Lavar roupa, fazer almoço, pensar na comida do dia seguinte, lavar banheiro, trocar a cama, acordar cedo para preparar o café, deixar tudo em ordem para as aulas online, arrumar a casa o tempo todo, levar na escola e nas atividades extras… Essas e outras tarefas foram incorporadas ao meu cotidiano nos últimos anos. Preciso admitir que não estou dando conta, esqueço umas, atraso outras, erro em várias, levo bronca das filhas. Sigo aprendendo em um processo gratificante. Diminui a vergonha que sinto por ter replicado uma lógica machista no meu relacionamento, no cuidado de minhas duas filhas, na minha vida profissional. É pouco ainda. Sinto uma dívida muito grande, construída ao longo dos anos, baseada em vantagens que eu não pedi mas das quais me benificiei para chegar onde cheguei.

O término do meu casamento durante a pandemia, a própria pandemia e outras situações doloridas recentes geraram muitas reflexões e mudanças no meu comportamento. Tão intenso quanto sentir-me empoderado sobre todo milímetro quadrado da minha casa, com autonomia pra fazer o prato que me der vontade — e agradar uma filha carnívora e outra vegetariana —, é o grau de exaustão que estou sentindo. A louça acumulada, a roupa pendurada no varal que implora pra ser guardada, a câmera do computador que para de  funcionar, a criança com fome, os clientes ansiosos pelos seus projetos finalizados e o doutorado que aparece quando abre uma rara brecha. Parece impossível dar conta. Precisei disso para entender e me sensibilizar com a exaustão das mulheres que assumem a maior parte destas tarefas no cotidiano. É inadmissível esse desequilíbrio. Lamento não ter chegado neste ponto antes. Desculpem-me.

É duro ver um homem dizer que não é machista. Auto-estima delirante! Como pode? É muito cruel se contentar com o discurso —a ideia da igualdade— em detrimento da prática. Quem abre mão dos benefícios quando chega a sua vez? Eu mudei. Eu precisei mudar. Tornei-me um machista em desconstrução. Mais que necessário. Sigo atrelado a esta herança cultural tão forte que moldou e continua moldando a sociedade. Sigo errando. É uma batalha diária na qual preciso me concentrar e colocar energia o tempo todo. Sem arredar o pé, sem esmorecer, sem reclamar. E não é uma atitude temporária. A luta pelo declínio do machismo passa por enxergar em si essa bizarrice, envergonhar-se, abdicar o quanto for possível destes previlégios que o homem possui e retribuir a quem já se doou. Pra sempre, sem data para acabar!

Faço um alerta para os homens, caso você não seja uma mulher maravilha. Vai rolar uma exaustão, vamos sentir falta dos benefícios e vão acumular fracassos. Um problema nosso. Não está fácil e não há outro caminho a seguir.

Renato de Almeida Prado – Belo Urbano. Machista em desconstrução, buscando ser uma pessoa melhor. Pai de duas meninas, é homem, branco e pansexual. Formado em arquitetura, trabalha com espaço digital em museus e exposições.

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