No isolamento, 380 dias, desponta uma luz de esperança de final de guerra. Uma experiência jamais vivida no país. Armas de combate são desenvolvidas e produzidas, a uma velocidade nunca dantes alcançada, graças a esforços de incansáveis cientistas por todo o globo. Neste país, governantes atrapalhados continuam se digladiando pelo poder, culpando de cá e de lá, uns aos outros, aproveitando-se da crise. Pessoas refletindo esse mesmo comportamento dos lideres, cada vez mais, impacientes, intolerantes a opiniões divergentes.

Na televisão, mostram covas e baús mortuários disponíveis para os próximos mortos. Filme real de terror com notícias desanimadoras de todas as partes do mundo, pessoas morrendo pelas ruas, hospitais lotados. Previsão anunciada com antecedência de mais de um milhão de mortes no Brasil dentro de seis meses. O que pensar?

Surpreendente e assustadora se mostra essa guerra à saúde física e também emocional.

Por mais de um ano, fico amedrontada, pensando no ataque microscópico, invisível e inexplicável. Especulações e suposições surgem de todos os lados com notícias desencontradas. Futuro incerto e ameaçador.

Será que eu vou morrer amanhã ou no mês que vem? Telefonemas recebo de empresas funerárias, oferecendo planos vantajosos. Pronto, será que é minha hora?

Não, ainda não. Não me deixo abater, sei, são oportunistas de plantão, buscando atingir seus objetivos à custa do medo da morte, do enfraquecimento das defesas psíquicas. Quantos teriam caído nessa armadilha?

Lamentável tragédia, em todo o mundo, milhares de pessoas partindo. Entretanto, muitos milhões atingidos, se recuperando. Vitórias também acontecem nas batalhas pela vida. Nem tudo está perdido.

O isolamento incentivando novos hábitos; incentivando-me a plantar e cuidar das plantinhas do quintal, ouvir músicas e tocar piano, organizar fotos e filmes antigos, escrever memórias de vida. A impressão de uma partida iminente, pela flechada microscópica, faz-me pensar no que, devo deixar. Faço o inventário de histórias e imagens para meus netos.

Numa velocidade inédita, vacinas começam a surgir e mostrar que o final de guerra pode estar chegando. Os otimistas, como eu, sentem alívio, ainda crendo que nem tudo está resolvido e liberado. Não me iludo: – “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”.

Nesse momento, acende a luz de esperança, informada sobre a chegada de minha arma, minha defesa contra o vírus da coroa. Poderei finalmente começar a pensar na luz lá fora. Começo a vislumbrar um sonho possível de aproximações, beijos e abraços.

Como estará lá fora, aqui tão perto? Sairemos fortalecidos no amor e mais tolerantes com as diferenças. Assim espero. Tudo sempre passa.

Flailda Brito Garboggini – Bela Urbana. Pós graduada em marketing, Doutora em comunicação e semiótica. Dois filhos e quatro netos. Formada em piano clássico. Hobbies música, cinema, fotografia e vídeo. Nascida em São Paulo. 4 anos como aluna, 35 anos como professora de Publicidade na PUC Campinas. É aquariana (ao pé da letra).

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