Muitas pessoas tem a idéia equivocada de que em países desenvolvidos o abuso praticamente não existe; como se ele fosse fruto exclusivo da falta de acesso à educação e cultura.

Aproveitei o convite da Adriana Chebabi para escrever no Belas Urbanas e da minha experiência como brasileira que mora na Alemanha para ir atrás de dados e história, na tentativa de traçar o perfil da mulher alemã contemporânea e sua relação com o abuso.

De fato na Alemanha o abuso, seja ele psicológico, físico, moral, sexual acontece com menor frequência mas ainda assim ele acontece. Em 2019 uma mulher foi morta a cada 3 dias vítima de feminicídio na Alemanha (não considerando os abusos que antecedem à morte). No Brasil uma mulher é morta vítima de feminicidio a cada 2 horas.

Olhando para o passado descobri na mitologia referências às deusas germânicas, que lutavam lado a lado com homens e que eram associadas à valores guerreiros e de autossuficiência. Lenda ou não as mulheres guerreiras aparecem em diversos relatos encontrados sobre o Sacro Império Romano-Germânico na época da antiguidade.

Lembrando que os povos germânicos na época estavam espalhados pela atual Áustria, Suíça, França, Bélgica, Norte da Itália, Península Ibérica e Norte da África. As mulheres germânicas de fato influenciaram grande parte da cultura feminina européia.

É importante ressaltar que mais para frente, na Idade Média, a sociedade germânica era patriarcal, cabendo às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos,  alimentar a família, prover e utilizar os medicamentos.

Passados os séculos e chegando aos dias atuais sinto que a mulher alemã é altiva, forte e se orgulha disso, entretanto essa atitude sozinha não vem sendo suficiente para evitar os casos de abusos contra elas.

Uma realidade a ser considerada nesta análise, e que passa pela cabeça de muitos é o fato da Alemanha ter sempre recebido, em maior ou menor quantidade, um grande número de imigrantes, que trazem consigo diferentes costumes. Esse caldeirão de culturas obviamente traz choques que podem nos levar a pensar que a sociedade multicultural abre brechas para tal violência e que o abusador simplesmente é o outro,  o que veio de fora. Mas muito do que fui pesquisar sobre relações abusivas me fez acreditar que não é este o caso. Explico melhor a seguir.

A construção de uma personalidade abusiva, pelo que pude perceber, não depende apenas de fatores como, país de origem e classe social. Isso pode interferir quando o abusador vem de países em que a cultura do estrupro e da inferioridade feminina ainda existem, como a Somália, India, Afeganistão, Nigéria, para citar alguns; mas ainda assim seria simplista afirmar. O que venho constatando em minhas leituras sobre o tema é que a violência depende de algo maior e mais complexo, e que na grande maioria das vezes ela acontece em relacionamentos inicialmente consensuais, ou seja, sem barreiras, sem choques ou atritos.

Fica claro que existe um período de encantamento e que conforme a relação se desenrola os primeiros sinais aparecem. Desencorajamento, controle, tortura psicológica, agressão física, estupro entre outros. Neste período a vulnerabilidade entra em jogo e ela simplesmente desconhece área geográfica.

Claramente os tempos mudaram, os “gatilhos” mudaram e o sofrimento se mantém, no mundo todo.

Hoje em dia acredita-se que os abusos ligados à violência doméstica aumentaram, e de fato os dados mostram que sim.

A pandemia da Covid-19 vem expondo às pessoas à experiências de confinamento que não estão sendo saudáveis por diversas razões. Na Alemanha logo após o término do “lockdown” as denúncias de mulheres vítimas aumentaram em 30%,  somente na capital Berlim.

Contudo, o evento mais importante está acontecendo; as vítimas estão parando de se esconder e é exatamente por isso que os números de casos subiram.

O acesso à informação, os debates e o encorajamento de mulheres é um movimento sem volta e os casos emergem, o que nunca aconteceu com tamanha força.

E tanto você, que se interessou em ler este texto, quanto eu, que fui estudar sobre o tema, estamos colocando este assunto em pauta, debatendo, denunciando, reconhecendo e divulgando canais competentes de auxílio à mulher em situação de abuso.

Sim, o abuso é mundial, assim como a luta contra ele!

Vamos seguir lutando “miteinander”,  palavra alemã que eu adoro e que quer dizer “juntos”.

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. É responsável pela área de Marketing Digital
da Push Rio Activewear. www.pushrio.com

Novamente aqui me encontro para relatar uma situação que muitos indivíduos vivem, principalmente mulheres, e não sabem sequer o que fazer para se proteger e viver em paz!

Hoje escrevo como advogada, não especialista no assunto e na área, mas apaixonada por ler, estudar e sinceramente espero que este texto elucide e ajude aqueles que passam por alguma situação de violência doméstica.

Vamos lá;

Muito importante primeiro definir quais são os tipos de violência doméstica, ora, muitos acreditam que violência doméstica só ocorre quando existe alguma situação de agressão física, um tapa, um chute, um murro, ou até mesmo a agressão oriunda de um objeto: uma faca, uma arma, entre outras tantas coisas. Mas não, existe uma outra forma de agressão que muitas vezes pode ser pior e mais devastadora na vida de qualquer indivíduo e mais ainda na vida de uma mulher: a agressão verbal, os insultos verbais, os xingamentos, os maus tratos verbais muitas vezes podem causar transtornos incalculáveis na vida de um ser humano.

Vejamos, ao se deparar com qualquer destas situações muito importante termos ciência de que precisamos relatar as ocorrências e quanto mais cedo isso for feito sempre melhor! Ou seja, reagir imediatamente frente a qualquer caso de violência doméstica existente.

Para aquelas mulheres que tiverem condições de buscar a orientação de um advogado, uma advogada está é sempre a melhor opção para que proceda ao relato de suas ocorrências.

Para as que não tiverem condições de buscar orientação profissional existem muitos locais de apoio e orientação a elas.

Primeiro acredito ser muito importante nesta luta a questão da educação. Só através dela teremos uma possível solução, investir na educação dos jovens, meninos e meninas, será de fato a melhor maneira de combater este problema social ainda tão comum na sociedade que vivemos.

Depois, impossível falarmos deste assunto sem mencionar a Lei Maria da Penha, número 11.340/06, um marco na Luta pela igualdade e proteção dos direitos que visa coibir violência doméstica e familiar, independente da orientação sexual.

Imprescindível ainda buscarmos a origem e entender o contexto que a Lei Maria da Penha foi criada.

Criada aos 7 de agosto de 2006 a fim de combater com mais veemência a violência contra a mulher, foi inspirada em Maria da Penha Maia Fernandes, que se tornou paraplégica em razão de um tiro nas costas, levado durante o sono. O autor do disparo foi o marido, depois de já ter praticado por anos violência doméstica contra a mulher.[1]

A referida Lei se destina a proteger e respaldar mulheres de agressões e violências que acontecem no seio de seu lar. Neste ponto, cumpre observar que não necessariamente a violência contra a mulher precisa acontecer dentro de casa, o que mais importa para a lei criada em 2006 é a proximidade de vínculo afetivo com o agressor.

Hoje, a pena para agressores que se enquadram na Lei Maria da Penha é de três meses a três anos e aumentou a criação de delegacias especiais para mulheres.

Neste aspecto, a função da Delegacia da Mulher é a de prestar o melhor atendimento às vítimas de agressão moral ou física, aqui incluída a sexual, assegurando proteção à população vítima de violência doméstica.

A lei trouxe ainda diversas medidas protetivas para as vítimas que podem ser aplicadas antes mesmo do julgamento, ou seja, quanto antes toda esta situação for relatada e enfrentada melhor.

Importante destacar que as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher faz atendimento para qualquer pessoa e aceite ser encaminhada para os devidos procedimentos legais.

O que é e como funciona a medida protetiva:

1) Ao sofrer algum tipo de agressão do companheiro(a), a vítima deve registrar boletim de ocorrência e acionar a Lei Maria da Penha;

2) Atualmente por conta da pandemia, foi liberado o BO eletrônico também para casos de violência doméstica e isso facilita muito para as vítimas: o boletim eletrônico poder ser realizado através do https://www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp-de-cidadao/home;

3) Em 24 horas a juíza (juiz) emite decisão sobre a medida protetiva de urgência.

4) Entre as medidas constam: afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; proibição de determinadas condutas, entre as quais: aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; delimitação de perímetro a fim de preservar a integridade física e psicológica da vítima.

5) Em alguns casos o juiz (juíza) pode solicitar também o uso de tornozeleira eletrônica para o acusado e botão do pânico para a vítima.

A proteção pode ser solicitada em qualquer delegacia mais próxima, mas o ideal é que ela seja feita diretamente na Delegacia da Mulher.

A Central de Atendimento à Mulher – tel 180 – presta uma escuta e acolhida qualificada às mulheres em situação de violência.

O serviço registra e encaminha denúncias de violência contra a mulher aos órgão competentes, bem como reclamações, sugestões ou elogios sobre o funcionamento dos serviços de atendimento. O serviço também fornece informações sobre os direitos da mulher, como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso: Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referências, Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam), Defensorias Públicas, Núcleos Integrados de Atendimento às Mulheres, entre outros.

A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. São atendidas todas as pessoas que ligam relatando eventos de violência contra a mulher.

O Ligue 180 atende todo o território nacional e também pode ser acessado em outros 16 países.

Infelizmente, durante esta pandemia, no ano de 2020 situações relacionadas à violência doméstica aumentaram e toda e qualquer publicação e textos informativos são sempre importantes para que todos possam se orientar na tentativa de vencermos e não permitirmos tamanhos absurdos!

Ninguém merece sofrer violência doméstica, seja ela qual for!

Espero sinceramente ter ajudado, até qualquer outro texto!

[1]BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 07 de ago. 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>;

Ana Carolina Roge Ferreira Grieco – Bela Urbana, advogada formada pela Pucc Campinas em 2000, atualmente atua no corpo de advogados do escritório Izique Chebabi Advogados Associados, site: chebabi.com.
e-mail: atendimento@chebabi.com . Empresária. Virginiana que ama jogar tênis e ficar com a família!

Como você é linda!
Foi assim que o relacionamento começou.
Já se passaram meses, e como ele é carinhoso!
Mig estava nas nuvens. Que homem incrível havia encontrado. Fiel, trabalhador, um eterno
romântico, sempre a elogiando, presenteando com chocolates e buquês de rosas vermelhas.
“A verdade é que ele a amava. Era intenso.”
Não demorou para as promessas de casamento começarem a lhe cobrir de esperanças, afinal,
Mig realizaria o sonho de constituir uma linda família, pois filhos também já tinham sido
cogitados.
Combinaram de sair, e Mig comprou um belo vestido, arrumando-se toda para agradar seu
amado. Pena ele não ter gostado tanto assim da sua produção, pedindo-lhe com todo carinho
que colocasse algo mais apropriado. “Que mal faria ela trocar sua roupa?” Jamais iria
contrariar seu agora quase noivo com uma bobagem dessa.
O tempo passou, e como ele se recusava a usar métodos contraceptivos (Mig entendia as
razões dele), não custou para que o primeiro filho chegasse.
“O casamento podia esperar”, disse ele.
Foram morar juntos.
Uma pena ele ser tão ocupado! Chegava todos os dias tarde, cansado sempre, não cuidava do
bebê, nem tampouco da casa.
Mig se desdobrava entre os afazares, o trabalho e a faculdade à noite, quando contava com a
ajuda de sua mãe e algumas amigas.
Mas essa situação ficou insustentável e, segundo ele, a faculdade podia esperar. Mig viu que
ele tinha razão. Trancou sua matrícula.
Outro ponto foi manter sua mãe e as amigas mais distantes, pois “viviam dando palpites e eles
acabavam sempre discutindo por isso”. Mig ficou triste, mas entendia as razões dele.
Estranho que ele andava nervoso, mas Mig sabia que era por conta do cansaço.
Passados alguns dias, todo carinhoso, sugeriu então que Mig largasse o emprego, pois assim
teria mais tempo e condições de cuidar dele e do bebê. Ela entendeu que ele estava fazendo
isso para o bem da família. E assim, pediu demissão.
Mas parecia que nada o agradava.
Até que um dia, sem mais nem menos, deu-lhe um tapa na cara, alegando que a comida não
estava quente. Ela chorou muito, mas não quis brigar.
Na manhã seguinte, ele pediu desculpas, chorou, implorou para que ela esquecesse aquele
triste momento. “Ele a amava e não faria de novo”. Claro que ela o perdoou.
Os episódios passaram a ser constantes… Descaso, humilhação, cobranças absurdas e muita
agressão física.

O pedido de perdão, com lágrimas e lamentos, tornou-se recorrente.
Mig não estava mais dando conta. Mas não tinha coragem nem força para tomar uma atitude,
inclusive porque não sabia o que fazer.
Mas o tempo a fez perceber que precisava terminar com ele, pois temia por seu filho também.
Foi aí que a tragédia aconteceu.
Por conta de não aceitar o fim do relacionamento, ele planejou o pior.
Esperou Mig dormir, jogou álcool sobre ela e ateou fogo.
Ela acordou em chamas. Com seus gritos de dor, uma vizinha conseguiu arrombar a porta e
socorrê-la.
Ele havia fugido para sempre.
Mig teve 80% do corpo queimado, seu rosto desfigurado e marcas psicológicas para sempre.
Precisou lutar pela vida.
Sobreviveu com garra! Hoje luta pela causa, para ajudar outras mulheres a não passarem pelo
que passou.


*Dados do DeltaFolha afirmam que “o Brasil registra 1 caso de agressão à mulher a cada 4
minutos.”
*Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “7 em cada 10 mulheres no planeta foram
ou serão violentadas em algum momento da vida”.
*Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, “a quantidade de
denúncias de violência contra as mulheres recebidas no canal 180 cresceu quase 40%
comparando o mês de abril de 2020 e 2019”. (saude.abril.com.br)

Disque 180. Denuncie. Vá até a Delegacia da Mulher (ou delegacia mais próxima) e preste
queixa.
Disque 190 – Polícia Militar para atuação emergencial.


Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

E aquela menina com menos de 5 anos, morava na roça, cidade pequena, numa casinha de pau a pique, morava com os pais, uma irmã mais velha e a caçulinha.

Era uma família simples, trabalhadora.
A casa dentro de uma fazenda, afastada da casa dos patrões, o pai trabalhava na lida no curral, tirando leite, a mãe, cuidava das crianças e da casa.

Raramente recebiam visitas de parentes. Mas quando vinham, deixavam os pequenos felizes, pois, embora tivessem crianças na casa, não eram de muita interação, pelo menos a menina não se lembra. As conversas eram só nas horas de visita. Conversa não, pois ficavam só escutando as prosas e contos na beira do fogão a lenha. Criança não se entromete nas conversas de adulto, ouviam dos pais!
Tinha uma visita que era constante, ia filar uma boia ou um café com bolo da comadre Maria e do compadre Beto, como ele chamava os pais da menina (mas não era padrinho de ninguém).
Sujeito bonachão, solteirão, não tinha parentes era amigo da família e estava sempre presente e solícito. Trazia balas, doces e mimos para os pequeninos da casa.

Os pais tinham muito apreço pelo Vitão (sim, esse era o nome dele).
A pequena se lembra que sempre estava perto dele. Quando ele chegava, se sentava num banquinho de madeiras e chamava a pequena para sentar no seu colo ou ficar perto dele. Se iam na missa ele aparecia e fazia questão de carregar a menina nos ombros até a entrada da fazenda, afinal era uma caminhada longa. Todos diziam que gracinha: ela gosta tanto dele! Que carinho ele tem por ela! Que xodó! Termo muito usado pela mãe.
Nunca nem imaginavam o que acontecia ali. Nem a menina.
Não demorou muito a família mudou de cidade em busca de trabalho e melhores condições de vida. A menina cresceu e um belo dia quando falavam de abuso sexual contra crianças, veio em sua memória um desses momentos vividos por ela. Foram flashes reveladores que acenderam sua memória!

A menina mulher estava brigando com a família, que conversavam sobre um caso de tentativa de abuso contra a filha da vizinha, diziam inclusive que a criança houvera provocado e que estava muito saidinha, blábláblá…

Nesse momento a menina mulher em prantos grita e conta sua triste experiência:

Começou dizendo:

– Não existe essa de se provocar o abusador! São canalhas! Parem de defender o bandido!

Lembra daquele Vitão que vocês gostavam tanto?
Nunca disse nada porque não lembrava, mas me lembrei agora!

Ele se sentava no banquinho, na cozinha da casa, na beira do fogão a lenha e enquanto vocês conversavam, alheios ao que se passava, ele me punha de cócoras entre as pernas dele e seus dedos me invadiam… ninguém via, ninguém desconfiava.

Então, eu o estava provocando?

A mãe da menina mulher, emudeceu por cinco eternos minutos e lhe disse com tristeza:
Meu Deus! Você vivia grudada com ele, como eu ia imaginar? Ele sempre foi muito respeitador! Jamais desconfiei!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, divorciada, mãe de duas filhas moças, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

“A criança cala por medo. A criança cala por vergonha. A criança cala por não ter voz…”

Difícil pensar em tudo que uma menina de dez anos, submetida a estupros desde os seis pelas pessoas que deveriam cuidar dela, grávida e julgada pela hipocrisia da sociedade sofreu e ainda vai sofrer como consequência disso tudo. Mas uma questão que foi levantada por muitos “cidadãos de bem” tem me incomodado: Por que a criança não falou para ninguém?

Aos 10 anos de idade mais ou menos eu era uma menina muito curiosa. Os meninos da escola estavam naquela fase de começar a descobrir a sexualidade, sabe? Viviam desenhando “pintos” para tudo que é lado e eu achava aquilo bem engraçado, mas não entendia muito o que era aquele desenho feito a exaustão e sempre seguido de um risonho pelos amigos do sexo oposto. Dito isso, saibam que eu era a artista da turma.

Bom, para contextualizar deixa eu contar um pouquinho da minha minha infância. Meu pai (meu herói e ídolo) morreu quando eu tinha cinco anos e meio de idade. Minha mãe nunca mais se casou, mas eu bem que gostaria. Tinha sede por uma figura masculina na minha vida. Embora ela não tenha casado, tinha amigos de infância que frequentavam nossa casa e que também frequentávamos.

Um deles, que vou chamar de João, era tapeceiro de mão cheia e eu, a artistinha da casa tinha verdadeiro fascínio por tudo que tinha a ver com trabalhos manuais. Nem preciso dizer que ele era meu ser humano, do sexo oposto, de preferência! Ele era casado com a Rosa, uma moça aparentemente mais velha e muito doce que eu amava de paixão também.

Não nos víamos muito, porque a oficina ficava num bairro mais afastado, mas sempre que possível estávamos um na casa dos outros para um café, para mim era um Nescau mesmo, um bolo… os adultos conversavam e eu ficava maravilhada por orbitar esse universo. O João sempre me encantou mais porque era o que me dava atenção, me tratava quase como uma igual.

Pois bem, a oficina mudou para perto da minha casa. Na verdade no caminho entre minha casa e a escola e imagine minha felicidade porque agora eu podia parar para “tomar um café” sempre que estivesse passando por lá.

João estava prosperando e tinha uns três funcionários no seu pequeno paraíso (paraíso é por minha conta, porque era assim que eu enxergava aquela portinha cheia de tecidos, móveis desmontados e fedendo a curtume… coisas de criança) e todos eles me tratavam como uma mascote.

Um dia, eu passei por lá e João estava só. Entrei para nosso café com bolo usual e nossas conversas que até então era pra que serve essas taxinhas?, o que é um capitonê?, etc e tal...mas como eu disse, ele estava sozinho e, como eu disse lá em cima, eu andava sendo bombardeada pelos desenhos de “pinto” sem saber muito bem o que eram. A gente sentou nas banquetas em frente a bancada de trabalho. Eles tinham o hábito de rabiscar os projetos nas grandes pranchas de madeira e sempre tinha um lápis por ali. Eu, curiosa, perguntei por que aquele lápis tinha um formato diferente dos meus da escola (ele era quadrado, bem maior e escuro), João explicou e me deu o lápis na mão apontando a prancha de madeira e dizendo que eu podia testar. Lógico que desenhei um “pinto”! Na verdade algo bem rudimentar como duas bolinhas e um palito. Ele olhou e perguntou se eu sabia o que era aquilo. Eu balancei a cabeça e disse que achava que sim, mas não tinha certeza… foi nesse momento que meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ele pegou minha mão, uma mãozinha de uma menina mirrada de 10 anos de idade (vocês não imaginam o quanto eu era miúda nessa época, magrinha mesmo, uma varinha, nada que pudesse ter um apelo sexual) e colocou no pau dele. Um membro totalmente rígido. Puxei minha mão na hora num misto de medo, vergonha e sei lá o que. Ele ainda insistiu que eu poderia tocá- lo para saber como era um homem de verdade? Homem de verdade? Oi? Eu queria desaparecer dali, virar pó, ser engolida pelo chão, mas não consegui simplesmente sair correndo. Lembro de agradecer polidamente e dar uma desculpa para ir embora.

Cheguei em casa me sentindo suja, mal, nas não conseguia elaborar o que tinha acontecido. Eu sabia que era errado, mas eu tinha provocado aquilo! Não podia contar para minha mãe, porque, na minha cabeça, ela ia se zangar comigo, afinal, fui eu que fiz o desenho que levou aquela situação. Não podia contar pra Rosa, porque ela ia ficar triste e eu não queria que ela ficasse triste por algo que eu tinha causado.

A partir daquele dia, sempre que era para ir na casa deles eu inventa uma desculpa e sempre que eles iam em casa eu não mais queria participar ou, se participava, era grudada na minha mãe ou na Rosa. Minha mãe chegou a me perguntar por que eu não ia mais na tapeçaria, algo que ela só sabia porque o João tinha falado para ela que eu andava sumida. Eu não me lembro o que respondi, mas sei que a partir daí não fui mais questionada. Só sei que nunca contei e eles seguiram amigos até o fim da vida… se viam menos, eu, cheguei num momento que nunca mais os vi, mas essa história ficou pra mim. E para o abusador do João.

Por que eu não contei? Porque eu tinha vergonha… Porque eu achava que a culpa era minha… Porque eu não queria magoar os adultos… Porque eu queria proteger a Rosa… Porque eu só tinha 10 anos…

Porque não se falava dessas coisas…

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr em São José do Campos – SP.

Fotos Taine Cardoso Fotografia

Como em um conto de Charles Dickens, uma pequena órfã foi abusada por adultos. Na
Inglaterra Vitoriana, com leitores formados pela Revolução Industrial, as obras Dickensianas
causavam certa revolta por mostrar a exploração de vulneráveis por outros seres humanos.
Eram textos sombrios, mas que mesclavam uma dose de humor no estilo, mas não poupavam
o leitor, que sofria com a morte de personagens pelas quais se afeiçoavam. Um mundo cruel
esse dos livros de Charles Dickens.
Bom, estamos no Brasil de 2020. Enclausurados – ou não – de maneira surreal devido a uma
doença que faria sentido em outro século. E temos a história de um pequena órfã para contar.
A menina é órfã de mãe, o pai está preso. Mas é da periferia de algum lugar do país.
Essa pequena órfã, aos 10 anos, com dor de barriga, chega ao hospital. Está grávida! Agarrada
a um bichinho de pelúcia, ela grita, desesperada. Ela está amparada pela lei que, em caso de
estupro, determina que um procedimento de aborto seja realizado. Simples assim.
Mas a série de abusos está apenas começando. Abusos cometidos por adultos. Adultos que
deveriam protegê-la. Um tio que a estuprava desde os 6 anos. Uma família de tios e avós
adultos que nada percebia. Professores que nada viam de estranho no comportamento da
menina. Ainda assim, dá para dizer que o único adulto responsável pelo abuso era o tio. Até
aqui.
O hospital, constatada a gestação, lava suas mãos e, usando um subterfúgio qualquer, recusa-
se a cumprir a lei e interromper a gravidez, causada por estupro, em uma criança de 10 anos.
Uma criança que não tem corpo para gerir uma criança, um gravidez que coloca em claro risco
a sua vida.
O pedófilo estuprador, a essa altura, sumiu no mundo.
A menina precisa, então, ser levada para um hospital, bem longe, em outro estado, onde
médicos se propõem a cumprir o que a lei determina. E seguem-se outros abusos a essa
criança que só quer ser criança.
Os dados dessa menina, de alguma forma, são vazados e uma criminosa, cumprindo prisão
domiciliar de tornozeleira eletrônica, com acesso ao governo e a redes sociais, divulga nome
completo da criança, para onde foi levada, quem são os médicos que realizarão o aborto,
enfim, o inimaginável. Não se sabe como ela conseguiu essas informações, mas o que não se
sabe, é possível imaginar. São dados confidenciais.
Uma turba ensandecida, contra a ideia de aborto e dizendo-se cristã, irrompe na porta do
hospital, impede a passagem de médicos, que, só com a ajuda da polícia, consegue entrar no
hospital. Enquanto isso, a criança entra, escondida em um porta-malas, pelo estacionamento,
como se fosse ela a criminosa. Aos gritos de “assassina”, ela é internada. Aos gritos de
“assassinos”, os médicos se preparam para atendê-la.
Enquanto isso, o pedófilo está solto em algum lugar.
Nesse circo do absurdo, duas pessoas, não se sabe como, conseguem acesso à menina dentro
do hospital e, mais uma vez, ela é constrangida, cobrando-se dela que mantenha a gravidez.
Ela, agarrada ao seu brinquedo, mais uma vez recusa, chorando.

Por fim, a gestação é interrompida e os médicos dizem que a pequena passa bem. Como se
fosse possível alguém, que passou por tantos abusos e um aborto pudesse estar bem.
Com a identidade revelada, ela já não pode voltar para sua casa. Então, é lhe oferecido trocar
de identidade. Ela e familiares entrariam para o Programa de Proteção a Testemunhas.
Proteção é tudo o que ela, criança, precisa.
O pedófilo estuprador é, enfim, preso.
Comentários de gente doentia, em redes sociais, demonizam os médicos, a menina, o
procedimento. Onde se encontram esses “cristãos” quando o Brasil tem tantos meninos e
meninas em situação de rua? Mendigando, vivendo em abrigos, vivendo com sua famílias, mas
totalmente desassistidos pelos poderes? Em um país que não investe em suas crianças, um
país que tem como projeto acabar com a educação?
O assunto “aborto” é questão de saúde pública. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública de 2019, a cada hora, 4 meninas de até 13 anos, são estupradas no país. Segundo o
SUS, por dia, acontecem em média 6 abortos em meninas de 10 a 14 anos, sendo que 66%
dessas jovens são negras.
Será que, caso a menina vivesse em um país de leis medievais ou em uma era das trevas, ela
seria, além de considerada culpada pelo próprio abuso, condenada a levar a gravidez até o fim
e apedrejada depois do parto? Aqui, no Brasil de hoje, ela SÓ sofreu o apedrejamento moral.
A pequena, enfim, teve alta, tem uma nova identidade, espera-se que ninguém vaze a
informação de sua localização. Que ela possa ser protegida, acolhida e que tenha um futuro
livre de tantos pesadelos que tantas pessoas adultas infringiram a ela. Que o final dessa
história passe longe dos finais de Charles Dickens.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Tivemos a mais linda história de amor. Nos conhecemos naquela véspera de ano novo, na praia, em 31 de dezembro de 2018. Nosso primeiro beijo foi à meia noite. Foi mágico.

Logo, você me pediu em namoro. Disse que estava apaixonado, que queria conhecer minha família e fazer parte de cada detalhe da minha vida.

No meu aniversário, em fevereiro, você apareceu na porta da minha casa com um buquê de rosas vermelhas, todos os ingredientes para um risoto e uma garrafa de vinho tinto. Você fez tudo, e nunca, nenhum homem tinha feito uma surpresa assim pra mim.

Aos domingos, íamos à casa de meus pais para o café da manhã. Lá, você jogava vídeo game com o Carlinhos, meu irmão mais novo. Conversava sobre política com meu pai, e insistia em lavar a louça para minha mãe.

Você disse que sentia falta de uma família assim na sua vida. Me disse que cresceu sem pai e com mãe ausente, e que eu e minha família éramos tudo que você tinha ali. Nós te acolhemos, e você soube nos cativar.

Depois de alguns meses, nos casamos. Fizemos uma pequena cerimônia e um churrasco de almoço com minha família e poucos amigos, meus e seus. No fim, eu nunca conheci sua mãe.

Em seus votos, você me disse que eu era a mulher da sua vida, aquela para ser mãe de seus filhos, e a quem você gostaria de envelhecer juntinho, segurando entre mãos enrugadas e macias de tantas histórias, nossas canecas amarelas com chá de hortelã, o nosso favorito.

Nos mudamos para meu apartamento logo após o casamento. Não tivemos lua de mel, pois a situação financeira não era das melhores. Mas isso não importava pra gente, nosso amor era maior que tudo.

Pouco tempo depois, engravidei. Era nosso sonho se tornando real! Foi aí que você me disse que não fazia mais sentido eu trabalhar fora, afinal, eu estava grávida, e quem cuidaria do bebê depois que nascesse? Eu tinha acabado de receber uma promoção no meu trabalho. Eu trabalhava no RH de uma pequena empresa, e gostava muito de lá, mas mesmo assim entendi que sua ideia fazia mais sentido, pois então eu poderia descansar mais na gravidez, e focar na limpeza da casa, no enxoval do bebê e na cozinha, afinal isso eram afazeres de mulheres. (palavras suas, não minhas). Acatei, pois enxerguei ali um cuidado que você queria ter comigo e com nosso filho.

Decidimos ainda não contar a ninguém sobre a gravidez, afinal estava no começo né? Antes eu tivesse falado.

Descobri no médico que eu tinha que tomar algumas precauções com a vinda do nosso filho. Era uma gravidez de baixo risco, mas ainda assim de risco.

Quando minhas amigas me chamavam pra sair, no começo, você pedia pra eu ficar te fazendo companhia, porque tava sempre com saudades. Depois que eu engravidei me disse que agora éramos uma família e não pegaria bem eu ficar andando com um bando de meninas solteiras por aí. Até achei isso bonitinho sabe? Esse seu cuidado comigo. Então um dia, minhas amigas finalmente se cansaram de mim.

Você começou a reclamar que eu estava gastando demais com comida, com o enxoval do bebê e disse que começaria a fazer hora extra no trabalho. Me imaginei tricotando pra fora para ter alguma renda, o que já era um sonho meu, mas você disse que não. Que eu devia focar na gravidez, na limpeza da casa, nas nossas refeições. Tudo bem então.

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Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Você passou a chegar cada vez mais tarde em casa. Disse que era o trabalho, o chefe. Mas comecei a sentir seu hálito de álcool. Um dia que você chegou bêbado e foi direto pra cama, encontrei marcas de batom vermelho pelo seu corpo. Clichê né? Aquilo doeu, como se uma faca tivesse pulsado em meu coração.

Guardei pra mim. Chorei no banho. E a vida continuou. Entendi que aquilo era sua maneira de escapar, afinal não podíamos transar por causa da gravidez de risco que eu tinha, e por isso você teve que buscar isso fora de casa. Eu compreendi depois de um tempo e aceitei. Era temporário, e eu sempre seria aquela que você amaria. Com as outras era só sexo. Tudo bem então.

Noitadas esporádicas se tornaram rotina, e o cheiro de álcool impregnava o quarto. Era cada vez mais difícil te entender e sentir aquele cheiro sem ir vomitar no banheiro. Não sei mais se eu vomitava pelo enjoo da gravidez, ou pela mágoa do que você estava fazendo comigo. Ainda assim, decidi ficar quieta. Eu não queria brigar com você. Eu ainda te amava, e você era o pai do filho que eu carregava no ventre. Não te contei, mas era um menino.

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Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Uma noite você chegou pior do que das outras. Chegou quebrando tudo. Estava muito nervoso. Você gritava comigo. Disse que não tinha comido nenhuma puta naquela noite, e então só restava eu. Eu disse que não, te implorei, disse que ia perder o bebê. Você nem me ouviu. Me jogou no chão, e com uma faca em meu pescoço me obrigou a ficar de quatro. Você me machucou. Machucou meu corpo, machucou minha alma, e me largou ali no chão como se eu fosse um nada pra você. Eu perdi o nosso filho naquela noite.

Desde então, a vida perdeu o sentido para mim. Nada mais me importava. Você chegava em casa e me batia. Um dia era porque o jantar não estava na mesa, o outro era porque o arroz estava muito salgado. Você me batia, pois dizia que eu era a responsável por ter perdido o nosso filho. Você me estuprava porque dizia que eu tinha obrigação de engravidar de novo.

Eu não resistia. Eu tinha vergonha. Eu tinha culpa do que tinha feito com a gente, do que tinha feito com a minha vida. Na verdade, eu nem sei o que eu tinha feito. Eu me escondia dos vizinhos, e da minha própria família. A cada final de semana, inventava uma desculpa. Dizia que estávamos sempre a viajar. Até que minha mãe descobriu.

Ela bateu na porta de casa um dia, e me encontrou. Marcas roxas pelo corpo, rosto esfolado. Eu já não era mais eu há muito tempo.

Ela quis me levar embora, mas eu não fui. Eu já tinha tudo planejado.

Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Desculpa mãe, desculpa pai, desculpa Carlinhos por não ter sido a filha e irmã forte que vocês queriam que eu tivesse sido. Perdão por ter me tornado cega de amor. Perdão por não ter escutado a vocês enquanto era tempo.

Esta manta é a lembrança do neto que vocês nunca chegaram a saber que existiu. Não contei a vocês, mas era um menino. Ela é azul, assim como a minha manta de quando eu era bebê.

Agora é tarde, e eu já não consigo mais viver com a culpa do que aconteceu na minha vida. Eu o matei. O matei por ter me tirado a alma, e ter me deixado só com o corpo. O matei por ter tirado à força de mim meu bem mais amado. O matei pelas tantas outras mulheres que descobri depois que ele violentou e enganou.

Não quero que chorem, pois estarei melhor pra onde quer que eu vá.

E eu me vou despida de bens, despida de amor, despida de medo, com o alívio de não ter que viver mais essa vida. Eu o matei a punhaladas, e cada punhalada foi por uma mulher que ele fez sofrer. Foram dez.

Ariela Maier – Bela urbanas, uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Belas Urbanas me pediu para escrever algo sobre violência doméstica (ou sobre o abuso físico ou psicológico que parte de uma pessoa contra outra). É notório que sempre me envolvo com temas relacionados às artes e pelo fato de ter publicado, constantemente, álbuns famosos que fazem aniversário… Vou falar, um pouco, de um disco feito por um casal intoxicado por uma relação afetiva.

Uma convivência extremamente difícil! Malgrado abusiva e violenta a intimidade, o trabalho em conjunto da dupla foi responsável pela criação de fundamentais discos da história da música popular!

Vou aqui indicar um álbum que está fazendo 50 anos em 2020… E feito pelo casal de artistas virtuosos: Ike Turner e Tina Turner.

O guitarrista e a cantora viveram juntos por 16 anos. A vida de Tina Turner foi um inferno (expressão usada por ela na autobiografia – I, Tina lançada em 1986).

O comportamento de Ike Turner é cruel e por todos reprovado.

O envolvimento triste do casal pode ser assistido no filme Tina – A Verdadeira História (Tina – What’s Love Got to Do with It).

Ike & Tina Turner Come Together (uma obra prima da música popular).

Fernando Farah – Belo Urbano, graduado em Direito e Antropologia. Advogado apaixonado por todas as artes!


Quando eu era menina, em torno dos meus 9 anos, tinha uma senhora que trabalhava como faxineira na casa de uma tia. Não me lembro o nome dela. A imagem que fazia da mesma, era de alguém com idade próxima a da minha avó, mas não sei se de fato ela tinha essa idade ou uma aparência muito judiada.

Certa vez, estávamos brincando na rua, ela apareceu caminhando em nossa direção, provavelmente voltando de alguma casa que limpava. Os adultos comentavam que ela apanhava do marido. Eu me lembro de olhar para ela e pensar indignada em várias perguntas que nunca tiveram respostas: Como assim ela apanha do marido? Ela é uma adulta (quando eu era criança era normal as crianças apanharem) por que deixa? Por que ela não bate nele, corre, foge?

Há uns anos, minha filha veio me contar que a mãe de uma amiga que morou no nosso condomínio apanhava do marido. Fiquei passada e perguntei como ela soube e por que não tinha me contado na época. Contou-me que um dia que caminhavam juntas na trilha do condomínio, quando a amiga disse que a mãe apanhava do pai, minha filha perguntou sem resposta: Como assim? Disse então: não pode. Na época do ocorrido ela devia ter os mesmos 9 anos que eu tinha no caso que contei acima.

Essa família ficou pouco tempo no condomínio. O pai era muito simpático e a mãe muito reservada, sempre usava roupas de mangas compridas, muito pálida e nunca descia para as áreas em comum. Eu desconfiava que ela tinha algum problema de saúde, mas como sempre foi muito fechada, não abria espaço para conversa. Uma vez fui buscar minha filha no apartamento de sua amiga e achei estranho a forma como a mãe se comportou, me senti incomodando e pedi para a minha filha acelerar para irmos embora rápido.

Hoje, sabendo que ela apanhava, consigo entender seu comportamento, suas roupas e sinto não ter percebido que isso acontecia e ter de alguma forma ajudado. Difícil pensar que essas coisas acontecem tão próximas a nós.

Os tempos mudaram, mas a violência doméstica ainda se faz presente em qualquer classe social. Precisamos romper esse ciclo. Estender a mão para a vítima, ligar para o 180, denunciar. Não ter medo.

Não quero ouvir daqui alguns anos, uma neta contar que soube de mais um caso de violência doméstica. Chega desse tipo de história.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Ficamos cientes das atrocidades que um ser, dito humano, é capaz de cometer através de um caso mais chocante ou mais divulgado pela mídia do que muitos outros. Ao lado da divulgação, muitos números, percentuais, gráficos, implorando por leis que protejam seres que estejam submetidos, por diferentes razões, à tais violências e atrocidades. A alma ainda não compreendeu, então precisamos de Leis para ter boa conduta como a Lei dos Direitos Humanos e a Lei Maria da Penha. “Detalhe” facilmente esquecido por trás dos números, cada caso ou morte refere-se à um ser humano.

Feminicídio, violência doméstica, violência conjugal, temas que emergem novamente com o confinamento e com a aparição das fotos em preto e branco de mulheres nas redes sociais em solidariedade às mulheres assassinadas, à manutenção da “Convenção de Istambul”, tratado internacional do Conselho da Europa pela eliminação de toda forma de violência contra as mulheres, conjugal ou familiar.

Ultimamente, me perguntei várias vezes se estamos vivendo no ano de 2020 d.C. , sem esquecer que também houve um tempo a.C. O ser, dito humano, já não é tão jovem… Somos considerados os seres mais evoluídos do planeta Terra, e que decepção! A evolução da alma ficou esquecida. Já passou da hora de agir com menos instinto e mais humanidade, de responder mais com o cérebro frontal e menos com o reptiliano.

Esqueceram que o único modo de entrar neste planeta é através de uma mulher, que nutre, protege, acompanha, ensina, perdoa. Esqueceram que sua descendência se faz através de uma mulher. Parece tão difícil para ele ver a mulher como um ser humano, pois ele não o encontrou dentro de si mesmo.

Tudo na natureza toma forma à partir de polaridades, de seres que direi complementares e não opostos, da união do masculino com o feminino. Sendo assim, não deveria haver espaço para a ilusão de propriedade, superioridade ou mesmo a submissão, que geram a violência, seja ela física, verbal ou psicológica. A energia feminina é naturalmente diferente e assim é a natureza, isso não significa qualquer motivo para menosprezo ou violência de algum tipo.

Para os leitores curiosos em números, relembrando que cada caso se trata de um ser humano, uma vida, uma alma, pessoas envolvidas, sonhos e emoções: Na Suiça, 0,4 assassinatos por 100.000 mulheres, esta proporção é de 0,13 na Grécia, 0,27 na Espanha, 0,31 na Itália e 0,35 no Reino Unido. Mais feminicídios são registrados na França 0,50 e na Alemanha, 0,55. (“Le Matin”, 25/08/2019).

Se observarmos os outros planetas do nosso sistema solar, podemos dizer sim que aqui é o Paraíso, e vamos nutrindo a esperança de que “Adão e Eva” não sejam expulsos, sendo a espécie “mais evoluída” do planeta. Yin e Yang, Shiva e Shakti, Masculino e Feminino em harmonia complementar, gerando vidas ao invés de eliminar vidas.

Viviane Hilkner – Bela Urbana publicitária (PUCC) e Profissional de Marketing (INPG). Atuou na área, no Brasil, em agencias de publicidade e meios de comunicação, e, na Itália, em multinacionais no Trade Marketing e Brand Development & Licensing. Morando na Suiça, mudou seu estilo de vida e apaixonou-se pela prática de Hatha Yoga. Ansiando compartilhar esta prática e sabedoria milenares, forrnou-se professora.Atualmente, ensina no Centre Kaizen e no Club de Yoga da Associação de Esportes e Lazer da Nestlé.Organiza Workshops e Retiros de Yoga na Suíça e no exterior, principalmente, na Grécia.Sua profissão tornou-se hobby e seu hobby, sua profissão.