Tínhamos planejado a nossa viagem,  aqui pertinho mesmo, não iamos demorar, afinal de contas ele tem tantos compromissos na segunda. Temos pouco tempo para nós dois, vida corrida, filhos e ainda as suas viagens.

Sexta já estava sonhando com a viagem, já fomos umas duas vezes, nesses seis anos de casamento. Seria a nossa terceira vez de irmos para as montanhas. Quarentena, vontade imensa de sair um pouco de casa, e desse turbilhão. Claro, já apreensiva que talvez algo daria errado, um compromisso de última hora…

Na própria sexta, ele recebe um telefonema, e só escuto: tudo bem, combinado, vamos almoçar e falar de negócios. Bom, ele tinha chegado de viagem depois de 20 dias fora e precisava fazer contatos de trabalho, o mercado não estava dos melhores e sabe como é, ele precisava fazer dinheiro. Desligou o telefone e nem se deu conta que tínhamos combinado a tão sonhada viagem. Perguntei depois de algum tempo, ensaiando antes como eu falaria sobre o ocorrido. Tomei coragem e perguntei: mas e a nossa viagem? Ele respondeu que a tarde de sábado ele estaria livre e iríamos viajar. Pensei… é… ele precisa trabalhar. Logo depois ligou a irmã, pedindo que a ajudasse na obra que ela estava fazendo em sua casa pela parte da manhã de sábado. Meu coração apertou, uma agonia familiar se instalou, um frio na barriga e uma tristeza velada no meu olhar. Me segurei para não chorar, não explodir, não começar tudo de novo. O controle tinha que estar em mim de uma vez por todas. Ele estava do meu lado, não percebeu nada, ainda bem… sentimentos apenas meus.

Depois de algumas horas, não segurei, uma raiva sem controle explodiu e falei, falei, gritei com ódio, e aquela raiva de mim mesmo de não ter falado Não! O sábado já estava perdido e eu me vi assim, desolada, frágil, sem força… perdida em mim. Enfim o sábado passou, não queria saber mais desse dia, acordamos no domingo e demos uma volta de moto, percorremos a Lagoa, fomos ao Rio. Lugar que eu nunca deveria ter saído, sensação de pertencimento finalmente. Foi bom, em paz… esqueci de dizer que ele já tinha marcado no domingo com seu sócio de ver as finanças, mas no meio dessa paz, vinha aqueles pensamentos, ele vai me deixar em pleno domingo, nem me perguntou nada. Mas domingo não é dia de família, de estar em casa, pelo menos é o de praxe, mas nem sei porque me apego a isso, na minha família, meu pai sempre foi ausente, viajava muito e era compulsivo por trabalho, assim como vivo hoje, ao lado de alguém que não tem hora, nem data…

Voltamos do Rio, fomos para casa, cheguei a pedir para ele desmarcar essa reunião, mas ele me disse que era importante que fosse hoje. Nesse momento, uma dor, aquela dor mais que familiar veio no meu corpo, na minha alma. Eu queria muito que eu ficasse bem, tranquila, que ele fosse para o seu compromisso e eu poderia ficar estudando, adiantando algum trabalho, poderia ler um livro, meditar, descansar, ouvir música, ver um filme… não fiz nada disso. Ele me chamou para ir com ele, fui… e ali fiquei esperando, olhando o tempo passar e lá se foram duas horas, cansada, pensando que eu poderia ter feito algo por mim… paralisei total. O que estou fazendo aqui? Nem alívio senti, senti um arrependimento, uma vergonha de não ter tido coragem de fazer por mim. Ele, tão seguro, tão autosuficiente, tão dono da sua vida. Ali fiquei esperando o tempo dele passar…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

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