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A academia de karatê ficava no centro da cidade. Todos os dias o treino da noite começava pontualmente às 19 horas e teminava às 20h30.

Um dia, quatro meninas, adolescentes, subiram a escadaria que levava à secretaria e ao único salão de treino existente.

Era o ano de 1975, karatê era esporte para homens, mas naquela academia isso estava para mudar. As irmãs D se inscreveram naquele dia e aumentou consideravelmente a porcentagem feminina nos treinos… Minha mãe era da opinião de que deveríamos ser fortes e disciplinadas, mental e fisicamente, e a arte marcial nos oferecia o caminho perfeito.

Em dois anos, nós quatro tínhamos nos superado e chegado à faixa marrom. Eu adorava os treinos, não de levar chutes ardidos e ficar com manchas roxas, mas da dinâmica geral, da hora de meditar, da performance dos exercícios…

Mas havia um probleminha… A cobrança começava a crescer, deveríamos treinar em São Paulo todos os fins-de-semana, pois em Campinas já não tinha espaço para nós. Além disso, éramos uma atração à parte, as meninas Karatecas. Então, na véspera do dia em que eu faria exame para a faixa preta, eu me rebelei e simplesmente desisti, de forma definitiva. Eu gostava da informalidade dos treinos, não do que eu estava vivenciando naqueles tempos.

Também tinha a escola, eu era e sempre serei o que hoje podemos chamar, sem preconceito, de Nerd. Então optei pelos estudos e deixei de fazer algo que se impunha sobre mim. Minhas irmãs me seguiram, foi uma decisão conjunta. As meninas D deixaram o karatê.

Até hoje sou apaixonada pela arte marcial e nunca consegui me dedicar a outra atividade com o mesmo amor, até tentei a dança, mas não me oferecia o que eu procurava.

Sim, de novo volto às opções, às encruzilhadas que encontramos e nas quais precisamos decidir por uma direção.

Mas o que um ou uma adolescente pode fazer? A vida nessa fase é uma busca constante, é um grande episódio de começar e parar, começar outra coisa e largar também. Uns se encontram mais rapidamente, outros levam mais tempo. Enquanto existir curiosidade e vontade, será assim.

Uma frase que minha mãe dizia quando alguém reclamava que os jovens são rebeldes:

“Meu amigo, se os jovens não fossem rebeldes, ainda estaríamos vivendo nas cavernas!”

FOTO PERFIL Synnove

Synnöve Dahlström Hilkner É artista visual, cartunista e ilustradora. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCCAMP. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês, com ênfase em Negócios. Nascida na Finlândia, mora no Brasil desde os 7 anos e vive atualmente em Campinas com o marido, com quem tem uma empresa de construção civil. Tem 3 filhos e 2 netas. Desde 2011 dedica-se às artes e afins em tempo quase integral – pois é preciso trabalhar para pagar as custas de ser artista – participando de exposições individuais e coletivas, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros.É do signo de Touro e no horóscopo chinês é do signo do Coelho. Contribui para o Belas Urbanas com suas experiências de vida.

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