Miguel morava numa travessa da rua Emília Marengo, na divisa entre o Tatuapé e o Jardim Anália Franco. A sua casa ficava entre as estações Tatuapé e Carrão do metrô. Não sabia qual delas ficava mais perto da sua casa, mas o fato é que pela manhã sempre descia a rua Apucarana em direção a estação Carrão e no final da tarde saltava invariavelmente na estação Tatuapé para bater um papo e tomar uma cerveja no bar do gaúcho, seu grande amigo.

Seus dias eram todos iguais. De casa pro trabalho, do trabalho pro bar do gaúcho e de lá pra casa. Era assim sem sustos nem novidades. Mas um dia, como sempre acontece na vida das pessoas que nunca acontecem nada na vida, algo mudou a sua trajetória. Era terça-feira. O dia ainda não sabia se iria abrir em sol ou se recolher com nuvens e possível queda de temperatura. Na dúvida, Miguel, que já tinha olhado umas cinco vezes pela janela, optou por colocar a sua camisa bege de manga comprida. Pra contrastar com seu espírito e monotonia, colocou sua calça vermelha e nos pés seu all star surrado da mesma cor. Não era possível dizer que estava esquisito com aquela roupa, mas era impossível dizer que ele estava combinando. Demorou tanto pra sair de casa, acabou se atrasando e com isso teve que apertar o passo rua abaixo. No meio do caminho o sol abriu e o suor já dava o ar de sua graça em sua camisa quando, ao passar em frente a um velho sobrado, sentiu um forte cheiro de pão queimado. Estancou imediatamente. Andava tão rápido que a súbita parada fez com que sentisse a camisa molhada grudar ao corpo e o coração pulsar em sua garganta. Aquilo seria capaz de irritá-lo, mas naquele dia não. O cheiro o envolveu tão arrebatadoramente que esqueceu de tudo ao seu redor, inclusive de ir ao trabalho. Mergulhado nessa ácida fragrância, virou a roda do tempo em sentido anti-horário e rumou, sem escalas, direto ao seu passado. Num instante estava sentado na cadeira, cotovelos apoiados na mesa e pernas balançando no ar embaixo da mesa. Era assim, todas as tardes, na casa da sua avó. Ele olhava o preparo do café com seu aroma inconfundível e depois ficava fascinado quando ela espetava um pedaço de pão no garfo e colocava direto no fogo do fogão. Quase sempre o pão queimava mais do que devia, ficava com um gosto meio amargo, mas nada disso importava. Divertia-se com aquilo, com aquele churrasco de pão como ele assim chamou uma vez, com o cheiro que tomava a casa toda e com o fato de poder dividir com ela aquele quase pedaço de carvão. Essa era a sua avó, diferente de todas. Tanto que a prova estava a sua frente, ou melhor, dentro do seu nariz. Nada de fazenda, bolo de milho quentinho, banho de rio. Era o cheiro do pão queimado que o chamava à memória, que o levava de volta à infância na casa da sua avó. Uma mulher moderna, urbana, a frente do seu tempo e que era a cara da cidade. Numa dessas tardes, ela contou que quando jovem, na época da guerra, trabalhava numa fábrica de luvas. Disse com um riso maroto que escrevia bilhetinhos de amor e colocava dentro das luvas enviadas pra guerra. Depois, ficava imaginando a cara do soldado sortudo. Miguel achava o máximo essa avó que queimava o pão no fogão e que sempre tinha histórias adequadas às suas tardes de infância paulistana. O tempo, com sua força inexorável, acabou com as tardes de pão queimado e histórias fantásticas, só não acabou com a sistemática da repetição gestual, com o ritual. As tardes foram substituídas pelo início de noite sempre as segundas e terças, dias em que Miguel saía mais cedo do trabalho e passava na casa da avó antes de ir pra faculdade. Chegava com o pão quentinho embaixo dos braços enquanto ela o esperava com café pronto no bule.

Sentavam-se à mesa. Ele tirava os sapatos e esticava os pés embaixo da mesa. Miguel tinha uma estranha sensação de alívio. Os seus pés dentro meia suada, quando tocavam o chão frio, explodiam num tímido arrepio que subia-lhe as pernas.

Ela servia o café e partia o pão com a mão – ela adorava dilacerar o pão com a mão.

– E aí, vamos falar de política?

– A senhora não tem jeito mesmo, heim?

Riam divertidamente e chamavam para a cozinha o avô que estava na sala com a TV ligada no jornal e no último volume.

Definitivamente aquele tempo não voltava mais. Seus avós não mais existiam, a casa havia sido vendida e ele beirava os quarenta anos. Mas ali, parado na calçada, se deu contas de três coisas importantes: o calor estava insuportável, já tinha perdido o horário do trabalho e estava cansado de fazer tudo igual todos os dias. O cheiro do pão queimado e a lembrança das tardes na casa da sua avó, eram a prova de que era possível fazer as mesmas coisas de formas diferentes. E que ele mesmo tinha sido capaz, num tempo esquecido em sua memória, de viver sempre o mesmo ritual com o frescor de uma primeira vez. Enxugou o suor que corria em sua testa e subiu a rua de volta para sua casa. O seu semblante, para quem cruzava com ele em sentido contrário, revelava um homem decidido. Ele mesmo ainda não sabia o que tinha decidido.

Abriu a porta da sala, pegou o jornal embaixo da porta – ele sempre saía antes do jornal chegar, fato que o obrigava a ler notícia praticamente velha depois do jantar. Foi direto pra cozinha e preparou o coador de café. Enquanto a água fervia, foi até o quarto colocar a bermuda, o chinelo e uma camiseta velha. Calmamente leu o jornal de cabo a rabo, lavou a louça da noite anterior, varreu o quintal, cortou a grama. Fez tudo como se estivesse de férias, sem rumo, sem hora pra nada. Tomou um banho demorado. Ligou pro trabalho dizendo que não iria trabalhar naquele dia e que também na iria no dia seguinte, nem no outro. Não iria o resto da semana.Não iria nunca mais. Estava decidido e não voltaria atrás. Tentou a explicar a mesma coisa para a sua esposa que, atônita, queria saber o que estava acontecendo.

– Tá Miguel, você arrumou outro emprego?

– Não.

– Como a gente vai pagar a prestação da casa?

– Não sei.

– Você ta louco?

– Não. Completamente lúcido.

– Eu preciso trabalhar. Em casa, de noite, você vai me explicar essa história direitinho. E como vai.

Miguel sabia que teria uma tarefa difícil naquela noite. Não seria fácil explicar pra sua mulher o que nem ele mesmo sabia ao certo que estava acontecendo. Apenas não queria mais fazer as mesmas coisas todos os dias. Estava cansado da sua rotina no escritório de contabilidade do seu tio. Ele era responsável pela emissão, controle e baixa nas guias de GPS de todos os clientes do escritório. O salário não era lá animador, mas entrava uns extras na época da declaração de Imposto de Renda, quando ajudava o seu tio com a declaração dos clientes. Aquele não era o sonho profissional de Miguel. Talvez não fosse o de ninguém, mas era o que pagava as contas no final do mês.

Era mais de meio dia quando saiu novamente de casa. Caminhava pelas ruas do bairro com uma enorme sensação de leveza. Foi direto pro bar do gaúcho. Iria almoçar lá e ele seria o primeiro a saber a novidade. Conversou bastante com o amigo, que como sua esposa, queria saber o que ele faria da vida.

– Talvez eu procure um outro emprego. Talvez eu mude de profissão.

O que fazer não era a sua principal preocupação. O que não queria era fazer tudo igual como sempre fez. Despediu-se do amigo dizendo que naquela tarde não voltaria pra

cerveja. Pegou o metrô na estação Tatuapé e foi direto até a estação Palmeiras-Barra Funda. Andou com a animação de um menino de 8 anos até o Parque da Água Branca. Um lugar freqüentado quase que diariamente em boa parte da sua infância. Aquele era um dia de lembranças, de voltar ao passado. Sentado à sombra de uma árvore, fechou os olhos. O som dos carros e ônibus da Av Francisco Matarazzo contrastava e entrava em sintonia mágica com o som dos pássaros e da vida que passava lentamente dentro do parque. Aproveitou aquele momento de não pensar em nada apenas pra sentir a sua cidade. Com a certeza de que caminhamos inconscientemente rumo ao nosso destino, lembrou de uma vez que ali no parque, quando ainda tinha 11 anos, de ter feito uma oficina de panificação nas suas férias. Tinha achado o máximo aquilo. Tanto que durante um bom tempo ficou dizendo pra todo mundo que quando crescesse queria trabalhar fazendo pão. Era isso, aquela terça-feira era o dia de Miguel encontrar com os eu passado e com o seu futuro. Foi preciso voltar no tempo para seguir em frente. Pela segunda vez no dia estava decidido: iria fazer um curso de panificação ou de cozinha. Ele sempre teve habilidades culinárias e esse era o momento. Saiu correndo do parque ao lembrar que ali ao lado havia uma unidade do Senac, que oferecia cursos na área de gastronomia. Inscreveu-se num curso de cozinheiro chef interncional, cujo programa oferecia disciplinas na área de cozinha, panificação e confeitaria. A euforia era tanta que quase não se deu conta que tinha arrumado mais um problema. Além de explicar pra sua esposa – que tinha o justo nome de Maria Prudência e era funcionária pública do tribunal de contas da união, o porquê havia largado o trabalho, ainda tinha que arrumar uma boa desculpa pelo curso de gastronomia no qual acabara de se matricular. Era preciso ter calma e pensar numa estratégia segura para não causar um trauma muito grande em Maria. Na volta pra casa, resolveu então, que faria um belo jantar pra esposa e que esperaria o momento certo pra começar o rol de explicações que certamente ela exigiria. Não levou mais do que duas estações para que resolvesse o cardápio da noite. Só precisaria fazer uma parada rápida no meio do caminho para comprar alguns ingredientes. Era só descer na estação Pedro II e caminhar um pouco até o mercado municipal. Nem precisaria fazer baldeação. Comprou coisas para salada, petiscos pra entrada, um pão italiano, batatas e salmão fresco. Quase na estação, lembrou que poderia ter comprado um espumante. Resolveu que iria pegar o trem e descer duas estações depois, na Bresser-Moóca. Conhecia uma adega ótima de vinhos a dois quarteirões da estação. Enquanto esperava na plataforma chegou a conclusão que era um homem de sorte. Podia fazer tudo de metrô. Ir ao trabalho, desistir do trabalho, visitar amigos e até fazer um jantar pra sua esposa. O metrô faz parte da vida de todos, basta escolher a estação.

– Já pensou se essa cidade fosse igual a Paris ou Londres, cheia de linhas de metrô, que beleza que não seria?

– O senhor ta falando comigo?

Perguntou tímida a senhora que estava ao seu lado. Ele, absorto em pensamentos continuou.

– Um dia vou levar a Maria para Paris.

– Ei, moço? Tudo bem?

– Oi nada não. Essa é minha estação.

Com três sacolas plásticas na mão desceu correndo as escadas e ganhou a rua. Na adega escolheu um espumante que a tempos não saboreava. Em casa, a primeira coisa que fez foi colocar a bebida pra gelar. Depois arrumou a mesa e fez o cartão para deixar ao lado do buquê de rosas que comprou numa floricultura que fica ao lado da estação Carrão. Foi para a cozinhar começar o jantar.

Maria, que acima de tudo era uma mulher prudente, achou melhor não questionar o marido logo que chegou em casa. As flores, a mesa posta, o cheiro do seu incenso preferido e o aroma inebriante que vinha da cozinha aqueceram o seu coração. Havia um motivo para aquilo tudo. Um motivo especial certamente. Afinal Miguel não fazia isso a tempos. A vida em casa há muito era uma chata rotina, sem surpresas.

Foi até a cozinha, deu um beijo no marido e foi para o banho. Lá pelas tantas, na mesa, olhando nos olhos vívidos e acesos de Miguel, e com a garrafa do espumante um pouco abaixo da metade, serviu uma taça pra ela e outra pra ele. Feliz e curiosa, achou que era o momento de finalmente entrar no assunto.

– Obrigada. Você sempre arruma um jeito de me surpreender.

Hoje foi um dia cheio de surpresas.

– É…um pouco.

– Antes que você me diga o que aconteceu hoje, porque o senhor vai me explicar tudo, tim tim por tim tim, quero te dizer uma coisa. A última vez que vi teus olhos brilharem assim foi no nosso casamento. Sabe, durante o jantar andei pensando umas coisas aqui. Você bem que poderia ser um chef de cozinha. Que tal você cozinhar pra mim todos os  dias? O que você ganha com seu tio é uma mixaria. Sinto tanta falta dessas coisas, como hoje.

– Fechado. Já saí do escritório. Agora só falta virar cozinheiro profissional.

– Você é impossível mesmo.

Miguel tocou a mão de Maria. Quase tinha esquecido como eram macias. Esticou-se por sobre os pratos e beijou-a. Foi até a geladeira e pegou mais um espumante. Não sabia se a mulher estava falando sério, mas era tudo que queria ouvir. Aquele dia foi perfeito e sabia que os outros não seriam assim. Não queria dizer mais nada, nem era o momento para isso. No dia seguinte, no café da manhã continuariam a conversa. Colocou uma música, diminuiu a luz. Dançaram lentamente. Um pouco tonto, fechou os olhos e viu o mundo girar. O mesmo mundo que o levou de volta a infância, que o lançou pro futuro, que fez de uma terça-feira qualquer uma data importante, única.

– Você está sentindo esse cheiro Miguel?

– Sim.

É dama da noite, disse ela. Ele apertou-a junto ao peito num gesto de concordância. Fosse o que fosse não discordaria dela. Era de fato dama da noite, mas para ele, aquela terça terá sempre cheiro de pão queimado.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

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