Você leu. Clicou e leu. É assim, dizem a vida inteira: “Cuidado, não faça tal coisa”, teimamos, fazemos. É assim, menos doí se aceitamos. Menos doí se, após aceitar, iniciamos um processo de mudança, não é? Pois é. Mesmo assim, sei que não irá se mover. Somos naturalmente do contra.

Mesmo assim, sou contra esse pensamento naturalizador de nossa condição falha. Ambíguo eu? Não. Esse é um texto que questiona o que podemos ser. Pense! Porque aceitamos que somos inertes a nós mesmos rejeitando a mudança, ou pior, dizendo que mudamos, sem de fato movermos uma palha distante do nosso erro? Porque aceitar que somos naturalmente erráticos? É tão medíocre assim a vida? Você dirá “não, imagina”, e continuará agindo de forma displicente e medíocre. Ora!

É assim. Se dizer que somos preconceituosos, misóginos, racistas, elitistas e qualquer outro termo, dizemos que “não, imagina”. Dai se inicia qualquer frase estúpida que defenda nosso confortável erro. Se dizer para não ser preconceituoso, misógino, racista, elitista então, nossa! Que cavalo de batalha se inicia! “Não sou preconceituoso coisa nenhuma, mas aquele tem cara de bandido sim!”. Um especialista policial em biotipos alheios…

Esse texto não é para você que lê, é para mim. Desculpe se fiz perder seu tempo, mas pedi que não lesse, lembra? Se você teimou em fazer o que não é recomendado, assim como eu diante de tanto debate sobre lutas sociais, talvez esse texto seja para você também. Então, já que estamos nesse texto juntos, vamos pensar juntos?

Matam um preto sufocado com o joelho do Estado Americano, a mídia cobre muito bem e te sensibiliza. No Brasil, matam um preto na janela de uma patroa, fica na segunda página ou bloco do jornal, olhamos de canto… Escala de importância de qual preto morto é mais importante? Nessa escala, diminuem em importância os pretos em manifestações, em favelas, de fome… Importância nenhuma ganha quando matam auto estima e a história do preto.

É uma escala estrutural de preconceito que somos culturalmente submetidos pela família, amigos, mídia e que, se não questionada formalmente, passara para nossos filhos, netos. Eu sei, eu sei. Você vai ouvir e concordar, mas como em toda recomendação, vai deixar de lado assim que o assunto acabar. Mas dessa vez, chega. Haja, Cridão!

Em nossas mentes, o preto sempre é assassinado. Quando não conhecemos sua história, suas dores, dificuldades, opressões e segregação, tiramos a condição empática que poderíamos ter de reconhecer nele um semelhante, um humano que não deveria sofrer o que não desejamos a nós. Parece óbvio, não é Cridão? Mova-se! É uma questão de lógica básica, seja coerente!

Não tenho nenhum lugar de fala nesse assunto. Peço perdão por falar disso com ar de quem sabe demais. Mas essa carta é para mim, Crido. E se você, mesmo depois de eu pedir que não leia acabou lendo, veja se essa autorreflexão te serve. Branco, hétero, homem, meu espaço á mais do ver, refletir, agir e reavaliar do que do falar. Mas se viver de forma medíocre como ainda sinto que vivo, talvez seja o incomodo inicial de uma jornada repensada e mais nobre.

Pense nisso. 

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

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