velho tio, o amigo velho. Sou um velho vivo, um velho ativo, um velho safo. Epa! Não me entenda mal, por favor -. eu disse safo! Não sou, nem quero ser, um avô idoso, um amigo idoso ou um idoso lerdo e pachorrento. Certamente, ser velho tem lá seus inconvenientes: a tal “fadiga do material” que vai desgastando a gente: dói ali, espeta lá, enguiça aqui, emperra acolá. São as ditas mazelas naturais da velhice. Algo que ânimo, alegria e vontade de viver ajudam bem a superar. Não sou um idoso, nem muito menos um de “ melhor idade”, esta imbecilidade que algum babaca sem noção inventou! Abaixo pois o politicamente correto. Seja velho e curta a sua velhice ( ou seria a sua “idosidade”?). Portanto, seja você uma bela e charmosa velha: glamourosa, cheia de vida e feliz. E, seja você, um belo e garboso velho: esperto, safo, exuberante e feliz.
A propósito: um cão com 15 anos é um cão idoso? Ou é um cão velho. Um carro de 1957, é um carro velho ou um carro idoso. E o seu vestido de casamento está velho ou está idoso?

E.T.- Tudo que foi dito aí aplica-se tanto à mulher quanto ao homem, acima dos seus 60 anos.

Carlos Pougy – Belo Urbano, um “pauliroca” (meio paulista meio carioca, mais este do que aquele) pai de 5 filhos e avô de 9. E que gosta de desenhar, pintar e escrevinhar.